09-22-2021, 05:03 PM
Diodoro
Diodoro estava acostumado com o trabalho solitário, desde preparar papelada à embalsamar, à fazer a faxina, exceto quando Brigida tinha algum cliente para atender ou ex-cliente para buscar com o carro funerário. Para isso, tinham um funcionário extra, que só fazia o serviço de transporte. Agora, entretanto, tinha mais do que motivos para não ver a irmã no trabalho, ela que tinha protestado bastante com a nova contratação de Diodoro sem consultar ninguém da família, e ele, o novo funcionário, que era a presença estranha dentro da funerária.
Mas não era ruim. Ter Xavier ali era diferente das visitas ocasionais de seus amigos em horas inoportunas, e embora não conversassem muito, e ele não tivesse tempo o suficiente no trabalho para ver nenhum caso complicado que fizesse ele desistir de estar em uma funerária, Diodoro se sentia um tanto menos sozinho no silêncio de estar do ladinho do cemitério.
Entretanto, Xavier era seu funcionário, e de vez em quando sentia falta dos amigos. Natalia tinha retornado, e inteira, muito para sua satisfação. Karen ocasionalmente estava em seu apartamento, uma coisa a qual ainda tinha que se acostumar por completo. Só faltava Hanna. Mas conhecendo Hanna – de quem sabia muito menos do que dos outros dois, que eram pessoas genuinamente perigosas, talvez – ela deveria estar bem. Do pouco que entendia dela, notava que ela não se abalava com muito. Na verdade, o interesse dela era mais provocar? De todo modo, a preocupação breve até existiu. Mas logo foi negligenciada em prol de separar boletos por ordem alfabética.
Deveria mesmo ter um sistema de controle no computador, assim como Hanna disse.
Xavier/Hanna
Xavier tinha achado uma oportunidade estranha depois de muita confusão com um agente funerário que gostava de se fantasiar de assassino mafioso, talvez fosse moda no ramo. Era irônico pensar que ele não queria se vestir daquele jeito nem parecer um criminoso, mas a sua cara de poucos amigos já tinha lhe levado para maus bocados. Então talvez ele só se encaixasse muito bem fazendo trabalhos gerais naquela funerária numa pequena cidade do interior. Era mais calmo do que o porto, com certeza, às vezes, calmo até demais.
Nos primeiros dias em que começou a trabalhar na funerária, ele descobriu que o lugar era muito silencioso não só por envolver gente morta, mas até o agente funerário parecia meio morto e falava muito pouco. Das poucas vezes que tinha recebido instruções do que fazer e do que limpar, ele era tão objetivo que Xavier não entendia o que era para fazer até ouvir mais verbos numa sentença.
Era bom, ao menos, trabalhar no horário comercial, assim ele não precisava se preocupar com aqueles calafrios estranhos quando passava na entrada da sala em que eles embalsamavam os corpos, e numa cidade pequena como Cerise, não devia haver muitas vítimas estranhas para chegarem ali.
Mas nem tudo eram flores trabalhando naquele lugar com a situação familiar que tinha. Depois de ter que tomar conta do pai descontrolado numa longa noite cansativa e uma manhã ainda mais exaustiva, ele só conseguiu chegar ao novo trabalho no período da tarde, oferecendo os serviços até mais tarde na noite para compensar o sumiço pela manhã. Ao menos ele estava com a cara inteira naquele dia.
O serviço até o fim da noite foi cansativo, já que ele teve que limpar todos os caixões que estavam dispostos na parte da frente da funerária. Ao menos ele tinha passado longe da sala dos cadáveres, e quando finalmente terminou o serviço, a noite já ia alta. Diodoro tinha saído da mesa em que costumava ficar para o que Xavier imaginou ser o banheiro - ele tinha usado só uma palavra que o rapaz nem entendeu -, então Xavier apenas abriu a porta de entrada e deixou a chave de volta na mesinha, indo até a entrada do corredor para anunciar que estava de saída.
- Ei, chefe, tô saindo. - ele avisou, sem a menor pretensão de seguir pelo corredor e passar perto de cadáveres àquela altura da noite, mas ele não teve nem tempo de se virar, quando sentiu um calafrio intenso percorrer o corpo, seguido de um suspiro na nuca e finalmente, uma voz muito baixa e perto demais.
- Finalmente uma pessoa viva aqui…
A resposta foi apenas esperada. O grito de desespero irrompeu na funerária, seguido logo do pulo assustado de Xavier até bater num dos caixões que pendeu para o lado, caindo com um baque seco e alto no meio da funerária, convenientemente por cima de onde o rapaz caiu. Se o caixão estivesse aberto, ele já podia deitar e se considerar morto ali mesmo. Não ajudou em nada os olhos arregalados pousarem num fantasma com a cara ensanguentada pronto para lhe levar para o inferno com um sorriso digno do diabo.
- Ora, ora, e não é que você é bem vivo mesmo?
Diodoro
Depois de organizar todos os boletos, e de assistir enquanto seu novo funcionário diligente bem limpava os caixões, o café que tinha tomado até então bateu no seu sistema. Diodoro levantou só avisando que iria sair por um instante e foi até o banheiro, deixando as luvas de lado um instante para esvaziar a bexiga.
Mas enquanto achava que uma ida rápida ao banheiro seria um momento de paz, tudo que ouviu foi um berro desesperado, um baque enorme, Miro miando alto de susto em algum lugar e a surpresa foi tão grande que Diodoro quase aguou todo o chão do banheiro. Os olhos claros ficaram bem abertos, e o moreno se moveu rápido como dava para se mover do seu ritmo usual, depois de pelo menos lavar as mãos e pegar as luvas.
Quando chegou na sala, encontrou Xavier no chão, e a sua frente, Hanna, que há muito não via na funerária, com o lábio cortado como alguém que tinha se metido em encrenca novamente. Diodoro então passou a ajudar Xavier a se levantar rapidamente, e foi até seu paletó pendurado para pegar um lenço e gelo da pequena geladeira nos fundos, voltando com ele para o lábio da morena.
- Não assombre ele. – pediu com um tom suspirado, vendo o dano ao caixão que tinha caído no chão. – Estão bem? – perguntou aos dois, esperando que pelo menos ela estivesse viva e ele não tivesse morrido do coração. Só tinha uma maca livre.
Xavier/Hanna
O baque alto e a expressão de puro desespero do rapaz de cabelos descoloridos só colocaram um sorriso mais satisfeito em Hanna. Ela levou uma das mãos delicadas até os lábios, cobrindo-os, ao rir um pouco mais da situação do homem que parecia ter visto um verdadeiro fantasma. Tanto que ele não conseguiu nem reagir, o que deu espaço para que Hanna se curvasse na direção do homem mau-encarado.
- Eu posso levá-lo para o céu, sabia? - ela sorriu, levando a mão até o queixo de Xavier, que sentiu a ponta do dedo gelado tocando em seu rosto, o que lhe causou um tremor intenso e lhe fez ficar completamente sem reação. Antes que Xavier pudesse processar a voz de Diodoro chegando à sala e perguntando se estavam bem, ele sentiu o cenário rodar e desmaiou ali mesmo.
A única reação de Hanna foi rir do rapaz que desmaiou de susto, levantando-se para encarar Diodoro com uma expressão muito entretida no rosto.
- Olha só o que você fez, matou o rapaz de susto. - ela acusou Diodoro, passando por cima do caixão e de Xavier, para alcançar o agente funerário, estendendo as mãos para apoiar as duas sobre um dos ombros dele, o queixo nas mãos, olhando para um Xavier desacordado. - Que pena que ele desmaiou, teria sido bom uma diversão a três, hm? Estava sentindo sua falta, Diodoro.
Diodoro
Bem achou que Xavier estava com medo, mas não imaginava que sua presença fosse o suficiente para desmaiar o funcionário. Não era a toa que ele estava tão pesado, ele não tinha forças para manter a postura. E Hanna, delicada como ela, passou por cima do caixão caído e do corpo caído apenas para lhe cumprimentar de pertinho, o que arrancou um estreitar direto dos olhos do agente funerário.
- Parece entretida, Hanna. – Diodoro comentou, embora tivesse ficado um pouco sentido com a acusação dela de que ele tinha terminado de assustar Xavier. Não era mentira. Se você achava que via um fantasma e de repente também via um ceifador, claramente era demais. Suspirou longamente, então, puxou o descanso para pés embaixo de sua mesa para elevar as pernas de Xavier, e pegou seu blazer para dobrar e amortecer embaixo da cabeça dele. – O papel. – apontou para ela o papel em cima da mesa, que queria que ela pegasse para abanar Xavier.
A última coisa que queria era ter que tentar levantar o rapaz com Hanna para levar até a maca. Ele provavelmente ficaria ainda mais chocado se acordasse de um desmaio numa mesa onde deitam gente morta.
- Está bem? – perguntou a morena, depois de cuidar de Xavier primeiro.
Hanna
Hanna só sorriu mais largamente quando Diodoro apontou como ela parecia entretida, o que não era mentira. O rapaz medroso tinha lhe divertido naquele fim de noite frustrante que ela tivera. Pegou o papel que Diodoro tinha indicado, mas não fez nada com ele, começando a mexer nos itens em cima da mesa na funerária enquanto Diodoro arrumava um apoio para as pernas do rapaz na esperança de que ele acordasse.
- Você podia tentar jogar água fria nele, acho que é o suficiente para acordar. - ela sugeriu, passando os dedos pela superfície da mesa e andando a esmo na sala. Ela deu de ombros quando ele perguntou se estava bem, com o vermelho do sangue no canto do lábio, era pelo menos um indicativo de que não estava completamente inteira. - Melhor agora que me diverti um pouco. Quem é o rapaz? Namorado novo? O que fez com o grandalhão de cicatriz?
Ela puxou a cadeira da mesa de trabalho de Diodoro para se sentar, cruzando as pernas e ficando numa distância segura da vista do rapaz, caso ele acordasse para se assustar com a sua tez naturalmente pálida.
Diodoro
Quase revirou os olhos quando Hanna pegou o papel e não fez absolutamente nada com ele, apenas dando uma volta na sua mesa e tentando achar alguma coisa nova com que brincar, agora que o brinquedo humano estava desmaiado. Diodoro aproximou-se da menina, segurando o rosto dela um pouco para cima para limpar o rastro de sangue da boca com o lenço com gelo que tinha buscado anteriormente. Pressionou o mesmo longamente contra o corte no lábio dela, e então, puxou a mão da garota para fazer o mesmo, tirando o papel inútil dos dedos dela em uma troca bem direta.
Diodoro voltou para Xavier que ainda estava desmaiado e o abanou, uma vez que a garota não parecia inclinada a fazer isso.
- Não. Choque. Frio é melhor pra você. – explicou, apontando para a própria boca na direção do machucado que estava em Hanna. Franziu a testa quando, não suficiente, ela acusou Xavier de ser seu novo namorado, como se a primeira opção e o palpite mais correto seria dele ser um funcionário. – Funcionário. – respondeu, mas não se incomodou de falar do grandalhão de cicatriz, afinal, mal era da sua conta onde ele andava, quanto mais da de Hanna. Mas agora que ela tinha aparecido na sua funerária e causado confusão, era melhor Diodoro saber o que tinha levado ela ali. – O que aconteceu? – falou, esperando uma explicação da morena sobre o machucado dessa vez.
Hanna
Hanna não achou nada além de alguns papeis e canetas para ficar mexendo na mesa de Diodoro, mas ele se aproximou para lhe atrapalhar, levando um lenço com gelo até o canto do seu lábio que tinha o corte. Ela soltou um “tch” breve em resposta a pressão do gesto e o incômodo na área que tinha sido atingida, segurando pano no lugar dele quando foi indicado. Hanna podia bem gostar de implicar com Diodoro, mas gostava dos cuidados que ele dispensava mesmo desde quando nem lhe conhecia direito. Bom, não que ele conhecesse bem então.
Ela só fez uma careta em reprovação quando ele negou acordar o rapaz de cabelos descoloridos com água gelada, e ainda cuidou para que ele estivesse confortável, abanando-o, o que só colocou um sorriso mais divertido no rosto de Hanna quando ele tentou explicar que ele era um funcionário.
- Funcionário? Mesmo? A essa hora, Diodoro? - ela relaxou a mão e desceu o pano com gelo da boca, sem nem passar cinco minutos com ele ali. - Eu não sabia que você gostava de exploração, mas não estou surpresa. Posso ajudar?
Com o sorriso ainda muito interessado no funcionário desmaiado, ela nem parou para responder o que tinha acontecido, era só mais um tapa ordinário de um cliente violento ordinário.
Diodoro
O fato de que Hanna ainda pedia confirmação de verdade se o homem era um funcionário, já que estava lá até mais tarde no trabalho, fez com que o moreno virasse para ela imediatamente, estreitando os olhos. Sabia que Xavier estava ali até aquela hora por vontade própria, mas estava tão acostumado a trabalhar com pessoas da sua família que foi inevitável não pensar que estava falhando em reforçar ao funcionário novo que o horário dele tinha acabado.
- Gelo. – reforçou para morena que já tinha tirado o gelo da boca enquanto ainda abanava o homem caído no chão. Mas ele não parecia dar sinal de quem iria acordar. Quem sabe seria melhor movê-lo para algum lugar mais confortável, como o sofá dos fundos onde geralmente cochilava quando tinha muito trabalho. – Ele quis ficar. – adicionou, parando então de abanar Xavier e tirando a luva para aproximar a mão do rosto dele e verificar se estava respirando direito. Vai que o homem tinha tido um ataque cardíaco ali e estava abanando já o defunto. Mas pelo visto estava vivo: só estava confirmando gradualmente que o rapaz era bem medroso.
Olhou longamente para Hanna com a oferta de ajudá-lo com Xavier. Ela já tinha conseguido não ajudar para começar.
- Consegue levantar? – perguntou, apontando para as pernas de Xavier. Com ajuda de Hanna, talvez pudesse carregá-lo para os fundos para descansar em um lugar mais macio.
Hanna/Xavier
Hanna não deu muita atenção ao aviso dele para que voltasse a colocar o gelo na boca, mas o rapaz que tinha desmaiado parecia que ou estava morto, ou tinha aproveitado a oportunidade para só dormir. Ela só soltou um "hmmm" sugestivo com um sorriso de lábios fechados para Diodoro quando ele disse que o rapaz que decidiu ficar. Até Diodoro pareceu preocupado com o estado do rapaz a ponto de sentir a respiração dele, e ele obviamente não tinha entendido a sua proposição em ajudá-lo na parte da exploração.
- Eu disse que ia ajudar a explorá-lo, Diodoro. - Hanna esclareceu, mas se levantou e deu a volta no rapaz, até as pernas dele. Claro que, com o seu porte, ela só se colocou ali convenientemente para afastar uma perna para cada lado e se colocar entre as duas, abaixando-se sem muita pretensão de ajudá-lo a levantar o rapaz, passando a mão pela perna dele e pela coxa antes que Diodoro fosse lhe atrapalhar. - Desse ângulo também serve, o que acha? Talvez com o estímulo certo, ele acorde, hm?
Ela subiu a mão um pouco mais pela coxa dele, devagar o suficiente para que Diodoro pudesse interferir. Mas antes de qualquer reação do agente funerário, o murmúrio de cansaço e dor alcançou os ouvidos de Hanna e ela voltou a atenção para o rapaz inconsciente que retornava ao mundo dos vivos.
- Arh... merda. - Xavier pressionou os olhos com força, levando uma mão até a nuca, sentindo o corpo todo dolorido. Ele tentou se erguer apenas o suficiente para abrir os olhos e avistar o mesmo rosto que tinha lhe assustado alguns instantes atrás. Não havia bem mais sangue no rosto feminino pálido? - Mas o qu-
- Bu. - Hanna inclinou o rosto para frente apenas o suficiente para que Xavier acordasse de uma vez, no susto, jogando-se para trás até sentir a parte de trás da cabeça bater contra a mesa.
- ARH! Que porra! - ele levou as duas mãos até o topo da cabeça, os olhos lacrimejando de dor, enquanto Hanna se entregava a uma risada entretida.
- Eu gostei dele, Diodoro, ele parece divertido. - disse Hanna, ainda agachada diante do rapaz.
- O qu- - Xavier desviou finalmente o olhar da jovem pálida para Diodoro ao seu lado, o que só reforçou a sensação de susto por uns instantes. - O que tá acontecendo?!
Diodoro
Diodoro não estava explorando ninguém. E não tinha a mente rápida da Hanna de pensar maldades, ou teria notado que tinha acabado de dar total acesso a morena para ficar entre as pernas de Xavier. Isso sequer tinha passado na sua cabeça até ouvir o tom insinuante dela enquanto sugeria o “estímulo certo”.
O agente funerário virou para ela como um animal em alerta, e estendeu a mão para segurar o pulso dela, até apertando com certa força antes de folgar, pelo susto. Já ia repreender a garota por tocar o funcionário daquela forma inadequada, ainda mais com ele inconsciente, mas quando pensou em abrir a boca, ouviu um grunhido de Xavier, e mais rápido do que jamais pudesse reagir, o rapaz deu uma guinada para trás e bateu a cabeça, o que fez Diodoro começar a questionar se o tanto que ele se acidentava era normal, ou se teria que fazer uma poupança para os acidentes de trabalho.
- Hanna, Xavier. Xavier, Hanna. Viva. Minha... amiga. – Diodoro apresentou, soltando enfim o pulso de Hanna e estendendo a mão para ajudar o funcionário a se levantar, se ele quisesse. – Ela prega peças. Não acredite nela. – falou, suspirando longamente e finalmente se levantando do chão. – Está bem? – aproveitou e criou uma barreirinha com a mão entre Hanna e o funcionário, para que ela ficasse a uma distância segura.
Hanna/Xavier
- Eu disse pra não me chamar assim! - Xavier retrucou, massageando a cabeça onde tinha atingido a mesa. - É “Três”!
- “Três”? Ou “a três”? Por que o número está ficando bem conveniente agora. - Hanna adicionou, agachada diante de Xavier e apoiando o queixo na mão. Ela abriu um sorriso enorme quando notou o rosto do outro assumir uma coloração avermelhada mesmo com o cenho franzido e a expressão de irritação. - Eu gostei mesmo de você, Três. Quer ser meu amigo também? É assim que chamavam na época do Diodoro, hm?
- Eu… eu não- - se fosse possível, ele franziu ainda mais o cenho de Hanna para Diodoro, imaginando a relação estranha dos dois, e então se colocou de pé quase num salto, mantendo a distância tanto de Hanna quanto de Diodoro. - Já deu minha hora!
Ele nem esperou uma resposta do chefe, só praticamente correu para sair da funerária sem nem pegar qualquer pertence, teria que voltar ali no outro dia mesmo e o horário já estava avançado, já não bastava os acidentes. Só quando saiu da funerária foi que começou a imaginar que teria que descontar muito do salário se quisesse pagar pelo caixão quebrado. E tudo culpa da tal amiga de Diodoro.
- Ahhh, ele fugiu. - Hanna se levantou e se virou para Diodoro depois que Xavier deixou o lugar. - Então, o que temos para hoje? Já que o nosso terceiro fugiu, vamos ter que ficar só os dois.
Diodoro
Diodoro sequer disfarçou a revirada nos olhos quando Hanna fez uma piada com o apelido de Xavier. Parecia que ele estava pedindo. A reação dele, entretanto, foi bem diferente da usual cara de emburrado, então admitia que até tinha achado divertido, não fosse o caixão caído e o galo que ficaria na cabeça do funcionário. Só estreitou os olhos quando ela deturpou o significado de “amigo”, pois quando dizia “amigo”, estava significado exatamente isso e nada mais.
- Boa noite. – Diodoro falou quando notou o pânico e a vontade de fugir de Xavier, que sequer deu tempo para que pensasse e disparou para fora dali. Ao menos o pé dele estava melhor? Só tinha que dar jeito em Hanna, que parecia decidida e dedicada a atormentar seus momentos de paz na funerária. Mas admitia que sentia falta até dela. Diodoro ignorou toda a conotação das palavras de Hanna e levantou, começando a arrumar a bagunça deixada pelo funcionário. – Pizza? – perguntou de volta a morena, e então pegou a chave para fechar as portas da funerária. – E gelo. – apontou para a boca dela, que ela sequer tinha se dado o trabalho de colocar gelo antes de ir atormentar Xavier. – Você dorme na sala.
Hanna
Hanna acompanhou o agente funerário quando ele terminou de arrumar a bagunça e saiu da funerária, para fechar as portas e fazerem o trajeto que ela agora conhecia até o apartamento de Diodoro. E era a sua intenção desde o início, também, dormir em algum lugar que não fosse um quarto de motel vazio, nem os dormitórios de Limoges-Collet com muitas regras e olhos para o seu estado.
- Pizza então. - ela tomou a ousadia de segurar o braço dele, na altura do cotovelo, e se manter perto o suficiente para parecerem um casal. Mas não fez nada mais do que aquilo, o que seria bem esperado da jovem tentando no mínimo apalpar Diodoro para irritá-lo. - Vai deixar uma dama dormindo na sala? No estado em que estou? - o questionamento seguiu com um tom de falsa indignação - Como quer que eu acorde mais disposta amanhã depois de dormir no sofá? Ou a sua intenção é que eu passe o resto da semana hospedada no seu apartamento até me recuperar por completo e voltar aos dormitórios?
Diodoro
Esperava uma caminhada tranquila até o apartamento, mas como nada do que esperava nunca dava certo, Hanna não demorou para agarrar seu braço, o que quase fez Diodoro pular para o lado. Olhou para ela desconfiado, mas notou que pelo visto, a única intenção dela era se apoiar. Com alguma desconfiança, suspirou longamente e deixou com que a morena seguisse agarrada em seu braço. Qualquer gracinha e daria um tapinha na mão dela.
Franziu a testa e abriu a boca prontamente para dizer “sim” quando ela questionou se era verdade que dormiria na sala naquele estado. Porém se conteve e deu uma olhada longa nela de esguelha, se questionando se seria certo deixá-la dormir no sofá desconfortável.
- Quero que melhore logo. – respondeu sério, como se fosse o óbvio. Ela podia começar fazendo o favor de não achar que ele desejava mal a ela. – Só hoje... a cama. – respondeu, franzindo a testa enquanto finalmente chegavam aonde seu apartamento ficava. – Eu durmo no sofá. – adicionou, antes que ela ficasse feliz por dormirem os dois na cama e ela poder lhe irritar a noite inteira. Ainda tinha que pagar a pizza, seria demais assim.
Hanna
Hanna até sorriu quando Diodoro quase saltou para o lado como um gato assustado quando ela lhe segurou o braço, mas não fez mais do que aquilo, e se divertiu com a reação alerta do agente funerário para qualquer um de seus gestos mais ousados. O sorriso só se alargou depois do falso tom de indignação quando ele disse que podia ficar na cama naquela noite, e antes que pudesse adicionar os comentários engraçados sobre os dois dividirem a cama, ele completou que dormiria no sofá.
- Eu lembro bem da sua cama e cabe nós dois lá, Diodoro. Eu prometo que não mordo… - ela adicionou, com um sorriso malicioso que só não foi tão pontual por causa do machucado no canto dos lábios. Mas ela já sabia qual seria a resposta e quando chegaram ao apartamento, ela se fez bem confortável entrando antes mesmo de Diodoro e esperando que ele fechasse a porta depois de passar. - Eu posso usar o seu banheiro enquanto pede a pizza, não é? Quatro queijos para mim, por favor.
E de novo, sem nem esperar alguma resposta de Diodoro ou pelo menos instrução para roupas que pudesse usar e toalhas, nem mesmo uma brincadeirinha sobre os dois dividirem o banho, ela foi até o banheiro para se livrar dos rastros do início da noite e se sentir um pouco mais revigorada. Nem ficou surpresa de abrir a porta do banheiro para ver que o dono do apartamento tinha lhe deixado uma toalha limpa e um par de roupas dele. Daquela vez, ela usou até mesmo a calça antes de sair do banho.
- Nada como um banho quente e um lugar confortável pra dormir. - ela suspirou satisfeita, voltando para a sala e se sentando no sofá onde Diodoro esperava a pizza, estendendo as pernas folgada sobre as do agente funerário. - Obrigada pela ajuda, Diodoro.
Diodoro
Diodoro nem deu uma resposta a Hanna sobre dividirem a cama. Seu olhar longo provavelmente dizia tudo. Já estava sendo muito gentil deixando que ela fosse agarrada em seu braço. Não era que quisesse ser uma pessoa ruim com ela, mas ela lhe provocava de graça e não era muito honesta, então era difícil não ter que impor esses limites.
Quando chegaram no apartamento, ela foi direto para o banho, sem nenhuma gracinha a mais. Concordou silenciosamente que ela se dirigisse ao banheiro, e sem demora, dobrou as roupas limpas sobre a cama, saindo dali antes que ela aparecesse de toalha querendo lhe irritar. Pediu a pizza nesse meio tempo, o homem do outro lado estranhando o pedido de quatro queijos para o Diodoro, que costumava sempre pedir sabores bem tradicionais, assim como toda sua família.
Sentou-se no sofá, e Hanna logo apareceu, inteiramente vestida, e parecendo muito mais confortável enquanto se acomodava no sofá, jogando as pernas sobre as suas e mantendo uma distância respeitosa. Franziu a testa, abrindo a boca para falar alguma coisa, mas não havia nada que falasse que não lhe comprometesse ou poderia ser usado como brecha para Hanna lhe provocar. Tirou a luva e estendeu as costas da mão até a testa dela, mas a temperatura estava normal.
Ela até tinha lhe agradecido!
Encarou a morena longamente, um tanto inquieto. Talvez aquela tivesse sido uma noite mais difícil para Hanna que as demais. Talvez até ela tivesse um lado sério. Soltou um longo suspiro, e então novamente levou a mão até Hanna, mas dessa vez, lhe deu um par de tapinhas amigáveis nas costas e fez um breve carinho sobre o mesmo lugar.
- Sempre. – respondeu calmamente, imaginando que a pizza chegaria logo, mas até ligou a televisão para matar o tempo dos dois enquanto isso.
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