Grey's Anatomy [Dominique, Richard]
#1
Era mais uma daquelas semanas em que nada acontecia além de diversas consultas de rotina, exames de tomografia e eco cardiogramas para senhorinhas e senhores acompanhados de senhorinhas que costumam obrigá-los a cuidar da própria saúde. A última novidade que havia ocorrido na cidade, além do trágico e passado caso do psicopata que preferia não recordar (mas que sua memória guardava, pois era perfeita), era a visita do famoso médico James Dean, o bastardo que até nome de estrela tinha. Em sua saída com o sujeito, teve uma leve confirmação de como os homens naquela cidade pareciam sofrer com um problema constante: a necessidade de serem cuidados por terceiros. Salvo algumas exceções, como seu suposto amigo alto de corpo forte, cara fechada e uma boa mão para cozinha. E o agente fúnebre que conseguia dar conta de si próprio, cuidar dos mortos e ainda de alguns vivos.

Estava na sala da farmácia com as enfermeiras do setor e alguns funcionários da limpeza, aproveitando que as medicações haviam acabado de ser trocadas para assistirem na televisão de informativos do setor um pouco da série que também ficava disponível nos canais para os pacientes internados na enfermaria. Estavam assistindo um programa com algumas estrelas populares, um tal de Grey´s Anatomy. Estava encostada no arco da porta de entrada da sala enquanto os funcionários comentavam sobre como uma tal de Meredith estava sofrendo por causa do interesse amoroso dela, um tal de um médico bem bonito e galã da novela hospitalar. Estava de braços cruzados, o cabelo preso em um caprichado coque, a pouca maquiagem sendo necessária para o lugar de trabalho onde estava. Estava com o uniforme da enfermaria, sem luvas, enquanto aguardava o próprio ciclo de troca de medicamentos, esperando que algo interessante acontecesse.

Riu quando uma das enfermeiras comentou sobre como sonhava em ter um namorado como o médico do seriado e a colega de trabalho da mulher comentou sobre o namorado da outra só precisar se formar em medicina, pois já era um verdadeiro "delícia". Aquela ambiente de convívio de cidade de interior era bem mais tranquilo e agradável. Buscou o próprio celular, pensando em enviar uma mensagem para Richard e perguntar se o enfermeiro não queria fumar um cigarro na saída do necrotério quando terminassem o plantão. Aproveitou para perguntar se o sujeito tinha interesse em participar de uma festinha dos funcionários no final do expediente para falarem mal de algumas pessoas do trabalho e comentarem sobre o novo médico da cidade. O enfermeiro e o irmão dele eram pessoas bem legais em um nível diferente da enfermeira ruiva cereja com quem só parecia discutir em toda oportunidade possível. Não admitiria para a mulher, mas até começava a achar divertido as constantes divergentes que tinha com a mesma. Estava de costas para o corredor de acesso, então sequer prestou atenção em quem estava passando no corredor, mais interessada em continuar assistindo a novela com os outros.
#2
Após um dos seus últimos atendimentos marcados do dia e de verificar toda a papelada relacionada ao setor de fisioterapia, Dominique tinha uma dor de cabeça. Apertou os olhos por trás dos óculos e depois de deixar anotado um lembrete para si mesmo que deveria supervisionar a equipe de fisioterapia de surpresa no dia seguinte, levantou-se para pegar um café, notando que a cafeteira mais próxima era a da enfermaria. Bom, já que estaria de plantão ainda um tempo, por mais irresponsável que fosse, talvez um café e um analgésico lhe fariam bem.

Andou silenciosamente pelos corredores sem uma alma, o que, mesmo para um hospital do interior era algo levemente inédito. Olhou o relógio confirmando que os enfermeiros deveriam ter terminado de passar nos leitos com as medicações, mas o fato de não ter ninguém ocupando sequer a cadeira de frente ao posto deles já fez uma pontada desagradável a mais apertar do lado esquerdo da careca.

Ao entrar no posto, notou o áudio da televisão alto o suficiente para que não lhe ouvissem chegar (não que seus sapatos refinadíssimos fizessem esse ruído todo), e além dos enfermeiros assistindo o que parecia... ou melhor, era... Grey’s Anatomy, a doutora Arlovskaya, a neurocirurgiã estava encostada e sendo conivente com aquele comportamento. Naquele momento, Dominique até queria ter cabelo para arrancar, mas apenas controladamente verificou os prontuários primeiro para ver se estavam todos devidamente preenchidos e todo o trabalho feito, porque se ia reclamar – e claro que ia – era bom ser eficiente e reclamar tudo de uma vez.

- Boa noite. – Dominique cumprimentou todos parando a um passo atrás da doutora Arlovskaya, com a suavidade da educação a cara de uma frieza que podia congelar o inferno. O par de enfermeiras que assistia o seriado desligou tudo tão rápido que sequer parecia que estavam falando de médicos bonitões. Elas olharam por cima do ombro para confirmar a presença do doutor Dominique Robert, e embora uma até tenha tentado abrir a boca para se defender, a amiga dela fez um silencioso sinal de “Não” com a cabeça. – Eu suponho que estejamos com uma noite calma e tudo sobre controle, mas eu gostaria de saber o que fez vocês acharem que estavam fora do horário de trabalho para pararem e assistirem seriado. Deixaram o posto de enfermagem sem ninguém para atender um acompanhante de paciente que precise, ou um colega que precise de assistência e reação rápida. Além disso, não lhe pareceria uma visão confiável e responsável se um dos pacientes visse mademoiselles de relance muito ocupadas debatendo sobre a beleza do doutor bonitão.

As moças se levantaram prontamente sem saber nem por onde começar o pedido de desculpas.

- Lauren, espero que lembre de preencher as fichas dos últimos pacientes que fez a medicação antes de sair do seu turno. Não preencha com meios dados para completar depois, se esquecer pode comprometer o atendimento da pessoa que lhe substituir. – a tal enfermeira fez um “sim, doutor” quase inaudível antes de pedir licença junto com a colega para voltarem ao posto. Dominique respirou profundamente e então observou a colega de profissão também. – Preciso passar um feedback para você também, doutora Arloviskaya, ou consegue tirar suas conclusões a partir do que eu disse para as enfermeiras?
#3
Quase soltou um grito de susto, não estivesse acostumada a ser surpreendida por pessoas bem mais perigosas que o colega de trabalho. Pegou uma mão ao peito na tentativa de acalmar o próprio coração, os olhos arregalados em choque ao encontrar o chefe da fisiatria ali. Franziu o cenho automaticamente, aquela bola de cristal que ele chamava de cabeça deveria conseguir ser vista a pelo menos um quilômetro de distância. Acompanhou com o olhar em silêncio enquanto a enfermaria parecia em polvorosa com a presença do sujeito que, bastava estar ali, para que as pessoas se sentissem compelidas a realizar seu trabalho da melhor forma possível. Gostava daquele tipo de presença, mas, na mesma equivalência, detestava a ideia do colega de trabalho estar atrapalhando um agradável momento de convivência entre os empregados daquele setor onde podia, graciosamente, ouvir pela boca de terceiros sobre o que estava acontecendo de interessante na cidade.

Resolveu aproveitar que ele estava se ocupando em dar uma bronca na pobre Lauren para poder se virar, buscando sair pela tangente daquela situação. Talvez fosse de fato fumar um cigarro no final do expediente e convidar seu enfermeiro favorito para um papo nada a ver sobre o que estavam mesmo fazendo ali naquela cidadezinha do interior francês para depois convidá-lo para dividir um lanche na área de alimentação do lado de fato do Hospital Geral de Cerise. A enfermeira cereja parecia mais ocupada com os próprios assuntos familiares, então não era vantagem alguma perturbar a mulher naquele momento. Entretanto, quando estava pensando no que faria no final do expediente, ouviu seu sobrenome ser chamado pelo médico, o sujeito parecendo lhe repreender por algo. Na verdade, estava acostumada com aquele olhar vindo do colega de trabalho, então, diferente das enfermeiras, não pareceu culpada ou inclinada a um pedido de desculpas por estar ali.

- Você... estava falando alguma coisa sobre dar atenção aos pacientes... e sair do posto de enfermagem... certo? Ah, eu estava pensando no que eu iria jantar hoje. - respondeu com um sorriso amistoso nos lábios, certa de que sua memória havia gravado cada uma das palavras do profissional. Meneou a mão em um gesto leve e descontraído. - Estou brincando, eu lembro do que falou. Já verifiquei os pacientes deste setor pessoalmente, nenhum correndo risco severo, doutor. Não se preocupe. Aliás... - fez uma breve pausa, só então cruzando os braços e estreitando o olhar para Dominique. - ... o que faz aqui, Robert? É difícil te encontrar fora do seu posto de trabalho. Ah! Aconteceu alguma coisa?! - alarmou-se, pensando se não deveria ter deixado algo passar com algum de seus pacientes. - Te chamaram aqui? Eu não ouvi nenhum chamado tocar. Que estranho... - olhou de volta para a sala de onde tentava sair, os monitores não acusando nada fora do normal. - Hmmm...
#4
Dominique respirou fundo, porque podia ver claramente a doutora Arlovskaya saindo pela tangente e tentando se livrar da bronca das enfermeiras. Mas sendo sincero, aquele raramente era um setor sob sua supervisão, ou então teria sido bem mais duro com as enfermeiras. Só não era da sua consciência deixar aquele tipo de comportamento relaxado acontecer sem chamar atenção.

Fechou os olhos longamente sentindo a cabeça doer ainda mais quando a palhaç- a colega de profissão decidiu fazer pouco de suas palavras. Mas felizmente ou infelizmente, sabia que ela tinha uma memória boa, e logo ela lhe confirmou que nada demais estava acontecendo ali. Só queria ser menos irritável quando se tratava de trabalho.

- Eu gostaria de dizer o mesmo, Arlovskaya. – murmurou enquanto apertava entre os olhos para aliviar a cabeça mais uma vez, lembrando o tanto de vezes que viu Natalia passeando pelo hospital como se ela não tivesse nada melhor para fazer. Se tinha alguém disposta a estar fora do próprio posto de trabalho era ela. Respirou fundo e então voltou o olhar para a médica, sério como sempre. – Não, terminei meus atendimentos marcados e vim buscar café, acabou o da fisioterapia. Então, por pura coincidência, me deparei com essa cena e com uma certa médica sendo conivente com esse comportamento displicente. E você, o que está fazendo aqui, além de assistir seriado com as enfermeiras?

Duvidava, sem nem pestanejar, que Natalia tinha feito a checagem como tinha dito. O médico pegou um par de copinhos plásticos e encheu, percebendo a inutilidade do segundo copinho com o café que não estava tão quente assim. Então tirou um remédio para dor de cabeça do bolso e tomou com café, respirando aliviado com o gole amargo da bebida.
#5
Notou como o sujeito parecia estar sofrendo com dores de cabeça e acompanhou como ele estava inclinado a beber um pouco de café. Sorriu casualmente enquanto ele se ocupava em apontar como estava assistindo seriado com as enfermeiras. Entre muitos dos homens com quem já havia trabalhado, Robert se mostrava um tipo bem comum, o tipo de homem que assim como ela, valorizava o próprio trabalho, a ponto de julgar o modo dos outros de resolverem os problemas ali. Preferia sempre repetir em sua mente o mantra que se ele era um fisiatra e que não havia motivo para discutirem, visto que a especialização dele não era a mesma que a sua, e vice-versa.

- Eu estou terminando meu plantão. - respondeu, estendendo a mão para pegar o primeiro copo dele com o café que ele não havia tomado. - Tome cuidado, doutor, com essa cafeína misturada com medicamento. Pode criar uma dependência. - devolveu o copinho com café, pensativa, antes de esboçar um sorriso mais amistoso. - Ei, você viu que aquele médico famoso está na cidade? O doutor Lewis. - riu baixo ao contar sobre o homem de vestes exóticas. - Ele é uma gracinha. Tem um gosto bem peculiar para roupas, mas uma gracinha. De vez em quando, ele aparece por aqui. Ouvi dizer que ele vai trabalhar em St. Clavier.

Seguiu o médico, observando melhor como aquela careca brilhava em meio a iluminação dos corredores. Era agradável ser uma mulher alta de 1,78 de altura, podendo ficar lado a lado com o médico de ar mais sério. O sujeito, pelo que havia ouvido das enfermeiras, era casado, mas passava mais tempo ali no trabalho que na própria casa.

- Está trabalhando em algum artigo novo, Robert? - perguntou por curiosidade, achando divertido continuar falando e perturbando o homem que estava tomando remédio para dor de cabeça.
#6
O médico não deixou de arquear muito visivelmente uma sobrancelha para a resposta imediata da médica.

- “Estou terminando” quer dizer que ainda não terminou? – questionou com uma voz muito calma, embora não estivesse em seu lugar questionar o que Natalia deixava de fazer, afinal, só tinha comando da área de fisioterapia. O máximo que poderia fazer ali mesmo seria cutucar a colega. E claro, ignorar completamente o alerta dela sobre criar uma dependência de café com analgésico.

A médica então procedeu de fazer fofoca sobre um médico famoso. Doutor Lewis poderia ter incontáveis implicações em inúmeras áreas, não era como se Lewis fosse o nome mais incomum na superfície da terra. E se não era da sua área, certamente não teria guardado o nome do sujeito, a não ser que fosse alguém que estava nas notícias o tempo todo. Talvez fosse um doutor Lewis conhecido de fato, mas não sabia nem de qual área da medicina: a descrição de “bonitinho mas mal vestido” não lhe lembrava ninguém que tivesse visto recentemente.

- E por que ele aparece por aqui? Está doente? Ou tem alguma permissão para fazer pesquisa no hospital geral? – Dominique questionou, se perguntando se tinha visto um sujeito chamado Lewis em algum lugar nos corredores. Mas de que adiantava? Mesmo que ele fosse bonito, certamente não gostaria de se envolver com ninguém famosinho. E certamente não era da sua área de atuação, para trocarem figurinhas. – O que um médico supostamente famoso estaria fazendo em St. Clavier? Ou ele já está em tempo de preguiça com pesquisa, ou está em fim de carreira. Não acho que ser médico em um internato no interior da França seja exatamente ascensão de cargo. Ser médico no interior da França tampouco é, sejamos sinceros. – o sujeito comentou com uma honestidade dura, até consigo mesmo. Mas estava satisfeito onde estava, afinal, tinha toda estabilidade de carreira que poderia pedir, e não ouvia mais reclamações da família. Sua única falta de paz eram os ocasionais artigos e a heterossexualidade compulsória. – Sim, doutora Arlovskaya, estou. – o sujeito massageou de leve as têmporas. – Estou fazendo tratamentos novos de fisioterapia com pacientes idosos com doenças neurológicas. Talvez seja de seu interesse, lhe aviso quando concluir. E você, não vai concluir seu plantão?
#7
Apenas concordou com um aceno de cabeça orgulhoso por admitir que ainda estava terminando seu plantão, com o bom humor que sabia que incomodava o colega de trabalho. Teve vontade de rir com o "supostamente" famoso do outro, Sorriu animada com a ideia do tema da pesquisa dele envolver sua área de expertise.

- Eu adoraria acompanhar o andamento da sua pesquisa, doutor. E vou sim, concluir meu plantão. Posso jurar que quer me expulsar do meu próprio departamento com esta urgência de me ver concluir meu trabalho, Robert. - cruzou os braços, procurando pelo corredor algum de seus enfermeiros favoritos ou a enfermeira de cabelo rosa cereja, caso, por um milagre, ela estivesse trabalhando ali naquele horário do seu plantão. - E você, Robert? Já saiu do seu horário de trabalho? Quer sair para comer alguma coisa? Fumar um cigarro... - ofereceu, imaginando se ele não preferia sair ao ter de voltar para a própria casa. Sabia que ele tinha família, mas também sabia que, assim como ela, preferia passar boa parte do seu tempo no trabalho a ter de lidar com os problemas de sua cabeça sozinha no apartamento vazio que era o lugar que deveria chamar de "casa".

Observou uma enfermeira se aproximar com uma prancheta com os prontuários e os resultados da nova avaliação dos pacientes daquela ala. Verificou aqueles que deveria ter alta na manhã do dia seguinte e mudou a medicação de alguns dos pacientes com o intuito de diminuir o desconforto daqueles que ainda deveriam passar mais alguns dias aqui antes de serem liberados para casa. Estava cansada por conta do plantão e pela privação de sono, mas isso não significava que não conseguia separar algum tempo para comer algo bom e quem sabe fumar um cigarro. Robert não era um médico ruim, só um homem de ar muito sério e pouco humor para suas piadinhas ocasionais.
#8
Franziu a testa imediatamente com a forma como ela concordou sobre estar concluindo o plantão. Fechou os olhos por um segundo e arqueou a sobrancelha, sentindo uma pontada na testa que sabia ser a dor de cabeça agravada pelo estresse de lidar com uma pessoa relaxada como a doutora Arlovskaya. Isso ou sua esposa estava lhe traindo com algum encanador. A perspectiva da traição lhe deixava menos irritado, então certamente a culpa era da médica.

- Não quero te expulsar. Quero que termine seu trabalho, e pra isso você precisa estar aqui. – “Infelizmente”, acrescentou mentalmente, respirando fundo para recuperar a compostura. Porém, a pergunta que Natalia fez a seguir lhe fez virar quase todo o corpo na direção dela, as sobrancelhas erguidas com a surpresa dela lhe chamar para um jantar. Com certeza ela não tinha problemas com a própria leviandade, mas imaginava que a médica não fosse com a sua cara, pela forma como gratuitamente lhe provocava. Pensado isto, também era provável que fosse apenas uma pergunta de boa educação, a qual poderia responder com “sim” e submeter a mulher a pior tortura da sua vida, ou com “não”, e viver a própria vida em paz. Bom, bem sabia que não era nenhum torturador. – Obviamente já estou livre. E eu não fumo. E você sabendo os danos que o cigarro traz, também deveria pensar em parar. Mas... “casa de ferreiro, espeto de pau”, não isso é mesmo? – até abriu meio sorriso, porque pelo menos viu alguma ação da médica para terminar seus atendimentos. – Sobre o seu convite, vou ligar para minha esposa primeiro. Caso ela tenha feito o jantar, vou ter que dispensar. Não é sempre que jantamos em família.

Levantou a mão um momento em um breve aceno e então fez menção de sair.

- Mas de todo modo, obrigado pelo convite, doutora Arlovskaya. Passe na fisiatria quando terminar seu plantão e lhe darei uma resposta mais concreta. – enfatizou.
#9
Levantou o olhar com certo ar de riso enquanto terminava de preencher as informações das medicações que deveriam continuar a ser administradas nos pacientes daquela ala. Robert não era nenhum pouco discreto com a própria desaprovação por seus métodos. Concordou com um aceno de cabeça quando ele usou aquele ditado popular para exemplificar sua relação, sendo médica, com o cigarro.

- Ou... - destacou, usando a caneta da enfermeira para apontar para o colega de trabalho antes de devolver para a colega de trabalho que apenas queria ficar longe dos dois egos dos médicos. - ... se ela fez o jantar, você pode ligar para ela e dizer que a sua colega de trabalho vai lá na sua casa jantar. A propósito... - fez uma breve pausa após se escalar para comer na casa do colega de trabalho descaradamente. - ... eu não fazia ideia que a senhora Robert sabia cozinhar, ela costuma preparar o que? Normalmente eu prefiro comer carne, mas não sou exigente. A comida daqui do hospital não deixa a gente ser exigente, não é mesmo? - falou pelos cotovelos enquanto acompanhava o médico enquanto ele voltava para a própria ala. Não poderia acompanhá-lo por todo trajeto, afinal de contas precisava ainda dar um "oi" para seus pacientes ali. Concordou com a breve despedida dele, animada com a ideia de poder sair dali e ter uma companhia minimamente decente para comer, mesmo que fosse um colega de trabalho careca e sem sendo de humor. - Até mais, Robert! Já passo por lá!


Avisou e girou nos calcanhares, dirigindo-se para a sala de cada um de seus pacientes que demandavam maior atenção. Conversou com as enfermeiras que já haviam trocado de horário no plantão e explicou sobre as informações que havia anotado e o que deveria ser passado para seu colega de trabalho quando trocassem o plantão. Assim que resolveu os detalhes do término de expediente, cumprimentou seu colega de trabalho quando este chegou para render seu horário, e foi para a sala onde ficavam os armários para realizar a própria higiene e pegar a bolsa para sair, o jaleco deixado para trás.

Parou na frente da sala do fisiatra e bateu na porta educadamente, porém em um ritmo peculiar com duas batidas longas e quatro rápidas, indicando que só poderia ser sua pessoa a estar ali aguardando pelo colega de trabalho. Buscou o próprio celular, começando a procurar por lugares interessantes e próximos onde poderiam sair para comer algo saboroso. Se algum de seus enfermeiros favoritos estivesse livre naquela noite, também os convidaria, mas imaginava que eles também estariam atolados de trabalho ou descansando depois de um longo plantão naquela hora da noite.
#10
Foi difícil para Dominique controlar as sobrancelhas de arquearem – foi talvez a coisa mais difícil do seu dia inteiro de trabalho – quando Natalia se convidou para ir jantar em sua casa, apesar de serem apenas colegas e não terem sequer uma relação vagamente amigável. Ela estava lhe provocando de propósito? Bom, de fato, mais surpreendente que ela se convidar seria se sua esposa tivesse mesmo feito o jantar. Quer dizer, ela sabia cozinhar, como toda socialite criada para ser esposinha perfeita, mas ela preferiria mil vezes pedir a empregada para fazer o jantar, e na ausência do seu filho, servir uma bela torta de climão entre os dois.

- A comida dela não é muito diferente da do hospital, doutora, mas é feita com muito sentimento. – Dominique respondeu com o que imaginava ser um bom equilíbrio entre ofensa e elogio, embora não devesse nada a Natalia que ainda queria exigir carne no jantar na casa de outra pessoa.

Na verdade, queria arrumar uma desculpa para sair daquele compromisso imaginário que tinha se metido com Natalia. Queria mentir que sua esposa não se sentiria confortável com a ideia de que ele ficasse aquele tempo fora, mas bem verdade era que inúmeras vezes voltava propositalmente tarde para casa. Aquele dia em particular sequer tinha um bom compromisso imaginário para criar, seu filho havia saído com alguns amigos e a esposa claramente já tinha arranjado algo mais interessante para fazer que voltar para casa. Com as batidas na porta, revirou os olhos. Quem sabe aquele era um sinal divino de que deveria interagir com a colega de trabalho folgada?

- Oui, doutora Arlovskaya. Já vou. – guardou tudo em seu devido lugar e saiu da sala com sua maleta. – Aparentemente estou livre, minha esposa foi as compras com algumas amigas. Acho que vou jantar antes de buscá-la. – comentou lutando internamente contra si mesmo. – O que você costuma jantar?
#11
- Gosto de carne. - deu de ombros ao responder a pergunta ao colega de trabalho enquanto o acompanhava para irem até a saída do hospital. - Ah, tem um lugar que serve um churrasco coreano que eu estava a fim de ir, não é muito longe. Fica até perto do shopping. - explicou enquanto mexia no próprio celular, buscando o endereço do lugar antes de se aproximar e mostrar a própria tela do aparelho para o médico ao pararem na saída do trabalho.

Já havia pensado em visitar o lugar sozinha, mas era sempre mais agradável quando tinha alguma companhia para conversar. As enfermeiras já pareciam estar acostumadas com suas investidas e haviam se aperfeiçoado nas respostas esquivas. A ruiva cereja tinha os próprios problemas com os estudos para se tornar médica também. Diodoro era sempre um bom amigo, mas gostava de dar algumas folgas de atenção para ele não se sentir sobrecarregado por sua invasão de privacidade. O sujeito enorme que já havia cozinhado para sua pessoa só conseguia encontrar por acaso e Desirée tinha sua própria vida agora com os gêmeos. Ainda haviam os enfermeiros com quem gostava de trocar conversa quando ia pegar emprestado alguns medicamentos no almoxarifado, mas nem sempre eles estavam de plantão com ela no hospital.

- Então... - pegou as chaves da sua pickup e sacudiu no ar, dirigindo o olhar para o colega de trabalho com um sorriso amistoso nos lábios. - Vamos no meu ou no seu carro? Ou... - fez uma breve pausa, baixando as chaves. - ... podemos pegar um táxi. Como quer ir? - ofereceu de forma educada, esperando que ele escolhesse o que fosse mais confortável para ele. Afinal de contas, quem tinha uma esposa que deveria estar esperando por ele era o colega de trabalho e não ela. Suspirou por um instante, tentando ser discreta com a sensação desagradável ao se recordar do motivo de não gostar de voltar para seu apartamento quando saía do trabalho. Talvez estivesse ficando mole e carente. Talvez devesse começar a criar um hamster. Ouviu falar que eram boas fontes de afeto.
#12
Ao menos seria um jantar que saberia apreciar. Churrasco coreano também tinha muita verdura? Enfim, não adiantava pensar demais no que iria comer ou na companhia, já que já estava nesse compromisso. Apenas concordou silenciosamente com a escolha de lugar, afinal, ela tinha considerado até que fosse próximo ao shopping e assim pudesse buscar sua esposa.

Arqueou a sobrancelha para a chave do carro de Natalia, se questionando se ela era desleixada no trânsito como era no trabalho.

- Acho melhor nos encontrarmos lá. Preciso estar com meu carro e suspeito que você também, para voltar para casa depois do jantar. – Dominique respondeu calmamente, pensando que seria uma oportunidade de ouro de fugir de Natalia, mas seria muito irresponsável da sua parte deixar alguém de plantão esperando por si. Queria ser uma pessoa mais desonesta. Porém, cada um com seu carro lhe dava a brecha de inventar qualquer desculpa para correr do jantar, e nenhuma para Natalia grudar nele usando a desculpa que tinha ido de carona. Porém, algo estalou em seu cérebro. – A não ser que você beba. Nesse caso, melhor vir comigo, e de lá pegar um táxi para casa. – apontou, colocando o limite na interação até o fim do jantar.

Pegou a chave do carro também, indo até o estacionamento e digitando rapidamente no celular o nome do local no GPS para lhe guiar aonde era.


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