09-27-2021, 03:09 PM
Carbella
O tempo estava miserável, essa era a única palavra que cabia a situação e mesmo com um vocabulário vasto, Carbella repetia aquela palavra insistentemente, estava tendo uma vida miserável. Não deveria reclamar, afinal tinha dois bons empregos e ganhava o suficiente para custear a sua vida e a de sua irmã, e estava estudando para poder prestar o seu vestibular dos sonhos. Mas as palavras ditas pela médica do outro setor, não saiam de sua cabeça, de como era constantemente feita de trouxa, se estava realmente fazendo as coisas para cumprir seu sonho ou apenas se desgastando no meio da rotina.
Naquele dia no hospital tinha não somente brigado com colegas de setor como tinha cometido um erro, um pequeno deslize nas anotações de pranchetas e na ordem de acompanhar os pacientes, nada que um ajuste no quadro branco não resolvesse. E Richard até fez gracinha com o fato de que tinha errado a ordem de leitos naquele dia, sentiu tanta dor de cabeça que precisou descer dois lances de escada e ir até a copa tomar um gole de água, sua pressão tinha caído e estava com falta de ar, era claramente estresse. Trabalhou o restante do dia plenamente estressada, com a expressão fechada, sequer conseguia sorrir como costumeiramente faria, até o sempre calado Paul disse que iria criar umas rugas se continuasse com aquela cara, lhe oferecendo uma massagem pra relaxar os nervos. Será que estava num dia tão miserável que estava incapaz de lidar com a própria raiva, será que seria o dia que iria estourar de vez? A imagem da doutora Arlovskaya lhe veio a mente, e terminou o dia de serviço com a força do ódio.
Ao sair do hospital, depois de trocar suas vestes, passou no mercado para comprar alguns alimentos que faria para o jantar, sequer conseguiu decidir ou escolher o que faria, certamente jogaria tudo nas panelas e o que resultasse dali e fosse comestível seria o jantar. Desceu alguns pontos depois no distrito residencial, ignorando o cumprimento de vizinhos do quarteirão, estava tão absorta no próprio cansaço mental que o mundo a volta lhe passava despercebido. Apenas lembrou que tinha deixado comida na geladeira de Fleur, o que seria mais fácil do que cozinhar do zero, aquela hora sabia que a mulher ainda estava na padaria, então seria recepcionada por Arman, que muito provavelmente estaria pintando ou cochilando:
-- Arman! vim pegar comida na geladeira. -- a ruiva cereja anunciou com o tom de voz irritadiço sem sequer perceber que estava falando daquela forma.
Arman
Era o último ano de Arman em St. Clavier, mas ele tinha achado coisas para se preocupar logo com a matéria que tinha decidido pagar pelos créditos lecionada pelo professor Dieter. Do período todo em que estivera estudando em St. Clavier, o biólogo era a pessoa que mais lhe deixava irritado com os requisitos e trabalhos e aquilo era uma coisa difícil de conseguir. Mas a coisa mais satisfatória de terminar as pesquisas chatas era poder voltar para os quadros e para as fotografias.
Naquele dia, nem foi para St. Clavier, sem aulas para assistir, e só se dedicou a um dia muito tranquilo acordando um pouco mais tarde do que o normal, dispensando a caminhada matinal e passando uma boa parte do dia só trabalhando num quadro novo e numa das maiores telas que ainda tinha em branco no seu ateliê.
Não tinha tomado nem metade da tela com a base da pintura, mas já tinha passado certamente muitas horas ali no quarto só fazendo aquilo, por isso, saiu do cômodo com o forte cheiro de tinta a óleo e desceu até a cozinha para beber alguma coisa e descansar na sala. Mais um par de minutos passou até ele ouvir a porta se abrindo e logo em seguida, a voz de Carbella anunciando que ia pegar comida na geladeira. Não seria nada fora do comum, não fosse o tom um tanto mais firme da ruiva.
Ele saiu do sofá até o portal da cozinha, dando uma olhada na amiga de infância que tirava as coisas da geladeira com mais energia do que o necessário. Mas não falou nada, deixou que ela pegasse a comida e notou facilmente que Carbella não estava lá nos melhore dias.
Carbella
A ruiva cereja estava resmungando enquanto tirava as coisas congeladas da geladeira, reclamando que aquilo iria demorar pra ficar pronto de todo jeito, que devia ter ligado pra avisar que deixasse fora da geladeira já pra descongelar, largou o depósito em cima da bancada com mais força do que deveria rachando a tampa do mesmo. A ruiva ficou vermelha de ódio e sentia a cabeça latejar novamente. Foi bem em tempo de ouvir os passos de Arman e ele parando bem na entrada da cozinha lhe encarando com aquela cara de quem lhe perguntava as coisas sem por uma palavra pra fora:
-- Estou bem sim! não aconteceu nada demais eu só estraguei a porcaria da minha tupperware! -- bufou abrindo a torneira e deixando sobre o mesmo pra tentar tirar o que queria, e encarou o moreno alto de novo:
-- Não estou com raiva, mas vou ficar se você ficar me perguntando do porque eu estar com raiva! -- a ruiva pontuou aquilo com uma voz bem mais irritadiça do que qualquer outro dia.
-- Desisto! vou fazer sopa vegetariana! Não estou com paciência de esperar isso descongelar não!!! -- A ruiva desligou a água e pegou o depósito molhado para colocá-lo dentro da geladeira novamente: -- Arhhh!!!
Depois de resmungar contra a geladeira encarou o moreno mais alto lendo claramente no olhar dele o que ele queria lhe falar: -- Eu já disse que eu não estou com raiva! ou melhor eu estou sim ficando aborrecida das suas perguntas! -- isso tudo sem que de fato o moreno não tivesse aberto a boca para perguntar absolutamente nada.
Arman
Já dava para perceber pelos gestos bruscos de Carbella que ela não estava só irritada, estava com raiva de alguma coisa. Arman ficou apenas observando a ruiva enquanto ela procurava comida e ainda bagunçava algumas coisas no ímpeto causado pela raiva. Ele deu alguns passos na direção da mesa, como se fosse pelo menos tentar ajudar a ruiva, e claro que estava interessado em saber se ela estava bem ou o que tinha acontecido para estar com raiva, mas a ruiva foi mais pontual em dizer que não estava irritada nem com raiva - o que era uma mentira bem óbvia.
E Arman nem precisou fazer perguntas diretamente, porque Carbella era mais rápida em saber o que estava pensando e responder antes mesmo que abrir a boca, o que era extremamente conveniente. Ele passou pela ruiva depois dela desistir da comida congelada e foi até a geladeira, abrindo a parte de baixo e tirando alguns outros depósitos com salada e massa que tinha sobrado do seu almoço, deixando-o sobre a mesa enquanto Carbella continuava esbravejando. Mas ele não pegou talheres ou pratos, só se encostou à bancada da pia e encarou a ruiva de volta, em silêncio, como se ainda esperasse que ela explicasse o motivo de todo o ódio nos depósitos de comida.
Carbella
Notou que Arman começou a transitar na cozinha , muito provavelmente na intenção de lhe ajudar, embora ele não soubesse o motivo da sua raiva, e nem tivesse culpa sobre ela, e aquela altura só não queria alguém lhe lembrando que não estava sequer conseguindo esconder o fato de que estava furiosa. Olhou para os recipientes retirados por Arman da geladeira que resolvem seu problema de janta:
-- Obrigada por resolver meu problema de janta e mostrar como eu estou sendo incompetente até pra arrumar minha própria comida. -- a ruiva cereja levou os dedos ao encontro dos olhos por baixo das lentes de grau e nem precisou encarar Arman pra saber que ele estava lhe encarando de volta: -- Eu sei que você não disse que eu sou uma incompetente, e sim eu estou com raiva, tá satisfeito? -- a ruiva ergueu um pouco o tom de voz e depois respirou fundo tentando se recompor:
-- Tá eu sei, que você não vai ficar satisfeito só com isso, tá bom, eu sei, do começo, deus… você é impossível! -- A ruiva se encostou no móvel mais próximo do lado oposto ao moreno mais alto, apenas porque não queria ficar perto do outro ou estapearia o outro:
-- Eu cometi um erro hoje no hospital, não custou a vida de ninguém obviamente senão eu estaria presa, e nem atrapalhou o serviço de outras pessoas, e nenhum supervisor meu notou, só outros dois enfermeiros que viram e acharam graça, pode uma coisa dessas? Eu estou furiosa, não bastasse ter de cobrir serviço desses infelizes, na única vez que eu cometo um deslize eu tenho de ser motivo de piada? -- A ruiva encarou o outro, como se buscasse alguma iluminação divina, mas sabia que só teria mais dor de cabeça: -- Afora o fato que todo mundo hoje resolveu jogar na minha cara como eu estava “cansada” ou aparentemente “irritada” ou com jeito de “poucos amigos” me poupem! UM DIA! UM DIA QUE EU NÃO ESTOU BEM, todo mundo quer jogar na minha cara! -- A ruiva cereja sequer reparou que estava praticamente vociferando a última frase, até se sentir sem fôlego e com muita dor de cabeça.
Arman
Arman nem se importou com as indiretas e insistências de Carbella sobre o próprio estado e depois de um olhar firme sem qualquer pergunta, ela finalmente admitiu que estava com raiva e logo prosseguiu com a explicação do motivo por todo o estresse daquele fim de dia. Ele não tinha dúvidas que a rotina de Carbella era estressante e que ela precisaria mesmo descarregar cedo ou tarde. Descruzou os braços e apoiou na bancada atrás de si, enquanto ela falava sobre o erro que tinha cometido no hospital.
Claro que ainda parecia um motivo muito irrelevante para a ruiva ter tido todo um surto de raiva, então Arman ainda arqueou as sobrancelhas para o fato de que mesmo antes de cometer o tal erro pequeno, ela estivera aparentemente "num dia ruim" e "irritada". Então provavelmente alguma outra coisa estava incomodando a ruiva e tinha causado aquele surto por causa de um erro pequeno no hospital.
Arman não se importou com o fato de que ela estava praticamente gritando, afinal, Carbella não costumava ter aquele tipo de atitude. Mas ainda a encarou esperando a explicação do porque ela estava tão mal naquele dia em particular.
Carbella
A ruiva cereja respirou fundo, sentindo o peito queimar de raiva, os dedos com tremores leves, e o rosto plenamente vermelho, estava tão furiosa, que nem tinha se percebido como aquele estado mental estava se pronlongando, que não seria apenas um dia ruim para lhe deixar naquele estado crítico de estresse. Então foi apenas quando Arman arqueou a sobrancelha daquela forma bem pontual:
-- Não sei… -- Carbella desviou o olhar e levou as duas mãos ao rosto, afastando as lentes de grau do rosto e as deixando de lado, e esfregando o rosto por fim deixando-o mais vermelho do que já estava, levou as mãos aos fios e franziu as sobrancelhas e fechou ainda mais a expressão: -- Na verdade eu sei sim!
Respirou fundo, ficando cada vez mais irritada e caminhando de um lado pro outro, o que lhe deixava com aspecto ainda mais irritadiça: -- Tudo isso começou depois que a Arlovskaya veio falar comigo com aquela história mansa de que eu estava me esforçando demais que eu estava me desgastando, tudo conversa, ela só queria um motivo pra falar o que bem queria e como queria. Depois veio me oferecer bolo com cerejas pra fazer parecer que se arrependia, mas eu sei que não, todo mundo fica me tratando como se eu fosse uma coitadinha, uma idiota que não sabe perceber as coisas, eu percebo, eu sei das intenções ruins dos outros, mas eu sigo fazendo o meu trabalho! Eu não faço as coisas esperando a porcaria da aprovação de uma médica que veio sabe-se lá de onde pra dizer que eu tou acabando comigo mesma e nunca vou chegar onde eu quero!
Falou tudo num fôlego só, sentindo que tinha esvaziado tudo da sua cabeça muito rápido e o mundo parecia turvo, sequer percebeu que estava sem as lentes de grau.
Arman
Carbella demorou um pouco para decidir o que é que estava lhe deixando tão incomodada a ponto de descontar a raiva nos potes da geladeira, mas logo ela pareceu lembrar de um detalhe importante e começou a andar de um lado para outro, descarregando as informações de uma vez sobre uma das médicas com quem trabalhava. Arman apenas a acompanhou com o olhar enquanto ela esbravejava irritada sobre tudo o que a médica tinha dito, e no fim das contas, ela ainda parecia decidida a descarregar mais uns punhados de frustração e raiva antes de conseguir se acalmar. Não que pudesse fazer alguma coisa, e se abrisse a boca para dizer para ela se acalmar ou que tudo ia ficar bem, só pioraria o estado da ruiva.
Só ao fim do longo relato estressado da ruiva vou que Arman franziu o cenho, os braços cruzados numa expressão que perguntava claramente porque é que ela estava tão preocupada com a opinião da médica, afinal, se a opinião da outra não fizesse diferença, pra que tanta irritação? E no meio da onda de raiva, ele ainda apontou para a comida que tinha tirado da geladeira.
- Coma.
Carbella
A mente estava em polvorosa, parecia que tinha explodido e agora sofria o atordoamento do impacto, mas ainda se sentia furiosa, não era como se tivesse reclamado tudo que queria. A tontura que sentia podia ser a falta das lentes de grau, a raiva profunda que amargava sua mente, ou apenas fome. Em todo caso, ouviu o comentário de Arman dito na voz dele, dita para fora e o encarou para se deparar com o borrão que devia ser ele, e tornou a pegar o par de lentes de grau para por no rosto, nem se preocupou em limpar os mesmos, estava com o rosto vermelho e a cara emburrada.
Pegou os depositos de comida e pos num prato sem arrumar muito o mesmo e pos pra esquentar no microondas, o tempo da comida esquentar, apenas ficou em silêncio, embora na sua cabeça estivesse passando vários relances de conversa com a médica, relance de conversa com os colegas de trabalho, e todos sempre batendo na mesma tecla, que era uma pessoa boazinha demais. Nem percebeu que tinha franzido mais as sobrancelhas e estava soprando o ar pelo nariz com raiva. Quando o microondas fez o beep de que o tempo tinha acabado, saiu dos pensamento pra dar atenção a comida:
-- Não precisa me olhar assim, eu vou ficar bem, só não hoje, e não agora. -- respondeu de forma curta e grossa, talvez Arman nem quisesse perguntar aquilo, apenas respondeu.
