[Drive] Conselho Amigo [Diodoro; Natalia]
#1
Diodoro

Diodoro estava em certo marasmo nos últimos dias. Isso se devia principalmente a falta de visitantes na funerária. Não que estivesse mal acostumado a ponto de querer que as pessoas fossem até lá lhe ver, mas o último mês tinha sido movimentado: fosse Hanna, ou Karen, ou mesmo Natalia, tinha sempre um rosto diferente que poderia ver, mesmo que eles nunca estivessem lá por ele, e sim, pelo local de conforto na funerária. Bom, ao menos os dois visitantes da madrugada. Natalia ao menos tinha a decência de ser uma amiga normal.

Se despediu de Brigida aquele dia um pouco mais cedo, pois ela foi buscar os filhos em um passeio da escola. Miro tinha ficado no apartamento por aquele dia, pois o gato estava muito mal acostumado a passear no cemitério até o fim da noite, o que dificultava que o encontrasse antes da hora de sair. Bem queria que ele caçasse toupeiras, mas esse não parecia o foco principal do felino, interessado em explorar. Ligou o computador para catar milho digitando no teclado, procurando um veterinário, pois deveria pensar em castrá-lo em breve, e precisava conversar com um especialista para saber se isso era uma boa opção.

Encheu uma xícara de café enquanto lia algumas coisas sobre criar felinos, fazendo anotações sérias sobre o que deveria fazer na sua lista de “o que fazer”, antes de prender com um post-it em seu quadro pessoal que ficava em uma das gavetas da mesa do espaço de atendimento. Em geral, não era impaciente, porque estava acostumado ao marasmo, mas se pegou desejando que alguma coisa acontecesse, ou que alguém viesse. Pensando bem, onde andava o ex-padre Giulio?

O sinal de alguém à porta lhe deixou mais satisfeito consigo mesmo.

Natalia

Algo estava lhe incomodando desde a visita a casa dos Leoni. Sua rotina continuou a seguir como de costume: sem organização prévia e dependendo de diversos plantões. Mal parava em seu apartamento, pois havia resolvido se ocupar com mais trabalho no hospital, cobrindo um turno aqui e ali e outro funcionário a ponto de seu chefe desistir finalmente de lhe chamar a atenção sobre a sobrecarga de horas. Estava habituada a uma cenário muito mais caótico que aquele e o hospital era campeão em receber velhos e pessoas com problemas respiratórios ou cardíacos que fugiam da realidade histérica das capitais ou metrópoles para uma vida mais tranquila como o que se esperava daquela cidadezinha de interior.

Diodoro Leoni refletia muito bem a cidade na qual vivia. Ele parecia ser algo que definitivamente não era. A priori, devido a aparência e ao jeito mais quieto do sujeito, desconfiara que ele realmente possuía algum envolvimento com o tipo de gente que atendia em suas “folgas”, mas ele era só um homem reservado, calado e com uma família que gostava de falar mais alto que ele. Mas como um homem como ele conhecia e supostamente era amigo de um sujeito como o tal assassino que já havia tido o susto de topar mais de uma vez enquanto passeava pela cidade? E por que ele havia lhe apresentado como se fosse uma amiga? Ele estava apenas tentando salvar a sua pele e evitar se envolver em seu desaparecimento devido ao gigante baleado?

Bateu a porta da caminhonete ao sair, parando na rua da funerária Leoni, e recostou a testa com a estrutura do vidro da janela do veículo, cansada. Já estava ali mesmo e queria tirar aquela história a limpo. Havia pensado demais na situação do suposto “amigo” nos últimos dias e começara a ficar receosa de que toda aquela preocupação fosse acabar atrapalhando seus negócios. Arrumou os fios que escapavam de seu coque de trabalho e o decote da camisa branca de mangas compridas que usava por dentro da calça preta, mais justa. Caminhou com o salto não tão alto pelo atendimento no consultório do hospital para a porta da entrada, aproximando-se do vidro para estreitar o olhar, tentando encontrar alguém ali dentro antes de forçar o puxador, adentrando no recinto.

- Alguém em casa?! - chamou, esperando encontrar talvez a irmã atraente de Diodoro ali também. Permaneceu próxima da entrada, quem sabe quando acabaria topando com outro assassino por ali, não é mesmo? Para seu alívio, quem apareceu foi justamente quem precisava encontrar, mas não sabia dizer se isso lhe trazia um sentimento de alívio ou de ansiedade. - H-Hey! Diodoro! Tudo bem? Atrapalhei seu serviço? Tem um tempo livre? A gente pode conversar? - acabou perguntando no atropelo, esquecendo-se por um instante que ele não era do tipo rápido com as respostas, o que acabou lhe obrigando a respirar fundo novamente, esboçando um novo sorriso, fabricado. - Desculpe. Tudo bem com você?


Diodoro

A pessoa que entrou na funerária não foi ninguém além de Natália. Estava até feliz que era ela, se é que podia se considerar feliz em alguma vez na sua vida. Contente? Era uma palavra mais adequada. De todo modo, era uma pessoa conhecida e apesar de Natália ir até a funerária apenas para lhe incomodar na maioria das vezes, o ruído do salto dela lhe fazia pensar que era até agradável que tivesse companhia.

Levantou-se para virar a cadeira dos clientes para ela sentar, então retomando seu lugar no balcão como se fosse atender alguém, muito embora estivesse ali apenas pelo hábito do trabalho. Colocou as mãos em cima da mesa, os dedos enluvados entrelaçados, esperando que ela lhe dissesse para o que veio. Porque ninguém lhe prestava visitas em seu trabalho apenas por prestar visitas. Geralmente eles precisavam de alguma coisa.

A médica chegou já parecendo ter alguma necessidade, pois disparou uma série de perguntas em sua direção, lhe fazendo arquear a sobrancelha de leve. Não entendia exatamente o que ela queria, mas pelo visto estava deixando a mulher inquieta. Será que queria conversar, conversar, como alguém que precisava auxílio com problemas? Talvez fosse o caso.

- Hmm... – foi a resposta tardia para o “tudo bem com você?. Diodoro em seguida levantou-se para pegar um pouco de água quente, e então colocou um pacotinho de chá no copinho descartável, servindo Natalia. – E você? Não parece... bem.

Natalia

Aproximou-se do assento oferecido de bom grado, deixando sua bolsa sobre a mesa e acomodando-se ao ambiente ao notar a posição esquisita do agente fúnebre. Arqueou uma sobrancelha como se fosse voltar a perguntar se ele estava bem. Era por conta daquelas poses do moreno que ele deveria ser confundido com o tipo de gente perigosa que ela costumava encontrar. Já ia abrir a boca perguntando o que ele estava fazendo quando ouviu sua resposta chegando em tom de ruído.

- É isso? Vai me responder só “hmmm”? - ergueu as mãos, indignada com aquela resposta sem contexto quando notou o moreno preocupado em lhe trazer o cházinho no copo descartável. - Ah… - fez uma pausa, aceitando o chá oferecido. - Obrigada.

Baixou o olhar para a bebida, erguendo o saquinho de chá pela cordinha com a mão livre, notando o conteúdo do mesmo manchar a água quente com a essência do chá. Ergueu o olhar ao ser questionada sobre seu bem estar e logo em seguida voltou o olhar para o chá, apreciando o valor que emanava para suas mãos. Desviou o olhar, sorrindo com o canto dos lábios, sarcástica. Era assim tão óbvio que não estava bem?

- É… só… - apoiou os cotovelos na mesa, deixando o copo com chá a sua frente enquanto a cor da água quente não se tornava completamente escura. - Tem um assunto que está me incomodando. - começou, batendo a ponta da unha do indicador na mesa, perto do copo com chá. Talvez pudesse ser algo apenas na sua cabeça, talvez fosse algo insignificante para Diodoro Leoni. Ele tinha uma família enorme que gostava dele, do jeito torto deles, mas gostavam. Pressionou os lábios como se procurasse a melhor maneira de colocar aquilo em palavras, mas seu antigo psiquiatra bem sabia que não era o ser humano mais articulado quando se tratava daquele tipo de assunto. E bem gostaria não se sentir tão incomodada por aquelas suas próprias suposições. - Ahh… senta um pouco, vai.

Esperou que ele se acomodasse a sua altura para encará-lo, cruzando os braços sobre a mesa, reclinando-se para falar um pouco mais baixo, tentando ser discreta. Não fazia ideia se ele de fato estava sozinho ali ou se talvez o gigante assassino estivesse de escuta funerária a dentro.

- Diodoro. Quando você disse daquela vez que eu era sua amiga, você estava falando sério? Eu sou mesmo sua amiga? - tentou ser direta, desejando ouvir as palavras sinceras do moreno na resposta. A ideia que ele tinha aquela visão sobre si lhe causava perturbação. Não se recordava direito da última vez que havia conseguido fazer um amigo. A maioria dos casos eram associados ao seu trabalho problemático, mas sempre pelo lado contratual e nunca por mera ocorrência de encontros.


Diodoro

Diodoro não estava acostumado com as pessoas lhe perguntando mais além do que geralmente falava. Seus irmãos assumiam muitas coisas sobre seu estado, as pessoas que conhecia não colocavam o dedo em sua vida. Até pensou em responder Natalia a mais, mas ela parecia precisar muito mais de um ouvido que de uma conversa. Isso, ao menos, sabia ser.

Ela parecia muito incomodada com algo, e não era nenhum gênio dos sentimentos. Sabia o suficiente só por vê-la, e conhecer a figura de pessoas preocupadas e tensas toda vez que chegava em seu trabalho e tinha que questionar sobre caixões, terrenos no cemitério, trocar de roupa, flores, etc. Não sabia muito de vivacidade, mas certamente entendia o que era a parte negativa dos sentimentos. Sentou-se por supunha que isso acalmaria um pouco mais Natalia. Será que alguém que ela conhecia tinha morrido?

Só que o que ela lhe perguntou fez prontamente com que franzisse a testa. Era isso que estava incomodando Natalia?
- Sim...? – respondeu com dúvida, talvez por não entender inteiramente o que ela queria dizer com isso. Então observou a mulher por longos instantes, pensando em perguntar se na verdade ela tinha interesse a mais além de ser uma amiga. Porém não disse nada, porque isso não seria possível. E porque isso incomodava tanto Natalia quando ela era uma pessoa que aparecia ali só para lhe pertubar? Será que estava perguntando isso porque queria algum tipo de favor? Ou porque ficou muito muito incomodada de ouvir que tinham proximidade, ou melhor, por Diodoro declarar que tinham quando não tinham. – Ah... desculpe... se... lhe considero... amiga...

Só podia ser isso. Ela não queria ser associada com ele. Era apenas um agente funerário e ex-paciente dela. Isso deveria estar incomodando muito a mulher.

Natalia

Podia afirmar com certeza que estava mais preparada para o homem no caso dele meramente lhe questionar de onde havia tirado aquela ideia de amizade. Ainda mais quando notou o franzir do cenho do agente fúnebre. Respirou mais aliviada com a ideia de que ele não lhe considerava daquela maneira, mas logo em seguida se sentiu atingida pela ideia de que estava errada. Arqueou as sobrancelhas, sem entender o tom de pergunta dele e pela sinceridade que ele carregava nas palavras.

- Desculpe? Quem é que pede desculpas depois de dizer que considera alguém sua amiga? Por que eu não gostaria de ser sua amiga? Ou melhor, por que você quer ser meu amigo? A maioria das pessoas que eu considero interessantes não me chamariam de “amiga”. Talvez “conhecida” ou “amigável”, mas eu não imaginava que--

Fez uma nova pausa, passando os dedos de ambas as mãos pelo copo plástico com chá, baixando o olhar para a bebida antes de voltar a observar o agente fúnebre, menos inquieta. Era complicado em sua cabeça imaginar que alguém poderia de fato lhe visualizar como uma “amiga” ao invés de um mero “contato”. Contudo, também não podia esconder de si mesma que gostava daquela sensação diante da declaração mais sincera do homem que lhe divertia provocar.

- Eu pensei que havia dito que eu era sua amiga para evitar que aquele cara me machucasse. - admitiu, sorrindo dessa vez, atenta a ideia que ele não estava mentindo sobre lhe considerar daquela maneira. - Eu fiquei feliz, mas não queria dizer nada naquela hora porque havia coisa mais importante para ser feita. - revelou, recostando-se melhor a cadeira para poder observar Diododo cara a cara. - Obrigada por dizer que sou sua amiga. Não achei que estivesse falando sério. - sorriu, ciente que aquele também era um caminho sem volta para si mesmo. Tomou o chá morno de uma única vez, buscando fôlego para tentar colocar à mesa o que ainda estava lhe incomodando.


Diodoro

Primeiramente pensou que ela tinha ficado ofendida porque seu pedido de desculpas não era o suficiente para cobrir pelo fato de que tinha considerado a mulher sua amiga, especialmente sendo Diodoro tão... Diodoro. Porém, em seguida, ela que pareceu levemente chateada porque ele a considerava uma amiga e ela não se achava digna o suficiente disso. Acabou se sentindo um pouco frustrado, porque afinal, ela deveria ter vários outros amigos com aquela disposição agradável e sociável dela, enquanto ele era o tipo extremamente fechado que conseguia se relacionar com pouquíssimas pessoas.

- Meu amigo... ninguém iria querer...! – respondeu num tom levemente insultado, como se fosse óbvio que era mais fácil ele considerá-la uma amiga do que a via de mão dupla. Então começou a processar o fato de que ela tinha dito, de modo indireto, que ele era interessante, o que para Diodoro certamente não passava nem perto, nem que quisesse. – Interessante...? – a expressão rasa do moreno agora estava certamente franzida em estranhamento.

Então aos poucos ela foi se acalmando, como se fosse absorvendo o fato de que tinha de aceitar ser sua amiga, inevitavelmente, até porque Diodoro não tinha pretensão de voltar atrás no que tinha dito. Por mais que ela fosse lá lhe provocar quase todas as vezes, ela se preocupava com suas condições e com sua família, e isso, para ele, era muito importante, no que dizia ser próximo de alguém. Entortou de leve os lábios e então, quando Natalia lhe agradeceu por ser sua amiga, foi tomado de uma leve vergonha pela conversa RIDÍCULA que tinham acabado de passar, como duas crianças, tentando atestar quem era mais amigo de quem.

- Ele não... faria... – replicou sobre o fato dela achar que o outro sujeito a machucaria, apenas porque tinha se tornado hábito seu defendê-lo, apesar de saber que era um mal sujeito. Mas isso não lhe deu tempo de evitar toda aquela bagunça emocional. Supunha que sendo um adulto não precisava por pingos nos “i”s sobre cada nuance de seus relacionamentos interpessoais. Mas pelo visto alguns precisavam ser explícitos. Respirou fundo de uma vez e então abaixou a cabeça, escondendo parcialmente o rosto com a mão para omitir a vergonha alheia que era a aparente amizade dos dois, e estava mais vermelho do que queria. – Eu... que agradeço... hm.

Natalia

Negou com a cabeça quando ele agradeceu. Discordava que ele continuaria agradecido por aquela amizade por muito tempo. Ao menos havia tido o prazer de saber que era considerada como “amiga” por alguém por quem tinha respeito. Apesar de Diodoro ser um tipo peculiar que também confundiria com facilidade com um tipo perigoso, ele era bastante atencioso e preocupado com as pessoas ao seu redor, talvez mais do que com si mesmo. E era justamente esse aspecto da realidade alheia que lhe causava inquietação.

- Claro que é uma pessoa interessante. Qualquer um que não o conheça, ao olhar para você, pensará que é um sujeito perigoso que ganhou a cicatriz de algum matador em uma briga de bar… - fez uma breve pausa, revisando as próprias palavras na mente para dar de olhos, rindo. - Bem, nem tudo nessa sentença está equivocado, não é mesmo? - e acabou rindo, mais de nervosa que por diversão. - Mas a verdade é que você é um homem honesto e bonzinho. Bonzinho até demais!

Bateu com a palma da mão sobre a mesa, cruzando os braços em seguida, apoiando o próprio busto nestes. Ergueu o olhar por ainda estar sentada para o moreno que lhe fazia companhia, tentando parecer irritada quando na verdade sabia que no final das contas o sujeito não tinha culpa alguma do que estava acontecendo ao seu redor. Suspirou conformada diante da vergonha que causava no agente fúnebre. No fundo, só se sentia frustrada por ter um “amigo” e não conseguir evitar uma preocupação que sabia no futuro ser capaz de lhe criar mais problemas.

- Diodoro. - chamou pelo homem, descruzando os braços para poder se erguer, arrumando a alça da bolsa no próprio ombro. Aproximou-se o bastante para poder estender a mão, tocando-o no ombro, firme. - Já que sou sua amiga, precisamos conversar. Precisamos conversar em um lugar privado, onde não vamos ser interrompidos. - destacou, ciente que na funerária a irmã do sujeito poderia surgir a qualquer momento e não queria expôr a mulher a qualquer tipo de informação que poderia colocá-la em risco também. - Onde é mais confortável para você? - perguntou, soltando-o para manter a distância e o espaço pessoal do outro, tentando se menos invasiva que de costume para não o deixar desconfortável. Sabia que muito o que estava lhe incomodando poderia deixá-lo inquieto.


Diodoro

Não entendia porque Natalia ainda não lhe deixava agradecer quando na verdade se sentia naquela obrigação, afinal, a mulher lhe apreciava como amigo. Respirou fundo, então conseguindo tirar a mão da frente do rosto, ouvindo toda a conversa dela sobre porque ele era um sujeito interessante, e a piada que teria feito qualquer um ficar bravo ou olhar atravessado sobre a origem de sua cicatriz. Diodoro olhou para Natalia quando ouviu a parte sobre o assassino de aluguel na mesa de bar, mas ao invés de franzir a testa, aquile tom divertido mesmo tão perto da realidade, ou melhor, fazendo piada com a mesma, lhe fez abrir um sorriso por um instante, que desfez em poucos segundos. Admitia, gostava daquele senso de humor mórbido.

Só não entendia inteiramente porque do nada ela tinha ficado brava com o fato de ser bonzinho. Um bonzinho que nem considerava nada demais, porque era mais de dever cristão que outra coisa, mas “bonzinho”.

Ergueu o olhar para ela quando ela lhe chamou pelo nome mais uma vez, agora parecendo incomodada com algo, o suficiente para se aproximar e tocar em seu ombro, de um modo bem formal para o usual de Natalia. Estranhou ainda mais que ela se afastou logo em seguida ao invés de lhe lançar provocações com seu incômodo. Algo ali não estava certo com a mulher. Não que quisesse ser incomodado, mas não queria estranhar o comportamento alheio. Arqueou a sobrancelha quando ela disse que precisava conversar em um lugar em um lugar privado, e confortável.

- Em casa...? – indagou pensando no apartamento como a primeira opção onde certamente não seriam incomodados. Só não podia ser naquele exato momento, o que fez com que Diodoro franzisse mais a testa, já que Natalia parecia ter certa urgência. – Hmmm. Estou trabalhando. – explicou o motivo de seu incômodo com a ideia, só depois tendo uma segunda, para a qual levantou a mão e apontou com o dedo na direção da parede. Além da parede, a única coisa que tinha depois da mesma era o cemitério, próximo da funerária. – Lá?


Natalia

Estranhou quando ele lhe respondeu sobre irem para a casa dele. Não que não gostasse do lugar, mas a ideia de acabar topando com o sujeito alto e forte, de olhar intimidador, lhe dava calafrios. Torceu os lábios com a sugestão. Cruzou os braços, mais apertado, descrente que ele iria lhe dispensar por estar “trabalhando”. Já ia abrir a boca e indagar sobre qual corpo teria de colocar dentro de um caixão para ter aquela conversa quando ele lhe fez uma nova oferta. Aproximou-se do lugar indicado pelo moreno e logo voltou para pegar a própria bolsa, concordando brevemente com a cabeça sobre a ideia. Nunca havia ido até os fundos da funerária, mas bem sabia que pela proximidade geográfica, o cemitério era próximo.

Parou com o salto no caminho antes de olhar para o agente fúnebre diretamente e menear a cabeça negativamente, rindo sozinha. Ele havia mesmo oferecido um cemitério para terem uma conversa privada. Respirou fundo, buscando a credibilidade daquele lugar. Ao menos ninguém vivo iria ouvir a conversa entre os dois.

- Você não é dos melhores em escolher ambientes privados agradáveis, Diodoro. - declarou antes de aguardar que chegassem em uma distância segura para mexer na própria bolsa, começando a procurar por algo até conseguir encontrar seu isqueiro. - Mas não vou reclamar, é o que temos para hoje, não é mesmo? - riu, mais de nervoso que por estar confortável de fato. Ao menos tinha o consolo de saber que o homem não estava mentindo sobre lhe considerar uma “amiga”. Todavia, era justamente por aquela ideia de “amizade” que se sentia incomodada com todo o cenário.

Segurou o isqueiro entre os dedos enquanto continuava a remexer em sua própria bolsa, procurando o maço de cigarros já aberto que carregava.

- Olhe só. - começou, baixando o tom de voz assim que finalmente encontrou o maço de cigarros, segurando um dos escolhidos entre os dedos, lado a lado com o isqueiro antes de se aproximar do agente fúnebre, apontando para o peito do sujeito antes de cutucá-lo. - Por que você está andando com gente perigosa agora, Diodoro? Você não tem medo de morrer? Ou pior, de acabar colocando a sua família em risco por estar se envolvendo com esse tipo de gente? Eu não ia falar nada, sério, mas você é meu amigo e já que eu me importo, eu quero entender se você faz isso porque está sendo ingênuo ou se tem algum plano na manga no caso de alguma emergência que eu não possa resolver e que você não tenha como recorrer a alguém da sua família, porque eu imagino que não vai querer envolver eles nisso, não é? - perguntou dessa vez com o ar duvidoso da retórica, pois queria que ele negasse, enquanto temia que ele sequer tivesse se dado conta de quão complexo era aquele cenário.

Diodoro

Deu de ombros quando ela disse que não sabia encontrar lugares discretos. De fato não sabia, e também nunca tinha precisado. Suspirou longamente, apenas deixando um aviso na porta de ausência temporária antes de seguir pela parte dos funcionários da funerária, abrindo a porta para os fundos da loja de onde era possível acessar uma entrada alternativa do cemitério. Guiou a mulher pelas covas bem organizadas e seguiu para um lado mais fundo onde existiam alguns mausoléus. Abriu a portinhola de um deles e sem se importar se estavam entrando sem permissão ali, sentou em uma estrutura de pedra que lembrava um banco, mas que certamente deveria ser onde algum dos corpos da família já havia sido guardado.

Notou só quando ela tirou o maço de cigarros da bolsa que Natalia tinha a intenção de fumar. Porém antes de acender o cigarro, a mulher abaixou o tom e começou a cutucar seu peito como se o errado ali fosse ele, e na verdade, as acusações até pareciam bem categóricas em serem negativas sobre sua conduta... em especial, tudo aquilo parecia sobre o incidente que tinha lhe levado ao hospital. Não respondeu de imediato, mas tirou o cigarro da mão dela e fechou na sua para impedí-la de fumar, isso enquanto pensava como responder diante daquela lógica dela.

Ela tinha razão. Seu descuido poderia acabar machucando sua família. E considerando que o mundo nunca tinha sido muito generoso em sua fortuna, era quase certo que acontecesse. Afinal, poderia ter sido Brigida naquele dia, na funerária.

- Não... eu... – abaixou o olhar, pois sabia que qualquer resposta que desse para Natalia estaria errada, exceto o fato de que não queria envolver sua família com as pessoas perigosas que conhecia. – Só... tinha que ajudar... ele... e... terminou assim. – tentou explicar as meias palavras, afinal, tinha se envolvido com Karen porque, por obra do destino, ele tinha chegado machucado na funerária. – Mas... ele... não é ruim... só... – apertou os lábios e franziu a testa porque bem sabia que estava tentando arrumar desculpas onde não deveria.

Natalia

Estranhou o mausoléu e ainda mais por Diodoro aparentemente se sentir tão à vontade em meio aqueles túmulos. Estava apenas segurando o cigarro ao entrar no ambiente fechado quando sentiu a mão do agente fúnebre coberta pela usual luva dele tocar a sua e lhe roubar o cigarro. Franziu o cenho para o gesto, mas não reclamou, certamente não era uma boa ideia fumar em um ambiente fechado como aquele. O que as pessoas de fora iriam pensar? Que o inferno havia fechado de fato para os mortos e a fumaça já estava saindo de suas tumbas?

Levou a mão agora livre do cigarro até a própria testa, negando com a cabeça para o cenário que possuía a sua frente. “Ele só queria ajudar…” - repetiu em sua cabeça, ciente que o sujeito perigoso dificilmente precisava de ajuda e estava muito bem trabalhando sozinho. Pelo visto, Diodoro era um homem honesto e prestativo, mas ingênuo ao achar que ajudar aquele tipo de gente como o próprio assassino ou ela própria acabaria não trazendo nenhum efeito colateral mais cedo ou mais tarde pra ele. Seria ótimo se ao menos ele começasse a pensar em algum plano no caso das coisas ficarem complicadas para o lado dele.

- Eu já entendi. Já entendi. - repetiu, suspirando conformada ao se aproximar, empurrando o moreno para o lado para que pudesse também se acomodar ali. - Olhe, eu não estou te perguntando se alguém é bom ou ruim. Tem muito filho da puta por aí que passa a imagem de um bom moço e tem gente feito você que tem a cara de um gangster, mas na verdade é um doce e mole tiramisu que nem o que a sua mãe faz.

Tentou começar, fazendo uma piada com a índole do sujeito e comparando-o ao doce que a mãe dele havia feito. “Pelo menos as duas coisas a mãe dele fez…” - pensou, esboçando um sorriso com a própria piada mental, mas logo desfazendo o mesmo para retornar a tratar diretamente com Diodoro.

- O que eu quero dizer, Diodoro, não é que ele não possa ter um apreço pela sua pessoa, afinal de contas, aquele sujeito poderia ter lhe matado se quisesse, mas ele não fez, e ainda voltou para te ver. Eu sei lá o que foi que você fez ou disse para ele, mas funcionou muito bem. - contextualizou sua própria opinião, observando a reação do então recentemente declarado seu amigo até estender a mão para as costas dele, lhe dando alguns tapinhas de encorajamento. - Não se preocupe, estou aqui para te ajudar. Só queria deixar bem claro que você saiba onde está se metendo. Cerise é uma cidade pequena e turística, é bem diferente das grandes cidades onde você pode encontrar gente assim a todo momento. Mas ainda assim, dá para topar com gente bem desagradável nesse lugar. Só não desejo que tenha uma experiência ruim feito essa. - apontou para a cicatriz no rosto dele, esboçando um sorriso compreensivo.

Diodoro

Talvez Natalia até estranhasse suas meias desculpas, por que como diabos um homem de 1,90m precisaria de ajuda? Mas ela mesma tinha visto. Naquele dia o sujeito tinha levado um tiro. Ela não esperava que ele abandonasse um homem com um ferimento de bala e sangrando, esperava? E da primeira vez que se encontraram, ele tinha levado uma facada. Naquele momento em que se conheceram tinha dado o benefício da dúvida ao homem, sobre ele ser um sujeito bom ou não. Agora sabia que ele era perigoso, tinha plena certeza, mas agora também sabia que ele não era ruim como pensava. Era uma situação muito confusa em sua mente.

Deixou que Natalia sentasse do seu lado, sem saber exatamente o que ela queria com aquele encontro. Ela só... estava preocupada, era isso? Estava lhe parecendo uma mãe que dizia para o filho não brincar com cães de rua por não saber o quão perigosos eles eram. Aliás, naquele caso, estava brincando com um cão de rua duas vezes maior que si, e claramente perigoso para todos. Se fosse ele na situação da médica, teria feito o mesmo, mas seria muito mais assertivo naquele conselho: afinal, tinha como dar certo aquela situação com Arsen? Seu rosto dizia que não. Ainda sim...

Crispou os lábios quando sentiu o toquezinho em seu ombro, ainda pensando sobre as palavras que previu ouvir dela. Ele podia ter lhe matado... mas não fez. Era tão difícil entender tudo que tinha acontecido, mas se podia dizer uma coisa, era que estava feliz de ainda estar inteiro e... feliz... por ter uma amiga que se preocupava com ele?

- Desculpe... lhe preocupar. – respondeu a mulher, fechando a expressão por saber que naquela situação não lhe restava muito senão pedir desculpas mesmo por dar dores de cabeça, fosse como paciente no hospital ou seguir vivendo aquele perigo de manter a amizade com Arsen por conta própria. Concordou com o que ela dizia, especialmente sobre a cicatriz. Já lhe bastava aquela.

Só tinha uma coisa que não tinha entendido.

- Por que... precisávamos ficar aqui? – para aquela conversa, certamente a funerária bastava.

Natalia

Estalou a língua entre os dentes com mais aquele pedido de desculpas dele. Ele precisava aprender a parar de se desculpar tanto. Não era como se fosse culpado por ela se preocupar com ele. Aquele tipo de responsabilidade só lhe cabia assumir e se arriscar por justamente se importar com o bem estar do sujeito estranho. Na verdade, Diodoro era um dos homens que havia lhe considerado como uma amiga e que não tinha segundas intenções com sua figura - o que já era muito bom, por não precisar se preocupar com cenários desagradáveis por estar próxima a ele.

- Eu não quero correr o risco de alguém da sua família aparecer e acabar pegando a gente conversando sobre esse assunto. - informou, segurando a mão dele que havia amassado seu cigarro, fazendo força para lhe abrir os dedos e resgatar seu vício. - Eles já acharam bem esquisito o que aconteceu na funerária com o ataque que você sofreu. E sua família parece bem preocupada com você, não quero dar motivos para eles ficarem mais que o necessário.

Encarou o cigarro entre os dedos do sujeito e franziu o cenho com o tabaco danificado pela quebra. Contudo, não largou a mão dele, ocupando-se em lhe pressionar os dedos enluvados como se quisesse estalar as articulações.

- Sabe, quando as minhas “férias” acabarem, eu provavelmente vou ser transferida para uma metrópole, ou algum outro país próximo, não sei ainda. Provavelmente o seu amigo também vá embora. Esse tipo de trabalho não é seguro para se manter em um lugar só. - fez uma breve pausa, soltando a mão do agente fúnebre para buscar sua própria bolsa, dando uma breve espiada em que tipo de mausoléu estavam. - Desculpe por estar contando isso a você, Diodoro. O melhor seria se você não soubesse de nada. Eu não sei se já percebeu, mas eu não chamei a polícia apenas por conta do seu amigo daquela vez. Não sou o tipo honesta que segue a lei. Estou tão envolvida com esse tipo de gente que ser meu amigo pode não ser um bom negócio para você. Por isso, eu vou entender se quiser repensar suas ideias. Nem eu, nem o seu outro amigo, imagino, vai ficar em Cerise mais que o necessário. - admitiu, a contragosto por se sentir animada com a ideia de ter um amigo de verdade e não apenas um contato ou negociante. Sua última psiquiatra ficaria orgulhosa.

Diodoro

Natalia tinha razão. Não tinha contado tudo sobre o ocorrido na funerária nem para a família e muito menos para a polícia. Já não tinha uma expressão muito aberta, era possível que acabasse se envolvendo com mais problemas se isso chegasse aos ouvidos de sua família. Ou melhor, certamente teria mais problemas, e com certeza lhe pegariam naquela conversa, até porque, se tinha uma coisa que sua família sabia de melhor era interromper suas conversas importantes. Ao menos a médica tinha um pouco de noção disso.

Porém, quando ela continuou, inicialmente foi distraído pela mão que apertava a sua como quem queria estalar seus dedos que tinham quebrado o cigarro. Até chegou a se sentir um pouco constrangido com a proximidade, até ela narrar porque sabia que não deveriam ficar ali naquela conversa casual no meio da funerária. Engoliu em seco e franziu a testa enquanto olhava para Natalia. Ela estava envolvida com aquele tipo de gente também? Fazia negócios ilegais? Ela era algum tipo de criminosa, e estava de férias... trabalhando no hospital? Não entendeu muito bem essa questão, mas supunha que sabia que as pessoas poderiam ter seus empregos normais e se meter com o submundo em outros horários. Aliás... até queria dar algum tipo de lição de moral na médica, mas o que podia falar, de sua situação?

- Ah... – foi sua única resposta, a expressão confusa no rosto de Diodoro com a testa franzida por conta de não entender bem o que estava sendo dito. Levou a mão até a testa e coçou a sobrancelha e então tentou voltar a encarar Natalia. – Não... entendi. – tentou fazer sentido, mas estava confuso se Natalia e Karen se conheciam, ou se ela conhecia o tipo de trabalho dele (exceto aquele feito em seu rosto), ou o que raios estava acontecendo.

Natalia

Sorriu conformada diante da expressão franzida no rosto do agente fúnebre. Aquela era justamente a expressão que esperava dele e toda a reprovação diante do tipo de trabalho que realizava. O que definitivamente não esperava era que ele “não entendesse” o que havia acabado de explicar. Certamente Diodoro Leoni era um homem denso que precisava aprender a ler nas entrelinhas. Arqueou uma sobrancelha, encarando o sujeito que evitava o seu olhar. Franziu o cenho em resposta a sentença dele, descrente que ele não havia entendido o que havia acabado de explicar. Por fim, só conseguiu rir da situação, principalmente por ter a certeza que ele não estava fazendo aquilo de propósito.

- Dio. E-Eu… pff… eu não acredito que vou ter que explicar isso de novo… - suspirou, cruzando os braços e descruzando-os logo depois para coçar a própria nuca. - Eu sou médica, entendeu? Isso não é mentira. Eu não trabalharia em um hospital sem as credenciais certas. - fez uma pausa, deixando esse ponto muito claro antes de continuar. - Mas certas pessoas, bandidos, traficantes, algumas prostitutas, assassinos, gente que não possui credenciais legais, quando se machucam e precisam ir em um hospital, eles não vão para um hospital. Eles chamam um médico à domicílio. Alguns inclusive possuem suas próprias clínicas particulares, mas isso não vem ao caso. - passou a mão pelo próprio braço, pensativa por um instante. Talvez devesse começar a planejar sair de Cerise depois daquela conversa. - Esse é o meu trabalho. Ele nem sempre foi assim, mas faz muitos anos que trabalho com esse tipo de gente.

Olhou ao redor, desejando não estar em um mausoléu acompanhada para poder fumar um cigarro de fato. Não era todo o dia que falava sobre sua vida para alguém que não fosse um psiquiatra adequado ou alguém tão sujo quanto si mesma para não se sentir tão julgada no processo. O sujeito, apesar da aparência suspeita, era bem diferente de si, correto e honesto. Era difícil acreditar que ele ainda iria querer ser seu amigo depois daquilo. E talvez fosse justamente esse tipo de pensamento que estivesse lhe roubando o sono nos últimos dias.

- Recentemente eu me mudei para Cerise para me livrar um pouco disso tudo, sabe? Mas não é tão simples quanto parece, pelo visto. Seu amigo também está aqui, então isso só pode indicar que há trabalhos dele próximos. - admitiu, acostumada a seguir de cidade em cidade, fugindo de situações problemáticas demais para alguém como ela. - Eu estou acostumada a fazer esse tipo de negócio sozinha. É mais fácil não estar associado a ninguém quando pensam em se livrar de você. - deu de ombros, certa de que muitos de seus clientes já haviam pensado sobre o assunto. A boa memória podia ser de grande ajuda na maioria dos casos, mas também ajudava com os pesadelos e a paranoia de que mais cedo ou mais tarde alguém conseguiria remover seus serviços do mercado. Arqueou os ombros com aquela ideia, o corpo tensionando por um instante com algumas lembranças de cenas como a mais recente de encontrar um sujeito como o amigo de Diodoro, lhe esperando em um lugar distante, sozinho após um telefonema, para um atendimento que poderia muito bem ser apenas uma armadilha.

Diodoro

Podia entender até ali. Ela trabalhava com gente do submundo. Aliás, chamar de submundo fazia parecer que eles eram criaturas do inferno ou coisa do tipo, quando bem sabia que eram pessoas, e pessoas precisavam de médicos, isso era óbvio. Porém, a relação subentendida dela com Karen e a parte sobre estar trabalhando no hospital de férias é que estava confusa para ele. Natalia começou a explicar, mas ao invés de ser objetiva, decidiu narrar tudo, como se fosse incapaz de entender cada detalhe do que ela estava dizendo. Mas não era isso que tinha perguntado.

Ao menos algumas respostas vieram no meio da história dela. Franziu a testa, ouvindo o que ela tinha a dizer sobre toda a questão de trabalhar com essas pessoas, sobre estar em Cerise para fugir um pouco disso. Queria até conseguir enxergar aquele lado criminoso em Natalia depois disso, mas no fim das contas, tal como Karen, sabia que ela deveria ter suas circunstâncias para fazer aquele tipo de trabalho. Se ela estava lhe alertando era porque conhecia mesmo os perigos da profissão, mas o que podia fazer, agora que estava até o pescoço de mentiras para a polícia e agregando mais uma amiga na ilegalidade?

Era melhor admitir a si mesmo que sua cara de mafioso não andava atraindo apenas policiais lhe achando suspeito. Enfim tinham noção do perigo que a cara de poucos amigos trazia. Mas ao mesmo tempo não queria largar aquelas pessoas, tinha se aproximado delas porque precisava e estava com elas porque queria. E na fala de Natalia podia ver que se ela pudesse, estaria em outra situação, com certeza. Ela parecia tensa. Assertivo, levou a mão até a dela e encarou a mulher, a testa franzida.

- Me aconselha mas se mete nos mesmos problemas. – falou com seriedade, quase como uma bronca, suspirando longamente em seguida. Então encostou a cabeça na parede de pedra atrás dos dois, sem entender inteiramente se estava decepcionado com Natalia ou não. Ou talvez imaginasse que uma médica responsável chamaria a polícia, mesmo depois que um amigo pedisse que não. – Se... dinheiro, ou... circunstâncias... ou se é da profissão.... não me importo. Me preocupo com você, tensa assim. Não gosta disso, gosta? – estava se dando um pouco de liberdade de falar, afinal, ela tinha lhe dado longos conselhos e lhe dado a chance de responder afinal. – Tenho medo... por minha família. Mas... já somos amigos. Tenho medo por você. E por ele. E quando... algo... acontecer... vou me preocupar. – podia culpá-la por também envolver sua família com gente criminosa, afinal, ela que tinha ido até sua casa diretamente, e ela que sabia tudo que estava acontecendo naquela bagunça, mas não podia se isentar da culpa também. – E se for grave, posso... – soltou a mão dela, então levando até o pescoço, tomando certa conformidade em saber que por envolvimento com eles podia até morrer. – Só que não saberia deixar os dois sem ajuda. Hahh... sou ingênuo demais. - suspirou, supondo que tinha chegado a mesma conclusão que a mulher.

Natalia

Abriu a boca, encarando o moreno de volta em surpresa com a aproximação e as palavras dele, o tom sério lhe colocando na defensiva. Respirou fundo, voltando sua atenção para a mão sobre a sua, fechando a boca e pressionando os próprios lábios com a reação do então declarado amigo. Voltou a observá-lo, recostado com a cabeça na parede de pedra lhe questionando se gostava daquilo.

- Claro que não. - respondeu, notando as pausas na fala do moreno. A preocupação que era correto dele possuir com a própria família lhe deixava com o sentimento de culpa por ter sido uma das variáveis para que ele estivesse naquela situação. Ainda assim, era estranha a sensação de ter alguém que de fato sabia o que fazia e não parecia considerar todos os perigos que uma amizade daquelas trazia, preferindo permanecer ao seu lado. Franziu o cenho com a ideia dele, sobre ser ingênuo e sobre a gravidade daquele cenário. A ideia de poder ter um amigo lhe deixava contente, mas seria um verdadeiro pesadelo ter de passar por um ciclo desgastante como o que havia acontecido no seu passado, justamente pela pessoa com quem realmente se importava ter se envolvido com gente errada.

Virou-se, estendendo a mão para segurar o outro pelo pulso, afastando a mão dele do pescoço, segurando-o com certa firmeza. Encarou o sujeito, inquieta. Se já estava tensa antes, as palavras dele não melhoravam a situação. Afinal de contas, lhe assustava a ideia de que estava caminhando para um cenário em que poderia acabar com sangue nas mãos, e machucar pessoas que não tinham nada a ver com seus problemas.

- Oi? Ficou maluco? Onde quer chegar com essa ideia de que “se ficar grave”? Você não tem que se meter em nada disso, Diodoro. Se algo acontecer, você precisa ficar fora disso, entendeu? - tentou manter o tom de voz baixo, mas já estava nervosa com a ideia de que ele de fato estava disposto a se machucar por ela, ou pelo outro sujeito que também era considerado como um “amigo”. - Se algo acontecer, você ainda tem uma família que se importa com você! Se se envolver nesse tipo de confusão, o que acha que vai acontecer com eles?

Respirou fundo, afrouxando o aperto no pulso do moreno antes de baixar o olhar, contemplando o que de fato já estava fazendo ali. Estava acontecendo tudo de novo e bem sabia onde aquele tipo de cenário lhe levaria. Franziu o cenho novamente, cerrando os punhos e amaldiçoando a própria boa memória por não lhe deixar esquecer de seus primeiros equívocos.

- Por favor, Diodoro… - fez uma pausa, respirando fundo mais uma vez para manter a própria compostura que ainda lhe sobrava. - … eu não quero que você… passe pelo mesmo… - levou a mão livre até a própria têmpora, fechando os olhos com a lembrança vívida do que não conseguia deixar para trás. - Desculpe.

Era só o que podia fazer naquele momento, pois sentia como se independente do que dissesse ao sujeito, ele não deixaria de ser ingênuo e se sacrificar pelos outros, mais preocupado com o bem estar alheio que com o seu próprio. O sentimento amargo de culpa por ter conhecido o agente fúnebre não sabia de sua cabeça.


Diodoro

Estalou a língua para ela. Parecia que não entendia o que estava dizendo. Ou entendia perfeitamente o que estava dizendo, e queria que ele fizesse o exato oposto do que sua natureza mandava. Estava destinado a se envolver com os mesmos tipos de situação do seu irmão. Talvez fosse um tipo de sinal de que aquela era sua sina. E tinha que fazer algo mais significativo.
- Como se eu conseguisse. – respondeu, franzindo a testa, ainda negando o que a mulher estava tentando lhe dizer. Sabia que não podia envolver sua família, mas também tinha plena certeza que não deixaria aquele caso em paz. E nem sua família iria querer que virasse as costas inteiramente para Natalia, afinal, ela tinha ido até lá, e tinha conversado e almoçado com eles, e tinha cuidado de sua cicatriz.

Ouviu o resto do discurso de Natalia. A expressão dela dizia bastante. Se havia um tipo de rosto que conhecia era o rosto preocupado de quem tinha perdido alguém importante. Natalia, do jeito que falava, certamente já tinha tido pessoas que tinham sido afetadas pelo estilo de vida dela. Não duvidava que nenhum de seus “amigos” atuais era assim. Era um tanto assustador pensar que eles tinham perdido pessoas pelo envolvimento com pessoas erradas, mas não era alguém que conseguia evitá-la. Porque também tinha perdido gente dessa forma, e tinha visto as reações avessas das pessoas ao seu redor, que julgavam sua família simplesmente por isso, e se afastavam com o mesmo medo que ela tinha: de serem vítimas colaterais. E sabia que aquilo machucava. Tanto quanto carregar a culpa de ser parte culpa sua envolver outros naquela situação, também era horrível estar sozinho nela.

Apertou os lábios, e sem saber exatamente como agir, porque estava ficando nervoso vendo Natalia daquele jeito, estendeu a mão e cobriu a boca dela, talvez por saber que de outra forma, ela falaria ou protestaria e precisava conseguir deixar claro o que estava dizendo.
- D-Desculpe... ouça. – pediu, um tanto hesitante de sua atitude para com ela. Encarou a médica, reunindo a necessidade de falar, para não se auto-sabotar. – Não vou me jogar no perigo. Não quero morrer. Não conheço esse mundo... para valer de ajuda. Mas não vou te deixar. – deixou bem pontuado, e respirou fundo, ainda mantendo a mão ali, como se aquilo fosse uma segurança que não seria interrompido. – Eu tenho família que se importa, mas você também tem alguém. Eu. Eu me importo com você. E perto... ou longe de mim... eu vou me machucar se algo te acontecer, Natalia.– Diodoro não costumava falar muito, mas era bastante assertivo nas palavras. Isso, e o fato de que olhava diretamente para ela, deixava ainda mais clara a expressão de que ele não arredaria do que pensava. Era teimoso demais para isso. – E a culpa não é sua. É minha. Sua vida não é dispensável. Não pra mim. Prefiro que esteja comigo, e faria o possível para isso. Por você. – suspirou longamente. – Isso inclui ficar bem, e vivo. Não quero ser seu parceiro de crime. Quero... ser o amigo que se preocupa por você. Mesmo que isso me meta em problemas. É minha escolha. E está além de você. – soltou aos poucos a mulher, e então descansou as costas no mausoléu mais uma vez, observando Natalia. – Perdão. Já não... posso te deixar em paz.

Natalia

Franziu o cenho diante da teimosia do homem em cumprir com seus pedidos para que não se envolvesse mais do que já estava com pessoas como ela, como o sujeito perigoso que surgiu na funerária também. Já estava pronta para abrir a boca e interrompê-lo no meio das loucuras que fossem que ele estava pensando em lhe dizer. Só lhe interessava deixar ali sua certeza que não teriam mais aquele tipo de conversa, pois deixariam aquele convívio de lado. Contudo, ele tapou-lhe a boca, deixando-a surpresa com a aproximação repentina, ainda mais por ser Diodoro a fazê-la.

Baixou o olhar para o braço da mão que lhe impedia de falar, logo em seguida erguendo o olhar para o moreno como se fosse um absurdo aquilo. O pedido de desculpas para que ouvisse o que ele dizia quase passou despercebido, até notar que ele lhe encarava de volta, deixando claro que não queria morrer. Aquela sentença lhe fez parar para de fato poder ouvi-lo, talvez fosse pelo fato de já tê-la escutado tantas vezes nas vozes de tantos pacientes. As sobrancelhas contraíram em estranheza assim que ele continuou com o próprio discurso, afirmando que não iria lhe deixar. Não sabia como explicar ou lidar com aquele sentimento honesto de que alguém estava afirmando a sua frente que não lhe deixaria sozinha, que se importava com seu bem estar.

Franziu o cenho de novo em um reflexo quase que automático com a pressão que tomava seus olhos. Ele não fazia ideia, não havia como ele saber, como o gesto de tomar a culpa apenas para si era justamente o que ela não queria que ele fizesse. Era uma atitude egoísta, de ambos os lados, afinal, mas já não sabia se preferia permanecer sozinha ou encarar a realidade e as consequências de ter um amigo como Diodoro. Sentiu a pressão da mão dele deixar sua boca e cerrou os lábios, a respiração presa diante da realidade delicada que era ter conhecido o sujeito de poucas, mas sinceras, palavras. Mesmo que costumasse duvidar das promessas de terceiros, as experiências de convívio com o sujeito não lhe deixavam ter muita margem para dúvida da obstinação dele. Quando até mesmo pessoas que lhe eram próximas como sua família havia optado pela distância e segurança e proximidade, o sujeito tomava o caminho contrário. Queria chamá-lo de maluco e inconsequente, gritar com ele e se afastar por iniciativa própria, ainda que estivesse ciente que ele “não lhe deixaria em paz”. Então do que serviam todos aqueles avisos?

Suspirou demoradamente, erguendo as mãos para o próprio rosto, escondendo a face entre os dedos e as palmas, olhos fechados, ombros ainda tensionados. Esfregou o rosto nas mãos e suspirou mais uma vez, em silêncio, tentando absorver aquele sentimento em um misto de frustração e satisfação egoísta. A cabeça parecia pesada e talvez fosse o cansaço acumulado, as noites de sono mal dormidas, os plantões no hospital, mas não conseguia sentir a própria energia para continuar discutindo com o homem à sua frente. Respirou fundo antes de baixar as mãos, a expressão sóbria de quem não estava nem nervosa ou disposta a manter o habitual sorriso no rosto, o olhar baixo de quem ainda tentava processar aquela situação. Aproximou-se, colocando as mãos nos braços do moreno até poder descansar a cabeça no ombro dele, cansada. Moveu os lábios como se desejasse se desculpar, mas nada conseguiu explicar de fato, que fizesse sentido. Só queria admitir que tinha um bom amigo e que aquilo lhe assustava. Fechou os olhos, concentrada na sensação que a proximidade amistosa e sincera lhe trazia, uma boa sensação para variar. Esperava que ele continuasse daquela forma.

Diodoro

Se sentia até cansado de ter falado tanto. Mas eram palavras necessárias para que Natalia entendesse o que queria dizer. Diodoro tinha bom senso, o suficiente para passar sermões em Hanna, para entender parcialmente os sentimentos de Karen, para reclamar das atitudes do (ex) padre Giulio, mas pelo visto, não tinha bom senso para si mesmo, se tinha escolhido ficar do lado daquelas pessoas todas. E vendo Natalia naquele momento pensando e digerindo - bem ou mal – o que estava dizendo, lhe deixava com a impressão de que tinha feito a escolha certa. Porque aquela era a resposta que ela não esperava e isso fazia do agente funerário ou um homem bom, ou um homem teimoso.

Respirou fundo, notando na nuance da expressão da médica a ausência daquele ar divertido de sempre dela. Tinha colocado certa culpa no coração da doutora sobre ela ter se aproximado dele para começar. Mas ela era uma boa pessoa em algum lugar, e o fato de se preocupar e não ficar exageradamente feliz que ele não iria deixá-la era prova disso. Permitiu que ela segurasse seu braço e encostasse a cabeça em seu ombro silenciosamente e descansasse por ora. Depois teriam que sair daquele mausoléu e retomar a rotina dos dois.

Não disse mais nada, até porque não tinha nada a dizer. Levou a mão até a dela em seu braço, e o rosto voltou-se para os cabelos tingidos de Natalia, encostando-o brevemente o rosto sobre a cabeça dela, olhando longamente ao redor, supondo que não fazia mal deixar aquele tipo de aproximação ocasionalmente. Gostava de contato, só bem sabia que não era todo mundo que teria interesse em lhe dar um abraço, por exemplo.

Deixou que um tempo se passasse e então, sabendo que em algum momento teria que reabrir a funerária, suspirou longamente.
- Vamos...? – perguntou, e então levou o dedo até o topo da cabeça dela, nenhum pingo de humor na voz. – Tem raízes.

Natalia

Ficou ali, quieta, acompanhada do silêncio alheio. Era até bom a falta de palavras naquele instante, a julgar que quando ele abria a boca para falar, havia conseguido lhe deixar naquele estado. Queria um cigarro e fumar seus problemas para fora, mas não era nem de longe a saída que seu amigo queria lhe dar. Amigo. Quando foi a última vez que havia conseguido ter um amigo de verdade? Tinha até receio de se aproximar daquela forma das pessoas, que não fosse maliciosa, nem segundas intenções, e terceiros descobrissem que realmente se importava com alguém como Diodoro. Talvez ele fosse se arrepender no futuro por aquele tipo de escolha em não querer se afastar de sua figura ou deixá-la em paz, mas no fundo sentia que não era aquilo que de fato lhe deixava profundamente preocupada. A tensão emocional vinha justamente do sentimento de culpa por não ter se afastado primeiro e deixar que as situações tomassem aquele rumo. Agora sentia como se tivesse responsabilidade ali também e tal como ele dizia não poder lhe deixar mais em paz por ser um idiota, sentia que não conseguiria ignorar a própria preocupação em saber que ele também ficaria bem.

Sequer se deu conta de quanto tempo havia se passado até ele tocar sua mão e logo em seguida encostar o rosto em sua cabeça. Respirou fundo ao ser chamada pelo moreno, abrindo os olhos claros em surpresa assim que Diodoro tocou o topo de sua cabeça. Não se afastou a priori, processando o comentário sobre suas raízes, até entender do que ele estava falando, provocando-lhe um sorriso instantâneo de quem estava descrente que ele parecia estar tentando fazer algum tipo de comentário com duplo sentido ou piada.

- Pftt-! - riu contra o ombro dele, soltando-lhe os braços para rapidamente abraçá-lo de verdade, tensionando o aperto até sentir que era mesmo ele ali, um amigo esquisito que estava abraçando. Soltou-o tão rápido quanto o pressionou, afastando-se finalmente para sair do Mausoléu, escolhendo não o encarar mais naquela cena ou ele teria de presenciar a pouca maquiagem que ainda restava em seu rosto borrada. - Como… piadista… é um ótimo mafioso… - comentou, mais para si mesma que para ele.

Buscou a própria bolsa antes de sair, esperando pelo sujeito para voltarem para a funerária. Precisava voltar para seu apartamento e dormir, finalmente dormir. Sentia como se as preocupações que havia ido até ali para descartar haviam sido jogadas fora e trocadas por preocupações maiores. Contudo, não reclamou. Diodoro Leoni era um amigo do qual não havia como reclamar de ter encontrado. Ele era muito do que nunca seria. Assim que chegasse na funerária, partiria. Não queria se prolongar mais ali e correr o risco de topar com a irmã de seu único amigo. Estava desgastada demais para conseguir colocar um sorriso ensaiado no rosto e rir para esconder seus problemas. Só ansiava por chegar em seu apartamento e dormir até o dia seguinte. Talvez, quando despertasse, a dor de cabeça fosse menor.

[Pode encerrar já, acredito eu]


Forum Jump:


Users browsing this thread:
[-]
Cerise News
Dia xx/xx/xxxx
População de Cerise come mais Patchdonald's que a média nacional de comedores de McDonald's, diz jornal Le Monde.

[-]
Birthdays
Today's Birthdays
No birthdays today.
Upcoming Birthdays
avatar (37)Skurai

[-]
Latest Threads
Trouble in Paradise [Carbella]
Last Post: Natalia
09-27-2023 04:34 PM
» Replies: 6
» Views: 28
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Last Post: Natalia
09-08-2023 11:08 PM
» Replies: 16
» Views: 42
Run Boy Run [Daniel]
Last Post: Qiang
09-07-2023 06:32 PM
» Replies: 6
» Views: 32

[-]
Recent Posts
Trouble in Paradise [Carbella]
Ao terminar de consu...Natalia — 04:34 PM
Trouble in Paradise [Carbella]
Carbella queria dize...Carbella — 10:02 PM
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Voltou o olhar quase...Natalia — 11:08 PM