09-21-2021, 12:29 PM
Patrick
Estava já há duas semanas se recuperando na residência do sujeito mais velho. O lugar onde ele vivia era bem interessante. Quem diria que acabaria aos cuidados do dono de uma pousada, biólogo, pesquisador e aventureiro? Sinceramente, não dava a mínima, contanto que tivesse um teto sobre a própria cabeça, boa comida no estômago e uma cama quente para dormir. O sujeito era até agradável, tirando as vezes que sentia alguma mão boba dele quando estava lhe ajudando a tomar banho. Odiava aquela ideia de depender dos outros para coisas simples como tomar um banho, mas tal como a vida havia lhe ensinado a deixar o orgulho de lado muitas vezes, resolveu relevar após as primeiras tentativas de tomar um banho sem ajuda.
Já era perto da hora do almoço e estava ainda na cama, se mexendo de um lado para o outro entre pequenos cochilos preguiçosos. Gostava de dormir e dormia muito bem quando tinha a oportunidade. Como de costume, estava despido, apreciando o conforto que os lençois e o macio travesseiro da cama de um dos quartos da pousada lhe dava. Soltou um bocejo preguiçoso, apoiando-se nos braços até conseguir se sentar sobre as próprias pernas no colchão, o cabelo vermelho assanhado e os olhos ainda fechados.
Demorou ainda alguns minutos até colocar o primeiro pé para fora da cama. Tomou ar e procurou por alguma roupa, encontrando uma calça folgada e maior que o seu tamanho para poder vestir, um dos itens que provavelmente era do grisalho ou dos achados e perdidos daquela pousada. Coçou a nuca até sentir ainda a cicatriz recente em sua cabeça devido às pancadas que havia tomado na noite que quase foi daquela para melhor. Caminhou devagar até o banheiro, aliviando-se antes de lavar o rosto e buscar a camisa que havia usado na noite anterior, saindo do cômodo para buscar o trajeto para a cozinha. Tinha fome e enquanto não conseguisse saciar o estômago, não conseguiria voltar a dormir ou fazer qualquer outra atividade sem retorno algum para aquela sociedade.
Procurou pelo grisalho nos corredores, imaginando que aquela hora ele já deveria estar de pé e trabalhando. Também poderia estar na praia, dando em cima de algum turista ou madame. Já havia se dado conta das inclinações do velho e era só mais uma peculiaridade para a qual não dava a mínima. Enquanto ele estivesse lhe ajudando, não reclamaria nenhum pouco. Sabia que havia outro hóspede no recinto que sempre parecia melhorar o humor do sujeito mais velho. Talvez eles estivessem saindo e aquilo era ótimo, pois deixaria seus esforços guardados para evitar que o velho se aproximasse sem necessidade da sua pessoa. Não que tivesse repulsa pelo homem, mas ainda era difícil admitir que a cena anterior a ser jogado na praia lhe assombrava em certas noites.
Adentrou na cozinha devagar, acostumado a andar pelos ambientes da pousada sem fazer nenhum barulho. Seguiu direto até a geladeira, procurando pela caixa do leite para encher um copo do armário e tomar o conteúdo sem cerimônia, agradecendo que sua garganta já não estava mais dolorida e agora já conseguia mastigar alimentos sólidos sem dificuldade.
Enzo
Enzo até admitia que era uma boa distração cuidar de Patrick. A pousada não tinha muitos clientes, com exceção de Nathan que era um regular. O resto era temporário, bem temporário. Admitia que era um lugar para passar uma noite em caso de emergência e talvez fosse até melhor assim, porque no fim das contas, não daria conta de tudo sozinho se tivesse mais clientes. E ainda mais com o ruivo lá.
Não era sua intenção deixá-lo desconfortável, até porque sabia do tipo de violência que ele tinha sofrido, mas era tão natural para si apalpar o que tinha interesse que quase sempre se pegava no meio daquelas situações complicadas. Ao menos ele não se incomodava e lhe ouvia em suas histórias. Era uma companhia boa, ainda que trabalhosa e que desse despesas. Talvez quando ele estivesse melhor pudesse testar se ele conseguiria trabalhar ali? Ou será que ele tinha uma casa sobre a qual ainda não tinha falado?
Estava arrumando as cadeiras que ficavam nos fundos da casa, voltadas para a praia. Limpou rapidamente as mesas, um pouco sujas por conta das gaivotas que teimavam em pousar ali. Olhou para uma inimiga natural enquanto fazia isso, notando quando a maldita alçou voo, já pensando em mandar uma bomba. Acostumado com isso, abriu o guarda-sol para escapar da sujeira, mas na pressa, não prendeu o mesmo e ele fechou sobre sua cabeça. Enzo abriu então o guarda-sol novamente, uma das hastes de sustentação solta batendo em sua testa com um “toc” singelo. Saiu de debaixo do guarda-sol, já cansado da situação, e assim que ía entrar na pousada novamente, sentiu algo quente bater em sua cabeça. Olhou para cima e poderia jurar que o som daquela gaivota maldita era uma risada.
Entrou com uma expressão conformada e acabou notando a movimentação na cozinha.
- Oh, bom dia, Patrick. Dormiu bem? – perguntou, não sentindo muita vontade de sorrir pois sabia que o cocô em sua cabeça estava começando a escorrer e tinha uma marca vermelha no meio da testa de onde a perna do guarda-sol tinha batido. – Se você olhar o armário de cima, vai encontrar pão. Mas não coma muita besteira. Vou preparar o almoço assim que lavar a cabeça. – explicou, andando até o banheiro do andar de baixo para limpar o cabelo.
Não demorou para voltar com os cabelos molhados e uma toalha nos ombros, e um cheiro mais agradável que resto de peixe.
- Sente-se. Quer alguma coisa em especial para o almoço? – perguntou, abrindo a geladeira para procurar o que poderia fazer com o que tinha lá dentro.
Patrick
Estava ainda tomando do seu copo com leite, sentado à mesa da cozinha, quando notou a presença do dono do estabelecimento. Observou-o por sobre o ombro após responder com um breve “bom dia” ao ser cumprimentado. Concordou com um aceno positivo ao ser questionado sobre dormir bem, notando o problema que o mais velho enfrentava com as tais gaivotas. O senhor Burnell parecia ter um problema sério com animais, lhe admirava que ele fosse um biólogo que já havia passado anos em campo. Olhou para o armário que ele havia lhe avisado sobre onde tinha deixado o pão. Esperou o homem sair da cozinha enquanto parecia estar ocupado com o próprio trabalho para estender os braços e se espreguiçar, fazendo uma breve pausa para coçar a região do peito correspondente às costelas, passando os dedos finos pelo lugar em que a mancha roxa de semanas atrás parecia ter já desaparecido por completo.
Não se incomodou em levantar, gostando muito mais do seu copo de leite que a ideia de precisar pegar o pão quando o almoço logo seria preparado. Arqueou uma das pernas, apoiando o pé sobre o assento em que estava sentado, apoiando o queixo sobre o joelho, aproveitando da própria boa flexibilidade. Ergueu o olhar para o dono da pousada quando este voltou, mais cheiroso e de cabelos molhados. Era estranho que um sujeito simpático como aquele, vivendo em uma pousada a beira mar como aquela, não teria tantos hóspedes. Por um instante, até se sentiu culpado por não poder pagar para estar ali, quando ainda comia, dormia e tomava banho de graça. O pensamento lhe fez recordar da dona do Sauté que há muito tempo não reencontrava. Esperava que ela ao menos tivesse seguido seu conselho e cuidado melhor da criança que havia passado em uma situação problemática que a loira era cega e ingênua demais para perceber sozinha.
- Hm? - voltou a atenção para a pergunta sobre o almoço e encarou a disposição matinal do mais velho, a mesma disposição que lhe faltava. Era sempre estranho ser tão bem tratado pelo senhor Burnell, quando no fundo sabia que ele não lhe devia nada e que se entendesse de fato o problema no qual havia se metido, não se incomodaria em lhe alimentar.
Ao invés de responder, se levantou, indo até a geladeira para olhar por cima do mais velho o que havia ali que pudesse ser preparado. Da última vez que havia pedido para o senhor Burnell preparar um peixe, o homem quase ficou engasgado com uma espinha no almoço. Aquele tipo de situação parecia só distração do sujeito no início, mas desconfiava que havia algo de errado com ele. Pelo primeiro ponto de lhe aceitar ali de uma forma tão caridosa. Não estava nenhum pouco habituado com a bondade dos outros sem nenhuma segunda intenção.
- Posso fazer o almoço hoje, Enzo? - perguntou primeiro, temendo que ele fosse lidar com qualquer coisa e continuasse se acidentando. A marca avermelhada na testa dele já era evidência o bastante para si mesmo que o sujeito precisava de um bom banho de sal grosso todos os dias. - Gosta de fritada? - sugeriu, segurando a porta da geladeira enquanto ele se decidia.
Enzo
Enzo colocou a cabeça por fora da geladeira quando Patrick propôs cozinhar. Não que ele parecesse incompetente, de forma alguma, mas não imaginava que fosse alguém que soubesse preparar algo além de comidas instantâneas. Ou quem sabe o tempo vivendo sozinho e com pouco dinheiro tivesse feito dele um bom cozinheiro? Nem podia imaginar o gosto da comida dele, e isso lhe deixava curioso.
- Eu gosto de comida. – Enzo respondeu prontamente com ar de riso, afastando-se da geladeira e sentando à mesa para esperar o rapaz escolher quais seriam os ingredientes de sua fritada. – Sendo bem sincero, já devo estar começando a perder um pouco a capacidade de sentir sabores. Gosto de gostos bem fortes, como por exemplo, os bolos doces da Antique. Ou estou mal acostumado a comer o tempero da dona, que é uma amiga de longa data.
O loiro então pegou uma banana na fruteira que tinha em cima da mesa e começou a descascar, comendo um pedacinho da fruta antes de voltar-se novamente para Patrick.
- Hm. Se bem que eu já não era exigente com gostos na época em que morava na África. Não que a comida fosse ruim, pelo contrário, mas como ia de lugar a lugar, não podia ser exigente, especialmente nos acampamentos. – comentou, cruzandos os braços e lembrando de mais uma de suas histórias. – Uma vez eu e um amigo ficamos ilhados em um fim de tarde porque o rapaz do jipe que iria nos buscar na reserva nos trocou por um encontro, e com a fome que estávamos, sem nada para acender o fogo, tivemos que abater um dos babuínos da reserva e comer cru. Não foi agradável. Mas os animais fazem, e somos animais, não somos? Passei quase uma semana de cama e fiz várias lavagens. Mas o doutor era... hmmm. – Enzo comentou, rindo baixo. – Minha primeira refeição depois do hospital. Haha.
Patrick
Sorriu discreto com a permissão. Era comum tirar vantagem das pessoas, mas não era nenhum bastardo que gostava de se sentir inútil na residência que alguém que havia salvo sua vida. Pelo menos fazer algo que pudesse comer sem o risco do mais velho incendiar o prédio também parecia de longe uma ótima ideia. Esperou Enzo se afastar da geladeira para poder observar o que poderia usar que havia ali dentro. Ergueu o olhar da geladeira após escolher algumas verduras e os ovos. Não era habituado a preparar uma fritada com algum tipo de carne, mas sabia bem como fazer uma boa fritada com verduras.
Fez uma pausa antes de lavar as mãos e as verduras na pia, observando o mais velho sobre o ombro, sentado à mesa quando o mesmo mencionou sobre conhecer a tal padaria Antique. Fleur, pelo visto, também era conhecida pelo sujeito. Baixou o olhar. Tinha um carinho especial pela dona do lugar. A mulher havia lhe ajudado bastante quando ainda era só um órfão daquela cidadezinha de interior francês.
Ouviu a história de Enzo, mais uma vez citando a África. Cortou as verduras com a ajuda de uma faca e uma tábua, separando tudo com calma enquanto erguia o pé por trás da própria perna, coçando a panturrilha oposta, apoiando-se em apenas um pé. Estava habituado a ficar descalço pela casa, principalmente quando a hospedaria era tão próxima da praia.
- O senhor deveria ser chamado por canibal, então. - riu com o velho, considerando as inclinações sexuais do mesmo e o comentário sobre comer um babuíno cru. Não o culpava pela escolha em uma situação de desespero. Já havia comido coisas bem desagradáveis só por estar em uma situação semelhante. Certamente que no presente momento, podia dizer que estava muito bem, obrigado. - Como foi que conheceu a dona da Antique? O senhor mora aqui em Cerise há muito tempo?
Resolveu perguntar por mera curiosidade enquanto preparava a fritava, usando de uma frigideira para colocar os ovos batidos e temperados com as verduras, tomando o devido cuidado para diminuir o fogo na hora certa e tampar a panela para cozinhar a parte mais interna da fritada. O cheiro da comida sendo preparada fazia sua barriga se contrair de antecipação. Era deveras agradável poder acordar quando queria e poder cozinhar algo para comer sem a preocupação de precisar arrumar dinheiro para tal. Suas habilidades com os talheres e utensílios eram rápidas, pois estava habituado ao uso daquele tipo de arma branca, então vez ou outra se via brincando com um dos garfos ou facas da cozinha, passando-os entre os dedos ágeis enquanto esperava o prato ficar pronto.
- Espero que goste. - ofereceu ao colocar o preparo rápido em um prato e servir metade para o mais velho enquanto guardava o restante na frigideira para si mesmo, assim lhe poupava o trabalho de precisar lavar tanta louça. Voltou a se sentar, uma das pernas dobradas a sua frente enquanto voltava a apoiar o queixo no joelho, assoprando a panela para que a fritada esfriasse um pouco mais rápido.
Enzo
Não sabia se aquilo configurava canibalismo. Na verdade, não se via como um babuíno, da mesma forma que não enxergava todos aqueles homens apenas como homens. Era difícil explicar aquelas comparações que só faziam sentido em sua mente.
Pelo menos era mais fácil falar de Fleur. Era esperado que se Patrick vivia em Cerise há tempo, deveria conhecê-la. Era a dona da padaria mais famosa da cidade e uma mulher muito agradável. Difícil era conhecê-la e saber muito sobre ela e não ter nenhum envolvimento mais profundo além disso. Acabou soltando um breve suspiro ao lembrar do fato.
- Moro sim. Há quase 20 anos. Fui professor de St. Clavier e agora sou parte do conselho de moradores da cidade. Não pareço, mas sou bem visto por aqui. – riu, supondo que era difícil acreditar na boa fama de um velho que falava de suas conquistas sexuais metade do tempo. – A Fleur eu conheço faz alguns anos. Já era viúva quando nos conhecemos, e bem, uma bela viúva, devo dizer. Saímos algumas vezes, mas nunca consegui nada. Azar meu. – bufou, lembrando dos encontros frustrados. – Pelo menos posso ir na casa dela quando quiser. Tenho desejos súbitos por bolo. E ela é uma vista para olhos cansados.
Esperou o rapaz terminar a fritada, notando como ele era ágil com os talheres, mas não dando mais atenção que isso quando o cheiro da comida boa (e sem pedaços queimados ou cortados seus) ficava pronta. Aguardou o prato, agradecendo baixo o rapaz enquanto tirava um pedaço da fritada para comer.
- Hm. É bem gostoso . – comentou, comendo mais um pouco do prato em seguida. – E você, Patrick? Conhece a Fleur? De onde?
Patrick
Parou para observar o mais velho, descrente que aquele homem havia ensinado na escola de meninos ricos da cidade. Ele parecia tão simples. Mesmo assim, a julgar pela posse daquela pousada, o velho deveria mesmo ser jeito da grana. Não era de se espantar que alguém com inclinações tão descaradas já tivesse dado em cima de Fleur. A loira era uma mulher bonita, mas bem sabia que o que ela mantinha de beleza, tinha de juízo.
Baixou o olhar para a comida de novo quando foi sua vez de responder sobre onde havia conhecido a dona da Antique. Cortou um pedaço da fritada com a lateral do garfo antes de comer, recordando de quando ainda era muito novo para entender o quão fudido estava na vida. Experimentou da própria fritada, apreciando o sabor da comida quente que não era de nenhum fast food ou de caridade da igreja.
- Eu costumava viver em Cerise quando era mais novo, antes de sair da cidade para viajar. A Fleur costumava me dar alguns lanches de vez em quando. Ela é uma boa mulher. O filho dela é bem alto, só quieto. - respondeu, lambendo as costas do garfo ao levar mais um pedaço da fritada à boca. - Por que o senhor parou de dar aulas em St. Clavier? - perguntou com certa curiosidade, voltando a observar o mais velho. - Assediou um dos pais dos meninos ricos? Daí te mandaram embora? O senhor deve conhecer muita gente importante para ainda fazer parte do conselho de moradores. - comentou enquanto mastigava, segurando o garfo na própria boca.
“Ou muito rico”. - comentou na própria cabeça, desviando o olhar por um instante, lembrando da dona do Sauté que parecia ser do mesmo jeito, rica, cheia dos contatos, mas bem ingênua. Contudo, o homem era mais velho, ele lhe lembrava mais uma raposa velha que uma gata de madame como era a loira, recém mãe adotiva da pirralhinha abandonada.
Enzo
O fato de que Patrick conhecia Fleur só provava que ele deveria ser um caso de caridade. Às vezes era assim que se enxergava, ou ela nunca abriria a porta para suas ocasionais loucuras. A diferença era que parecia que mesmo sendo dono de uma pousadinha, tinha dinheiro o suficiente para ir atrás dela e comprar seus produtos enquanto Patrick se limitava a contar com a boa sorte. Imaginava como um mendigo de cabelo ruivo não tinha chamado mais sua atenção esses anos todos que viveu em Cerise.
- Arman é um bom leãozinho. Levei muitas broncas por contar a ele e a amiguinha dele, a Carbella, histórias sobre a vida selvagem. E por ter uma visão muito científica, e ser vividamente descritivo, mesmo na frente de filhotes. A Fleur protege os dois com garras e dentes mesmo. – riu, lembrando das pancadas quase gratuitas que levava por incrementar demais as histórias para os meninos.
Patrick certamente parecia que não iria deixar sobrar nada naquela fritada. Comeu mais um pouco enquanto ele questionava sua carreira em St. Clavier. De fato, se aposentou novo da escola. Estava ainda pensando na resposta da primeira pergunta enquanto Patrick ainda estava na terceira. Acabou rindo das suposições dele.
- Não, não. Me aposentei por invalidez. – comentou, então terminando de comer seu pedaço de fritada. – Eu tenho uns pedaços a mais e uns a menos do meu tempo na África. – falou, então estendendo o pé para o lado e mostrando uma cicatriz enorme junto de um pedacinho que parecia estar faltando. – O ritmo das aulas não era horrível, mas fui ficando mais velho, então começou a doer mais passar o dia inteiro em pé. Fora que tenho problemas de sono, então quando estava muito preocupado com prazos e provas, quase sempre ficava exausto demais para trabalhar. Pedi uma avaliação médica e ele disse que eu fosse descansar. – sorriu.
Então levantou devagar, pegando seu prato e retirando da mesa, colocando na pia sem derrubar ou tropeçar, o que era até uma novidade boa para Enzo.
- Já o conselho de moradores abre espaço facilmente para quem tem comércio em Cerise, de qualquer tipo. E recebemos umas isenções de taxas sobre imóveis, o que me ajudou muito. E tudo que eu tenho que fazer é conversar com ex-alunos, votar e propor coisas para a melhoria da cidade. Conversar é o que eu faço de melhor. – admitiu, pegando a panela da fritada vazia e levando para a pia também. – E você? Nasceu em Cerise? Conte um pouco da sua história também, Patrick.
Patrick
Apoiou o queixo sobre o próprio joelho com a perna flexionada na cadeira em que estava sentado, observando o mais velho enquanto ele narrava a própria experiência como professor de garotos riquinhos. Baixou o olhar para a cicatriz da perna dele, concluindo que pela idade e profissão, era esperado que ele tivesse mais de uma história envolvendo cicatrizes para contar. Terminou sua porção da fritada no processo, satisfeito com a ideia de conseguir colocar algo gostoso, temperado e quente no estômago. Acompanhou o sujeito enquanto ele seguia até a pia.
- Minha história…? - repetiu, o garfo ainda na boca. Coçou as próprias costas antes de remover o garfo da boca para tentar equilibrar o utensílio entre os dedos, distraindo-se no processo, preguiçoso demais pela manhã. - Eu cresci em Cerise no orfanato da Igreja. - afirmou, ciente de que se ele morava ali há tanto tempo deveria saber sobre o orfanato mantido na cidade pela Igreja principal. - Consegui juntar minhas coisas na época e arrumar uma carona pelo trem até Paris. De lá, eu comecei a viajar pela Europa. De vez em quando eu conseguia juntar uns trocados, conheci umas pessoas interessantes, aprendi alguma coisa aqui e ali… - deu de ombros, como se pensar no passado não fosse exatamente um passatempo para si. - Daí eu fiquei sem dinheiro e resolvi voltar. - suspirou, conformado. Ainda se arrependia da ideia estúpida de voltar para aquela cidadezinha de interior francês.
Levantou-se da cadeira com a frigideira e o garfo em mãos, seguindo até a pia para colocar os itens sobre a bancada. Estendeu a mão para pegar a esponja e o sabão, usando as costas de uma das mãos para afastar o próprio cabelo assanhado da cara.
- Pode deixar, eu lavo. - avisou sem sequer olhar diretamente para o sujeito. Ainda se perguntava sobre quando ele iria lhe expulsar dali. Já estava bem recuperado da maioria dos machucados que tinham lhe colocado no hospital. Talvez o homem pensasse que era algum tipo de viciado ou coisa do gênero. Fazia dias que não tinha notícias de Fleur, Arman, Annabelle e da menininha que ela havia arrumado de pepino para cuidar. Estava preocupado em como a mulher estava lidando com a responsabilidade de criar uma menininha como aquela sozinha. Ao mesmo tempo, tinha receio de sair e acabar topando com o sujeito oriental ou com alguém do grupo dele que poderia facilmente lhe reconhecer pela aparência magra e os cabelos ruivos.
Enzo
Bom, se ele tinha morado no orfanato, era possível que ele tivesse nascido em Cerise e sido abandonado. Ou quem sabe por um turista. De todo modo, se ele estava bem resolvido sem pais, não se incomodaria com isso. Todo mundo tinha uma história. A diferença é que a medida que Patrick continuou contando sua volta na Europa, notou que ele não entrava em detalhes específicos. Se ele tinha se envolvido com criminosos, então era provável que também tinha feito trabalho criminoso. Mas se ele conhecia Fleur e ela não se incomodava com ele, era provável que não fosse algo que lhe incomodaria.
- Ahh. É um rapaz misterioso, então. – Enzo brincou, concordando que ele lavasse os pratos. Deixou que o outro saísse da mesa, acompanhando-o e virando a cadeira para que continuassem conversando como antes.
Começou a assumir que o fato dele conhecer muita gente diferente e ter tido uma vida difícil tinha contribuído para a personalidade fechada. Não que fosse fácil se abrir para um estranho que conhecia há poucos dias, mas se ele estava aos seus cuidados, que ao menos se desse o trabalho de dizer que não tinha passagem na polícia por homicídio.
- Eu me pergunto o tipo de habilidades que tem. Estou precisando de um ajudante que saiba fazer o trabalho geral de limpeza, que possa me ajudar com as plantas nos vasos na frente da pousada e que esteja disposto a aprender a cozinhar. – o mais velho comentou, cruzando as pernas para ficar mais confortável. – Seria bem conveniente se você soubesse fazer tudo isso. Iria ajudar muito ao redor da pousada. – o senhor pareceu pensativo sobre a própria proposta.
Patrick
Não se considerava tão misterioso assim a julgar pela própria vida cheia de dúvidas das quais jamais imaginava ter as respostas. Mas tal como havia crescido em um orfanato, passou anos se perguntando sobre o que acontecia a si mesmo, por que não conseguia ser adotado, ou por que seus pais haviam lhe abandonado, ou por que as irmãs implicavam tanto com seu comportamento. Enfim, aprendeu a só aceitar o que não conseguia mudar e seguir em frente com a própria vida. Não podia dizer que havia construído nada até então, pelo menos não material, mas também não era como se estivesse trabalhando para mudar aquilo. Só queria uma boa cama para dormir, comer boa comida e poder fazer alguns truques de vez em quando.
Fez uma pausa enquanto ensaboava os itens na pia, voltando a atenção para olhar sobre o ombro para o sujeito mais velho que falava sobre o trabalho vago na pousada, sentado e pensativo. Arqueou uma sobrancelha antes de rir da cena, voltando a ensaboar a louça. Já era a segunda pessoa em Cerise que sequer lhe conhecia, mas já lhe oferecia trabalho.
- Eu sei fazer muita coisa e o que eu não sei fazer, eu aprendo rápido. - respondeu, buscando o pano de prato daquela pia para secar as mãos enquanto voltava sua atenção para o sujeito. - Mas… o senhor está mesmo me oferecendo um trabalho aqui? - questionou, descrente de que o homem não pudesse encontrar ninguém melhor para aquele tipo de serviço na cidade. Contudo, era uma oportunidade perfeita de se recuperar em um ambiente limpo, com um teto sobre sua cabeça, com comida e uma boa cama.
Desviou o olhar por um instante, afastando o pensamento de que o sujeito que havia lhe colocado no hospital, ou o grupo dele, poderia lhe encontrar ali. Precisava juntar um pouco de dinheiro e ir embora. Isso mesmo. Era um bom plano. Trabalhar ali, juntar alguns trocados, ficar abaixo do radar da polícia como sempre, e depois pegar o trem e sumir da cidade. Cruzou os braços, pensativo também. Ele estava lhe oferecendo um trabalho e iria lhe pagar ou acabaria trabalhando ali para cobrir o teto e a comida que recebia?
- O senhor deixaria eu ficar aqui enquanto faço esses trabalhos para o senhor? - perguntou em tom de pedido. O homem já havia salvo sua vida, lhe acompanhado no hospital e ainda deixava que se recuperasse na casa dele. Não seria justo com um velho como ele, aposentado da sala de aula, que ainda cobrasse pelo trabalho feito. Havia outras formas de ganhar dinheiro na cidade. Ter onde morar já era um bom começo para o seu plano de sumir de Cerise de novo.
Enzo
A pausa de Patrick fez Enzo cruzar os braços em cima da mesa. Não deveria ser tão difícil de acreditar que tinha um espaço vago para um funcionário em uma pousada gerida por um homem de idade mais avançada. Bem sabia que não era prudente oferecer a vaga para um rapaz que tinha conhecido em situação como aquela – afinal, nem sabia todos os entornos do caso dele aparecer apanhado e violentado, largado para morrer em uma praia – mas não era como se já não tivesse se metido em situação pior na vida. Acabou rindo.
- Bom, eu não teria dito nada se fosse pra lhe fazer só criar expectativas. – respondeu, como se isso deixasse claro que estava oferecendo um trabalho para o ruivo. – Mas se quiser escrever um currículo formal, eu até ficaria feliz em saber quais as suas habilidades de fato, e resolver um pouco do seu mistério, Patrick. Mas pra mim você parece o tipo que desde que tenha uma casinha confortável, água e comida, certamente cumpriria naturalmente com sua função. Até escolher outra casa mais confortável. – comentou, sorrindo largo. – Eu só não tenho certeza ainda se você é um vira-latas doméstico ou se tem sangue selvagem aí. Mas isso só posso descobrir com o tempo.
A ideia de Patrick, entretanto, talvez fosse um pouco diferente da sua. Ele pretendia trabalhar pelo teto e comida, o que lhe levava a acreditar que provavelmente já tinha feito isso em outras ocasiões. Mas não tinha a intenção de deixar aquela relação tão íntima assim, apesar de ter se disposto a ajudar o ruivo. Queria ter motivos para cobrar dele um bom serviço.
- Na verdade, eu tinha intenção de lhe pagar o salário mínimo, que é o que pago quando contrato ajudantes no verão. Aí faria o abatimento de um aluguel para o quarto que você está usando e da comida. Ainda sobraria algum dinheiro para lhe pagar, mas não seria muito. –comentou, sendo bem honesto nessa questão financeira. – Aí eu só formalizaria um contrato e você estaria trabalhando pra mim nessas condições. Não é ruim. E se tiver muito o que fazer na pousada, possível até que poupe algum dinheiro.
Patrick
O homem estava realmente falando sério sobre a oportunidade de trabalho. Baixou o olhar, voltando a refletir sobre a situação. Era difícil de acreditar que estava recebendo aquele tipo de oferta pela segunda vez na cidade. Ergueu o olhar para observar o senhor de novo quando ele falou sobre escrever um currículo. Acabou rindo com a frase, considerando que não escrevia nada há muito tempo, muito menos um currículo. Bem, não podia dizer que ele estava errado ao seu respeito. Não era como se estivesse planejando passar o resto de sua vida naquela pousada. E certamente o velho poderia contratar pessoas melhores que ele para o cargo. Era cômico aquelas observações do sujeito ao seu respeito, como se fosse algum tipo de animal.
Descruzou os braços e jogou o pano de prato sobre o ombro ao ouvir a ideia do mais velho sobre lhe pagar um salário mínimo. Bem, a lógica dele parecia simples e justa, mas boa demais para alguém que só esperava ter um lugar onde dormir e o que comer. Encarou o homem de fios grisalhos, sério. Será que além de seu salvador, ele queria ainda lhe dar aquela ótima oportunidade de ter onde se recuperar e ainda ganhar dinheiro de uma forma honesta? Aquele sujeito era o quê? Um santo?
- Parece uma ótima oportunidade. Como é que eu posso recusar uma oferta dessas? - sorriu discreto, voltando sua atenção para a louça que havia deixado ensaboada e no meio do processo de ser lavada. - Só precisa do meu currículo? Assim que terminar aqui, eu faço um pro senhor. - concordou, afinal de contas, até Enzo descobrir seu registro na polícia com pequenos furtos na área mais perigosa de Cerise desde quando era um adolescente, e as abordagens por ser suspeito de vadiagem em outras áreas da cidade. Claro que ele poderia descobrir aquilo tudo sozinho, enquanto aproveitava do conforto que aquela pousada poderia lhe proporcionar enquanto se recuperava dos seus machucados, o que era a parte mais importante para continuar ali.
Terminou de lavar a louça, deixando-a para secar ao lado da pia após limpar a mesma. Secou bem as mãos antes de pendurar o pano de prato para enfim começar a procurar alguma folha e caneta na pousada para começar a fazer seu tal “currículo”.
- Já que vai me contratar, já quer começar me dizendo o que precisa que eu faça… patrão? - perguntou ao mais velho ao voltar a procurar por ele, considerando que ele de fato seria seu patrão e sua figura só um empregado da pousada. Não havia deboche ou sarcasmo em sua voz. Apesar do cenário inusitado, era de fato grato pelo homem ter salvo sua vida.
Enzo
Não era estranho que Enzo contratasse temporários. A pousada não era muito grande e nem tinha muitos quartos, mas tinha que considerar que já tinha 55 anos e sua energia para limpeza já estava em baixa. Gostava de cozinhar, conversar e receber pessoas, mas todas as outras tarefas podiam ser delegadas. Até que teve bons funcionários durante certo período de tempo, mas ou seu azar os afastava, ou seus modos os afastavam. Em geral as pessoas se assustavam com o quanto de acidentes domésticos poderiam acontecer com uma pessoa só. E embora fosse mais controlado com mulheres, suas histórias não eram exatamente contos para uma mesa de jantar. Alguém como Patrick que não lhe dava muita atenção era o tipo ideal para trabalhar ali.
Sorriu contente com o fato dele aceitar a proposta, porém, não era tão idiota para não saber que um gato de rua tinha hábitos de gato de rua. Nas condições que tinha achado Patrick, já imaginava com que tipo de pessoa ele andava envolvido, ou com que tipo de coisas. Só estava dando o benefício da dúvida a ele. Pelo menos enquanto o abrigava.
- Mas Patrick... não precisa mentir no currículo, está bem? Eu não vou retirar a proposta. E saber exatamente o que você sabe fazer vai me dar uma noção de que serviços posso lhe oferecer. – Enzo falou calmamente, dando uma dica de que ele poderia encontrar papel detrás de um balcão que o mais velho geralmente utilizava para registrar as pessoas que estavam ali como hóspedes. Ainda sentado, pensou em se levantar, mas assim que afastou a cadeira, Patrick pareceu voltar até a cozinha já lhe chamando de patrão. Enzo abriu um sorriso. – Pra começar, não me chame de “Patrão”. Monsieur Burnell é suficiente. E segundo... que tal se formos dar uma volta no supermercado? Você precisa de algumas coisas, e eu preciso de alguém pra carregá-las, sim?
[Prefere encerrar ou continuar? :3]
Patrick
Arqueou uma sobrancelha, estranhando a forma defensiva do homem lhe alertar sobre sua própria capacidade de mentir no currículo. Na verdade, sabia fazer muitas coisas, inusitadas até, como ler a sorte em cartas ou cuspir fogo com alguns truques que havia aprendido com o circo, mas não imaginava que aquilo fosse interessar o mais velho.
Sentou-se à mesa para poder começar a escrever seu currículo, repleto de erros ortográficos e com a caligrafia de quem não costumava praticar a escrita. Ao menos não fez questão de colocar o nome artístico no papel, usando o sobrenome que havia conseguido no tempo que havia sido acolhido pelo orfanato. Patrick Busson. Ergueu o olhar da própria folha, concordando sobre chamar o mais velho de monsier ao invés de patrão. Contudo, quando ele ofereceu que saíssem dali para ir ao supermercado, parou de escrever, ponderando sobre deixar aquela residência.
- Claro, monsieur. - respondeu apenas, considerando a possibilidade de sair daquela pousada até o supermercado e acabar topando com o sujeito responsável por seu quase óbito, ou algum dos comparsas dele. Embora tivesse seus receios, não julgou que seria adequado com o homem que estava lhe dando comida e um teto sobre sua cabeça, negar uma mera visita ao supermercado.
Terminou se escrever o que sabia fazer, algumas coisas básicas como limpar, lavar, passar, cozinhar, a maior parte do serviço doméstico, o que deveria interessar ao sujeito. Deixou o que realmente sabia fazer com êxito como furtar produtos ou realizar truques de ilusão e mágica em segredo. Imaginava que o sujeito já tivesse alguma ideia do tipo de sujeito suspeito estava colocando dentro da própria residência, mas não era como se tivesse alguma inclinação para roubar o homem. Pelo menos, não havia nenhum desejo de furtá-lo e ir embora dali naquele momento. Ainda estava se recuperando dos machucados, de qualquer forma.
Levantou da cadeira na cozinha e estendeu a folha de papel cuja letra mais parecia ter sido escrita descendo uma ladeira imaginária e encarou o mais velho.
- Tem algum problema se eu for assim? - questionou, dobrando o joelho e mostrando a calça que havia sido dobrada, dois tamanhos maior que seu tamanho no estado magro em que estava. Imaginava que para o mais velho aquilo não deveria importar, mas não custava nada destacar aquele detalhe. - E eu não tenho sapatos. Tem problema se eu for descalço? - realmente não se importava de andar descalço por aí, havia passado muito tempo nas ruas para se importar com pequenos desconfortos como aquele.
Enzo
Supunha que Patrick nunca tinha escrito um currículo na vida, mas desde que soubesse o que ele tinha de habilidades, não lhe importava que ele tentasse de fato fazer um currículo com papel e caneta completamente improvisado. Entretanto, como ex-professor admitia que a letra de quem não estava acostumado a escrever e a ladeira que elas faziam no papel não era exatamente agradável de ver. Mas não riu do rapaz, afinal, independente de ter êxito, ele tinha tentado atender seu pedido com muita presteza.
Deu uma lida no papel rapidamente, supondo que se ele fizesse serviços domésticos, não teria muitos problemas. Era até melhor para Enzo, pois facas e chãos molhados costumavam ser um problema. Ouviu a pergunta e olhou por cima do papel, vendo o rapaz com as roupas folgadas e os pés descalços, e novamente considerou a necessidade dele ter as próprias roupas.
- Não tem problema algum com suas roupas. Podemos comprar algumas peças do seu tamanho quando formos fazer compras agora. Só não posso lhe dar um guarda-roupa inteiro. Tenho uma boa renda, mas não sou um St. Clavier ou um Dupont. – comentou, então pensando o que fazer sobre os sapatos. – Se quiser, tenho algumas sandálias reserva no meu quarto. Pode pegar uma. Nenhuma está partida ainda.
Então pensou que talvez fosse melhor se pegasse as sandálias. Provavelmente uma criatura tão introvertida quanto Patrick Busson se sentiria acuada se abrisse seu armário e desse de cara com uma espingarda, descarregada ou não. Chamou o ruivo para que subisse para seu quarto, e rapidamente pegou e estendeu as sandálias para ele.
- Talvez não sejam do seu tamanho, mas são melhores que não ter sapatos.
Patrick
Encarou o homem com a sobrancelha arqueada quando ele falou sobre lhe comprar roupas. Ele já havia feito muito por sua pessoa, incluindo lhe emprestar as próprias roupas. Desviou o olhar ao ouvir o sobrenome da mulher que não via há um certo tempo. Não fazia ideia do que estava acontecendo na vida de Annabelle, mas esperava que ao menos ela tivesse lhe dado ouvidos sobre a adoção da menininha.
Concordou com o velho com um aceno positivo da cabeça, pensativo sobre as sandálias. Subiu até o quarto do senhor Burnell, observando o trajeto em silêncio. Encarou as sandálias oferecidas para sua figura e fez uma pausa antes de apoiar as costas na parede, calçando-as. Observou o tamanho um pouco maior, mas ainda assim agradável para que pudesse caminhar sem pisar descalço no chão.
- Obrigado, senhor, mas eu posso usar elas apenas quando não estiver aqui? Eu estou acostumado a ficar descalço, é… - fez uma pausa, coçando a própria nuca e desviando o olhar, refletindo se o homem entenderia o que estava prestes a explicar. - … é meio que um lance de energia. Eu me sinto melhor com os pés no chão. - explicou, imaginando que para trabalhar ali todavia teria de ficar calçado.
Passou a mão pelos fios ruivos, deslizando os dedos até a ponta dos fios, notando que o comprimento do cabelo estava precisando de um corte.
Enzo
As sandálias não ficaram de todo mal nos pés do rapaz. Na verdade, ele poderia utilizá-las sem tropeços. E considerando que não estavam em seus pés, provavelmente ele não teria nenhum tipo de acidente. Bem sabia que o problema não eram as sandálias, e sim o dono. Só atentou para a pergunta dele, erguendo as sobrancelhas sobre o lance de “energia” colocado por Patrick.
- É um tipo sorrateiro, Patrick? Entendo que as sandálias podem diminuir a sua furtividade, e nem me importo se vai usá-las, mas recomendaria, pois não é estranho que eu quebre copos e pratos por acidente. Pode ser melhor para sua segurança. – comentou, não dando detalhes de quantos pratos e copos havia perdido nas últimas semanas. Fechou o armário e então chamou o rapaz para lhe seguir. – Vamos?
Desceu as escadas e seguiu com ele em direção ao mercado, atento aos trejeitos do acompanhante. Os cabelos ruivos certamente lhe evocavam mamíferos, e embora ele estivesse abatido, o comportamento solitário e oportunista bem lhe lembrava uma fuinha. Para sua sorte, elas eram animais fáceis de domesticar, e caso ele melhorasse, talvez apresentasse um comportamento mais ativo. Cuidaria bem dele.
Ao chegar no mercado, prontamente pegou um carrinho. Olhou para o segurança, que prontamente olhou para a caixa, que prontamente olhou para a moça da limpeza, que segurou o esfregão como se sua vida dependesse disso. Enzo deu um aceno conformado para as reações dos funcionários, então voltou-se para Patrick.
- Pegue os seus essenciais e coloque aqui. Vou lhe acompanhar agora.
Patrick
Torceu os lábios em um sorriso por educação quando ele perguntou se era algum tipo sorrateiro. Não entendia o que ele queria dizer com pratos e copos quebrados. Ele estava achando que não conseguia lavar a louça sem quebrar nada? Bem, só quando estava bêbado que corria esse risco, mas tomando os remédios para sua recuperação, o pessoal do hospital havia lhe proibido de ingerir álcool. Concordou com o mais velho, seguindo-o para as compras no mercado.
Passou a mão pelos cabelos rubros, desejando que pudesse usar algum chapéu e quem sabe não ser visto nas ruas por qualquer um dos ajudantes do miserável que havia atentado contra sua vida. Andou mais próximo do homem mais velho, desconfiado com as pessoas que encontrava na rua. Por um instante, ficou um pouco mais para trás, observando a altura de Enzo, tal como a proporção dos quadris dele e onde guardava a carteira. Ele deveria ser mais atencioso sobre onde guardava o próprio dinheiro. Desviou o olhar assim que passaram pelo segurança do mercado, coçando a nuca, passando para seguir lado a lado com o dono da pousada.
- O senhor vai descontar tudo isso do meu trabalho, não vai? - perguntou, passando para as araras de roupas de mercado, procurando as peças escuras mais em conta. Gostava de tons negros e cinzas, eles costumavam ser mais quentes para alguém que passava mais tempo na rua que fora dela. Pegou uma calça jeans escura e uma camiseta preta, ponderando sobre os pacotes de cuecas em promoção antes de jogar um no carrinho com o modelo boxer em cores branco, cinza e preto, tal como um par de meias cinzas. - O senhor não vai comprar nada para si mesmo? - questionou, arrumando o próprio cabelo antes de colocar um boné preto ainda com a etiqueta da marca do mercado. Se iria levar a peça, não incomodaria usá-la de pronto.
Fez uma pausa ao passar pela sessão de acessórios para casa, encarando os modelos de travesseiros e cobertores para cama, recordando de como era agradável poder dormir pela manhã em uma cama de verdade na pousada. Passou a mão pelo próprio rosto, lembrando-se que precisava comprar um barbeador e produtos de limpeza pessoal. Desconfiava que seu novo patrão não gostaria de dividir produtos pessoais com ele, afinal de contas, costumava viver nas ruas. Ainda não estava muito certo do motivo do senhor de idade estar lhe fazendo toda aquela caridade, mas achou melhor não questionar e aceitar de bom grado enquanto podia aproveitar.
Passou pelo setor de maquiagem e deu uma breve observada nos produtos, considerando que quando tivesse algum dinheiro em mãos, poderia pensar em coisas mais específicas. Acabou se agachando para escolher alguns sapatos, erguendo o olhar para observar o mais velho ainda com o carrinho de compras, pensativo. Será que ele notaria se furtasse algo? Encarou o sujeito por mais tempo do que gostaria, levando as mãos para as próprias costas em um tique nervoso ao coçar os dedos, preferindo não abusar da boa sorte que seu salvador estava lhe dando.
Enzo
Enzo empurrou o carrinho pelo supermercado com cuidado, vendo as escolhas de Patrick que certamente eram como se fosse equipamentos para enfrentar a rua, mais do que roupas para ficar em casa. E observou a escolha do boné. Certamente estava tentando se camuflar para evitar predadores. Os fios ruivos se destacavam demais.
- Não vou descontar totalmente. Considere 50% um presente. – Enzo comentou enquanto continuavam, olhando ao redor para ver se tinha algo que lhe interessasse, embora sua prioridade tenha sido certamente dar roupas usáveis para Patrick. – Oh, não, não. Eu prefiro não tocar em nada que não precise de verdade. Ainda estou pagando meu último prejuízo.
Olhou para o carrinho cheio de roupas pretas, e imaginou que sendo um homem, e francês, Patrick precisaria de alguns produtos de higiene pessoal, já que a única coisa que poderia dividir com ele, se quisesse, era a colônia. Porém, notou um leve tique na mão de Patrick e a demora dele para escolher um sapato, e então ergueu as sobrancelhas, percebendo um comportamento atípico daqueles que tinha observado e podia quem sabe atribuir a um tipo de cleptoparasitismo. Enquanto Enzo ainda nem tinha comprado os itens, ou seja, ainda não tinha abatido a presa, Patrick, em seu instinto de sobrevivência, provavelmente estava pensando em como adquirí-los.
- Eu tenho dinheiro para pagar o que precisa, Patrick. Considere que é parte de uma relação simbiótica agora. Somos interdependentes. Eu diria que é uma relação de comensalismo. Embora você ganhe muito mais do que eu, não estou sendo prejudicado por lhe dar alguns presentes. – Enzo comentou, começando a empurrar o carrinho. – Mas as pessoas do supermercado não gostam de mim. Não dê mais motivos para elas gostarem menos ainda.
Olhou para Patrick enquanto tentava convencê-lo, e não percebeu quando a roda do carrinho travou, guidando o mesmo em direção a uma pilha de latinhas de conservas, fazendo Enzo levar pelo menos uma fileira inteira antes de ver o que estava fazendo e parar. Só que isso desestabilizou as latas, e as fileiras mais acima começaram a desmoronar, caindo dentro do carrinho ou amassando no chão com força.
- Oh não.
Patrick
Estranhou quando o senhor de idade disse que iria lhe dar metade do valor das coisas que escolhia de presente. Franziu o cenho quando o velho começou a lhe explicar que tinha dinheiro para pagar o que ele precisasse justamente quando estava pensando em furtar alguma coisa para não precisar dar mais despesa para o homem. Arqueou uma sobrancelha sem entender muito bem o que ele queria dizer com simbiótica ou comensalismo. Tinha certeza que já havia ouvido aqueles assuntos em algum lugar, mas pareciam bem complexos, portanto associou que deveria ter alguma conexão com o trabalho da época que ele não era aposentado - porque com aquela perna, sozinho, imaginava que o homem fosse aposentado.
- Isso quer dizer-- cuidado! - estava prestes a perguntar sobre os interesses do homem quando ao voltar a atenção diretamente para ele, notou a tragédia que estava prestes a acontecer.
Rapidamente, tratou de saltar para segurar algumas das latinhas ou de amortecer a queda de algumas delas com seu corpo para que nem toda a comida em conserva se perdesse. Comida era um assunto sério e jogar fora as latinhas amassadas era sempre um golpe em seu estômago. Contudo, naquele momento, as latinhas que estavam dando golpes em seu estômago. Gemeu baixo com o incômodo que se seguiu pelo impacto com o chão e os objetos que caíam. Não que não estivesse acostumado a dor, mas ainda estava se recuperando e o baixo peso não lhe ajudava.
- Ughn… ! Mas que merda, vel--
Fez uma pausa, pensando duas vezes no que ia dizer e engoliu o insulto, considerando que discutir com o velho não seria adequado e nem justo, considerando que ele estava lhe presenteando até demais ali. Sentou-se, afastando as latinhas caídas com cuidado para não amassar nenhuma e se levantou, arrumando o boné na própria cabeça.
- O senhor… está bem? - estendeu a mão de dedos agora mais magros para tocar o braço do grisalho, certificando-se que nenhuma latinha tivesse caído nos pés ou sobre o homem mais velho. Olhou melhor para o homem antes de se afastar, considerando que para um sujeito de cabelos já esbranquiçados, até que ele não estava tão mal de forma. - Eu… posso arrumar isso, não se preocupe. Já trabalhei empilhando cartas de baralho. Isso deve ser brincadeira de criança. - sorriu por educação antes de tomar coragem para arrumar a bagunça causada no estabelecimento. Queria perguntar se ele era algum tipo de sugar daddy de outras pessoas ou se deveria apenas acreditar na bondade sem segundas intenções do sujeito.
Enzo
Enzo até achou que ouviria mais barulhos de latinhas, mas ouviu foi Patrick caindo no chão e assistiu enquanto algumas até caíam sobre ele. Era uma mudança bem peculiar do usual, para quem estava acostumado a receber todos os golpes da má sorte. Só queria que nada tivesse caído nos machucados do pobre rapaz. Fez uma cara feia, mas logo voltou ao normal quando Patrick quase chegou a lhe xingar, depois se recorrigindo para lhe tratar bem. Ele não mordia a mão que alimentava, e isso era bom.
- Estou bem, estou bem. Vou lhe ajudar com isso, não se preocupe. E desculpe os golpes indiretos. – Enzo sorriu, então abaixando para pegar algumas das latinhas, dando uma olhada se estavam amassadas antes de colocar de volta no mostruário em que estavam. – E você, está bem, Patrick? Espero que não tenha magoa-
- Solte essa latinha, seu Burnell!! – uma senhora com um esfregão na mão gritou, ralhando com o velho. Certamente trabalhava na limpeza. – Onde já se viu, toda santa semana! Faça compras do mês! Do mês! Eu já tenho trabalho o suficiente nesse supermercado sem você bagunçando tudo! Ahh, mas se eu pegar você andando perto dos vidros, seu...!! E você, larga esse negócio, rapaz! Vão comprar, xô, xô! Tenha santa paciência! – ela reclamou, tomando uma latinha da mão de Enzo e sacudindo a mão para que eles saíssem.
- Oh, senhora Giry! Desculpe pelo inconveniente novamente. Prometo que vou ficar longe das conservas... e das bebidas... e dos pratos... – Enzo listou. A senhora apenas ergueu uma sobrancelha para ele. – E das televisões. – ela então sacudiu a cabeça, deu um suspiro e começou a organizar tudo. – Bom, vamos, Patrick?
Enzo chamou o rapaz, caminhando em direção ao carrinho novamente para pegar as compras até então, porém, não percebeu uma das latinhas ainda no caminho, pisou nela e desequilibrou, caindo para trás em um baque alto, batendo com a cabeça no chão.
Patrick
Estava pronto para responder o senhor que lhe acompanhava como se fosse um adulto incapaz de realizar tarefas sozinho. Estava se recuperando ainda dos machucados em seu corpo, então não reclamou, mas tinha certeza que o velho precisava de um banho de sal grosso. Levantou-se devagar, observando a senhora que dizia para o mais velho largar a latinha amassada. Concordou com o mais velho, seguindo o homem apenas para assisti-lo cair alguns metros depois.
Encarou o mais velho no chão e suspirou, aproximando-se para poder estender as mãos para ele, puxando-o para que ficasse de pé novamente. Estava dolorido ainda, mas estava acostumado a lidar com a dor no próprio corpo. Segurou o antebraço do homem, cruzando sua mão com o braço alheio, apoiando-o.
- O senhor sempre cai tanto assim ou é só por que eu estou aqui? - sorriu discreto, não resistindo à brincadeira. - Eu acho que já peguei as roupas que precisava. Posso levar uma escova de dentes e um desodorante? No verão é muito difícil ficar cheirando bem. - explicou, pouco incomodado em andar de braços dados com o mais velho, apesar de alguns olhares serem perceptíveis. Contudo, imaginou que o clima fosse mais preocupante pela falta de equilíbrio do senhor Burnell.
Enzo
Estava pensando que o chão era um bom lugar para começar a ficar enquanto Patrick estava passeando no supermercado. Mas sabia que eventualmente seria atropelado por um carrinho. Soltou um longo suspiro, e no meio tempo, o rapaz veio em seu socorro, lhe levantando pelos braços sem muita delicadeza.
Estava com a cabeça doendo, mas até conseguia rir da brincadeira de Patrick. Ele não tinha sido tão espirituoso até então.
- Eu nunca decidi se sofro mais efeito dos belos espécimes ou da gravidade. – comentou de volta, batendo a roupa para voltar a se sentir mais ou menos arrumado. A mulher da limpeza passou lhe encarando no outro corredor. Patrick só estava ali ainda para lhe perguntar sobre os itens básicos. – Oh, mas é claro, rapaz. Fique a vontade. Pode comprar o que precisar, desde que não seja o valor da entrada de um carro.
Confiava que Patrick iria comprar apenas o necessário, afinal, era mais vantagem ver e controlar Patrick do que deixá-lo com o dinheiro. Aí sim podia considerar um tremendo azar.
Patrick
Arqueou uma sobrancelha com o comentário dele sobre “belos espécimes”. Não sabia o que havia de belo em um homem abaixo do peso, cheio de escoriações e com uma cicatriz ainda no processo de cicatrização. A única resposta plausível era que o velho era um homem louco ou bem solitário para lhe tratar daquela forma.
- Nisso está com sorte, senhor Burnell. Não tenho gostos caros. - respondeu ao senhor, ainda seguindo com ele segurado por seu braço, apoiando-o. Escolheu os itens que precisava sem muita demora. Estava acostumado a escolher os itens no mercado pelo preço e não pela qualidade. Às vezes, escolhia os itens pelo que era mais fácil de ser furtado, mas não era aquilo que faria na presença do mais velho. Talvez quando estivesse saudável novamente e sem dinheiro, o que era uma certeza em sua vida.
Seguiu para o caixa e esperou, tal qual alguém dependente do mais velho, que ele pagasse suas contas. Longe dos corredores, baixou a cabeça, cobrindo os cabelos rubros com o boné, certificando-se de que ninguém lhe reconheceria ali. Não queria ser visto nas ruas tão cedo, ou menos não até recuperar sua saúde para ir embora do buraco que era aquela cidade no interior francês.
Esperou pelo senhor Burnell para carregar as compras, oferecendo o braço para o mais velho se apoiar como um novo reflexo. Era melhor que ele andasse segurando em seu braço de moribundo quando ainda tinha reflexos o bastante para segurá-lo ao invés de deixá-lo cair a cada vinte passos no chão. Talvez tivesse alguma ligação com o problema na perna do homem, mas não queria entrar naquela conversa. Geralmente falar das cicatrizes alheias sempre retornava a conversa com perguntas sobre suas próprias marcas. Queria esquecer como havia arrumado suas novas cicatrizes.
Enzo
- Então nos daremos muito bem, meu rapaz! – Enzo respondeu, dando uma risada boa sobre o gosto barato do outro. Era bom saber que não gastariam muito dinheiro.
Seguiram para o caixa e assim como uma criança, pagou tudo que tinha que pagar para Patrick. Notou que ele tinha tentado se esconder das pessoas, mas talvez com o tempo se acostumaria a vida de não precisar fugir das pessoas. Deveria ter arrumado tanta confusão por aquela área quanto o próprio azar do Enzo.
O mais velho levou a mão livre ao boné que cobria os cabelos ruivos e fez um afago carinhoso, como se estivesse lidando com um garoto. Pelo menos ele estava agora com os itens básicos, e tinha força para carregar as compras e ainda lhe carregar. Até se sentia leve. Muito leve.
- Já está me dando sorte estar com você. Se não tivesse você para me apoiar, voltaria mancando pra casa. – comentou com um sorriso. – Mas acho que antes de voltarmos ainda temos que fazer uma parada. Que tal um band-aid na farmácia? – falou, levando a mão até a parte da cabeça que tinha batido, sentindo que havia algo de errado ali. Só que ao invés de encontrar um galo, viu umas manchinhas pequenas de sangue na ponta dos dedos. – Ora. Vai ter que ser uma gaze. Hahahaha!
[Thread encerrada]

