09-28-2021, 03:40 PM
Evelyn
O período de se estabelecer na academia havia passado, e agora as aulas haviam finalmente começado e Evelyn não teve nenhum problema de se adaptar com o horário das aulas e o novo ambiente. Até mesmo o seu companheiro de quarto era uma figura interessante - quando não estava se lamentando e pedindo desculpas.
Junto com o início das aulas, também houve o início das atividades dos clubes. Evelyn não poderia participar daqueles de atividade física, e eles também não eram do seu mínimo interesse. Bem sabia que podia fazer mais do seu tempo além de praticar esportes, e isso ficava à prova com os e-mails que recebia com propostas de projetos de fora. Então, entrando no clube de ciências, poderiam receber verbas e estaria fazendo parte de um clube.
Procurou informação sobre o clube durante as aulas, e ficou sabendo por um dos professores que este estava inativo por falta de membros. Não sabia como funcionava o sistema de verbas nessa instituição, mas tinha quase certeza que precisaria do clube funcionando. O menor pediu indicações ao professor sobre como poderia fazer a reabertura do clube, e foi indicado a ir até o conselho estudantil. Pois bem, no final do horário de aula, fez caminho até a sala do conselho, que não foi muito difícil de encontrar. Também não tinha certeza de como era composto o conselho, mas pelas conversas de corredor que ouviu, “tranquilo” e “legal” eram elogios que se repetiam bastante.
Bateu a porta antes de entrar e esperou uma resposta para entrar:
— Boa hora. — o menor entrou, fechando a porta em seguida, sorrindo de maneira bastante automática e comercial. Usava o uniforme da instituição bastante alinhado, com os cabelos ruivos presos em um pequeno rabo de cavalo frouxo, apenas para que o calor não incomodasse tanto — Meu nome é Evelyn Newell, gostaria de saber algumas informações sobre um clube que se encontra inativo no momento, poderia me ajudar?
Yure
O ano letivo recém tinha começado e em verdade estava bastante ansioso por esse momento, as férias de verão foram um limbo de preocupações com família e saúde, e queria desesperadamente voltar para aquele momento da formatura dos alunos do semestre passado, e segurar aquele sentimento deixado pelo secretário testa de ferro. Se sentia impelido a dar seu melhor para fazer o conselho funcionar da melhor forma possível.
Tinha feito reunião com os membros ou a maior parte deles já que Adam não tinha dados as caras, mas já tinham acertado o orçamento do primeiro semestre, e estavam avaliando todos os gerentes que ficaram e quais tinham se formado, que precisavam ser substituídos, e antes de começar a botar todos os clubes para recrutar novos membros tinha de se certificar de que todos estavam com a papelada em dia.
Yure tinha ido com o uniforme completo, já estava acostumado com o clima de Cerise então nem sofria tanto no verão, o blazer, gravata no lugar, tinha até se acostumado com os sapatos sociais, e o cabelo ruivo curto, recém cortado deixava-o sentir o vento na nuca. Estava sentado na mesa de presidente, achando ainda estranho estar na sala do conselho, sentado naquela cadeira, e esperando que o secretário entraria a qualquer momento na sala. Naquele mesmo instante a porta se abriu a voltou sua atenção pra a mesma, a expressão de leve surpresa, até se dar conta que era um aluno buscando por sua ajuda.
Se levantou de onde estava, abrindo um sorriso amplo e amigável, de pé, o rapaz realmente parecia um calouro do primeiro ano, por ser pequeno, estava desacostumado q olhar as pessoas de cima, mas quando ouviu o nome não lhe soou estranho, talvez já tivesse passado o olho na ficha dele naquela semana:
-- Eu sou Yure Clarke Lukashenko, você pode me chamar apenas por Lukashenko.-- estendeu a mão para cumprimentar o menor e ofereceu espaço junto a sua mesa para que o menor sentasse, mas ao invés de se tarde do outro lado da mesa, sentou na poltrona do lado par que não houvesse uma mesa entre os dois: -- Nós temos muitos clubes inativos e por vários motivos, a depender da situação do clube que quer reativar, posso lhe instruir melhor em como proceder Newell.
O ruivo cruzou a pernas de forma masculina, mantendo o sorriso no rosto, e estava num misto de felicidade e estranhamento por estar do outro lado agora, de quem prestava ajuda, e não de quem ia pedir socorro ou levar detenções.
Evelyn
Abriu a porta para dar de cara com a primeira parte de uma sala grande e bastante ampla. Tinham mesas separadas que Evelyn pode apenas supor que deveria ser de cada membro do conselho, e em uma delas estava um rapaz ruivo ferrugem, que se levantou assim que Evelyn entrou, sorrindo e lhe estendendo a mão.
— É um prazer conhecê-lo, Lukashenko — aceitou o cumprimento, agora que ele havia ficado de pé, a diferença de altura era evidente. Se continuassem conversando em pé por muito tempo, provavelmente ficaria com torcicolo.
O acompanhou quando ele ofereceu que Evelyn se sentasse em uma das duas cadeiras que ficavam opostas a mesa, o que o menor aceitou, e o próprio ruivo ferrugem se sentou na outra, cortando significantemente a distância. Evelyn achava curioso a proximidade que ele oferecia, não irritava o menor, mas o fazia ligar os pontos por que as pessoas o definiam como “legal”.
Julgou o outro rapidamente enquanto Yure terminava sua explicação, assentido positivamente quando ele terminou. Estava sentado bem confortável na cadeira, a postura reta e as pernas cruzadas.
— Entendo, o clube que me interessando caso é o clube de ciências, Lukashenko — explicou, gesticulando brevemente enquanto falava — Primeiramente, no antigo internato onde estudava já participei de alguns projetos por fora que ofereciam verba para que fosse concluído, mas para isso era necessário que fizesse parte de um clube. Suponho que aqui seja da mesma maneira? — sorriu simpático, esperando que o outro acompanhasse a sua linha de raciocínio — Eu ainda estou recebendo novas propostas, mas sem um clube não vai ser possível. Como também não posso participar dos clubes de atividade física, certamente o de ciências seria o ideal na minha situação.
Yure
O ruivo observou com atenção o aluno a sua frente, pela forma com que ele falava, polido demais pra ser um aluno do primeiro ano, não era tímido, e parecia muito a vontade em falar sobre burocracia, principalmente se tratando de verba e investimento. Poderia chutar que ele era um aluno do segundo ano? Quem sabe algum outro geniozinho como seu amigo Nan-li? Não divagou demais pra não deixar fugir as informações dadas pelo outro, mas mudou de expressão quando ele lhe informou que não poderia participar de clubes de atividades físicas e apenas os de ciências seriam os ideais. Ficou claro nas expressões do ruivo que algo na segunda sentença tinha lhe chamado atenção, mas logo voltou ao sorriso amigável, descruzou as pernas e estendeu a mão até a mesa puxando alguns dos papéis do escaninho, passou as fichas e logo achou a do rapaz:
-- Ah, por isso eu estava com a impressão de já ter ouvido seu sobrenome, a sua ficha já chegou aqui, junto com as demais, com requisição de dispensa dos clubes de educação física. -- Separou a ficha do rapaz, e recolocou as demais de volta ao seu lugar, pós a ficha no colo e abriu, e logo de cara viu que o jovem a sua frente era do terceiro ano, e mais, estava um ano na sua frente, a expressão de surpresa retornou a face do ruivo mais velho, mas abriu um sorriso mais de canto de boca:
-- Bem, o procedimento na Academia St. Clavier, para reabertura de um clube não é tão complicado, que eu me lembre, o clube de Ciências não foi punido, logo, ele estava fora de atividade provavelmente por falta de membros ativos. Embora nós tenhamos alunos com destaque na área de ciência, é quase tragicômico. -- manteve o ar leve, e fechou a ficha do rapaz a sua frente, para poder observa-lo diretamente: -- Você vai assinar um documento, fazendo um pedido formal de busca pelo Clube, o que vai indicar seu interesse a instituição, logo, nós do conselho, faremos uma busca pra saber o motivo que foi registrado para a descontinuidade do clube, isso leva um ou dois dias de processo interno, em seguida, ele é colocado na lista de clubes para possível reabertura, porque a verba para clubes é limitada, e o orçamento é aprovado, e deixamos apenas uma pequena porcentagem destinada para que grupos que estão inativos possam retornar. Na reunião semanal, o Conselho discute quais clubes são mais promissores para o ano, baseado nas justificativas de reabertura e no número de pedidos para o retorno. A dessa semana já ocorreu, logo, isso vai entrar na pauta da semana que vem. Após isso, é feita a chamada para gerentes, que nunca pode ser um aluno do primeiro ano, e têm de ter o tipo de perfil de estudante para gerente, é feita uma avaliação dos pedidos na semana seguinte, e então na primeira semana de Outubro, todos os clubes ativos, estão livres para chamar novos membros para as atividades do ano.
Acabou sorrindo de um jeito levemente mais descontraído, depois de perceber que tinha falado demais, não tinha como conter seu jeito falastrão: -- Se eu estiver explicando ou falando muito rápido é só avisar, que eu diminuo o ritmo. Todas essas informações que eu falei, estão disponíveis no portal do estudante de St. Clavier, e no guia impresso que todos os alunos recebem assim que se instalam nos dormitórios. Alguma dúvida?
Evelyn
O menor estava sentado na cadeira bastante confiante, na verdade sua postura e maneira de falar passavam bastante uma ideia de confiança. Não tinha receio de perguntar e falava com bastante segurança até mesmo sobre as dúvidas que tinha. Enquanto explicava seu ponto, observava as reações do outro para tentar ter uma ideia se estava falando algo que deixaria ele confuso ou não. Conseguiu perceber quando o outro estranhou algo em sua fala - também, difícil seria se não percebesse. O outro ruivo era bastante expressivo, o que era bom. Gostava de falar com pessoas que era expressivas ou diretas.
- Ah, que bom. Foi bem rápido então. Ficou feliz que não houve maiores problemas - respondeu despretensioso, porém um pouco aliviado. Já tinha tido problemas com requisição de dispensa em outras situações. Aparentemente todo o processo burocrático também era bom em fazer documentos sumirem, ou chegarem com dois meses de atraso. Achou curioso a cara de surpreso do ruivinho quando passou o olho em sua ficha, mas conteve a graça da situação e manteve a postura educada.
Escutou a explicação do ruivo ferrugem, ele falava bastante rápido, mas felizmente seu francês era bom o suficiente para conseguir acompanhar. Apesar de bastante educado, Lukashenko era bastante descontraído na fala, até comentando sobre a infelicidade do clube de ciência como “tragicômico”. Prestou atenção no passo-a-passo que foi instruído, dando breves “ahams” como garantia que estava prestando atenção no que ele falava. Aparentemente, o processo ainda demoraria mais algumas semanas até que finalmente o clube fosse ficar ativo novamente. Levou a mão até o rosto, batendo o indicador na ponta do queixo enquanto pensava sobre as possibilidades. Será que teria como adiantar esse processo?
- Não, eu consegui entender perfeitamente. Agradeço pela explicação - respondeu, bastante educado. Afinal, se havia no portal e no manual, não havia a necessidade dele ter explicado todos os pontos - Mas se me permite, já que possuo possíveis patrocinadores, isso não iria auxiliar sobre a questão da verba do clube, ou isso é uma situação à parte?
Yure
A falta de movimentações vinda do outro, lhe dava alguns indicativos de como o outro era, ele devia ter tido uma educação bem regrada, a ponto de manter-se durante tanto tempo parado, a forma como ele falava, ele parecia mais velho a cada sentença falada. Agora podia confirmar que ele era mais velho do que aparentava e bem mais inteligente do que podia checar só olhando na ficha. Yure manteve o sorriso fácil no rosto, agora balançando de leve a perna, apenas porque estava ficando parado na mesma posição a muito tempo, e diferente do outro, tinha TDAH, então precisava se mover, puxou uma caneta de um dos porta objetos para movê-la na mão entre os dedos de forma discreta, apenas para descarregar um pouco de energia. Sorriu diante da colocação do mais novo, ele devia ser mais novo que Yure, não era? E cessou o movimento da perna:
-- É uma boa colocação a sua, e era justamente onde eu iria chegar. -- alternou as pernas que estavam cruzadas, mudando de posição e encarando o rapaz a sua frente, mantendo o sorriso fácil no rosto, e a postura confiante que tinha: -- No seu caso, há um interesse externo, porém, essa verba só pode ser captada por clubes ativos, é impossível receber dinheiro para um clube inativo, porém, se no seu documento de justificativa constar que o interesse desses patrocinadores é urgente, isso muda o cenário todo.
O ruivo esticou a mão até a mesa dessa vez para virar o monitor na direção do rapaz que estava a sua frente, puxou o teclado e o mouse para que pudesse usar na posição que estava, e então digitou na busca para o modelo de memorando padrão que era usado no conselho estudantil: -- Aqui, justamente nesse campo, e nesse tópico, você informa os dados principais da empresa patrocinadora, pode anexar uma cópia dos e-mails que eles tenham lhe enviado para endossar seu pedido, assim, quando recebermos esse material, nós já colocamos no sistema como urgência.
O ruivo, mostrou o sistema interno apontado a área e os caminhos de para que outros setores esse memorando iria, e como ele seria recebido, de forma a fazê-lo circular mais rápido para retornar ao conselho e a reabertura do clube fosse aprovada: -- Resumindo, se não houver contestação de nenhum setor, o que é uma possibilidade remota se você preencher tudo adequadamente, ainda essa semana seria feita uma reunião emergencial para decidir o caso, e colocaríamos um gerente provisório, indicado pelo próprio conselho estudantil, que pode até ser um membro do mesmo, para garantir que haja celeridade no processo de documentação, e então semana que vem, você teria seu clube ativo e operante para receber patrocínio.
Sorriu agora mais convencido, de estar fazendo um bom trabalho ali, e tornou a mover a caneta entre os dedos: -- É do interesse da instituição que os alunos ganhem expressão para além das paredes dessa escola, então muito provavelmente não haverá qualquer objeção sobre o seu pedido.
Evelyn
Estava acostumado com dois tipos de pessoas quando o assunto era problemas burocráticos: a primeira, alguém extremamente competente porém extremamente chato ao mesmo tempo, que não tinha paciência para contestações; e a segunda, pessoas que só estavam lá por serem boas em falar com as outras, não exatamente de resolver problemas. O que estava à sua frente, Lukashenko, parecia ser um misto dos dois tipos. Não que fosse único, mas certamente era difícil de encontrar. Além de tudo, ele tinha um ar convidativo. Se perguntava que tipo de cargo ele estava ocupando, apesar de já ter algumas suposições.
Sorriu quando ele disse que a situação mudava completamente quando havia a presença de um patrocínio. Isso certamente colocava um sorriso suave no rosto do ruivo menor, um destaque na expressão séria e o sorriso comercial que estava usando antes. Seguiu novamente as instruções, anotando mentalmente o que teria de fazer quando pegasse o dito memorando. A última coisa que iria querer é puxar o celular e fazer anotações enquanto o outro falava, achava um tanto desrespeitoso, mesmo que fosse para não se esquecer dos detalhes.
Ao fim da explicação e uma previsão que até a próxima semana teria o clube ativo e poderia por os projetos em andamento, ficou clara a felicidade nos olhos do ruivo menor, mesmo que ainda estivesse mantendo a mesma compostura, apenas trocou a perna que estava cruzada, já que estava assim há algum tempo:
- Não vai haver problemas com o preenchimento do documento, Lukashenko. - o tom de voz não estava mais tão sério, um pouco mais amigável - Acredito que consigo trazer os documentos preenchidos pra você amanhã, ou no máximo no outro dia, mas farei o possível para não demorar na entrega - sorriu, se sentindo mais a vontade com a conversa sabendo que agora não teria problemas para conseguir o clube de volta - Desculpe se esta pergunta for muito óbvia, Lukashenko, mas qual o seu cargo no conselho? Fiquei surpreso com o domínio que você tem sobre os processos burocráticos, fico realmente agradecido pela ajuda.
Yure
Não foi difícil de perceber a satisfação no rosto do mais novo, e era fato, se ele tinha ido ali com toda aquela polidez, era porque esperava ser recepcionado por um monte de burocracia pouco funcional. Mas Yure estava muito determinado a fazer o melhor trabalho possível, claro, que nunca seria o Isaac, mas não deixaria o Conselho Estudantil deixar de ser funcional, disso tinha convicção. Acenou positivamente, quando o jovem lhe afirmou que arrumaria tudo em no máximo dois dias, não duvidaria se ele lhe entregasse isso hoje mesmo. Mas teve de arquear a sobrancelha quando o menor se desculpou por perguntar qual era seu cargo no conselho, aquilo foi engraçado, ele podia ser do terceiro ano, mas ainda era um Calouro em St. Clavier, alargou o sorriso, mantendo o mesmo carisma que tinha sustentado durante toda a conversa ali, até um pouco mais divertido do que os risos anteriores:
-- Não precisa se desculpar por isso Newell. Atualmente, eu sou o presidente do Conselho, acabei de assumir a gestão, sou aluno do terceiro ano. Embora, nós não estejamos na mesma turma, você está um ano na minha frente. -- Manteve o ar suave, colocando o modelo de memorando pra imprimir, junto com uma lista breve de documentos requeridos para o processo, e se levantando em seguida, para ir buscar o documento impresso para que fosse preenchido pelo rapaz : -- Eu estou apenas mantendo o nível de eficiência da gestão anterior, não precisa me agradecer por isso. Eu gosto de estar aqui e ser útil pros outros alunos.
Pegou os papéis, colocando um clipe, e passou marca texto, nos links que eram importantes, caso ele ainda mantivesse qualquer dúvida sobre o processo, e estendeu na direção do menor: -- Se me permite retribuir a pergunta, que pode soar um pouco óbvia, mas você já fez algum amigo desde que chegou em St. Clavier?
Evelyn
Esperava que ele não se sentisse ofendido pela pergunta que fez, o que felizmente aconteceu, e ele apenas pareceu um pouco surpreso pelas palavras do ruivo menor. O sorriso que ele devolveu para Evelyn davam mais a certeza que ele havia sido um candidato bastante popular.
-... Presidente? Nossa, se o restante da sua chapa for similar, devem ser pessoas bem curiosas. E é uma pena que não estejamos na mesma turma, gostaria que estivéssemos na mesma sala - admitiu, talvez a companhia de Lukashenko fosse boa de se ter por perto. Ele falava diretamente sobre os assuntos, sem muitos rodeios, e isso deixava Evelyn bastante tranquilo.
Observou o presidente do conselho organizar os papéis, colocar um clipe e marcar as partes importantes, estendendo para o menor e fazendo uma pergunta que pegou o terceiranista de surpresa:
-Amigo? Hm… - realmente parou para pensar, pegando os papéis e colocando sobre as pernas, demorou alguns segundos até dizer um breve “ah.” - Durante as aulas eu não tenho muito tempo para conversar, e eu prefiro estudar depois das aulas tambem. Mas eu tenho um companheiro de quarto, o francês dele é péssimo, mas conseguimos conversar em alemão.
A definição de “amigos” era um pouco perdida para Evelyn, por isso acabou se prolongando um pouco na resposta. A única pessoa que diria que é sua amiga seria Lettice por que, bem, era Lettice.
Yure
Não fazia tanto tempo que tinha assumido aquela sala como parte do conselho estudantil, mas o ruivo tinha adquirido o hábito de observar os alunos que iam lá buscar por ajuda. E diferente de Isaac que era muito denso pra entender as pessoas, Yure tinha um jeito empático natural, tinha aprendido um ou dois truques com um gringo uns meses atrás, mas estava convicto que conseguia observar os trejeitos das pessoas com mais atenção que antes.
Não foi difícil perceber a confirmação para suas palavras, sendo daquele jeito excessivamente polido e muito focado em estudar, duvidava muito que o jovem a sua frente já tivesse feito algum amigo. Ainda bem que estava lá para mudar aquele aspecto também. Estendeu a mão na direção do outro, como se tivesse acabado a conversa, o sorriso no rosto, e esperou que ele lhe retribuísse o gesto antes de falar qualquer coisa, apertou a mão do mais novo e um aceno, mas não largou tão logo:
-- Não seja por isso, agora você tem um amigo Evelyn Newell. Eu. -- sorriu mais feliz que antes, e finalmente deu espaço para o menor, soltando-lhe a mão: -- e sobre estudarmos na mesma sala, não se preocupe, o tesoureiro do Conselho Estudantil, está na mesma turma, vocês têm a mesma idade, por sinal. E os outros membros você vai ter tempo para conhecer, não se preocupe.
Brincou voltando-se ao seu computador para desliga-lo, em seguida, parou em pé, colocando a mão no bolso da calça, demonstrando uma linguagem corporal mais tranquila e menos formal: -- eu já terminei meu horário de serviço aqui, e temos tempo até o toque de recolher, quer sair e procurar algum lugar pra jantarmos? Aproveitamos e eu te mostro alguns lugares da cidade, eu sempre faço isso com meus amigos.
Destacou o último ponto para reforçar que estava chamando o outro para sair não por mera formalidade, mas porque agora que eram amigos, ia chama-lo pra sair e passear para além da convivência em St. Clavier.
Evelyn
Não havia entendido muito bem a pergunta de Yure sobre amigos. Qual era o sentido naquilo? Ou melhor colocando, quem tinha tempo para fazer amizades com tantos estudos e investimentos para fazer? Claro, não era impossível, mas Evelyn preferia não se arriscar com isso, além do mais, tinha Letty ao seu lado, então estava tudo bem em não ter amigos.
Quando ele lhe estendeu a mão, entendeu a formalidade do final da conversa e o cumprimentou em um aperto. Porém, quando tentou se afastar, percebeu que ele não soltou sua mão, o que fez o ruivo menor olhar para o presidente do conselho com uma expressão confusa, até ele oferecer sua própria amizade, soltando sua mão. A surpresa do menor com o gesto foi tão aparente que levou alguns momentos para retrair a mão, porém ainda claramente com uma expressão confusa, tentou continuar a conversa:
- Eu… Agradeço? - começou, tentando ajeitar sua compostura sobre a situação - Fico feliz, tenho certeza que se são pessoas da sua confiança, posso igualmente confiar nelas. Estou ansioso para conhecer o seu tesoureiro. - Tentou manter a cordialidade diante da situação. Não sabia por que ele havia oferecido sua amizade tão repentinamente, mas a oferta certamente deixou Evelyn confuso e percebeu que suas respostas estavam também um pouco incertas.
Se levantou assim que ele fez o mesmo, e o presidente ruivo novamente foi rápido em fazer propostas inusitadas para o outro, tudo isso enquanto se mantinha bastante casual.
- Amigos. - reforçou, apenas procurando uma confirmação na fala dele - Normalmente depois de uma conversa burocrática, chamar alguém para jantar fora significa tratar de negócios extras. Mas no caso, quer sair como amigos? - cruzou os braços, perguntando diretamente pois precisava de uma resposta igualmente direta. O que ele ganharia com sua amizade? - Eu não tenho compromissos à noite, iria enviar alguns e-mails, talvez estudar um pouco, mas eles não precisam ser respondidos agora e posso aproveitar o horário comercial de amanhã de manhã. - Concordou, mesmo que um pouco relutante, com a proposta do outro. Conhecer novos lugares parecia uma boa ideia, quem sabe pudesse encontrar lugares para ir com Letty depois de se encontrarem?
Yure
As reações confusas de Newell eram um divertimento a parte, ele era realmente mais novo que o próprio ruivo ferrugem, e o fato dele ter tanto tato para falar com adultos, mas nenhum tato e desenvoltura para interações sociais mais casuais lhe divertia, talvez essa amizade fosse render? Provavelmente iria se divertir bastante isso era fato comprovado pelo que podia supor. Confirmou com a cabeça quando o mais novo repetiu a palavra “amigos” e depois acenou novamente quando ele precisou reafirmar todo o diálogo que acabaram de ter sobre a saída ser casual e não formal:
-- É um jantar casual, pra gente conversar trivialidades, se tiver qualquer coisa de trabalho que precisar tratar comigo, você provavelmente só vai se dar conta amanhã, quando for preencher a papelada, então só vim aqui e eu vou te ajudar. -- Comentou bastante tranquilo, passando o olho na sala, pra checar se precisava desligar ou fechar mais alguma coisa, puxou o celular de capa laranja, com adesivos metálicos, que tinha chaveiros bem divertidos e coloridos que contrastavam bem com a aparência de bom aluno que tinha; Se atentou de enviar uma mensagem no grupo que tinha criado pra o conselho, avisando que estava de saída e ia fechar a sala, indicando que tinha encerrado o expediente ali, para logo após tornar o aparelho ao bolso da calça:
-- Todos nós temos coisas da Academia pra fazer, eu tenho texto pra estudar do Clube de teatro, além dos exercícios de revisão que os professores sempre passam no começo do ano pra gente já pegar o ritmo de estudo, mas nada urgente do lado de cá também.
Pegou a bolsa de alça longa preta com alguns chaveiros barulhentos incluindo um guizo de gatinho e jogou sob o ombro, indicando para o menor lhe acompanhar e sair da sala para que pudesse desligar as luzes e fechar a mesma na chave:
-- E bem, se você ainda não têm amigos daqui da cidade, não deve fazer ideia de onde é bom ou ruim ir, lugares úteis, essas coisas, no geral, você pode ter todas essas informações por um catálogo turístico, mas venhamos e convenhamos, que conversar com outra pessoa é muito mais interessante que andar a esmo por aí. -- sorriu bastante confiante de que era uma ótima companhia para qualquer pessoa, principalmente em se tratando de bater perna por Cerise.
Antes de seguir de volta aos dormitórios, passou na sala do Conselho Disciplinar, deixando alguns documentos lá para Peyrac e parou para cumprimentar o amigo e trocar algumas brincadeiras sutis, antes de voltar toda a sua atenção ao seu novo amigo:
-- Bem, eu vou passar nos dormitórios para tirar o terno e por uma roupa mais confortável, a gente pode se encontrar na sala de convivência em 30 minutos, é tempo suficiente pra você? -- comentou bastante direto e sucinto já começando a entender que essa era a melhor forma de falar com o mais novo.
Evelyn
Yure parecia bastante direto, até diria sincero, quando mencionou amigos. A ideia ainda era bastante alienígena para o ruivo menor, mas não sabia exatamente onde ele queria chegar com essa amizade. O que em Evelyn havia chamado a atenção dele?
- Trivialidades, certo. - repetiu, o que deveria ser muito engraçado para o outro, já que ele parecia entretido com o que o aluno respondia. Mas que tipo de trivialidades seria? As únicas que pensava eram coisas a ver com a academia em si - Sim, eu acredito que só terei duvidas na hora de preencher, de fato…
Acompanhou o que o outro fazia enquanto falava, vendo ele puxar o celular que seria impossível não ver com a quantidade de coisas que tinha presas à ele, e só pode se perguntar se aquilo não daria algum tipo de problema no aparelho. Era o que tinha ouvido falar. Concordou quando ele comentou que todos tinham algo para fazer, ficou um pouco curioso sobre o tipo de texto que ele estudaria no clube de teatro, mas não perguntou no mesmo instante. Poderia conversar sobre isso no “Jantar de Trivialidades”, pelo menos teria um assunto para discutir. Apenas assentiu positivamente com a fala do outro, para garantir que estava prestando atenção no que ele dizia.
O seguiu quando ele sinalizou que deveria, e esperou que ele desligasse as luzes da sala:
- Eu sei pelo o que os panfletos turísticos falaram, realmente, não tive oportunidade de conhecer melhor a cidade - concordou, não admitindo que em primeira instância não estava tão curioso a conhecer o espaço da cidade turística em si. Pensava mais em passar seu tempo dentro da academia estudando, como sempre - Eu acredito que deva ser. Especialmente se a dita pessoa já morar na cidade há algum tempo. - não sabia de onde o ruivinho era, se era mais um dos muitos alunos que vieram de fora, como o próprio Evelyn, ou se era nativo da cidade. De todo modo, morando lá há mais tempo, poderia apresentar os pontos melhor que andar perdido.
Yure era bastante expansivo, era a primeira palavra que vinha para Evelyn descrever o outro ruivo, ele acabava sendo um tipo de pessoa que o alemão não tinha exatamente muito contato, então acabava ficando um pouco perdido em como reagir com uma pessoa tão solícita. Continuou o acompanhado pelos corredores, até ele ir para outra sala que seria a do Conselho Disciplinar. Preferiu esperar do lado de fora, dando espaço para que ele conversasse com o membro do outro conselho, que viu de relance ser um cadeirante. Quando ele saiu e voltou a sua atenção para o ruivo menor, assentiu positivamente à pergunta.
- Sim, é tempo o suficiente, acredito que consigo ficar apresentável. - respondeu, já pensando em que combinação de roupas faria para andar sem muitos problemas por Cerise e sem sofrer com o calor - Sala de convivência? Certo. Não irei me atrasar, até daqui a pouco. - se despediu do outro e fez caminho até seu quarto, onde encontrou com o outro alemão e explicou por cima por onde iria.
Trocou de roupa, já pensando em uma boa roupa casual para andar por Cerise e ainda poder andar por algum lugar. Optou então por um shorts preto, junto à uma camisa branca mais folgada e uma jaqueta jeans mais simples por cima, terminando o conjunto com um tênis preto. Como não estava mais usando o terno, preferiu então arrumar e deixar os cabelos ruivos soltos. Parecia ser uma boa combinação de roupas, ressaltava bastante a androginia que possuía, e assim não pareceria nem formal demais ou despojado demais. Se despediu do companheiro de quarto, e fez então seu caminho até a sala de convivência.
Chegou na sala de convivência e esperou pela presença do outro, aproveitando para mexer no próprio celular, que tinha uma capa branca e nada preso ou colado como a do ruivo, e trocar algumas mensagens com sua amiga. No final, não se importava se os outros alunos olhassem ou não, estava muito entretido no próprio aparelho.
Yure
O ruivo mais velho se despediu do seu mais novo amigo, e foi em tempo ao seu dormitório, tomou um banho breve depois de se livrar do uniforme de St. Clavier., para por roupas mais confortáveis, calça jeans preta, camisa branca com mangas compridas preta, jogou por cima um casaco xadrez vermelho com capuz e mangas compridas, um tênis vermelho bem chamativo, pos os fones apenas pelo hábito. Algumas pulseiras pretas num dos braços e lembrou de sair bem perfumado - afinal ser adolescente era uma droga em alguns aspectos-.
Chegou a sala de convivência para se deparar com um Evelyn em um visual casual completamente diferente, e nem tentou esconder a surpresa na expressão ao encontrar o ruivo mais jovem: -- Nossa! Você está fantástico! Sério. -- Yure se aproximou do outro rapaz, mas ainda deixando uns bons 50 cm de distância entre os dois, e sorriu amplo para o mais baixo: -- Você fica bem de terno e de roupa casual, nossa. Se bem que eu nem devia ficar surpreso, você é muito bonito. Ah, é… eu não perguntei antes, mas eu devo te chamar de “o Evelyn” ou “a Evelyn” ou apenas de “Evelyn”? Tipo, neutro?
O ruivo perguntou bem direto, pra facilitar a convivência ali, já tinha notado que o rapaz mais novo era bem andrógino, mas pelo gosto por vestir roupas mais femininas, ele podia querer ser chamado de outra forma não era? E era até curioso porque aquele tipo de combinação de short curto com uma sobreposição soltinha era o tipo de coisa que uma outra pessoa gostava de usar, e o pensamento lhe fez puxar o celular pra distrair a cabeça. Checou os horários dos ônibus que passavam do lado de fora da Academia masculina:
-- Seguinte, como Cerise é uma cidade, e não dá pra gente andar por toda ela antes de bater o toque de recolher, vamos pegar um distrito pra olhar por vez, hoje vou te levar pra conhecer Bleu. O itinerário que eu montei enquanto me arrumava é pegar um ônibus aqui, saltar na orla, mostrar os principais pontos e de lá, a gente acha um restaurante que seja legal pra nós dois, afinal eu sou vegetariano, mas como em quase qualquer lugar. Alguma objeção?
Esperou apenas algum apontamento do mais novo para seguirem até a entrada principal de St. Clavier e pegarem ônibus, bonito do jeito que estavam, até pareciam um casal saíndo para algum encontro, mas no meio do caminho o ruivo apenas cumprimentou alguns alunos de outros anos, mas não recebeu nenhuma pergunta indesejada no meio do caminho, embora imaginasse que fosse surgir alguma fofoca. Não demorou para que o ônibus passasse tendo o horário certo para o mesmo, e os dois pegaram condução rumo a orla, naquele horário de final de tarde ainda pegavam algum trânsito, então os ruivos tinham tempo dentro do coletivo antes de chegarem de fato no ponto onde iriam descer. Yure alternava a atenção entre o seu novo amigo, e as respostas aos grupos do celular, e em determinado momento, gesticulou como se fosse tirar uma self mas parou no meio do caminho, virando-se na direção de Evelyn:
-- Se importa de tirar foto? Se for problema eu tiro sozinho, pessoal do grupo de Parkour perguntando o que eu tô fazendo da vida agora. -- comentou de forma muito natural e despreocupada.
Evelyn
Nas mensagens que trocava no celular com a amiga, falava que iria sair para conhecer a cidade com o presidente do Conselho Estudantil. Não entrou muito em detalhes por que também não sabia ainda exatamente para onde iriam, imaginava que como o outro ruivo seria seu guia, el já teria algum tipo de ideia de o que gostaria de mostrar.
Como não prestava atenção nos arredores, estava apenas atento se escutava alguém o chamando, foi pego um pouco de surpresa ao ser chamado de fantástico, prontamente levantando o olhar e reparando no outro ruivo em trajes muito mais casuais que antes, mas que também caíam muito bem nele. Ser chamado de fantástico na sua aparência era algo estranho, especialmente vindo de alguém que só queria a sua amizade para conversar trivialidades, não havia necessidade de elogiar o outro assim. Se levantou de onde estava sentado, agora que o outro havia se aproximado, e sorriu educado ao elogio:
- Eu agradeço o elogio. Como não sabia exatamente para onde iríamos, não sabia se estava vestido roupas certas para o caso. - admitiu, apesar do ruivo maior continuar regando elogios sobre Evelyn, ainda era estranho. Especialmente quando ele perguntou como queria ser tratado, isso era um problema? Já havia sido confundido com uma mulher em certas ocasiões, mas isso nunca o incomodava. Na verdade, nunca havia parado para pensar no caso - Acredito que “o Evelyn” seja melhor, mas eu não me importo muito. Sei que as pessoas acabam confundindo e isso não me incomoda.
Verdadeiramente achava até engraçado quando acontecia, mas não podia culpar as pessoas. O tempo de guardar o celular de volta foi o tempo do outro puxar o próprio aparelho. Talvez tivesse recebido uma mensagem, mas depois recebeu as informações sobre o itinerário que fariam. Havia ouvido falar sobre Bleu, a parte mais nobre da cidade turística, com restaurantes caros, teatros, e inclusive alguns bares que funcionavam à noite. Concordou com o itinerário assentido positivamente, e até deu um riso baixo sobre o outro ser vegetariano. Não teriam problemas sobre comida:
- Está tudo bem, não possuo nenhum tipo de objeção à sua proposta. Eu estava curioso sobre conhecer a orla, na verdade… - não costumava ter tempo de lazer para visitar praias, e as “praias” que existiam em Berlin eram artificiais e estavam mais para rios do que praias de verdade. Verdadeiramente estava curioso com o aquário que havia ouvido falar que existia, mas isso poderia ficar para outro momento - Eu também sou vegetariano, então acho que você também pode indicar um restaurante sem se preocupar muito. - não sabia os motivos do outro de não comer carne, mas no seu caso, possuía uma dieta tão restrita que no final era mais fácil se livrar de qualquer tipo de carne, o que não foi difícil. - Vai ajudar bastante caso algum dia eu precise sair sozinho.
Não era exatamente a melhor pessoa para desenvolver conversas casuais, mas estava se esforçando, e assim seguiu Lukashenko - que cumprimentava diversos alunos no caminho - pelos corredores da instituição. Chegarem no ponto de ônibus e no horário estipulado, o transporte chegou e puderam dar caminho até o distrito de Bleu. Sentou-se ao lado da pessoa que o acompanhava e deixou o celular sobre as pernas, mas não mexendo nele diretamente, apenas atento caso recebesse alguma mensagem. Fez algumas conversas com o outro ruivo, já que o trânsito do horário ainda faria com que levassem mais algum tempo, era novo, estranho, mas não necessariamente ruim.
Percebeu a menção do outro em tirar uma foto e de maneira automática se afastou um pouco, imaginando que ele queria tirar uma foto dele mesmo, e então fazendo uma expressão confusa quando ele perguntou se poderia tirar uma foto com o próprio Evelyn.
- Hm… Comigo? - trocava fotos com Letty, mas eram mais das coisas que via, não necessariamente do próprio ruivinho. Imaginava que devia ser algo comum de amigos, ou desse grupo específico dele - Claro, sem problema. - Não costumava tirar selfies com outras pessoas, mas se esforçou para sorrir para a foto, em seguida fazendo uma pergunta - Desculpe se eu estiver sendo indiscreto, mas você mencionou um grupo de Parkour, certo? Eles também são de St. Clavier ou...? - deixou em aberto, imaginando que Lukashenko deveria conhecer pessoas fora de St. Clavier, diferente do próprio Evelyn.
Yure
Não sabia dizer se era o fato de ter lembrado de um certo alguém e isso ter lhe deixado meio avoado, ou talvez, um pouco perdido no limite de pedir pra tirar foto com seu mais novo amigo, que ainda estava se acostumando ao fato de que tinha um novo amigo. Clicou o celular numa foto sorrindo e depois fez uma careta engraçada, e depois de enviar apenas se atentou ao fato de que o outro era realmente um rapazinho muito elegante, mas o jeitão de criança arrumada fazia o ruivo mais velho apenas encara-lo como muito bonito e nada mais. Encarou o outro quando foi perguntado diretamente sobre o grupo de parkour e acenou negativamente com a mão livre:
— Ah, não, eles não são de St. Clavier, dois deles são formados já, e os outros dois tão meio que postergando pra entrar na faculdade, mas eles são bem legais, eu sou o mais novo do grupo. — pausou o comentário quando lembrou que tinham uma “mascota”, e foi em tempo do aparelho vibrar com spam de mensagens dos amigos perguntando quem era a “fofura” ou a “beldade”: — Pra variar eles te confundiram com uma menina, suave, eles são meio cabeça de vento mesmo. Faz uns meses que a gente não se encontra, porque eu tive de passar as férias na casa dos meus avós, longa história. — acenou com a mão indicando que aquilo iria demorar: — Aqui, vamos descer.
Apontou pra janela, onde já era possível ver o oceano, a praia, e o sol da tarde banhando toda a região de laranja, dito isto o ruivo se levantou de onde estava puxando a cordinha e dando sinal de parada do transporte coletivo:
— Ah! eu queria descer aqui mesmo porque eu gosto do cheiro salgado, quando o vento sopra se o seu dormitório ficar virado pra cá, você consegue sentir esse cheiro bom. Eu gosto demais, já andei muito de bicicleta por aqui com a Katrina quando eu era pequeno. — O ruivo puxou o celular tirou umas duas fotos, depois pôs ele no silencioso e guardou no bolso: — pronto, livre dos meus outros amigos, agora eu estou todo a sua disposição. — Falou em tom teatral fazendo uma reverência exagerada, sorrindo bobo em seguida:
— Bleu é o distrito turístico, o pessoal da política quer vender esse bairro como a cara da cidade, e se você gosta de hotéis desconstrutivistas aqui é um prato cheio, apesar da cidade ser histórica, o fato dela ficar próxima de Paris mas ainda assim entre outras cidades do interior de alta produção de vinho e alimentos, tornou esse lugar um ponto central, pense como uma encruzilhada: Se você sai do interior rumo a Paris para aqui, toma uns vinhos e segue, e o contrário também, se você está fugindo da agitação da cidade luz pra buscar sossego nas fazendas do interior, ainda é parada garantida em Cerise. — O ruivo caminhou até um dos muitos mirantes que tinha uma placa informativa da região, típica para turistas: — Geralmente se você for largado por um ônibus turístico eles vão começar o itinerário por aqui, por volta das 7hs da manhã aqui tá cheio de vendedor de tranqueiras, esperando os turistas chegarem, eles costumam descer fazendo o contorno da orla e então são levados pros hotéis, a maioria tem restaurante próprio, mas se você seguir pro meio do distrito chega nas boates como o The Capitol que é a mais antiga.
O ruivo fez o caminho inverso, do itinerário turístico, subindo em um dos bancos longos e ficando uns 60cm mais alto do que já era em relação a Evelyn: — Mas nós vamos pegar caminho contrário, nem tudo em Bleu é caro, e nos limites desse distrito com Griss é onde tem uns lugares legais, como o aquário, nós vamos dar uma passada perto pra você saber chegar só, sem a minha ajuda — o ruivo alargou mais o sorriso enquanto apontava pra si mesmo: — afinal, daqui pra frente, você vai fazer mais um monte de amigos e vai precisar ter lugares legais pra levá-los, só precisa se atentar de não andar de noite e acabar se perdendo e ir parar em Griss, mas eu te ensino a andar por lá depois, de preferência de manhã.
Evelyn
Aparentemente, o outro ruivo havia ficado satisfeito com as fotos que foram tiradas, o que deixou Evelyn bastante aliviado. Realmente, não estava acostumado com esse tipo de interação, era quase alienígena. Ficou feliz que a sua pergunta sobre o tal grupo de Parkour não foi completamente errada, mas riu de maneira contida quando ele mencionou sobre os amigos terem confundido o garoto com uma garota. Novidades:
- Tudo bem, como eu disse, eu sei que a minha aparência causa esse tipo de confusão. - ficou um pouco curioso, mas não muito, sobre ele ter mencionado ter ficado na casa dos avós, porém não teve chance de continuar a conversa por ser avisado que estavam próximos da parada.
Olhou para a janela que foi indicada e a vista do mar era extremamente bonita. Certamente entendia por que a ideia de ir à praia atraia tantas pessoas. Acompanhou o ruivo para descer do transporte e foi impossível não ser recebido pelo cheiro forte da maresia.
- Dá pra sentir isso lá da academia? Nossa. - comentou, verdadeiramente surpreso. Seu dormitório com Berthold não tinha esse tipo de luxo de poder sentir o vento vindo do mar, mas pelo menos sabia que não teria tanto problema de ir de ônibus até a orla se quisesse aproveitar um pouco da vista. Arqueou a sobrancelha quando ele mencionou o nome de uma mulher, mas rapidamente associou que deveria ser a mãe do outro. Achou engraçado e até um pouco teatral a maneira que ele disse que agora estava à disposição de Evelyn, que notoriamente sorriu um pouco mais relaxado. Não estava sendo uma experiência de toda ruim.
- Hmn, se não se importa, como você sabe tanto sobre a parte de arquitetura? - decidiu perguntar quando teve uma brecha, estava verdadeiramente curioso sobre onde ele havia lido ou pesquisado sobre.
Acompanhou o caminho que o ruivo fazia, mantendo uma postura correta e segurava uma mão atrás das costas, enquanto explicava sobre o bairro, inclusive falando sobre a arquitetura de alguns hotéis. Ele aparentava saber bastante sobre o assunto, mais do que alguém que apenas cresceu e foi criado na cidade, mas as informações do ponto de vista de uma pessoal local era realmente muito mais informativo do que os folhetos e cartilhas que havia lido antes de ir. Pelo menos saberia que aparecer naquela região muito cedo, teria de enfrentar contato com os vendedores, pelo menos poderia tentar evitar isso.
Parou os próprios passos quando Lukashenko subiu em um banco, criando uma diferença ainda maior de altura entre ele e Evelyn, o que fez o ruivo menor ter que dar alguns passos para trás para não precisar inclinar tanto o rosto para observa-lo. Era engraçado e curioso como o ruivo maior era tão expressivo, e realmente genuíno nas coisas que estava fazendo e falando. Não estava acostumado com esse tipo de interação, então ainda tinha um certo grau de desconfiança, mas aos pouco estava ficando mais à vontade na presença do outro.
Sentiu uma pequena empolgação surgiu quando ele mencionou sobre o tal aquário, mas conteve a empolgação, porém não pode conter a expressão confusa quando ele falou que em breve Evelyn faria novos amigos:
- Novos amigos?... - perguntou com a voz um pouco mais baixa, ainda incerto no que ele queria dizer com aquilo, nem se preocupou tanto sobre a parte de ter cuidado em andar por Griss de noite - Eu, hmn…. Como posso dizer. - ponderou, cruzando os braços e inclinando um pouco a cabeça - Eu não tenho a sua desenvoltura para fazer amigos, então não acho que eu vá ter “novos amigos” para trazê-los aqui.
Foi bastante objetivo nas palavras, como sempre era, e esperava que o outro entendesse. Havia também o fato que não tinha exatamente tempo para fazer amigos, apesar de Lukashenko ter já se “apresentado” na segunda vez como seu mais novo amigo, Evelyn ainda tinha em mente que amizades não eram o primeiro objetivo, muito menos o segundo. Logo, não eram sua prioridade.
Yure
O ruivo se divertia falando sobre a cidade de Cerise, era um local que tinha apreço, era onde tinha crescido e conhecido a maioria das pessoas importantes de sua vida, era onde sua mãe estava enterrada, e um lugar que a despeito das ocorrências recentes negativas, não podia negar que amava. Riu mais abertamente quando o mais novo lhe perguntou como sabia tanto de arquitetura, mas não respondeu imediatamente se dando tempo em explicar mais coisas sem perder a linha de raciocínio do que estava narrando. Mas não deixou passar batido o comentário do outro sobre não ter novos amigos pra levar naquele lugar, era curioso como as pessoas se colocam na situação de serem isoladas, como umas ilhas de cárcere, onde elas mesmas eram as prisioneiras, curioso, entendia, mas não queria colaborar para que o mais novo amigo mantivesse aquele hábito em particular.
-- Bem, sobre entender de arquitetura, uma das minhas mães é professora de história na academia feminina de Limoges-Collet, ela tem especialidade em História da arte, e eu desde pequeno acompanhei ela em congressos, feiras, e vi de perto ela montar apresentações, e já fui até pra algumas aulas dela, quando era menor. -- Embora não estivesse no melhor ânimo com a mãe, não podia negar as coisas que tinha aprendido com a mulher: -- História da arte está pra mim, como provavelmente ciência e finanças está pra você. -- O ruivo brincou e finalmente desceu do banco, se aproximando de uma das barracas pra pedir duas garrafas de água, estendendo uma na direção de Evelyn, antes de continuarem com a caminhada de fim de tarde:
-- Agora sobre o fato de você supostamente não ter amigos pra trazer pra cá, aí eu já não concordo sabe. -- ele comentou de forma despretensiosa, abrindo a garrafa de água e tomando um gole, apenas pra dar tempo de Evelyn pensar sobre o que tinha dito, e criar uma sensação de expectativa sobre o que o próprio Lukashenko completaria na frase: -- Você foi hoje a sala do conselho atrás de reativar o clube de ciências, um clube não pode existir sozinho, ele precisa de pessoas, você obviamente pode encarar as pessoas que vão fazer parte do clube apenas como colegas de trabalho, mas isso não impede que as pessoas desenvolvam afeto, carisma e atenção por você Evelyn, e assim por ventura quererem ser seus amigos.
Apontou a garrafa de leve na direção do ruivo ao seu lado, e depois apontou a frente, no que já era possível vislumbrar a construção em vidro, com reflexos azuis vinda do aquário da cidade: -- é mais fácil conversar com você e gostar da sua companhia do que você pode estar julgando Evelyn.
Evelyn
Esperava algum tipo de reação negativa do outro quando explicou sobre as poucas chances com novas amizades, mas ele não parecia ter se importado muito com o que foi dito, até mesmo rindo mais abertamente e voltando ao assunto sobre arquitetura.
Percebeu sobre o outro ter "duas mães", e apesar de não ser algo que ouvisse todo dia, estava verdadeiramente mais interessado sobre onde o outro havia aprendido tanto sobre a arquitetura local. O único detalhe que foi um pouco amargo foi a comparação feita no final, mas não demonstrou.
— Ah. Sim, entendo. Realmente são similares. Ela realmente parece ser uma mulher incrível, especialmente por ter tanto conhecimento. — respondeu enquanto aguardava o outro descer do banco, e seguir o acompanhando até as barracas, onde ele pediu e entregou uma delas ao pequeno ruivo.
Com uma das mãos ocupadas, procurou algum dinheiro que tivesse no bolso com a outra, afinal não deixaria que pagassem por algo que era completamente capaz de comprar. Fazia isso enquanto continuavam a caminhada, e teve a atenção chamada exatamente pelo tópico que estava receoso. Deixou um audível "Hm?" escapar dos lábios fechados, enquanto o outro parecia muito confortável tomando seu gole de água. Não poderia dizer de uma vez?!
Depois do pequeno suspenso, Lukashenko explicou seu raciocínio durante a caminhada dos dois. Fazia sentido, afinal era bastante comum ver coisas assim acontecerem, de pessoas que trabalham juntas desenvolverem um cuidado com as outras. Mas sinceramente, nunca havia sido sorteado para passar por uma experiência como essa.
Teve a garrafa apontada para si e então para frente, guiando seu olhar até a construção do aquário. Era bonito como imaginava, e imaginar o que havia lá era uma empolgação à parte. E ainda assim, Lukashenko deixou a breve deixa sobre Evelyn ter uma imagem errada de si mesmo.
— ... Eu não quero dizer que está errado, Lukashenko, porque você não está. Realmente, colegas de trabalho podem muito provavelmente construir uma relação amigável com o passar do tempo. Porém devo dizer que com o que já trabalhei, não passei por algo assim — explicou, segurando a garrafa em uma mão e o dinheiro em outra — Mas, não é problemático para o trabalho? Relações assim não podem acabar atrapalhando a produtividade, ou até mesmo, os interessantes de ambas as partes? — concluiu o pensamento, então estendendo o dinheiro para o outro — Eu não sei como minha companhia seria benéfica para a outra parte. Ah, e aqui. Pela garrafa de água.
