Jogo Perigoso [Magali]
#1
Renaud

A temporada de boas óperas tinha começado, e isso significava que iria tirar tempo pra si mesmo e apreciar boa música, embora não fosse o tipo de hobby que pudesse contar com a companhia de Didier ou Isaac, ou mesmo de Sasha. Ao menos podia tirar uma noite de relaxamento, e bem precisava depois de todos os dias empenhado em concluir sua grande obra, ao menos uma vez podia dizer que merecia se presentear. Naquele dia, pôs uma calça da alfaiataria preta, reta, sapatos preto e branco da L&V, camisa branca, finamente passada, gravata slim preta, e um suspensório de coleção que só usava em saídas especiais, com uma faixa adicional passando no meio peito, levou um blazer apenas porque sairia muito tarde, e provavelmente estaria mais frio. Escolheu um de seus perfumes dedicado a ocasiões marcantes, Thierry Mugler, o aroma de madeira e especiarias era uma boa companhia no início da noite, e quando voltasse a St. Clavier teria um cheiro leve e frutado pra lhe embalar.

Depois de enviar mensagens para Didier avisando que tinha compromisso em um evento social, seguiu para o estacionamento da academia, e quem o via certamente comprava a ideia de que ele estava indo a um casamento a alguma festa da alta sociedade de Cerise. Mas quem podia imaginar que o jovem Blanco estava apenas indo aproveitar de mais uma apresentação do clássico Jeckyll & Hyde.

Chegou pontualíssimo ao teatro da cidade, onde conhecia todos os funcionários, amigos de amigos da família de sua mãe, dos quais mantinha contato pelas várias idas e vindas do local. O lado bom de conhecer tantas pessoas do teatro, é que isso dava um toque adicional a sua experiência de assistir a peça. Deixaria para cumprimentar os atores depois da mesma, sabia que a preparação e concentração para a apresentação era indispensáveis. E como bem esperava a apresentação foi impecável, as músicas cantadas com vontade e muito bem interpretados, era um deleite aos olhos.

Quando as cortinas se fecharam o próprio Renaud desceu as escadas e seguiu para os bastidores, passando pelos seguranças conhecidos, parabenizando a Ária, pela apresentação e recebendo os comentários conhecidos de que ele mesmo poderia estar ali, se criasse coragem de subir no palco. Recebeu proposta de uma saída em grupo com os conhecidos do teatro, mas tinha tirado aquela noite para si mesmo, e uma saída em grupo não combinava com o que tinha planejado. Seguiu pelos corredores, pensando se pegaria o carro para dar uma volta e sentir o cheiro salgado da praia, ou se iria tomar um vinho em qualquer lugar bonito, quando seus ouvidos captaram uma voz diferente mas muito bem afinada, as notas postas no tempo certo, embora ainda não estivesse a pleno pulmões o arpejo estava perfeitamente ajustado. Seguiu silencioso, aquela hora todo o público já devia ter saído, avistou ao longe uma mulher imersa na sua própria música, era uma cena pouco convencional, mas se pegou ali, observando a mulher de longe cantando Dangerous Game da ópera recém apresentada, e quando a música chegou no momento de entrada do cantor, não resistiu ao ímpeto de completar a sequência:

-- It's a sin with a name…!

Magali

Havia saído naquele final de tarde para visitar o teatro de Cerise e encontrar alguns velhos conhecidos da época quando havia começado a estudar na faculdade de canto. Ficou surpresa com o convite de algumas colegas de trabalho que estavam de passagem na cidade e que pareciam ter descoberto seu paradeiro agora que Henrique havia lhe ajudado, ainda que muito a contragosto, a aprender a usar suas redes sociais. Também deveria agradecer a menina Hanna por ela ter lhe auxiliado com algumas informações sobre como usar o próprio celular e o computador da instituição onde era professora.

Deixou seu colega de aluguel informado sobre o espetáculo e até perguntou se ele gostaria de ir assistir o musical com ela. Como era esperado, o corretor recusou seu convite, alertando-a mais uma vez que se seu gatinho desse muito trabalho enquanto estava fora, jogaria o animal fora. Saiu para o teatro, pegando um táxi mais cedo para poder ter tempo de entrar nos bastidores e cumprimentar suas colegas.

Ajustou o próprio vestido ao se acomodar nas poltronas do mezanino a fim de ter uma visão melhor da apresentação quando esta começou. Não havia como negar que naquele ambiente se sentia segura e confiante, assistindo os cantores do musical se apresentarem por horas. Sentia um pouco de inveja por um dia já ter estado naquele papel. Contudo, sentia que estava cumprindo seu propósito ao ensinar o que sabia sobre música e performance para suas queridas alunas. Algumas sempre eram mais difíceis que outra, mas tinha um carinho profundo pela própria profissão.

Aplaudiu a apresentação com um sorriso de satisfação estampado na face. Demorou para que se levantasse e fosse até os bastidores. Era como se não quisesse sair dali tão cedo. Não conhecia a Ária da apresentação, mas tinha curiosidade de trocar algumas palavras com ela. Era sempre prazeroso poder conversar sobre a apresentação com os profissionais depois do espetáculo. Por fim, acabou despedindo-se dos demais, julgando que deveria de fato retornar para casa como havia prometido a Henrique. Porém, ao retomar seu trajeto para sair, notou que o palco havia sido reajustado no que pensava ser para os ensaios do dia seguinte. Observou o piano por um momento antes que seus passos lhe guiasse automaticamente para o instrumento pesado. Passou os dedos pela proteção das teclas antes de erguê-la, testando entretida a afinação de algumas das teclas. Sorriu sem sequer se dar conta e sem se dar conta, começou a tocar a melodia de introdução de uma das suas músicas favoritas da apresentação anterior.

A postura era praticamente impecável enquanto que o tom de sua voz, ainda que sem o devido aquecimento, era suave com as notas do piano. Os dedos delicados deslizavam pelas teclas com a precisão de uma profissional. Para ela, tocar e cantar ao mesmo tempo era tão natural quanto respirar. E tal como respirar, sentiu um sopro de susto lhe tomar os pulmões ao se deparar com o timbre da figura masculina que se aproximava. Parou de tocar por um breve instante ao ouvir a voz do rapaz de boa aparência. O tom de voz dele era convidativo e o olhar assertivo. Não moveu o olhar da figura masculina, os dedos mais uma vez deslizando pelo piano como se encorajando o outro a continuar.

- A strange romance--!

Continuou a melodia, prevendo o crescente grave da música. Era natural para a professora de música cantar sozinha, em duetos ou em grupos, por isso permaneceu bastante segura quando precisou acompanhar as notas do rapaz. Aquela performance era como uma dança e sabia muito bem quando precisava permitir que o tom mais alto fosse o dele ou o seu, ou quando precisava complementá-lo. O brilho nos olhos azuis celestes era notório como se em apenas uma música fosse capaz de analisar a capacidade vocal do moreno. Em alguns momentos, ergueu o tom de propósito como se provocasse o outro a acompanhá-la e estivesse se divertindo com isso. Os braços não pareciam cansar com as teclas do piano, ainda que precisasse cobrir a carência de alguns complementos sonoros pelo violino que normalmente acompanha aquela apresentação.

- It´s a Dangerous Game! Such a dangerous game! - suas expressões faciais mudavam de acordo com a emoção evocada pela música. Sabia do que se tratava a letra e a ideia de um rapaz desconhecido estar lhe acompanhando só conseguia deixá-la mais animada com o andar daquela música. Não era difícil expor expressões de uma mulher que se sentia compelida a compartilhar um “jogo perigoso” com um rapaz a quem desconhecia o comportamento, mas que possuía uma voz aprazível aos seus ouvidos.

Diminuiu o toque nas teclas, encarando o outro antes de concluir a música. Sorriu naturalmente para o estranho, começando a raciocinar sobre ele, julgando que deveria ser alguém da peça anterior que talvez não tivesse dado muita atenção. O que era estranho, a julgar que não deixaria escapar um timbre de voz como o dele.

Renaud

Imaginava que depois de sua intromissão a mulher junto ao piano fosse tomada por surpresa e parasse de tocar, mas ao invés disso, ela lhe instigou a continuar cantando, os dedos da mulher eram guiados ao piano como se houvesse uma força magnética que os ligasse a melodia. E tal qual, outra pessoa amante de musicais o mais novo se perguntou internamente: "por que não?"

Fazia algum tempo desde o último dueto que tinha cantando, mas a sensação de ser desafiado a fazer algo que sabia que era bom, era algo que lhe enchia de energia, então apenas aceitou aquela dança de vozes. A acústica do teatro era perfeita, e apenas caminhou no espaço buscando ficar numa distância equilibrada para que as vozes soassem em concordância. Ajustava seu próprio tom, à medida que seguia cantando, e a garganta ia aquecendo e o som crescente saindo com cada vez mais qualidade. A ponto de que logo alcançou um ponto de conforto e jogou mais emoção na própria interpretação, estava contaminado pela forte atuação que tinham recentemente assistido, então não se ocupou de julgar a capacidade vocal da mulher, apenas se ocupou de entregar o melhor que tinha pra oferecer. Com certeza conseguiria subir mais o tom se tivesse se aquecido mais adequadamente antes, porém, subiu os tons até onde era adequado e não fosse lhe causar desconforto depois, cessou a crescente ao perceber que se fosse além daquilo iria desafinar, e simplesmente não permitiria aquilo.

Decresceu o tom a medida que a música alcançava seu fim, finalizando em harmonia com a mulher estranha, era como se fossem velhos amigos de canções, e não dois sujeitos cujo o tempo de conhecimento era apenas de pouco mais de três minutos.

-- It's a dangerous game…!

Obviamente que aquela movimentação não esperada em um palco que deveria já está silencioso chamou atenção dos funcionários locais e logo um deles surgia no portal lateral do paco:

-- O que estão-... Ah! Blanco, pensei que você já tinha ido. -- O francês tinha os cabelos castanhos e tinha marcas de maquiagem na curva da mandíbula, de quem tinha recém lavado o rosto

-- Não se preocupe Romero, eu e minha amiga ainda estamos muito animados com a apresentação, então acabamos invadindo o palco, desculpe por isso. -- o jovem Blanco falou com tranquilidade, assumindo parte da culpa daquela breve aventura.

-- Sem problema, amanhã os ensaios começam cedo, então tudo têm de estar no lugar. -- Romero respondeu mais despreocupado espiando de um para o outro com um olhar estreito e um sorriso simples nos lábios.

-- Já estamos de saída, obrigada pelo aviso. Vá descansar homem, vocês fizeram um ótimo trabalho hoje.

-- Você é sempre bem vindo, e sim, eu preciso descansar, apague as luzes quando sair.

-- Certo. -- Renaud sorriu de forma educada, e logo após Romero se afastar da visão dos dois, o jovem se virou na direção de sua mais nova “amiga”: -- Acho que já tivemos uma boa porção de aventura no teatro para um noite mademoiselle. Como o jovem Romero já antecipou, eu sou um Blanco, Renaud Blanco, foi um prazer cantar ao seu lado, mesmo que brevemente.

O mais novo estendeu a mão na direção da mulher de forma cortês mantendo uma distância respeitosa da mesma, aproveitando aquela situação para observar as mãos da mulher de perto, afinal não queria se meter em nenhum jogo perigoso com pessoas comprometidas: --. Desculpe por assumir toda a “culpa” por nossa breve aventura, mas eu conheço a equipe desse teatro a tempo suficiente para que eles perdoassem esse tipo de "travessura". E admito que fiquei muito encantado com suas habilidades, e por isso foi um tanto irresistível subir ao palco e cantar junto.

Magali

Sua postura mudou completamente quando ouviu a voz estranha do sujeito que parecia pronto para repreendê-los. Arqueou os ombros e segurou as mãos a frente do próprio corpo na defensiva, abrindo a boca para tentar se desculpar, porém a capacidade de reconhecimento do sujeito estranho que parecia ainda estar se livrando da própria maquiagem foi mais rápida.

Fechou a boca e assistiu como os dois homens pareciam se conhecer e respeitar. Estava tão inquieta por ser pega de surpresa que nem estranhou ser chamada de “amiga” pelo recém desconhecido-conhecido Blanco.

- Ah… boa noite, senhor Romero, bom trabalho. - disse mais baixo, pela própria educação. Acenou para o sujeito que se retirava para descansar pouco antes do tal rapaz da voz surpreendente e estimulante estender a própria mão e educadamente se apresentar. Sorriu e relaxou os ombros, contente por ele ter gostado de cantar em dueto com sua figura, ainda que de forma improvisada. Estendeu sua mão de dedos delicados e de unhas cortadas, pintadas com um esmalte de tom neutro apenas para proteção, as marcações de calos evidentes nas pontas dos dedos devido à constância da prática em sua profissão. - Florence, Magali Rosemond Florence. Muito prazer, monsier Blanco.

Riu um pouco sem graça pela definição do outro sobre o que estava fazendo ali ser uma “travessura”. Certamente no convento seria recriminada por aquele tipo de atitude.

- Eu deveria agradecê-lo por me ajudar com essa “travessura”. E por me acompanhar no dueto, sua voz é bem interessante. É cantor profissional? - perguntou antes de tomar o devido cuidado antes de baixar a proteção das teclas do piano, afastando-se para observar o caminho que deveriam seguir para sair dali. Contudo, estava animada demais por encontrar um rapaz novo que apreciava música tanto quanto ela. Não queria ter de ir embora logo. - Ah, e merci pelo elogio. Sou professora de música em Limoges, é o meu trabalho, afinal. - sorriu genuinamente contente por ser elogiada por sua performance. Às vezes, chegava a sentir saudades de se apresentar, algo que não fazia há alguns anos depois de ter se tornado professora.

Renaud

A voz falada da mulher era deveras agradável também, e ela tinha um ar refinado que seria um ponto negativo se estivesse lidando com uma jovem adolescente rica, porém como não era o caso, sendo uma mulher adulta, notoriamente não sendo da alta sociedade de Cerise, podia dar um crédito a situação. Apertou a mão da mulher, suavemente, sentindo a textura dos dedos, os calos proeminentes da prática do Piano, e a doce fragrância feminina, Beaty Pompom. Renaud sabia que sua mão tinha uma textura mais áspera, e diversas pequenas marcas de guerra de brigas antigas, não era certamente o toque macio que se esperaria de uma mão de pessoa rica que nunca precisou fazer nada físico. Levou a mão da mulher próximo do próprio rosto, fazendo menção de beija-lhe o topo, mas apenas se aproximou sem de fato encostar, queria ser cortês, mas não excessivamente invasivo, embora o gesto em si já fosse suficientemente teatral para o momento:

- Estou longe de ser um profissional, mas estudei música por muitos anos, além de conhecer muita gente que trabalha com teatro e eventos. -- o moreno mais novo sorriu carismático, mantendo a distância de um braço entre os dois, e levando uma das mãos ao bolso enquanto com a outra fazia pequenos gestos enquanto seguiam para fora do espaço do teatro:

- Pra ser professora de uma instituição renomada como Limoges com certeza a mademoiselle tem um currículo extenso. - cerceou a mulher de elogios, e o fato dela parar justamente na entrada do teatro, e não buscar caminho para o estacionamento lhe deu uma brecha para fazer um convite e quem sabe estender aquela noite um pouco:

- E admito que fiquei curioso pra saber mais do seu trabalho e perdoe a minha inconveniência, mas também queria conhecer um pouco mais da sua pessoa. Se for possível, e do seu interesse, poderíamos estender essa noite um pouco em um jantar?

Renaud usou de seu ar mais cordial e educado, sorrindo e mantendo uma distância respeitosa, esperaria ter alguma brecha mais notória, para quem sabe tornar um jantar social, e uma noite de diversão mais interessante.

Magali

Estranhou a textura dos dedos do rapaz, mas não comentou nada, imaginando que talvez ele fosse um musicista também. Talvez alguém que gostava de instrumentos de cordas e não usava tanto assim a própria voz. A ideia de que o sujeito poderia ser como um dos rapazes dos romances que costumava ler, com mãos calejadas e traços misteriosos lhe fez sorrir discretamente, perdida na própria imaginação por um segundo. Encarou o rapaz, sentindo um leve arrepio na nuca apenas diante da menção dos lábios dele tocando seus dedos. Sequer conseguiu esconder o rubor de constrangimento com o gesto.

- Um… jantar? - repetiu ao saírem do teatro, pensativa sobre a oportunidade.

Era um rapaz de bela voz, boa aparência, que estava sendo bem educado com sua figura e poderia dividir um interesse em comum com a música. Não costumava encontrar muitos rapazes, principalmente por ser professora em Limoges. E muito menos lidar com figuras masculinas gentis, ainda mais quando dividia aluguel com alguém como Henrique. E foi pensando em Henrique que lhe ocorreu a ideia de aceitar aquele convite.

- Ah, sim. - concordou com um sorriso gentil, passando a procurar o próprio celular na bolsa. - Eu só preciso avisar ao meu amigo que vou chegar um pouco mais tarde hoje. Ele deve estar me esperando. - informou, esperando se manter mais segura com a ideia de que o recém conhecido rapaz agora sabia que havia um homem lhe esperando e que não estava sozinha na cidade. Na verdade, queria falar que entraria em contato com seu irmão, já que Henrique lhe lembrava muito do comportamento de seus irmãos mais velhos, mas aquilo seria uma mentira e logo então, um pecado bem consciente de sua parte.

Acompanhou o moreno, diminuindo o passo devido a dificuldade de digitar e caminhar ao mesmo tempo. Esperou que o outro avisasse sobre o lugar para onde iriam e continuou digitando, concentrada na própria tela enquanto os dedos procuravam o teclado e as letras, sem sequer se dar ao trabalho de esconder a própria tela do novo conhecido.

Magali [21:45, xx, xx, ano] Henrique, boa noite. Estou saindo com um rapaz que conheci no teatro. O nome dele é Renaud Blanco. Ele é bem educado. Estamos indo no Terrance. Voltarei depois do jantar. Qualquer coisa, é só me ligar. Durma bem. Deus abençoe.

Logo após enviar a mensagem, guardou o celular na bolsa e voltou sua atenção para o rapaz, sorrindo-lhe amigável.

- Desculpe pela distração, não sou muito ágil com o teclado do celular. - riu um pouco sem graça. - Na verdade, meus dedos são apenas ágeis quando se trata de instrumentos. - explicou, tentando se distrair da própria falta de tato com tecnologia.

Renaud

Não podia negar que a senhorita Florence era uma mulher bonita, simples, mas atraente, de uma olhada já imaginava que ela não fosse o tipo de mulher que se entregaria a uma noite desvairada de libertinagem, porém, não impedia o jovem Blanco de explorar o terreno e trocar flertes. E Renaud sequer tinha a intenção de uma noite de sexo, queria apenas se divertir trocando cantadas, olhares e sorrisos, porque às vezes você até quer se sentir um pedaço de carne, outra vezes você quer apenas flertar pela diversão de flertar.

Esperou que ela conversasse com o amigo com quem aparentemente dividia moradia, e era curioso como ela estava construindo aquela narrativa de pessoa que tinha um “porto seguro” pra onde voltar. Como se o próprio Renaud tivesse construindo uma narrativa predatória, não era o caso, claro que podia soar como um cara muito charmoso e sexualmente atrativo, mas não estava usando nenhuma daquelas qualidades no momento. Estava apenas sendo educado e cordial.

-- Sem problema, tome o tempo que precisar. -- Respondeu educadamente, sorrindo cordial, para logo após guiá-la até o seu veículo, abrindo a porta para que a mulher entrasse primeiro, fechando-a em seguida, para logo após dar a volta no mesmo e ocupar o lugar do motorista. Conversaram sobre trivialidades da apresentação anterior no carro durante o trajeto até o hotel. O restaurante Terrasse que tinha quatro andares do hotel apenas para seu espaço, com um lobby de degraus amadeirados escuros, e poltronas modernas retangulares de um rosa avermelhado que contrastava com a madeira, o espaço era amplo e agradável e o lado oposto dava vista a orla de Cerise em um grande paredão de estrutura metálica com vidro.

Desceu e deixou o carro com o manobrista para que ele estacionasse seu veículo, e esperou que Magali a acompanhasse para irem até a recepção do restaurante, a recepcionista reconhecendo a figura do jovem Blanco que eventualmente ia até lá para reuniões de negócios. Depois de seguirem até uma das mesas com dois lugares, um a frente do outro, o jovem Blanco ainda puxou a cadeira para que a Magali se acomodasse para só então sentar no outro lugar:

-- Bem Mademoiselle Florence, o cardápio do Terranse é extenso, se tiver alguma preferência: frutos do mar, aves, carne vermelha posso sugerir algum prato da casa mais adequado, mas independente disso todos são bons. -- Comentou com um ar confiante no rosto de traços comuns.

Magali

Ficou quieta enquanto o outro lhe guiava para o veículo, colocando o cinto de segurança em si mesma antes de bloquear a tela do próprio celular. Ocupou-se em acompanhar o trajeto até o local que ele estava planejando lhe levar, entretida com o cenário no caminho, vez ou outra olhando de relance para os detalhes do carro onde estava acomodada. Parecia bem limpo, parecia ter acabado de sair de fábrica, sem nenhum chaveiro ou acessório como costumava ver nos veículos de suas colegas de trabalho.

Desceu do veículo, surpresa, observando todo o ambiente que exalava exuberância e cifrões que poderiam pesar em sua conta bancária. Poderia conter em sua própria alimentação e comer algo mais reforçado quando chegasse em casa, apenas para não dormir com a sensação de insatisfação ou fome.

- Merci. - agradeceu diante da gentileza dele ao puxar sua cadeira para que se acomodasse. Ficou observando ainda o lugar de forma a contemplar sua beleza, entretida com a visão marítima de onde estavam. - Ah… o que? Perdão, monsieur. O lugar é muito bonito. - respondeu, esboçando um sorriso um pouco sem graça, pois poderia jurar que ele havia falado algo que não estava prestando atenção a priori. - Oh, onde monsieur estudou? Parece um cantor profissional! Ou melhor, parece ter uma habilidade natural para a música. Sua noção de espaço e tempo em um dueto improvisado são incríveis! Na primeira vez que me aventurei em um dueto, a minha voz ficou presa, sabe? - explicou, desatando a falar, gesticulando todo o tempo, levando a mão até a própria garganta para indicar quando havia perdido a voz. - Monsieur já se apresentou antes? Uma aluna minha me disse uma vez que existe esse lugar, um sítio, só que virtual, onde as pessoas colocam vídeos e apresentações. Talvez eu possa encontrá-lo lá também. - perguntou, animada com a ideia de estar na presença de alguém que compartilhava do mesmo entusiasmo pela arte da música.

Renaud

O moreno mais novo não ficou exatamente surpreso da mulher se pegar deslumbrada com o espaço ao seu redor, apesar de achar que o teatro e a apresentação tinham sido muito mais estonteantes, para quem não estava acostumada a frequentar restaurantes a visão do espaço poderia distrair. Sorriu entretido quando a senhorita Florence começou a questionar sobre suas base de estudo, já engatilhando uma fala sobre sua própria vivência, ela certamente gostava de falar, o que era bom, porque podia usar do que ela falava para engajar flertes. Não entendeu imediatamente o que ela quis dizer com “sítio”, seria um “site”? O sobrenome Florence era certamente francês, e todo o trejeito da mulher falando não lhe lembrava nenhum sotaque específico, então apenas abstraiu o trecho incompreensível:

- Não vai encontrar nenhuma gravação minha hospedada em nenhum lugar, como lhe disse antes não sou um profissional, meus estudos foram particulares por sete ou oito anos, estou mais próximo de um Hobbysta, na verdade. - O Blanco cruzou as pernas de forma masculina, com uma postura bastante altiva e confiante, e fez um aceno breve para que o Garçom se aproximasse da mesa dos dois: - Boa noite, eu e minha acompanhante buscamos algo interessante para o jantar, pra entrada Tartare, seguido de Civet de lapin, acompanhado de legumes gratinados, como bebida água com gás para começar. Obrigado.

O Garçom tomou nota fez um aceno com a cabeça, serviu água aos dois na mesa e depois deixou os dois a sós novamente. Logo em seguida, o moreno mais novo encarou a mulher a sua frente com um sorriso mais charmoso que carismático, os olhos escuros se estreitando discretamente: - E eu sinceramente não consigo imaginar a sua voz saindo presa dado ao que eu pude apreciar hoje. Imagino que até quando a mademoiselle desafina deve ser algo gracioso de ouvir. - elogiou sem qualquer pudor, apenas para ver que tipo de reação a mulher teria.

Magali

Era surpreendente como um rapaz de aparência jovem como ele poderia ter tanta noção musical e não ser um profissional na área. Deus deveria mesmo estar agindo de forma misteriosa e abençoando-o com aquela habilidade cativante - pensou. Ergueu o olhar para o garçom quando ele se aproximou para que pedissem os pratos. Respondeu com um discreto “boa noite”, mantendo as mãos sobre o colo e a boa postura de quem estava acostumada a passar horas no piano.

- Hahah! - riu do elogio, a risada limpa e suave. - Eu não sei, eu não costumo desafinar faz algum tempo. Minha educação musical foi bastante restrita para que eu me acostumasse a perceber minha própria voz e os sons ao redor. - voltou sua atenção para a direção que o garçom havia ido, sequer parecendo perceber o que poderia o jovem querer dizer com sua figura “desafinando”. - Oi, não é melhor que eu peça o meu prato também?

Estendeu a mão sobre a mesa, procurando o cardápio que aparentemente não foi necessário para o moreno fazer o pedido. Pressionou os lábios, confusa.

- Monsieur deve estar bem habituado com este lugar. - levou o indicador até o próprio queixo, ponderando. - Desculpe perguntar, mas não acha que vai sair um pouco caro comermos aqui? - perguntou, desviando o olhar por um instantes, desconcertada com a própria pergunta. Recebia um bom salário como professora de Limoges, mas não era exatamente rica e não fazia ideia dos preços do lugar.

Renaud

O moreno mais novo ouviu com atenção o relato sobre a educação musical restrita da mulher a sua frente e imaginava que conseguir um nível de maestria não se conseguia sem esforço e era isso que dividia um artista verdadeiro de um hobbysta como o próprio moreno era. Quando a senhorita Florence pareceu confusa do fato do Garçom não ter oferecido o cardápio e apenas ter aceitado sua sugestão e saído, manteve a postura e levou o braço até o apoio da poltrona, levou a mão ao queixo, de forma charmosa, e sorriu galante:

- Eu frequento esse lugar em reuniões de trabalho, então já sei os melhores pratos, como eu já tinha lhe dito. E sim, esse lugar é um dos restaurantes mais caros da cidade. - Nem fez rodeios quanto aquele ponto, porque não iria mentir, e porque queria ver que tipo de reação tiraria da mulher diante de si, não gostava de se gabar que era rico, mas também não podia negar que queria oferecer algo digno das habilidades vocais da mulher:

- Não se preocupe com isso mademoiselle Florence, que tipo de cavalheiro eu seria se lhe convidasse para um restaurante e não arcasse com os custos do mesmo. Eu a trouxe aqui, porque queria lhe oferecer algo que fosse a altura das suas habilidades, perdoe se pareço petulante, mas não nego que fiquei deslumbrado com sua atuação, por isso nada mais justo em retribuir com um jantar.

O moreno alargou mais o sorriso, usando de todo o seu charme herdado do sangue espanhol que os Blanco carregam, estava flertando um pouco mais diretamente, e estava verdadeiramente ansioso para que tipo de reação a mulher teria a suas investidas mais diretas.

Magali

Encarou o rapaz com um certo rubor no rosto por estar sendo tratada daquela forma por um sujeito bonito e que frequentava lugares requintados como aquele. Baixou o olhar por um momento, afastando uma mecha do cabelo escuro para trás de sua orelha, brincando com o brinco entre seus dedos, ponderando.

- E-eu agradeço muito pela sua bondade, monsieur. - respondeu, de fato sem saber como reagir ao tratamento oferecido pelo sujeito. - Eu não… costumo sair para lugares assim. Muito menos acompanhada. - admitiu, criando coragem e finalmente voltando a observar o outro.

Tentou imaginar que tipo de motivos o outro teria por lhe ter trazido naquele lugar e imediatamente se recordou de um livro que não fazia muito tempo havia terminado de ler e até ido assistir um filme na companhia de sua colega de trabalho, a senhora Lukashenko.

- Desculpe perguntar, mas o monsieur já ouviu falar do livro “50 Tons de Cinza”? - perguntou sem pensar duas vezes, achando a situação no mínimo curiosa considerando o que já havia lido muitas vezes em seus livros colecionáveis de romance barato em banca de revista. Não que estivesse aguardando nenhum tipo de romance com aquele rapaz. E ele estava sendo bastante respeitoso com sua figura naquele momento. Nem todo mundo naquela cidade havia sido respeitoso com ela. Convivia com um homem que constantemente questionava suas escolhas e comportamentos. - Desculpe, é um livro bobo. Eu descobri quando me mudei para cá. O senhor não deve ter lido esse tipo de livro barato. - acenou com a mão, respondendo sua própria pergunta com um tanto de embaraço.

Renaud

O jogo de Flertes era algo que divertia imensamente o jovem Blanco, podia não ser bom em ler pessoas no dia a dia, porém, já estava plenamente habituado a toda a linguagem corporal das pessoas quando elas estavam interessadas. A forma como a morena desviou o olhar para não ter de encará-lo diretamente, o rubor que foi quase simultâneo apenas lhe confirmando que ela estava começando a absorver seus elogios diretos. A mão levada ao cabelo, colocando-o por trás da orelha deixava mais exposto a região do pescoço e a pele alva, era um sinal claro de interesse. Se não fosse completamente deselegante da sua parte lamberia os caninos, mas apenas seguiu ouvindo a narrativa da mulher.

Porém ficou surpreso quando o assunto virou-se na direção de um literatura, principalmente pela citação para um livro justamente como “50 tons de cinza”, a sua vontade imediata era rir, mas sorriu de forma comedida:

- Não se preocupe, eu não vou tirar um contrato de sub de dentro do terno pra lhe oferecer mademoiselle Florence. - usou um tom claro de brincadeira em sua fala, principalmente para não assustar a mulher a sua frente, com a possibilidade de está saindo com um maluco que já fica sugerindo coisas de dom e sub em um primeiro encontro pra uma pessoa que notoriamente não era da comunidade. Porém, poderia brincar não era?

- Se fosse o caso nosso primeiro encontro teria de ter um Pinot Grigio, ou Pinot Gris, como chamamos aqui na França, que não, não combina com todo prato, quem dirá com carne de veado de uma sopa de urtiga que é mais forte, ele é um vinho coringa sim, mas é refrescante e combina com comidas suaves ou cremosas. - Comentou delatando que já tinha lido o livro em questão e se lembrava bem das cenas de interesse: - Posso citar várias coisas do livro, ou mesmo falar de uvas cinzas, ou apenas ficar aqui admirando a sua pessoa, e em qualquer uma dessas opções, sei que seria uma noite agradável.

O Blanco destilou um pouco mais de charme, sem se preocupar em soar cafona, afinal, uma pessoa que gosta verdadeiramente de cinquenta tons de cinza, está entre o convencional romântico, e uma extravagância irrealista que traga emoção. Então podia se dar ao luxo de ser exagerado em algumas colocações, quantos tons de rubor podia tirar da jovem Florence?

Magali

Voltou o olhar para o moreno a sua frente quando ele sorriu e mencionou não ter nenhum contrato de sub dentro do próprio terno. Inclinou a cabeça na lateral antes de ajustar o próprio par de óculos, arqueando uma sobrancelha até entender que ele deveria estar fazendo menção ao conteúdo do livro que havia citado. E logo depois ele estava falando sobre vinho e pratos chiques. Podia jurar que ele estava mencionando o vinho do livro que havia lido e acabou por sorrir até um pouco surpresa por ele ser um rapaz que, apesar de aparentar ter bastante dinheiro, ainda arrumava tempo para aquele tipo de literatura barata.

Foi então que ele admitiu que todas as referências eram provenientes do livro e o elogio a sua companhia fez com que sentisse o rosto arder pela vergonha em, de fato, poder se sentir dentro de uma das cenas presentes no livro. Pressionou as próprias coxas, uma contra a outra, e voltou a ajustar o par de óculos antes de fazer menção de se levantar.

- Perdão, mas… eu… eu gostaria de ir ao banheiro… - pediu como se fosse dele a permissão que precisava para se retirar. Sorriu ainda um tanto desconsertada e pensou, talvez pela segunda vez em que tinha uma experiência como aquela, que não deveria ter se dado ao trabalho de ler um livro como aquele se algum dia sairia para um jantar surpresa com um rapaz bonito e rico.

Meneou a cabeça em um pedido de “licença” antes de se retirar, quase esbarrando em um dos atendentes do rico estabelecimento antes de pedir desculpas novamente e pedir a localização do tal banheiro. Precisava esfriar um pouco a cabeça e colocar as ideias em ordem. Na inquietação momentânea, havia deixado para trás a própria bolsa e o celular.

Ao chegar no banheiro, removeu o par de óculos, tomando cuidado ao molhar as mãos e levar os dedos úmidos e frios até o próprio pescoço, respirando fundo enquanto evitava pensar sobre o tal livro e a situação coincidentemente parecida na qual se encontrava. Quando se deu conta, a água havia borrado um pouco de sua maquiagem e acabou por sentir falta da própria bolsa. Sem saída, removeu a maquiagem com cuidado e auxílio de alguns lencinhos daquele banheiro luxuoso, imaginando que Henrique estaria rindo de sua falta de tato e distração naquele momento.

Renaud

Renaud tinha certeza que os seus comentários galantes tinham acertado bem onde queria, só não esperava que a mulher de fato saísse correndo para o banheiro, será que estava sendo muito predatório? Ou será que a mulher não costumava receber elogios diretos? A verdade era que o motivo pouco importava, o que realmente divertia o jovem Blanco era saber que conseguia deixar outra pessoa desconcertada e deslumbrada apenas com um par de palavras.

Pegou a taça com água e tomou um gole breve, para molhar a garganta e foi em tempo do garçom trazer os pratos que tinha pedido, as saladas de tartare com cores vibrantes alternando entre o escuro do vinagre balsâmico, com as folhas de cor verde forte. O prato a base de coelho tinha tons róseos alaranjados, que trazia a suculência sem parecer pesado, assim como as lebres são, pequenas, leves, suaves, mas ainda assim muito apetitosas; Os legumes traziam tons fortes de laranja, amarelo e verde, ainda emanando vapor, era uma refeição completa, sem ser pesada demais para um par de cantores.

Renaud alternou o cruzar das pernas de forma masculina e manteve a taça de água entre os dedos, bebericando enquanto esperava sua companhia noturna, já que seria deselegante começar a refeição sem a pessoa que tinha convidado para o jantar. Sorriu charmoso, quando avistou sua companhia retornando, agora notando a ausência de maquiagem no pescoço e a mudança suave no tom de pele entre o rosto, e apenas esperou que ela se reacomodasse a mesa:

- Estava esperando seu retorno, não começaria o jantar sem a minha acompanhante. - devolveu a taça de água a mesa: - Como estou dirigindo não pretendo beber nada alcoólico, mas se quiser algo em especial posso requisitar, se estiver curiosa, posso pedir um Pinot Gris pra saber que gosto tem, e ele harmoniza razoavelmente com carne de coelho.

Magali

Retornou ainda tentando manter a boa compostura quando se deu conta da quantidade de pratos coloridos e de boa aparência sobre a mesa. Prendeu a respiração por um momento antes de se ajustar na cadeira em que antes estava acomodada. Ouviu por alto o que o moreno dizia, só erguendo o olhar da comida para ele quando ouviu ele sugerir que pediria um vinho. O aroma dos pratos também era delicioso. Mal podia esperar para provar aqueles legumes no vapor.

- Ah… - meneou a cabeça de forma negativa, pensando em quanto um vinho iria adicionar em sua conta. - Perdão, monsieur Blanco, mas isso não é comida demais? Eu acho que a conta vai ficar muito alta… quero dizer, não que monsieur não possa pagar, eu imagino que pode, com certeza. Mas é que eu não sei… o quanto poderei pagar do meu próprio jantar… quero dizer, essa comida parece deliciosa e… - fez uma breve pausa, tocando o próprio pescoço com os dedos delicados. - Perdão, eu não faço ideia do quanto este jantar vai custar. Talvez eu devesse ter conversado sobre isso antes. Desculpe.

Pediu um tanto sem graça, acostumada a pedir mais desculpas do que deveria quando se via em uma situação constrangedora como aquela. Queria ter o conforto da certeza de que mesmo sozinha seria capaz de pagar por tudo aquilo, mas estava dividindo o aluguel de uma casa justamente por não se sentir capaz de administrar aquelas contas sozinha. Obviamente que poderia ter escolhido um apartamento em Limoges para viver com algumas de suas colegas de trabalho, mas já estava cansada de viver sob o modelo de um internato.

Respirou fundo e pegou os talheres de forma educada e formal, acostumada com a boa etiqueta que lhe foi entregue no convento e durante o estudo de música na universidade para mulheres. Sorriu de forma discreta antes de saborear um pouco da salada primeiro, escolhendo deixar os legumes no vapor, sua parte favorita, por último.

- Ah, perdão. Eu não… não costumo beber álcool. - informou, certa de que a bebida não lhe fazia muito bem. Tinha um metabolismo muito rápido e eficaz. - Eu… talvez se eu soubesse dirigir poderia ajudá-lo. - sugeriu amistosa antes de voltar a observar o moreno novamente com certa curiosidade. - O senhor trabalha com o que? - resolveu perguntar, intrigada com o ramo de negócios que aquele homem poderia ter para tratar a música como se fosse um hobbie.

Renaud

Era até fácil de notar como a mulher a sua frente não estava habituada a encontros em restaurantes, ela parecia exacerbada pela quantidade de pratos e principalmente pelo valor que aquilo poderia custar. O jovem Blanco retornou a taça de água a mesa e manteve o sorriso charmoso estreitando os olhos na direção da figura feminina a sua frente: - Não precisa se preocupar em pagar por nada, que tipo de acompanhante eu seria se lhe chamasse para um jantar e não me responsabilizasse pela conta. Seria muito deselegante da minha parte para um primeiro encontro. - O moreno mais novo fez questão de ressaltar que era um encontro, apenas para tirar mais reações da mulher a sua frente: - mas não faça cerimônias, se esperarmos mais a comida vai esfriar e perder o ápice do seu sabor particular. Eu não gosto de usar motoristas, por isso eu mesmo dirijo, então não se sinta culpada por isso em particular.

Comentou em um tom suave e cordial, começando a se servir primeiro da salada e depois seguido do coelho e legumes, provando cada pequena porção e aproveitando o sabor suculento característico, que fazia daquele lugar um dos seus restaurantes preferidos. Em tempo de ouvir a pergunta de com o que trabalhava especificamente, retornou os talheres a mesa, e bebericando um breve gole de água para limpar a garganta:

- Eu trabalho na área de química dos alimentos, então eu fico responsável por análise de amostras de alimentícios em geral, geralmente esse processo é feito de forma interna na própria fábrica. No entanto, tecnologias novas estão sempre sendo implementadas, e as normas de qualidade exigem testes externos para garantir segurança. Eu trabalho especificamente no laboratório da Universidade Paris-Sud, onde fico responsável principalmente pelo banco de dados. - O moreno sorriu balançando suavemente a taça de água na mão: - Eu com certeza não tenho cara de cientista que fica de jaleco em um laboratório o dia todo, mas eu gosto do meu trabalho.

Magali

Sentiu o rubor mais uma vez lhe tomar a face com a ideia de estar tendo um “primeiro encontro” com aquele rapaz tão charmoso e um lugar tão elegante. Com certeza, Henrique não acreditaria se contasse a ele o que estava acontecendo. Começou a se servir da salada e, comendo em pequenas porções. Ergueu o olhar novamente para o rapaz charmoso, pensativa quando ele começou a falar sobre novas tecnologias. Riu baixo com a imagem dele em um jaleco branco trabalhando em um laboratório em sua mente. Já havia observado que alguns professores de St. Clavier pareciam ter aquele perfil de cientistas pesquisadores.

- Hm. Eu tenho muitos problemas com tecnologia para falar a verdade. Minhas alunas sabem muito sobre lives e canais de youtube e tutoriais… mas tudo me parece tão alienígena. - explicou, fazendo uma pausa para experimentar o coelho, surpresa com o sabor da comida antes de começar a saborear a carne de fato. - Eu queria poder lhe agradecer por ter me acompanhado no dueto hoje. Não costumo ter muita companhia quando vou cantar. Ah… - fez uma nova pausa, usando o guardanapos para limpar os lábios, removendo um pouco do próprio batom no processo. - E por me ajudar com aquele seu amigo… eu não sei o que tinha na minha cabeça para começar a tocar um piano que não era meu. Eu deveria tomar mais cuidado com a propriedade alheia. Espero que ele não tenha ficado chateado comigo. - explicou, sorrindo discreta antes de voltar a saborear do coelho, não comendo muito da carne, mas aproveitando bem mais os acompanhamentos.

Renaud

Era no mínimo peculiar como a senhorita a sua frente engatava os assuntos e os mudava logo em seguida, como se estivesse seguindo uma conversa mental onde o jovem Blanco não estava participando. E não sabia dizer se ela fazia isso de forma consciente para fugir de suas investidas sutis, ou se era apenas falta de traquejo social para manter uma conversa. O moreno sorriu de forma discreta encarando a figura feminina a sua frente enquanto ela narrava sua falta de habilidade para uso de tecnologias em detrimento de suas alunas, e sabia bem como era, professores com doutorado que sequer sabiam ligar um datashow antes de começar a aula, era mais comum do que a mulher a sua frente poderia supor.

Mas não teve como conter o arquear de sobrancelhas quando a senhorita destacou que queria lhe agradecer por ter acompanhado no dueto, talvez ela não considerasse a própria companhia em um jantar como agradecimento o suficiente. Sorriu um pouco mais descontraído quando ela ainda destacou a ajuda pra se livrar da possível bronca dos funcionários do teatro: -- Mademoiselle Florence. Por favor, não há necessidade de me agradecer por nada, muito pelo contrário, sua pequena travessura no palco, me divertiu, não a acompanharia se não tivesse me cativado com sua habilidade no piano. -- ergueu a taça de água levemente a frente apontando na direção da mulher como um aceno educado, depois retornando a peça a mesa:

-- Os funcionários do teatro de Cerise estão acostumados com minhas peripécias, afinal, eu frequento aquele lugar desde a infância, já que minha mãe trabalha com organização de eventos e muitas das companhias de artistas que vêm à cidade, chegam por intermédio da empresa dela. Então fique tranquila, não foi nem a primeira vez que alguém invadiu aquele palco, e nem será a última.

O jovem Blanco se serviu do jantar, apreciando o sabor da comida pedida, mas sempre vez ou outra deixando a refeição de lado para seguir a conversa com a senhorita a sua frente, a forma séria com que ela encarava a profissão de musicista em contraste com a falta de desenvoltura social, era uma combinação bem inesperada, mas que lhe trazia certa familiaridade.

Magali

Ficou aliviada quando o rapaz elogiou sua habilidade no piano. Possuía anos de prática e não era pra menos que conseguia tocar bem dizer qualquer coisa no instrumento. Também possuía conhecimento em flauta transversal, violão e violino como pré-requisitos para que entrasse no curso de preparação para regência. Ficou atenta ao ouvir o sujeito falar sobre a própria figura materna. Baixou o olhar por um instante, não era muito próxima de sua própria mãe e sabia que não estava no trajeto profissional ou pessoal que ela gostaria, mas ainda assim se sentia muito à vontade ao ouvir terceiros falando sobre o papel de suas matriarcas na vida deles. Contudo, ficou surpresa com a ideia de que poderia subir no palco novamente. Era como se estivesse falando com algum agente empreendedor de eventos que estivesse interessado em sua performance.

- Sua mãe deve ter muito orgulho. É um rapaz bem inteligente para ser bom em algo que trata como passatempo. - comentou em um tom mais tranquilo, experimentando da comida em seu prato e ficando mais uma vez surpresa em como o sabor era delicioso ao seu paladar inexperiente. - Hm. - fez uma breve pausa, não conseguia comer rápido ou em grandes porções de qualquer forma. - O que quer dizer com… “não será a última”? - resolveu perguntar para sanar sua curiosidade logo de uma vez.

Ainda estava ruborizada na presença do outro, mas diante da boa comida e da conversa que se estendia, começava a se sentir mais à vontade. Ele até então havia sido bastante educado e decente, então não viu motivos para se sentir desconfortável ou tentar escapar daquela situação.

Renaud

Para o jovem Blanco era uma diversão notar como a despeito de todos os seus elogios e flertes direto a senhorita Florence persistia muito bem. Aos poucos, tomando um pouco mais de tempo entre mudar um assunto e outro. Ocupou-se em saborear a comida enquanto ela ainda estava em ponto de ser comida sem prejuízo em seu sabor único. O comentário preciso sobre sua matriarca não o incomodava diretamente, sabia que a mulher não tinha nenhum orgulho de si, apenas cobranças, mas não era nada diferente do que se espera de uma mãe socialite parisiense. No entanto, a reação mais pontual sobre uma possível oportunidade de tocar e cantar novamente no palco deixou a musicista interessada. Pegou a taça de água em mãos e tomou um gole, estreitando os olhos escuros para mulher, fazendo um breve silêncio, antes de respondê-la:

- Quis dizer que não somos os únicos indulgentes a aprontar naquele teatro - retornou a taça a mesa e uniu as duas mãos, na altura do colo: - Mas considerando as suas habilidades, acredito piamente que o palco seja seu habitat natural.

Claro que se a mulher a sua frente não tivesse qualidade o suficiente para tal, sequer lançaria aquela ideia, não era de alimentar expectativas que não poderia cumprir. Flertava porque era um bom amante, e se elogiava era porque a pessoa era digna de apreciação:

- É claro, não posso me comprometer demais, no entanto, posso ser uma ponte de contatos. O que acha Mademoiselle Florence?
#2
Apesar de ter removido sua maquiagem ao lavar o rosto, ainda possuía uma beleza singular típica de uma jovem mulher francesa. Não conseguiu esconder o brilho nos olhos claros ao ouvir o comentário sobre pertencer aos palcos. Queria ter autoconfiança o bastante para transportar a própria postura mais assertiva que tinha nos palcos para seu dia-a-dia, mas ao menos conseguia manter-se mais profissional em seu trabalho enquanto professora.

- Eu? Bem... - fez uma breve pausa, considerando a proposta com atenção. - Eu ficaria mais satisfeita se pudesse recompensá-lo pelo seu esforço, monsieur. - respondeu com um ar um pouco mais sério, dando um pouco mais de atenção a bebida antes de continuar sem nenhuma malícia no olhar. - Eu sinceramente aprecio a sua admiração e fico feliz por ter encontrado o monsieur hoje, mas... - sorriu com um ar mais amistoso. - Eu ficaria satisfeita se me dissesse como posso ajudá-lo também. Eu não conheço muito sobre laboratórios de química na França, mas conheço algumas pessoas fora de Cerise que também possuem o mesmo interesse que o senhor pelos palcos, estudei regência em Paris. - adicionou a informação, imaginando o que teria de interessante que pudesse oferecer ao moreno além de sua companhia que ele parecia, por algum motivo auspicioso, apreciar.

O rapaz, apesar de mais jovem, parecia ter muita certeza sobre o que falava. A companhia dele era agradável, ainda que não entendesse ao certo o sentido de alguns comentários que ele fazia em sua direção. Se a companhia da casa de apresentações tinha apreço pelo jovem, imaginava que ele ou deveria ser alguém famoso local, mas que nunca havia ouvido falar direito à respeito, ou ele havia ajudado aquelas pessoas em algum momento tal como havia lhe prestado a gentileza de convidá-la para aquele jantar. Henrique, com certeza, não acreditaria em suas palavras se narrasse os acontecimentos daquela noite.
#3
Madame Florence era uma mulher muito honesta, quase translúcida de tão sincera, sequer conseguiria esconder uma mentira sobre um botão que se perdeu, pois seus olhos não sabiam mentir. O jovem Blanco sorriu, entretido, charmoso como se manteve durante toda a conversa, principalmente quando a mulher ofereceu “lhe retribuir”. Ela certamente não tinha noção do tipo de interpretação que suas palavras poderiam ter.

-- Não se incomode com o meu trabalho, acredite, não pediria para que Madame se envolvesse com os trabalhos tediosos de planilhas -- brincou, alargando mais o sorriso e fazendo questão de encarar a mulher demoradamente.

-- Mas se eu puder ver  uma apresentação completa sua, já me sentiria muito lisonjeado. -- claro que um comentário excessivamente cortês que beirava um flerte deixaria a mulher no mínimo constrangida, mas Renaud não queria que ela saísse com a impressão de um Blanco “excessivamente ousado”, tinha a medida certa entre charme galante, e inconveniência:

-- Vou conversar com os meus contatos, e tão logo receba uma resposta seja ela positiva ou negativa, lhe avisarei -- fez uma breve pausa, pegando a taça para tomar um gole de água, antes de continuar sua narrativa: -- mas pra isso, preciso do seu número de telefone.

Sorriu educado, retornando a taça de água de volta a mesa, aquela noite já tinha sido incrivelmente divertida na companhia da mulher, poderia se dar como satisfeito. E ainda tinha um vislumbre de quem sabe importunar sua mãe em um plano interessante, quem sabe?
#4
Não conseguiu evitar o rubor que lhe tomou a face com a ideia de poder se apresentar em uma performance completa. Fazia algum tempo que não realizava nenhuma performance, mas ficaria feliz de se apresentar para o gentil rapaz que havia feito a gentileza de lhe levar para jantar. Concordou com um aceno positivo da cabeça, sem nenhuma hesitação ao passar o seu telefone para o jovem rapaz, o aparelho nem sequer bloqueio de tela possuía. Não havia mudado sequer a proteção de tela do aparelho que tinha já há alguns meses.

- Monsieur pode pegar o meu número sim, não tem problema. - sorriu animada. Fez uma breve pausa e ajustou o par de óculos na face, pensativa. - Mas que tipo de apresentação monsieur gostaria? Uma apresentação como... uma adaptação de um musical popular? Ou um clássico? Eu gosto muito de Agitata da due venti! - falou mais animada e descontraída. - Mas posso cantar ou tocar o que for mais agradável para monsieur. Gosta de Rossini?

Sem sombra de dúvida, a música era algo que mexia com seu coração. Conseguia sentir o coração bater mais forte com a mera lembrança de se apresentar em um palco. Sem perceber, começou a mexer no próprio cabelo, enrolando algumas mexas onduladas entre seus dedos, tentando se recordar, distraída, das partituras que ainda tinha consigo em Limoges.
#5
Achou curioso quando a mulher lhe entregou o aparelho ao invés de falar seu número, o que era algo bem curioso, até perigoso, olhando por aquele lado. Pegou o celular em mãos e notou que o mesmo não tinha sequer nada de proteção, supôs que devia ser um objeto novo. Digitou seu próprio número e fez uma chamada, para que o número da Madame Florence ficasse gravado em seu próprio celular:

-- Pronto, me antecipei e salvei o meu número, então quando eu te ligar aparecerá o meu nome. -- explicou paciente, e fez menção de estender o aparelho de volta, e esperou que ela estendesse a mão, para leva a sua própria em encontro: -- Eu imagino que seu aparelho seja novo, mas é importante colocar ao menos uma senha, uma sequência de números, de notas musicais? -- riu entretido com a ideia boba para uma senha.

Mostrou como chegar no menu de configurações e forma simples e objetiva, e mostrou a parte de segurança. Configurou a digital da mesma também como uma forma alternativa de desbloqueio: -- Você pode usar sua digital, senha, e se der errado, vou lhe ensinar uma mágica. -- pressionou o botão de power e o de volume simultaneamente e contou até cinco, e o aparelho reiniciou: -- use isso caso ele trave e você não consiga usar.

Finalmente devolveu o aparelho e sorriu cordial, tinha sido uma ótima noite, divertida de um jeito diferente do qual o Blanco estava acostumado: -- Ah e não se preocupe, assim que eu acertar os detalhes com uma certa pessoa, eu lhe retornarei com os pormenores, acho que estamos numa fase muito focada em homenagear Beethoven, então muito provavelmente posso aproveitar e unir a casualidade a oportunidade, e quem sabe conseguir um resultado muito interessante. -- uniu as mãos em frente ao corpo, ainda sentado com as pernas cruzadas de forma masculina: -- Assim como hoje.
#6
Concordou com um aceno positivo, parecendo animada quando ele disse que já havia salvo o próprio número em seu telefone. Prestou atenção nas palavras dele sobre a segurança do aparelho e se lembrou de como Henrique havia lhe falado algo parecido sobre cuidar melhor de suas informações privadas. Sorriu animada com a ideia de criar uma senha com notas musicais e ficou ainda mais confortável com o riso do rapaz simpático.

Inclinou-se um pouco na mesa, buscando observar o passo a passo daquilo que o rapaz estava fazendo. Ele parecia bem mais paciente que Henrique, e amigável também. Ficou corada quando ele cadastrou sua digital e impressionada quando ele explicou sobre como resolver problemas com o aparelho.

Ficou levemente curiosa para saber quem seria a tal pessoa com quem ele precisava acertar os detalhes sobre uma possível performance, mas ficou quieta, mantendo um sorriso de satisfação por estar ali na boa companhia do outro. Riu descontraída com a sugestão de Beethoven, não era seu compositor favorito, mas com certeza era inesquecível. Aceitou a oferta com satisfação. Mal podia esperar para poder comentar com Henrique sobre aquele encontro. Talvez ele não acreditasse em sua própria sorte ao encontrar alguém tão bonito e charmoso quanto o jovem Blanco. E respeitoso também. Conseguia se sentir segura ali, pelo comportamento cortês do casual parceiro de palco. Talvez ele pudesse se apresentar novamente com ela futuramente, mas, no momento, queria devolver a gentileza dele com uma performance própria e marcante.

[thread encerrada]


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