[Drive] Alunos e Filhos [Stefan; Adelaide (Juliette)]
#1
Stefan

Talvez depois de sua última sessão com o doutor Vlahos estivesse mais calmo sobre o que tinha acontecido em sua última saída com seu novo professor. Se fosse bem honesto sobre tudo, estava afobado pela sua própria capacidade de matar uma criatura viva. Era um cão, claro, um bicho, algo que ninguém sentiria falta, mas para Stefan, ser capaz de fazer algo além do tédio pleno do dia a dia em St. Clavier – e algo que o fizesse sentir mais másculo – já parecia algo no qual se agarrar desesperadamente.

E pensando bem, ao menos nas coisas que tinha dividido com o psiquiatra, tinha um lado seu capaz de pensar o mal. Capaz de fazê-lo, além do mal causado apenas por palavras e mal estares, isso ainda não sabia. Mas esperava saber. Esperava a próxima mensagem de Kyle com suas referências estúpidas a Alice no país das Maravilhas. Ao menos não eram suas tarefas do curso de artes.

Surpreendentemente, não foram longos os dias de espera. Uma manhã qualquer, apesar de saber que não era exatamente o melhor horário para fugir de St. Clavier, recebeu outra mensagem daquelas enigmáticas. Uma localização. Dessa vez não teria que pular o muro, mas era bom deixar seu contato consciente: seu tempo era limitado. Bem sabia disso. A mensagem dizia:

“Museu de Áudio e Visual de Cerise. 10:00h. Pode vir se quiser ser um louco, Alice. E sei que quer ser um louco. Ou você não virá.”

Arqueou a sobrancelha para a imagem e levantou da cadeira com muita vagarosidade, pedindo uma licença breve para o professor, e então, sem dever nada a ninguém, foi até o dormitório trocar de roupas para fugir da aula. Qualquer coisa, poderia deixar um aviso posterior de que não estava se sentido bem e foi atrás de um médico mais confiável que o enfermeiro gorducho do prédio administrativo. Ao invés disso, optou por uma assinatura de sua saída repentina e uma espera de 10 minutos no ponto de ônibus da Academia.

Chegou no museu com pouco tempo depois de pegar o ônibus, trajando uma calça preta de amarrar e uma camiseta de gola V, além dos cabelos escuros presos em um coque. Parecia um estudante visitante, e talvez até pudesse se divertir visitando aquele lugar, onde sabia ter um pouco da – vasta – história daquela cidadezinha sem sal, tudo contado em pequenos filmes e músicas. Por que alguém visitaria aquele lugar? Não sabia. Pagou a entrada irrisória e andou calmamente observando os grandes quadros com cartazes de apresentações de músicas antigas, além do vídeo de uma música da época que ficava tocando em loop e já lhe irritou nos três primeiros minutos de passeio.

Revirou os olhos quando dobrou o corredor para ver a parte que falava do teatro de Cerise, notando que tinha um grupo de crianças com suas professorinhas super empolgadas mostrando tudo aos pequenos que certamente tinham internet e youtube em casa e não se interessavam por aquelas artes analógicas. Com a expressão morta de sempre, deslizou os olhos por cada um deles, procurando as expressões vazias de interesse nos rostinhos jovens.

Ao invés disso, sentiu o coração falhar, e uma gota de suor escorrer do canto da testa.

Os orbes escuros antes tão tranquilos, arregalaram-se ao ver a presença de uma criança loira, uma menininha familiar. Como reflexo, olhou para o lado e para trás, como se tivesse ouvido um sussurro bem no pé de seu ouvido e procurasse a fonte. Queria fugir. Mas não podia. Tinha que esperar ele ali. Mas não podia. Queria ser louco. Mas enlouqueceria de fato, se a encontrasse ali.

Juliette

Estava acompanhando seus coleguinhas de turma no passeio da escola que, devido a sua tia Annabelle, havia conseguido participar. Era ela agora que assinava os papéis da escolinha que levava para casa. Queria que sua mãe voltasse logo para casa, mas já tinha outros planos em mente. Estava juntando o dinheiro que conseguia arrumar com os trocados do lanche sempre que pedia dinheiro para sua tia para comprar alguma coisa. Se tivesse dinheiro o bastante, talvez pudesse pagar para o homem grande achar sua mãe e trazê-la de volta.

Ainda que não expressasse muito na maioria dos passeios que costumava ter com sua turma, estava entretida o bastante com aquelas obras. Recordava das aulas que ainda podia ter com o pintor Arman. Como sempre tinha um bloco de desenho e lápis de cor em sua mochila da escola, era notório como apreciava aquelas obras de artistas famosos. Comparados ao seu tamanho, os quadros eram enormes e isso lhe fascinava ainda mais como se estivesse em um mundo de arte feito por gigantes.

Não demorou para que o grupinho de crianças continuasse o trajeto. Já estava pronta para continuar seguindo sua professorinha, quando se virou para observar uma última vez um dos quadros passados no museu. Parou onde estava, entreabrindo os lábios pequenos como se tivesse acabado de encontrar algum conhecido. Lembrava daquele homem. Não tinha como esquecer de sua memória os cabelos escuros em ondas, diferente da maioria das pessoas que encontrava, além dos olhos escuros, o corpo alto e magro.

Ouviu a professora explicando um pouco mais distante aos seus coleguinhas sobre uma nova obra de arte, dessa vez alguma cabeça, escultura. Segurou nas alças de sua mochila pequena, quieta enquanto procurava o que o estranho conhecido observava, pois ele parecia ter ficado surpreso. Confusa, apenas acenou, discreta, em um cumprimento mais educado antes de fazer menção de continuar com sua turma. Todavia, de costas para o homem que não encontrava há algum tempo, não seguiu o trajeto das outras crianças, virando-se para outro corredor pelo qual já haviam passado, mas onde haveria uma das obras que havia de fato lhe chamado a atenção. Não via graça nas explicações de sua professorinha de qualquer forma, preferia quando Arman lhe explicava sobre cores e quadros. Ele podia ser bem menos empolgado, mas a tranquilidade dele lhe era confortável.


Stefan


Chegou a estremecer quando viu a loirinha acenar. Era uma lembrança muito vívida a imagem da mãe dela. Pensando bem, não tinha sido aquele o primeiro dia em que encontrou seu professor? Talvez fosse o destino. Já que ele não lhe tocava. Ou talvez ele soubesse que a pequena estava lá? Talvez ele conhecesse ela? Engoliu em seco, lembrando que pequenininha não tinha um pai. Ou tinha? Ele sabia, ou não sabia? E se sabia, o que ele estava lhe oferecendo ali? Estava sendo paranóico, mas duvidava que naquele mundo onde tudo estava contra ele, que aquela seria apenas uma coincidência.

Com os dedos trêmulos, ergueu a mão para acenar de volta para a pequenina, supondo que era o natural. Se não poderia correr dali, dele ou dela, então restava-lhe seguir naquele caminho, vestir o manto de trapos que lhe reservaram e sentir as risadas de todos. Era assim, era assim que tudo acontecia ao seu redor.

Porém, ao invés da menininha se aproximar – ao invés de qualquer um se aproximar – ela deu as costas e entrou em outro corredor. Os olhos escuros fixaram na rota que ela havia tomado, supondo que não faria mal se saísse dali por alguns instantes. Se a encontraria, encontraria a mãe, ou encontraria... o pai? Seria invasivo o suficiente para perguntar, já que nesse caso, não teria nada mesmo a perder.

Colocou os dedos longos na parede e espiou por trás da mesma por um instante para ver que tipo de lugar a garota estava andando. Certamente havia algo significativo ali. Se ela estava com a professora, estaria com a mãe? Ou estaria longe dela?

- V-Voc... Verme. Está só? – perguntou baixo a pequena, seguindo-a um pouco afastado no corredor.


Juliette

Parou frente a um dos grandes quadros, algo parecido com o que seu professor fazia quando estava lhe dando aulas particulares. Não se importou a priori com o aceno do rapaz conhecido, mas não pode ignorar a presença dele quando se aproximou. Franziu o cenho ao ser chamada daquela maneira, não respondendo inicialmente, ocupando-se em tirar da bolsa um de seus pequenos cadernos com algumas anotações sobre cores e fotografias em um livro sobre pintura para crianças.

- Passeio da escola. - respondeu em um tom mais baixo que de costume, buscando um dos bancos frente ao quadro de seu interesse. Conseguia ler a letra “M” na legenda abaixo do quadro que deveria ser de algum artista muito diferente, se comparado ao restante dos pintores ali que preferiam apenas desejar bustos e pessoas, aqueles quadros tinham pinceladas diferentes e bem coloridas que lhe faziam lembrar de seu professor e lhe distrair do que lhe incomodava nas últimas semanas. - Mi. ro.

Repetiu as sílabas da legenda com calma, buscando um de seus lápis de cor para escrever as letras em seu caderninho de anotações. Acomodou-se sentada no banco ao centro do salão, sequer dando atenção ao conhecido rapaz de cabelos escuros até conseguir terminar sua anotação.

- Está só? - devolveu a pergunta para o mais alto, erguendo a cabeça para observá-lo com curiosidade. Não se recordava de encontrá-lo acompanhado antes. Queria ter a sorte de encontrar com seu professor de arte ali, ou sua amiguinha Clementine com a irmã de marias chiquinhas dela, ou quem sabe, com o príncipe de branco que encontrara certa vez em uma livraria.


Stefan


Arqueou a sobrancelha e mostrou a língua aproveitando que não tinha ninguém por perto – até onde sabia. A menininha continuava uma enjoada. Não era exatamente como se estivesse atrás da atenção dela, mas se ela estava sozinha (ou no caso, com a excursão da escola), podia ter a chance de matrata-la um pouco. Não que isso fosse lhe dar algum alívio. Mas lhe deixava menos miserável.

- Miró. – corrigiu a garotinha, observando o quadro confuso mais a frente. – Não sabe ler nem isso? – pontuou, notando como apreciava as formas escuras na obra, embora não gostasse dos quadros do pintor que fossem mais coloridos. A expressividade, entretanto, era interessante. Era tão feio que a pequena poderia desenhá-lo, certamente.

Observou-a ainda mantendo a distância, sequer movendo um cílio quando ela lhe perguntou se estava sozinho.

- Sempre. – respondeu, então enfiando as mãos nos bolsos da calça, seguindo o que ela estava fazendo no caderno, se era mesmo só anotando o nome do pintor. – Ou melhor, hoje... só por enquanto. Estou esperando alguém. – adicionou, talvez com uma sensação de superioridade com a menininha, que naquele dia não estava acompanhada da mãe. – Sua professora deveria puxar sua orelha, por fugir da fila de coisinhas.

Juliette

Ergueu o olhar de novo, franzindo o cenho com a pergunta dele sobre sua leitura. Concordou brevemente com a cabeça sobre ele estar esperando por alguém. Pelo menos ele estava esperando alguém daquela vez. Não fazia ideia de quem eram os pais do rapaz, mas não imaginava que poderiam ser tão legais assim para ele ainda precisar brigar por conta de uma borracha.

- É um encontro? - perguntou baixo, voltando sua atenção para o moreno, mantendo as mãos sobre o próprio colo, observando-o curiosa. Ele era mais velho e bem sabia que assim como Arman, que também era mais velho, pessoas poderiam sair para aquele tipo de lugar com pinturas para algum passeio como um encontro. Contudo, não imaginava o mais velho saindo com ninguém que gostasse dele assim. - São seus pais?

Baixou o olhar, pensando sobre como ele talvez ainda tivesse mais sorte que ela por ter pais que poderiam encontrar com ele em algum lugar interessante como uma galeria de quadros.

- Hum. - balançou as perninhas onde estava acomodada, voltando a observar o quadro a sua frente. - Quem foi Miró? - perguntou ao mais velho, presumindo que ele deveria saber já que parecia estar posando assim tão superior a ela. Arman geralmente entendia sobre artistas famosos, principalmente aqueles que pintavam daquela forma suas obras. Talvez o outro também soubesse, lembrava que ele também tinha algum interesse por desenho. Estava muito tranquila naquela galeria. Em meio ao silêncio dos corredores e a distância de sua professorinha e das criancinhas irritantes que eram seus coleguinhas, conseguia ficar mais calma e se entreter com as obras daquele passeio.


Stefan

Nem mudou a expressão, nem bateu o olho quando ela perguntou se era um encontro. Isso não lhe incomodava. Pelo menos entendia que as pessoas inúteis que viviam naquela sociedade tentavam se dar o trabalho de ter encontros. Que elas precisavam de outras pessoas. Ele não. Ele era tudo que precisava. Ele sempre tinha sido tudo o que precisava.

- Não. Pff. – respondeu simplesmente, como se houvesse alguma coisa bem humorada naquela colocação da pequena. Porém a segunda possibilidade lhe fez verdadeiramente abrir um sorriso torto, como os que costumava tentar reproduzir há muito tempo. Seus pais. Ela, por ter uma mãe HORRÍVEL que deveria ser boa para ela supunha que isso era normal, encontrar com os pais ali. Então um arrepio passou por sua nuca, e o sorriso se desfez por imediato. – Ridículo. Não. Aquela... argh... mas e a sua? Não está esperando a sua mama, está?

Ainda um pouco desconfiado, observou como ela mexia os pezinhos no banco, quase como se estivesse mais confortável ali que com o resto do grupo. Se fosse ele, certamente estaria mais feliz ali, sem ter que ouvir as conversas paralelas horríveis e sem sentido das criancinhas, tampouco os dados mal informados de uma professora de prezinho. Se bem que naquela idade da menininha, qualquer besteira pareceria fascinante, supunha.

- Miró... ele era como Picasso. Conhece Picasso? Eles foram amigos. Sabiam desenhar, mas achavam que esse monte de rabiscos de criança de 3 anos eram mais expressivos. – comentou, aproximando-se um pouco do quadro. – Não que não sejam. Os dele ainda tem forma. Vê? Consegue identificar o que é? Mas não é uma bela porcaria de desenho? O preto e o branco equilibram as cores fortes. – respirou fundo, não ligando muito para o quadro em si, mas se satisfazendo em xingar o pintor famoso. – Se algo interessante aconteceu para ele é que ele nasceu no ano certo para fazer esse lixo de pintura e os lixos de escultura dele venderem. Ele foi rico. Enriqueceu com sucata.


Juliette


Ao ouvir o questionamento sobre sua mãe, contraiu seus ombros, baixando um pouco mais a cabeça ao ponto das mechas loiras e onduladas de seu cabelo escorregarem para a frente, tornando-a uma figura mais introspectiva. Já estava tão habituada aquele tipo de pergunta na escolinha que não queria ter que ouvir aquilo ali também. Logo em seguida, ouviu o discurso do outro sobre Miró e Picasso. Ergueu o olhar, interessada em como ele explicava os dois. Era algo bem diferente de como Arman lhe explicava sobre pintura e também era diferente de como as professorinhas explicavam, pois elas sempre falavam com um interesse que por muitas vezes achava falso.

- Por que as pessoas comprariam lixo ou sucata? - perguntou, a curiosidade sincera infantil se fazendo presente. E ele falava de um modo peculiar, os xingamentos que lhe eram proibidos em casa e na escolinha não pareciam sofrer a mesma proibição com o mais velho. Ajustou a postura, olhando para o quadro e depois para o velho conhecido. - Você… desenha como eles?

Apontou para o quadro, ciente de que o maior deveria saber de algo, já que ele parecia entender de arte e bem se recordava do interesse irritante dele pela borracha que havia desejado em uma das lojas do shopping. Gostava de desenhar, mas não entendia tanto de arte quanto gostaria. Todo aquele tipo de informação lhe parecia interessante, principalmente porque lhe despertava a curiosidade sobre alguém conseguir fazer dinheiro com lixo. Talvez, se aprendesse a ganhar dinheiro com lixo, pudesse arrumar dinheiro mais rápido para pagar ao homem do rosto machucado para encontrar sua mãe.

- Quer desenhar? - dessa vez, ofereceu o seu próprio caderno de desenho para o maior. Lembrava de como ele era irritante na primeira vez que o tinha encontrado, mas naquele exato momento, ele não parecia insuportável, na verdade, era até curioso o modo como ele se comportava, distante, mas ainda assim curioso.



Stefan

Não era muito atencioso as reações das outras pessoas, exceto quando seu objetivo era observar essas reações. Mas não era idiota a ponto de não notar as variações de expressão de uma criança, o que lhe deixou bastante curioso. Era como se ela estivesse... triste? Triste por ter perguntado da mãe dela? Isso alimentou uma estranha esperança dentro de si. O que poderia ser que tinha feito ela ficar daquela forma, e porque diabos ela não respondia uma única pergunta que fazia sobre ela.

Mas tão rápido como ela fez aquela expressão, a expressão sumiu, diante da sua explicação sobre aqueles pintores. Supunha que as crianças gostavam daquelas histórias ridículas com pessoas famosas, especialmente quando estavam diante de figuras gigantes. Observou-a quando ela perguntou sobre a sucata, não tendo bem uma resposta certa para aquilo.

- Porque são idiotas. – respondeu, achando aquilo perfeitamente lógico e natural. Olhou para a pintura de novo quando ela lhe questionou se ele desenhava tal como eles e teve que tirar um segundo para responder, abrindo um sorriso devagar com aquela piada da garotinha. – Não. Eu desenho bem. Eu uso muito preto com tons pastéis, como eles, mas não faço nada tão abstrato. Algo como aquelas farofas do Klimt? Ah... eu desenho... como aquele velho americano que faz coisas para criança. Hmmm... “O estranho mundo de Jack”?

Supunha que essa referência ela deveria conhecer, já que supostamente ela era uma criança. Aproximou-se com cautela dela quando convidado a desenhar.

- Deixe o lápis aqui. – estendeu a mão para pegar a pontinha do caderno de desenho, de modo a não tocar nas mãozinhas pequenas e sujas dela. Sentou-se um pouco afastado e cruzou as pernas, rapidamente começando a esboçar uma figura caricata como a do desenho animado que ele tinha citado. Olhou para a figura a sua frente mais uma vez, compondo as formas do corpo humano que desenhava com algumas formas da pintura de Miró, embora fosse bem mais agressivo com o preto. – Você só faz perguntas e pede coisas? É pra isso que coisinhas como você servem? Não me respondeu nenhuma vez se está esperando sua mãe ou não. Mal educada. Se ela não está aqui, então melhor. Sua mãe pode parecer boazinha, mas ela é horrível. Minha mãe é assim também. Uma bruxa.

Juliette

Olhou confusa para o mais velho quando ele citou as referências sobre seu próprio jeito de desenhar. E sobre tons pasteis, lembrava de seu professor ter comentado algo sobre eles também. Piscou algumas vezes antes de deixar o lápis e o material ao alcance dele, a mochilinha que carregava ficando no espaço entre ambos. Não havia muito ali de qualquer forma. Ficou entretida enquanto ele desenhava, observando a força dele esboçar, um tanto diferente de seu professor. Talvez fosse a forma mais curvada do outro, ele era meio estranho para um garoto mais velho. Lembrou também de seu príncipe encantado, o coelho branco, de postura inspiradora e voz agradável.

Ficou entretida também lembrando-se do outro estudante de St. Clavier até ele lhe chamar a atenção, comentando sobre sua falta de educação e sobre sua mãe. Baixou o olhar, segurando uma das mechas de seu próprio cabelo, puxando as ondulações, inquieta. Não queria pensar que talvez sua mãe tivesse ido embora por não ter se comportado bem, por ter sido uma menina mal educada. Sempre fazia o que a mulher lhe pedia. Não fazia barulho, nem chorava como a maioria dos bebês de sua turma.

- Eu sinto falta dela. - respondeu, erguendo o olhar em meio a sinceridade inocente. Não se incomodava com o que ele achava de sua mãe. Sentia falta da mulher, não se importava se outras pessoas a achavam ruim. Já havia notado como sua tia Belle evitava o assunto sobre a partida de sua mãe e sobre como todas as histórias sobre o sumiço de sua mãe soavam esquisitas. Não sabia o motivo dela ter lhe abandonado, mas isso não mudava a realidade de que a queria de volta. - Mama sumiu. Eu sinto falta dela. Não me importa se ela é horrível.

Voltou sua atenção para os próprios sapatos enquanto brincava com o próprio cabelo, distraindo-se da dura verdade que era estar sozinha em meio a tudo o que acontecia. Gostava de algumas pessoas, poucas pessoas, mas nada poderia se comparar com a presença de sua mãe. Havia até deixado de arrumar o próprio cabelo durante algum tempo na esperança que ela retornaria para fazê-lo, mas aprendera que precisava crescer sozinha se queria encontrar sua mãe de novo.

- Não gosta da sua mama? - perguntou, observando o outro discreta pela lateral de sua mecha loira de cabelo, curiosa.

Stefan

Desenhava firme, aplicava muito preto e apesar da pose desconfortável, tentava evitar sujar o papel com muito afinco. Ela lhe observava naquela distância que não parecia lhe afetar tanto, o que foi um alívio. Crianças costumavam ser pestinhas invasivas, como naquela vez que ela lhe perseguiu com as borrachas.

Só parou de riscar quando ouviu que a mãe dela tinha sumido.

Prontamente, seu olhar mudou para ela, observando-a de canto. Um sorriso largo começou a se abrir no rosto magro e ele apoiou a mão sobre o banco, voltando-se para ela com uma expressão muito satisfeita no rosto. Estava feliz? Não sabia dizer. Mas era como se um monstro tivesse parado de lhe observar. Podia se sentir ainda mais livre conversando com a menina. Não havia ninguém ali para agarrar seu pulso e lhe levar embora para um lugar que não queria ir, fazer coisas que não queria fazer, sentir coisas que não queria sentir.

- Não precisa sentir falta daquela mulher asquerosa. Ela sorria falsa pra todo mundo, aposto que pra você também. Aquela mulher era podre por dentro, uma bruxa, uma víbora. – sibilou aquelas palavras com muita satisfação, desfazendo o sorriso quando ela lhe perguntou se não gostava da própria mãe. – Não. Eu a odeio. Porque assim como a sua mama, a minha sorria na frente de todo mundo e pelas costas, me tratava como lixo, como se eu fosse algum tipo de coisa que ela queria jogar fora. Ela me mataria se pudesse, tenho certeza. Então agradeça que a sua não está aqui, porque talvez ela fizesse o mesmo com você. Afinal, ela jogou você fora, não foi? – pegou o bloco de novo, tornando a rabiscar as linhas, completando um rascunho simples e sujo de uma boneca, estendendo para ela. – A minha me jogou fora também, se quer saber.


Juliette

Voltou sua atenção para Stefan, surpresa diante da reação dele sobre sua mãe. Nunca ouvira ninguém falar daquela maneira de sua mãe. Apertou a mecha de cabelo loiro entre seus dedos, pressionando os lábios e contraindo os ombros, incomodada com a forma com a qual ele retratava a mulher. Contudo, ficou ainda mais surpresa quando ele passou a falar sobre a própria mãe. Não conhecia a mulher, mas sempre via as mães de seus coleguinhas serem amáveis e acolhedoras com seus filhos, até mesmo a mãe de seu professor que já era bem grande, era uma mulher que cuidava do próprio filho.

Assim que o rascunho lhe foi estendido, voltou a observar o moreno, erguendo as mãozinhas, fazendo menção de pegar o desenho até se recordar de como era o comportamento do outro. Tomou cuidado para não encostar na mão dele, observando a boneca de traços peculiares com atenção.

- Merci. - agradeceu pelo desenho, afinal não era todo dia que alguém que também gostava de desenhar lhe dava um desenho. Continuou observando o desenho, imaginando se algum dia reencontraria sua mãe. Mesmo que ela não lhe quisesse mais e tivesse lhe jogado fora como aquela boneca desenhada, queria poder encontrá-la mais uma vez. Já havia se conformado com o que precisava fazer, mas ainda era difícil continuar não pensando na mulher que havia lhe ensinado tudo o que sabia até ali.

Começou a guardar seus materiais, tomando cuidado com o desenho que havia recebido para não o amassar no processo ao guardá-lo em sua mochilinha, manteve a folha entre as capas duras dos cadernos pequenos, evitando que ela se perdesse.

- Como foi que conseguiu crescer, então? Virar um adulto, sem a sua mãe. - perguntou, verdadeiramente curiosa, pois era o que sabia que precisava fazer agora que sua mãe havia lhe deixado e só tinha sua tia Belle como supervisora. - É difícil virar um adulto sozinho?


Stefan

Observou que diferente da mãe dela, e diferente da vez em que tinham se encontrado naquela livraria, ela tomava cuidado para não lhe tocar. Era ridiculamente obediente, como um cachorrinho. Aquele era o instinto de sobrevivência das crianças? Obedecer quando precisavam sobreviver? Não lhe importava muito. Afinal, ele já não era mais uma criança nem tinha interesse nelas. Se bem que... era atencioso assim quando era pequeno, quando não queria apanhar? Tratava seu pai daquela forma, por que precisava escapulir da palma pesada de sua mãe?

Ergueu o olhar para ela com o questionamento, a expressão imutável apesar de não entender bem como não parecia óbvio para ela que poderia crescer sem pai ou sem mãe. As crianças eram realmente problemáticas e dependentes, não eram? Segurou o riso, deixando escapulir um sonoro “pft” entre os lábios, gozando da cara dela com os olhos escuros e sem vida.

- Você não precisa de uma mãe para virar um adulto. As pessoas crescem, mesmo sem estarem com seus pais.Você está crescendo ao tempo todo. – falou, estreitando os olhos para ela enquanto também levantava do espaço no qual estava sentado, observando-a de cima. – Só o que você precisa é comer quando está com fome, beber quando está com sede, ir ao banheiro e dormir. Todo o resto é luxo. Pode ter amigos, estudar, se divertir, mas você vai crescer mesmo sem isso. Se não consegue trabalhar porque é uma criança, se escore em quem quer lhe dar tudo isso. E quando você for um adulto... devore-os. São todos imbecis de todo modo. – disparou rapidamente, como se tivesse plena certeza do que estava falando. – Muitos são só herbívoros. Outros não fazem diferença, exceto quando ameaçados. Mas se você for um predador, ninguém vai poder te machucar, nem te abandonar, nem te destruir. – explicou com muita paciência. – É assim, gospodjica.

Saiu do transe da explicação quando sentiu o bolso vibrar. Esticou a mão para pegar o celular ali, observando a tela, supondo que deveria ser quem estava esperando. Porém a mensagem fez com que estreitasse os olhos de leve.

Quote:”Nosso encontro foi muito proveitoso hoje, agora estou certo de que nossa festa do chá será mais interessante.”

Sentiu-se observado, talvez porque essa tarde inteira nem tenha notado a presença dele. Se é que ele estava ali de fato, e não apenas dando a entender o fato para brincar consigo. De um modo ou outro, ainda tinha seu espaço para si. Ergueu o queixo e observou a garotinha por um instante antes de dar as costas e sair dali. Com sorte, ainda tinha tempo para voltar à St. Clavier. Com sorte podia evitar o trabalho extra com grampeadores.

[Algo a adicionar? :3]


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