Visitante Inesperado, Impulsivo e Indesejdo [Mathew]
#1
A decisão de Daniel Vaughn ao se meter num trem que o levaria de Londres até Paris foi tão impulsiva quanto qualquer outra decisão de um adolescente mimado e revoltado decidido a ir contra os pais. Ele nunca podia fazer nada sozinho, sempre tinha um dos funcionários do seu pai no seu pé, porque certamente os pais não tinham muito tempo para lhe dar atenção ou ouvir que precisava de mais do que um celular de última geração e um videogame novo. Não adiantava reclamar muito ou fazer besteiras como roubar cigarros da bolsa da mãe e arrumar detenções numa das escolas mais caras e renomadas de Londres. No fim das contas, ele só fazia aquilo para "chamar atenção" e "envergonhar" a família.

Se era pra chamar atenção e envergonhar a família, o que melhor do que buscar a pessoa que já tinha fama de fazer aquilo pelos Vaughn? O tal tio Benjamin morava numa cidadezinha do interior da França, trabalhando numa academia famosa internacionalmente, e claro que ele tinha descoberto metade daquelas coisas nas pesquisas online e a outra metade de ouvir uma discussão bem calorosa da sua tia com seu pai sobre entrar em contato com Benjamin. Se meter numa viagem sozinho com uma permissão falsificada dos pais para ir ficar supostamente com a tia na França e ir para Cerise foi provavelmente a aventura mais inconsequente que o jovem Daniel, em seus meros 14 anos de idade, tomou.

Ao menos, o que tinha de rebeldia adolescente, tinha de determinação, porque depois das quase três horas no trem para Paris e mais quase três horas para a tal cidade de interior, Cerise, ele entregou o endereço que tinha roubado das mensagens da tia Mary Ann para o seu pai e bateu finalmente na porta do que deveria ser a casa do tio Benjamin. O relógio já marcava mais de 23h e no bairro residencial tranquilo de uma cidade de interior, não tinha muito movimento além dele mesmo descendo de um táxi que pegou na estação de trem.

Com uma mochila nas costas com algumas trocas de roupas, metido num par de calças jeans surrado, um casaco com capuz grande e folgado de marca famosa, as mãos enfiadas nos bolsos com alguns bandaids nos dedos e na cara das confusões recentes que tinha arrumado na escola, ele ainda parou para dar uma boa olhada na porta de entrada da casa do endereço. Ele tocou finalmente a campainha duas vezes até ouvir alguma resposta do outro lado e quando a porta se abriu, para dar lugar a um homem loiro, gordinho, com olheiras ao redor dos olhos claros, um par de óculos torto e os cabelos bagunçados, a primeira coisa que Daniel fez foi contorcer a expressão numa careta de desagrado e decepção. Era aquele o tal tio Benjamin de quem sua tia falava?

- [Você é o Benjamin?] - a pergunta veio em um inglês britânico com o sotaque bem acentuado.
#2
Havia ido dormir tarde após algumas horas aproveitando do período de férias na companhia do então namorado inglês. Sua vida estava caminhando bem enquanto organizava seu horário de férias entre estudar para concorrer à bolsa para a graduação em medicina em Paris e os passeios e passatempos com Benjamin. Estava animado com a perspectiva de poder passar mais tempo na companhia do outro e não se preocupar tanto com seu trabalho no momento, principalmente pelo fato de estar cogitando a possibilidade de pedir o inglês em casamento em breve.

Foi então que a campanhia começou a tocar no final da noite, fazendo com que fosse acordado pelo pedido de Benjamin para que fosse atender à porta. Arrumou os óculos no rosto no automático, descendo as escadas após colocar uma camisa branca para não atender a porta só de calça. Resolveu olhar antes pelo olho mágico para verificar quem era naquela hora da noite, mas estranhou a figura jovem e estranhamente familiar antes de abrir a porta e finalmente se dar conta de que era apenas um rapaz, de uma aparência bonita estranhamente familiar.

- Huh? - piscou algumas vezes com a pergunta, ainda com o rapaz mencionando o nome de Benjamin. - Não. Eu sou o namorado dele. - respondeu sem muito rodeio, coçando a nuca antes de dar espaço para que o rapaz entrasse. - Você é aluno dele? Está meio tarde para você estar fora de St. Clavier, não é? - observou melhor o menino. - Não me lembro de você. É aluno novo? - resolveu perguntar, dando espaço para o jovem, imaginando que era mais preocupante um rapaz feito ele no meio da rua.
#3
A expressão de Daniel não melhorou muito depois de dar uma longa olhada na pessoa que tinha lhe atendido. Sua tia Mary Ann insistia em como o tal tio Benjamin era bonito e inteligente, e o homem de cara cansada de quem tinha acabado de acordar de uma tentativa de descanso não encaixava bem na imagem que ele tinha formado do tio. Mas depois de processar a sua pergunta, ele respondeu muito diretamente que era namorado de Benjamin.

Agora, Daniel não fazia ideia do motivo dele e seu pai não se falarem há tanto tempo, nem porque ultimamente a tia Mary Ann estava insistindo tanto naquela tecla, mas era difícil de acreditar que o gordinho que tinha atendido a porta era namorado do seu tio tanto quanto comprar aquela de que ele era gay. Será que era por isso que eles tinham brigado? De todo modo, ninguém lhe dizia nada porque ainda era uma "criança", e ele não ia acreditar nas palavras do estranho assim tão fácil também. A sua reação imediata foi cruzar os braços diante do corpo e ignorar a pergunta dele.

- [Você é namorado dele?] - Daniel lançou um olhar analítico dos pés à cabeça do homem à porta. Se era pra começar mentindo, ele sabia fazer aquilo muito bem. - [Eu sou filho dele. Onde ele está?]
#4
Piscou novamente, tentando entender se havia entendido com clareza quando aquela criança disse que era filho de seu namorado. Não se recordava de Benjamin ter comentado sobre algum dia ter tido algum relacionamento com uma mulher, pois até onde sabia ele sempre havia sido apaixonado pelo irmão mais velho quando era jovem. Apenas suspirou conformado com aquela conversa fiada do adolescente bonito.

- Benjamin não tem filho, garoto. - respondeu, segurando um bocejo até os olhos lacrimejarem em uma careta preguiçosa. - A gente tava dormindo até você tocar a campainha.

Olhou por sobre a cabeça do garoto, procurando por algum responsável que talvez estivesse usando ele para lhe pregar uma pegadinha. Ou verificar se havia algum carro ainda aguardando pelo rapaz para que fosse embora.

- Entra aí. - disse para o rapaz, deixando a porta aberta para que ele entrasse finalmente enquanto se afastava para as escadas. - Eu vou chamar pelo seu "pai". - riu enquanto se afastava, achando no mínimo estranho a familiaridade das feições do mais novo com as do inglês.

Apressou-se a subir as escadas para também ter acesso ao próprio celular, caso precisasse rapidamente ligar para a polícia. Mas antes, resolveu pedir a ajuda de Benjamin para solucionar aquele enigma, porque o rapaz era muito, muito parecido com o namorado. Respirou fundo, tentando afastar a própria insegurança diante da possibilidade do garoto ser mesmo filho do namorado.

- Benjamin. - chamou pelo loiro, segurando-o pelo pé que era a parte mais sensível dele de qualquer modo. Afastou os cobertores, convidando-o para se levantar. - É o seu filho lá na porta. Um garoto chegou, perguntando de você. Vamos. - fez cócegas de propósito na sola do pé do loiro, levemente inquieto pela ideia dele ter lhe escondido algum romance com uma mulher no passado.
#5
Daniel torceu o nariz quando o gordinho respondeu com segurança que Benjamin não tinha um filho, o que era verdade - ou devia ser verdade, já que ele não fazia ideia do que se passava na vida do tio. Descruzou os braços e enfiou as mãos nos bolsos quando ele lhe chamou pra entrar, depois de dar uma boa olhada ao redor, ainda ironizando o fato de que tinha chamado o tio de "pai".

- [Não tem namorado também, se for por isso.] - o garoto respondeu, no tom abusado, entrando na casa para dar uma boa olhada ao redor.

O homem que atendeu à porta a fechou atrás de si e voltou andando pelo corredor para subir um lance de escadas. Só quando Daniel viu a porta se fechando foi que sentiu um calafrio desconfortável passando pelas costas, afinal, ele tinha entrado bem voluntariamente na casa do estranho, e mesmo que ele parecesse um gordinho inofensivo, geralmente nos filmes eles eram psicopatas de verdade. O rapaz engoliu em seco, dando uma olhada desconfiada ao redor, mas parecia uma casa bem ordinária e com um par de luzes acesas, ele eventualmente colocou o olhar num porta-retratos com o gordinho e um outro homem loiro de olhos verdes muito bonito. Agora, aquele sim era o tio Benjamin de quem tinha ouvido falar e visto só fotos bem antigas.

Enquanto o garoto se distraía com a decoração da casa e buscava mais informações de quem morava ali, Benjamin foi obrigado a se virar na cama quando Mathew voltou ao quarto, lhe chamando e quase lhe puxando o pé. Um calafrio desagradável passou pelo corpo do inglês que só se virou na cama para continuar dormindo, mas a sensação de desagrado foi reforçada quando Mathew avisou que "seu filho estava na porta".

- O quê? - Benjamin levantou o rosto, a expressão sonolenta tomada por confusão. - Você está bêbado, Mat? Bateu com a cabeça quando levantou? - ele voltou a se deitar, puxando os pés para debaixo da coberta e a coberta por cima dos ombros. - Volte pra cama pra dormir...
#6
Ignorou a irritabilidade do jovem que parecia com Benjamin para ir buscar o namorado. Contudo, com a resposta de Benjamin, acabou suspirando conformado e com pena de insistir para que ele acordasse de vez para ir resolver o problema com o adolescente. Pensou por alguns instantes, imaginando que o rapaz parecia estar viajando dado à bagagem que ele estava carregando. O mais novo também falava inglês muito bem, então ele deveria esperar falar com Benjamin e sabia que o inglês era fluente na língua. Levantou-se da cama, devolvendo o cobertor para o namorado, acomodando-o melhor na cama antes de sair dali, fechando a porta para descer as escadas novamente.

- (Benjamin tá muito cansado. E ele é meio preguiçoso para acordar depois que pega no sono.) - deu de ombros, percebendo que o rapaz estava observando os quadros da casa. - (Meu nome é Mathew. Mathew Morrisson.) - acenou para a direção da cozinha. - (Você parece que tá viajando. Tá com fome?) - resolveu perguntar, sendo amistoso por se tratar de um jovem adolescente e não de um homem adulto.

Ainda estava com o celular em mãos, então imaginou que, no caso de uma emergência, poderia muito bem chamar a polícia. Caminhou para a cozinha, esperando que o mais novo lhe seguisse. Abriu o armário e a geladeira, tirando alguns pães da Antique que havia comprado para o café da manhã, uma caixa de suco de laranja, uma caixa de leite, queijo, patê.

- (Qual seu nome? Por que tá procurando o Benjamin? Você é bem parecido com ele.) - perguntou, arrumando o par de óculos antes de se servir de um copo com água.
#7
Daniel ainda deu uma volta na sala de estar, observando algumas fotos de casal com o tal gordinho que tinha lhe atendido. Com certeza o outro homem na foto era seu tio Benjamin, era até absurdo como eles dois se pareciam, já que ele não parecia muito com o próprio pai. Aquilo era até conveniente naquela situação para reforçar a mentira que já tinha contado. Ainda tinha mais fotos espalhadas pela casa mostrando outras pessoas que Daniel assumiu serem da família do homem que atendeu à porta. Bom, pelo menos não parecia uma casa de um psicopata, e se seu tio também não fosse um assassino perigoso, não precisava se preocupar muito.

Já tinha chegado perto de uma estante da TV e perto das escadas para o primeiro andar quando o gordinho desceu sozinho. Ele franziu o cenho em confusão de novo quando o outro anunciou que seu tio estava cansado e não queria acordar. Depois da apresentação, ele ainda perguntou se estava com fome e começou a andar na direção de onde Daniel tinha vindo, perguntando-lhe o nome. Daniel deu uma boa olhada no tal Mathew que tinha passado do portal da cozinha e no topo das escadas, mal iluminado. Ele só podia ser muito burro ou estar com muito sono pra passar direto e lhe deixar ali sozinho no meio da sala.

- [Eu não quero falar com você, eu quero falar com o meu pai, ele tá dormindo lá em cima? Eu acordo ele.] - sem nem esperar que o outro processasse a sua informação, ele subiu as escadas correndo de dois em dois degraus, para entrar no corredor do primeiro andar e começar a abrir as portas sem muita delicadeza. Por sorte, a terceira porta que abriu com um baque surdo revelou um quarto maior com uma cama de casal em que uma pessoa tinha acabado de levantar provavelmente no susto do barulho.

Benjamin nem assimilou direito a informação de Mathew e já estava voltando a adormecer quando o sono foi interrompido pelo abrir e fechar de portas. Ele se revirou na cama, mas quando a porta do seu quarto abriu com mais barulho, ele quase pulou na cama de susto. E não bastasse o susto da porta se abrindo, ele mal teve tempo de reclamar com Mathew pelo barulho.

- Mat, o que é-

- [PAI!] - a voz inédita em inglês veio acompanhada de uma pessoa pequena que se jogou sobre as pernas de Benjamin, envolvendo-o com os braços e fazendo com que o loiro arregalasse os olhos e erguesse os braços completamente atordoado. - [Eu tava com tanta saudade! Por que é que o senhor me deixou pra ficar com esse gordinho?!]
#8
Costumava ter mais paciência com crianças, mas havia esquecido que aquele garoto era um adolescente e que como tal deveria ter problemas de comportamento e de educação doméstica. Arregalou os olhos quando ele pareceu correr pelas escadas e prontamente deixou a cozinha para correr atrás do rapaz.

- (Garoto! Espera aí!) - chamou por ele, mas o menino era rápido.

Parou no portal do quarto a tempo de assistir o menor se jogando no colo de Benjamin, chamando-o de "pai" e ainda lhe chamando de "gordinho". Observou se Benjamin estava bem, mas ele parecia assustado com aquela situação, então adentrou no quarto, adiantando-se a puxar o garoto pela mochila para que ele largasse o inglês.

- (Você tá maluco, garoto?! Quer que eu chame a polícia?!)- brigou com o menor, afastando-o de Benjamin para que pelo menos o inglês pudesse se recompor. Olhou para o namorado, com pena por ele ter sido acordado daquela maneira. - (Ele apareceu na porta, disse que é seu "filho", mas não me disse nem o nome dele. Você conhece ele, Benjamin? )- resolveu perguntar, mantendo a voz mais calma ao falar com o namorado.
#9
Benjamin estava sem reação. Ele sentiu o corpo todo estremecer num calafrio bem desagradável com o garoto agarrado em sua cintura lhe chamando de pai, e a situação foi tão inesperada e inusitada que ele nem conseguiu mover os braços, ambos erguidos no ar como se tivessem apontado uma arma pra ele. A dor de cabeça veio de uma vez, e ele não sabia nem o que pensar, nem como reagir. Foi Mathew que apareceu apressado no quarto, para puxar o garoto estranho pela mochila, que ainda resistiu bravamente em largar Benjamin, antes de soltá-lo e ficar de pé a uns dois passos de distância. Ainda assim, olhando do garoto para Mathew, que falavam em inglês, Benjamin ainda demorou muitos segundos para entender o que estava acontecendo e se aquilo era só um sonho. Um sonho com um garoto estranhamente familiar.

- [Você que é doido! Eu disse que queria falar com o meu pai, eu não falo com estranhos, gordinho!] - o menino fez um gesto rápido com os ombros para puxar a pulsa de volta que o outro segurava, cruzando os braços de um jeito abusado. - [Hunf! Você é surdo, ô?! Como é que não vai me conhecer?! E meu nome é Daniel. Daniel Vaughn!]

Benjamin ainda não fazia o menor sentido do que estava acontecendo ali, mas quando ouviu o tom abusado e a resposta do adolescente se apresentando como Daniel Vaughn, ele sentiu como se todo o sangue tivesse se esvaído do corpo. Abaixou os braços, porque era como se tivesse perdido as forças e o rosto de tez já clara, ficou ainda mais pálido, quase em terror.

- [Daniel...? Você é... Daniel?] - a voz do inglês vacilou. Aquilo só podia ser algum tipo de sonho muito, muito perturbador. Ele levou uma mão ao rosto e esfregou os olhos.

- [Viu?! Ele é o meu pai, seu trouxa!]

- [Pai...?] - Benjamin piscou algumas vezes, ainda atordoado, e entre assimilar a mentira do garoto e ligar a palavra "pai" ao verdadeiro pai de Daniel, ele arregalou ainda mais os olhos. - [Eu não sou o seu pai! O que está acontecendo aqui? Você... como você me achou? Por que está dizendo que é meu filho?! Mat, ele não é meu filho! Ele é filho do Andrew!] - ele adicionou para o namorado, exasperado que aquilo pudesse realmente ter causado algum mal-entendido.

- [Humf, é mais fácil acreditar que você é meu pai. Pareço mais com você do que com o Andrew.] - o menino adicionou.
#10
Não soltou a mochila do garoto, ignorando as respostas malcriadas dele no meio daquela situação absurda. Contudo, estranhou a reação de Benjamin, aparentemente mais surpreso ainda assim que o rapaz finalmente se identificou como "Daniel Vaughn". Arqueou uma sobrancelha com a explicação de Benjamin, enquanto o garoto finalmente se soltava e respondia de forma grosseira mais uma vez.

- [Filho do... seu irmão?] - repetiu como se fosse difícil de acreditar que o garoto estava mesmo ali, um adolescente. Não entendia o que diabos o filho do irmão mais velho do namorado havia ido fazer ali. Sabia como era complicado para Benjamin lembrar de qualquer coisa relacionado ao irmão mais velho. Já havia sido um feito reaproximá-lo da irmã.

Franziu o cenho, colocando a mão sobre o ombro do adolescente, indicando para que saíssem do quarto.

- [Daniel, vamos dar um segundo pro seu tio acordar e vir conversar com você na sala.] - pousou a mão nas costas do adolescente, trazendo-o consigo para que saíssem do quarto e pudesse fechar a porta. Olhou para trás brevemente, sinalizando para que Benjamin tomasse seu tempo enquanto lidava com o adolescente.

Esperou fechar a porta para encarar o mais novo, arrumando os óculos antes de apontar para o outro.

- [Daniel, não é? O que é que você tem na cabeça, garoto? Não se entra na casa dos outros a essa hora da noite para ficar abrindo e fechando as portas! Isso aqui não é Scoobydoo não, rapaz!] - repreendeu o mais novo, esperando que pelo menos ele parecesse um pouco arrependido.
#11
Benjamin não conseguia sequer acreditar nas palavras do garoto quando disse que era mais fácil acreditar que ele era o pai. Entre ser acordado com um garoto se jogando na sua cama lhe chamando de pai e entender que o tal garoto era filho do irmão que lhe odiava, estava muito difícil assimilar a situação no geral. A sua expressão de terror só foi amenizada com a intervenção de Mathew, que depois de também processar que o rapaz era filho de Andrew, praticamente o obrigou a sair do quarto.

- [Ele já tá acordado, ô! Que é que você quer comigo, gordinho?!] - Daniel se desvencilhou da mão de Mathew, mas o acompanhou para fora do quarto, sob o olhar ainda duvidoso e atordoado de Benjamin.

Só quando os dois tinham saído do quarto foi que alguns segundos se passaram para que Benjamin entendesse um pouco mais da situação. Se Daniel estava ali, seria possível que Andrew também estivesse na França? Acima de tudo, será que ele estaria em Cerise? A primeira coisa que o inglês fez, no momento de desespero, foi buscar o celular no criado-mudo, quase deixando-o cair antes de checar se havia alguma mensagem ameaçadora ou ligação perdida, ou qualquer sinal de que Andrew tivesse tentado lhe atormentar. Mas não havia absolutamente nada, o que fez com que o inglês soltasse um longo suspiro de alívio. Depois de uns longos instantes, ele resolveu finalmente se levantar, para ir ao banheiro e lavar o rosto antes de descer e se juntar à dupla inusitada que era Mathew e o seu sobrinho que nunca nem tinha visto pessoalmente.

Daniel desceu as escadas de dois em dois degraus de novo, respondendo um "tch" para a repreensão de Mathew sobre não entrar na casa dos outros daquele jeito.

- [Você que não foi chamar o meu tio quando eu disse, então eu mesmo fui, ué.] - ele terminou de pular os últimos degraus e andou na direção da cozinha. Tirou a mochila das costas e colocou no pé de uma das cadeiras à mesa, para vasculhar os armários e ver o que mais tinha para comer além dos pães suco e queijo que o outro tinha separado. - [É só isso que tem pra comer? Não tem um hambúrguer? Refrigerante? Energético? Nada?] - ele seguiu vasculhando a geladeira, tirando as coisas do caminho para tentar encontrar algo diferente.
#12
- (Garoto, você não consegue descer as escadas direito, não? Vai se machucar se cair daí!) - continuou repreendendo o menor, seguindo-o para a cozinha e massageando as têmporas, já pensando o quanto de seu sono estava perdendo com o rapaz.

Franziu o cenho ao observá-lo colocar a mochila no pé na cadeira e começar a vasculhar os armários da cozinha. Adiantou-se, fechando o armário que ele estava abrindo antes de afasta-lo para a cadeira a fim de que o garoto se sentasse.

- (Você vai tomar energético quase de madrugada pra quê, garoto? Você já parece estar cheio de energia!) - apontou para a mesa. - (Vai comer o que tem e nada com muito açúcar!) - respirou fundo, afastando-se para poder preparar um lanche para ele. - (Seu pai é o Andrew, não é? Ele sabe que você está aqui, por acaso?)

Resolveu perguntar finalmente ao garoto. Na verdade, sua vontade era de telefonar para Mary Ann e saber o que diabos o garoto estava fazendo ali naquela hora da madrugada, mas tinha pena do sono alheio e achava melhor fazer aquele telefonema pela manhã ao invés de incomodar a irmã mais nova de Benjamin. Também não queria que Benjamin se sentisse pressionado a lidar com o irmão, então julgou que era responsabilidade sua cuidar do garoto claramente inconsequente.


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