[Drive] Cuidados Excessivos [Pietro; Annica]
#1
Pietro

Os últimos dias tinham sido estressantes para Pietro num nível que ele não saberia descrever. A morte do seu avô já tinha lhe deixado em um estado de tristeza que foi apaziguado só ao retornar a Cerise e ter a companhia da namorada. Mas aquela breve sensação de alívio foi interrompida drasticamente por um acidente dentro da funerária e de um (re)encontro que lhe causou dor e pesadelos numa noite de internação muito inconveniente. Ainda assim, diante de todos os problemas, Annica tinha ido lhe visitar, ficou ao seu lado e decidiu que lhe faria companhia até mesmo em casa.

Ainda estava com medo de sair do hospital, de voltar para casa e de repente encontrar com aquele homem assustador. Mais medo ainda por ter Annica ao seu lado e ele tentar fazer algo contra ela. Mas já tinha dito aquilo à namorada também, e enquanto tinha um calafrio de medo com a suposição, tinha também uma sensação de tranquilidade e calma, mesmo que breves, por ter a albina ao seu lado. Aquela sensação provavelmente foi um pouco transmitida para Annica no caminho para a casa de seu avô, enquanto estavam no banco de trás do táxi e apertava a mão dela algumas vezes para ter certeza de que ela estava ali.

O caminho do hospital até sua casa não foi tão demorado, mas se pegou olhando para fora da janela mais de uma vez, com medo de avistar aquele mesmo homem em plena luz do dia. Ele não apareceu, e logo tinham pagado a corrida no táxi para descer e atravessar o pequeno jardim da casa e abrir a porta para que Annica entrasse na casa grande e silenciosa.

- Está um pouco bagunçada… eu não vim muito aqui… não tive tempo de arrumar… fique à vontade. - Pietro fechou a porta atrás de si depois que Annica passou. A casa era antiga e bem iluminada pelas janelas, tinha um ar de família com várias fotos e decorações e souvenires de muitos lugares do mundo.

Annica

A albina estava acostumada a ser uma pessoa cuidadosa com quem lhe era próximo, mas desde que tinha começado a namorar com Pietro, tinha sido uma sequência de novidades sobre como podia se sentir em relação a outra pessoa. Com certeza, tinha um mundo de coisas para dividir com seu psicólogo na próxima sessão de terapia. Depois de um susto enorme com a internação do moreno mais velho no hospital, principalmente pelo motivo da internação, a ida ao hospital, e todo o cenário que encontrou, a história que se seguiu da possibilidade de um irmão vindo do além para tentar “matá-lo?”, era tudo tão confuso, que dava dor de cabeça só de pensar sobre. Depois de uma noite mal dormida no hospital, lá estava Annica na casa do namorado para tomar conta dele, teria de dar várias justificativas no trabalho, já tinha dado avisos a academia feminina e ao trabalho, mas sabia que precisaria ligar, além dos avisos presenciais.

Mas deixaria aquilo pra depois, naquele momento tinha de focar em tomar conta de Pietro, que mal estava conseguindo falar ainda com a garganta danificada após o estrangulamento que tinha passado. E apesar de todos os pesares, aquela era a primeira vez que estava de fato na casa do moreno, e não queria que fosse naquelas circunstâncias, mas já que estava lá, tinha de fazer valer o zelo e cuidado que queria demonstrar e efetivar com o outro:

-- Eu certamente não vim para julgar sua bagunça Pietro, relaxe. -- A albina destacou em tom suave, deixou a bolsa e demais objetos em uma das mesas próximas, e apenas esperou que o mais velho se livrasse da própria bagagem para reduzir a distância entre os dois, e levar uma das mãos ao rosto de Pietro e lhe deixar com um beijo singelo e carinhoso sobre os lábios:

-- Eu vim aqui cuidar de você, então apenas relaxe, e me deixe fazer isso, pode ser? -- não se afastou do mesmo, esperando que ele lhe desse uma resposta positiva.

Pietro

Pietro engoliu em seco com o desconforto na garganta e só concordou com um aceno de cabeça breve quando ela disse para relaxar. Antecipou a aproximação dela até sentir o toque breve no rosto e o beijo suave nos lábios. Naqueles breves momentos, até dava para esquecer os problemas principais que estava lidando e nem o pescoço imobilizado lhe tirou a satisfação da companhia e dos toques da namorada.

- Desculpe. - pediu, porque sabia que era muito natural cuidar dos outros e não se deixar cuidar.

Deu espaço para que ela passasse, estendeu a mão sorrateira até a dela e enlaçou os dedos, guiando-a pela casa grande para poder mostrar alguns dos cômodos, começando pela sala de estar, cozinha, área de serviço, um quarto no andar de baixo e banheiro. Não falou sobre cada um dos cômodos para não piorar o estado da própria voz, e só quando subiram as escadas foi que mostrou outros dois quartos, uma sala pequena de estar com vista para o jardim e outro banheiro social.

- É uma casa grande... e vazia. Obrigado por... me fazer companhia.

Nem estava mais acostumado àquela casa. Gostava de morar num apartamento pequeno, a casa dos avós lhe trazia boas lembranças, mas agora estava vazia e cheia de fotos de família que lhe lembraram inconvenientemente do responsável pelo seu machucado. Acabou levando uma mão ao pescoço de forma inconsciente.

Annica

Era fácil de perceber que apesar daquela ser a casa de Pietro, ele não se sentia necessariamente a vontade ali, mas não podia culpá-lo, a ideia de ter perdido um familiar a pouquíssimo tempo, de ter sido atacado por supostamente um familiar, fazia toda aquela dinâmica soar incômoda e estranha. Acompanhou o namorado no pequeno tour pela casa, reparando nos espaços, e como aquele lugar comportaria facilmente uma família enorme, e como tudo parecia grande e distante apenas para duas pessoas, quando ele lhe agradeceu por estar fazendo companhia a ele, a albina sorriu em resposta, mantendo os dedos entrelaçados e fazendo um aperto breve:

-- Sim, é uma casa grande, mas não está mais vazia, afinal estamos aqui, não é? -- manteve-se próxima estendendo a mão até a outra de Pietro, para agora segurar as duas:

-- Mas eu não vim só lhe fazer companhia, eu vim cuidar de você, isso quer dizer que eu não vou ficar só olhando enquanto perambula pela casa, entende? Você, Senhor Pietro Étienne, vai me deixar tomar conta das coisas, não vai? E vai se comportar direitinho não é? Ou eu vou ter de usar medidas drásticas? -- a albina se aproximou a ponto de encostar a ponta do nariz na do namorado, usando um tom de voz levemente maldoso, então não dava pra saber se era brincadeira, se era sério, ou apenas charme. Mas era fato, que aquele tipo de proximidade agradava Annica, primeiro, porque gostava de ficar perto de Pietro e segundo, porque ele era incrivelmente fofo quando estava desconsertado.

Pietro

O pescoço imobilizado era bem inconveniente e ainda dolorido, mas o dano tinha sido muito recente, então não podia reclamar da recuperação lenta. Só depois de apresentar a casa toda a Annica foi que parou para dar uma olhada no quarto que era seu e no quarto que era dos seus avós no andar superior, e por um breve milésimo de segundo, se pegou pensando se deveria apresentar um quarto para Annica se instalar enquanto ficava ali, e o que ela iria preferir, de um jeito ou de outro, teria que organizar os quartos para que ela ficasse confortável, e isso incluía trocar a roupa de cama, varrer, abrir as janelas…

Os pensamentos foram interrompidos só quando sentiu Annica lhe segurar as duas mãos, virando-se na direção dela com o reforço constante da namorada de que tinha ido ali para cuidar dele e não só lhe fazer companhia. A determinação expressiva já teria sido constrangedora, mas foi bem reforçada pela proximidade dela, a ponto de encostar o nariz no seu e lhe fazer uma ameaça bem pontual que fez com que as orelhas queimassem de constrangimento.

Ele preferiu não responder em palavras, para não continuar forçando a voz. Devolveu o aperto nas mãos dela e concordou com um aceno de cabeça, aproveitando o par de alturas muito semelhantes para estender aquele toque leve entre os narizes até um selinho breve, sem invadir mais do espaço alheio.

- Quer almoçar? - ele sugeriu, e com certeza não estava pensando em deixá-la fazer o almoço, a despeito de concordar em ser cuidado. Ele só estava com o pescoço dolorido, podia preparar comida, não era?
Annica

Era fato que a albina se divertia com as reações exageradas do namorado diante de seus avanços, e gostava principalmente dos beijos carinhosos que o outro lhe devolvia quando queria se defender de suas investidas. Gostava daquela dinâmica, e estava feliz que ao menos momentaneamente conseguia afastar pensamentos ruins da cabeça do outro, com seus comentários pontuais. Quando o moreno mais velho sugeriu que fossem almoçar Annica acenou positivamente concordando:

-- Podemos pedir comida hoje, e nos dar uma folga de cozinhar, porque ninguém merece sair do hospital e ir direto pegar no serviço doméstico. -- Comentou se afastando do namorado apenas o espaço suficiente para usar o aparelho celular: -- E falando de hospital, o senhor precisa tomar um banho, e tirar as roupas com ar de hospital, sendo que você provavelmente vai ter dificuldade de tomar banho sozinho por causa do pescoço… hmm e eu também dormir no hospital, vou precisar de um banho também.

A albina comentou despretenciosa abrindo a lista de números de telefone de pedidos de delivery, até se dar conta que na frase que tinha acabado de falar tinha indicador que talvez pudesse dar banho no namorado, ou tomar banho com ele, e aquilo lhe deixou nervosa, o sangue subindo para as bochechas, ergueu o olhar para o namorado um pouco afobada: -- Ah, mas isso não quer dizer que a gente precise tomar banho junto… tipo, eu posso lhe ajudar com muitas coisas, mas não sei se seria certo, já ir direto para um banho, mas não sei se você iria precisar de tanta ajuda assim, talvez um banco já ajudasse… Ah! Desculpe!

A albina ficou completamente desconcertada daquela vez e levou a mão para cobrir os lábios enquanto desviava o olhar, tinha de definitivamente tomar cuidado com as coisas que estava falando, ou aqueles dias tomando conta de Pietro virariam um campo minado de situações constrangedoras.

Pietro

Pietro só concordou com um "okay" baixo quando ela sugeriu que pedissem a comida, mas qualquer tentativa de responder sumiu no topo da garganta quando ela apontou que ele precisava tomar um banho agora que tinha voltado do hospital. Bom, estava em seus planos, mas antes de concordar, ouviu as pontuações específicas sobre ele ter dificuldade de tomar banho sozinho e o comentário muito oportuno de que ela também precisava de um banho.

A reação de Pietro foi só arquear as sobrancelhas ao sentir, de novo, o rosto todo queimar, assim como as orelhas. E nem se quisesse conseguiria abaixar a cabeça e desviar o olhar com o colar cervical no pescoço, mas o que não esperava era que Annica tivesse a mesma reação que ele - um pouco tardia -, com o rosto muito mais vermelho por conta da pele branca, o que só reforçou o nervosismo dela ao tentar explicar a sentença anterior.

Annica tinha sido tão assertiva até então que vê-la naquele estado de nervosismo lhe deixou mais tranquilo e aliviado também. Ele acabou sorrindo do jeito afobado dela de tentar explicar que não iam tomar banho juntos.

- Bom saber... que você também fica com vergonha. - Pietro comentou, o sorriso feliz com a reação da namorada, e levantou a mão até o rosto dela, aproximando-se para dar um beijo na face esquerda. - Eu vou ficar bem... você pede o almoço enquanto isso? Só preciso de ajuda pra tirar isso... e depois do banho colocar de volta, tudo bem?

Annica

A albina tinha seus momentos para se enrolar, não era frequente, colocaria certamente na conta do cansaço da noite mal dormida, mas valia a pena por ver Pietro sorrindo, não imaginava que ele fosse ficar sorridente tão logo depois de sair do hospital, que bom que seu afobamento de palavras despertava um sentimento positivo no namorado. Recebeu o beijo no rosto, sentindo-o quente ainda do sangue que tinha circulado rápido ali por causa do constrangimento recente:

-- Bem, você não deveria tirar o colar cervical, mas eu acredito que tomar banho com isso seja ainda mais trabalhoso e estressante. -- Ajudou o namorado a se livrar da peça, desabotoando com cuidado, e apoiando o rosto do moreno mais alto com carinho. Deixou o colar em uma mesa próxima, para que o mesmo não tivesse que se deslocar muito para chegar no mesmo: -- Você têm problemas com comida apimentada? Responda com um “hum” para positivo e “hum-hun” para negativo.

Comentou de brincadeira, sabendo que o outro podia falar desde que fosse baixo, mas acharia fofo escutar o namorado falando “hum ou hum-hun”, buscou no aplicativo, procurando comidas nutritivas, e pastosas, evitando carne vermelha ou qualquer comida inflamatória, embora não houvesse qualquer restrição alimentar dada pelos médicos, estava acostumada demais a processos de recuperação, que estava buscando no automático. Sentou-se na cama do quarto, enquanto fazia o pedido, sem pensar que talvez Pietro precisasse do quarto livre para poder se trocar depois de sair do banho.

Pietro

Pietro deixou que Annica tirasse o colar cervical, imaginando que se fosse meter as mãos no suporte, ia acabar fazendo algo errado e se machucando mais. Mas ela foi mais rápida em se livrar da peça e até sentiu um pouco mais de conforto com o pescoço livre - embora ainda houvesse dor desconfortável dos hematomas óbvios que tinham ficado na garganta com formato de dedos e mãos.

Já ia abrir a boca para responder sobre a comida apimentada, mas ela lhe instruiu antes para limitar a sua voz. Só respondeu com "hm-hum", quase negando com a cabeça também e lembrando da dor no pescoço para evitar fazer aquilo.

Ele seguiu até o banheiro enquanto Annica ia pedir a comida para o almoço dos dois. Mas só depois de entrar no chuveiro e terminar o banho foi que percebeu que tinha deixado as roupas no quarto e só tinha as toalhas que já estavam no armário do banheiro. Bom, Annica devia ter voltado para a sala para pedir a comida e esperar que chegasse, então seguiu direto para o quarto um pouco mais a frente no corredor, a toalha apenas enrolada na cintura como era costume.

O que Pietro não esperava era entrar no quarto e dar de cara com a albina sentada na sua cama, olhando alguma coisa no celular. Se as orelhas e a nuca ficavam vermelhas com constrangimento, até os ombros estavam levemente avermelhados com a presença da albina ali. Mas não tinha muito o que fazer se as peças de roupa estavam lá. Ficou parado na porta, imaginando que não seria difícil chamar a atenção da namorada.

- Hm... Annica? Eu preciso… trocar de roupa.

Annica

A albina ficava facilmente entretida com qualquer reação do namorado, porque tinha aprendido a prestar atenção nos pormenores, afinal, muitas das reações de Pietro ficavam escondidas por trás da expressão supostamente “ameaçadora”, ouviu o “hm-hum” indicando que o maior não queria ter de lidar com ardor de comida apimentada, e se viu entretida buscando alguma massa ou comida mais fácil de mastigar e engolir. Tinha atualizado o endereço no aplicativo para a localidade onde estava antes de fato de confirmar o pedido, a última coisa que queria era que sua comida fosse enviada para o internato feminino. Estava distraída que sequer se deu conta que naquele meio tempo, era o suficiente para que Pietro tomasse seu banho e retornasse para o quarto. Ouviu a voz conhecida e ergueu o rosto em reação automática, para dar de cara com a imagem do namorado, recém saído do banho, de toalha, parcialmente molhado, plenamente envergonhado.

Se fosse possível, todo o sangue tinha no corpo teria subido para seu rosto que assumiu um tom vermelho exagerado, devido a tez naturalmente pálida, abriu a boca para responder qualquer coisa mas a voz não saiu. Estava num misto de deslumbramento e constrangimento, que sequer conseguiu arrumar alguma frase imediatamente para responder Pietro, apenas após alguns segundos que se levantou de solavanco, desviando o olhar, levando a mão com celular ao peito:

-- erh… Desculpe por isso, já vou sair. -- A Albina deu espaço para que o maior pudesse transitar no próprio quarto, em outros momentos jamais ficaria assim com alguma outra aluna de Limoges pega saindo do banho, mas a situação e o sentimento eram completamente diferentes em se tratando de Peitro: -- Assim que terminar de se vestir me chame para por o colar de volta. -- comentou antes de fato, de sair do quarto e finalmente deixar Pietro sozinho, e ter tempo para respirar e entender o que tinha acontecido.

Era uma mulher adulta de 21 anos, e embora já tivesse tido vários tipos de experiências sensuais e sexuais, fazia um bom tempo desde a última vez que tinha se sentido tão constrangida e agitada. Estava tão certa que precisava ajudar Pietro no seu dia a dia dentro de cada que jamais teria previsto que passaria por esse tipo de situações, e que isso mexeria tanto consigo.

Seriam longos dias naquela casa, disso já podia vislumbrar.

Pietro

O dia estava sendo bem inédito, Annica lhe encarou de volta e enquanto esperava que ela tivesse a mesma atitude mais direta de antes, que já conhecia, a albina lhe surpreendeu ficando muito mais vermelha do que tinha ficado com as palavras trocadas ao falar de tomarem banho juntos. Ficou surpreso com o constrangimento e acabou sorrindo compreensivo, levando uma mão para cobrir os lábios e o rosto parcialmente, dando um passo para o lado para deixar que a namorada saísse do quarto sem ter que lhe ver mais diretamente ou passar muito perto. Até sentia o rosto queimar, mas a novidade das reações de Annica lhe deixavam mais agradado, senão ainda mais atraído pela jovem.

Ia fechar a porta depois dela passar, mas ainda ouviu a indicação para que a chamasse para ajudar com o colar cervical e respondeu com um “Hm” positivo, já que era o que ela tinha lhe instruído. Quando ela deixou o quarto, foi procurar uma roupa e inconscientemente, escolheu uma camisa de mangas compridas com uma estampa de elefante, calça de moletom e sandálias, peças que podiam ser um pouco quentes, mas que pelo menos esconderia seu corpo todo.

Deixou a toalha em volta do pescoço, os gestos para vestir a roupa já tinham incomodado o lugar, mas ao menos a toalha escondia um pouco das marcas roxas na área. Desceu as escadas para encontrar Annica na sala de estar daquela vez.

- Desculpe… eu tinha esquecido as roupas no quarto… não tinha… intenção… - ele apontou para o quarto como se tentasse justificar aparecer lá só de toalha. Só precisava colocar o colar cervical de volta e esperarem pelo almoço.

Annica

Tinha muita coisa nova acontecendo ali, e precisou descer as escadas para retornar até a sala e tomar um fôlego, nem se reconhecia naquele misto de nervosismos, era tão natural viver em um dormitório onde eventualmente você entrava no quarto e alguém e pegava a pessoa de toalha pronta pra se vestir, que não estava mais acostumada a dinâmica de uma casa convencional. Sentiu o celular vibrar na mão com a mensagem de aviso do aplicativo indicando que a comida tinha saído para entrega e suspirou guardando o aparelho no bolso da saia; levou a mão livre ao peito, ainda sentindo o coração acelerado, imaginava que o rosto ainda deveria estar corado, e se pegou olhando em volta ao ver sua imagem refletida no vidro de um dos quadros da casa. Naquele momento que tinha percebido como aquela casa era bem tradicional, vários quadros espalhados por todo o lugar. Era estranho pensar que aquilo era comum, mas que era tão estranho para si, já que a disforia corporal não lhe deixava encarar fotos suas antigas, por isso era praticamente impossível achar alguma imagem sua de quando era menor.

A albina levou a mão de dedos longos até um dos porta retratos da casa, trazendo a imagem para mais perto de si, e era notório como a expressão fechada acompanhava Pietro desde a infância, mas isso não o tornava uma criança feia, muito pelo contrário, imaginava que ele deveria ser tão fácil de deixar constrangido como atualmente, ou até mais. Pensar sobre a família de Pietro, seus pais que não estavam ali, o avô que tinha falecido recentemente, e o suposto irmão vindo do além, apenas tornavam olhar todos aqueles quadros um conjunto de recortes felizes porém melancólicos. Era uma casa muito grande para os dois, quem dirá para apenas Pietro, sozinho, não devia ser nada agradável ficar ali por muito tempo. Enquanto estava perdida em pensamentos, os sons de passos descendo as escadas chamaram sua atenção e Annica virou-se em direção ao namorado que vinha agora, bem vestido em sua ilustra estampa de elefantes.

Ouviu as explicações e sorriu, em um misto de compreensão e leve constrangimento diante do que tinha acontecido minutos atrás, devolveu o porta-retrato a posição em que estava:

-- Eu é que tenho de me desculpar, se pensar, eu moro nos dormitórios de Limoges-Collet desde os dezesseis anos, e nós moramos nos nossos quartos, então pra mim, era apenas natural esperar sentada na cama, não quis ser invasiva e lhe deixar sem privacidade para se trocar pos banho. -- Comentou em seu tom mais confiante, embora o rosto ainda avermelhado não mentisse o constrangimento. Se adiantou para próximo de Pietro, porque tinha prometido que colocaria o colar cervical de volta, guiou ambas as mãos até o rosto do namorado acariciando a área, e afastou a toalha do pescoço do outro apenas o suficiente para espiar o estrago, e então o encarou com seus olhos lilases: -- vai ter de ficar um tempinho ainda com o colar cervical, mas lhe dou folga pra comer antes de recolocar a peça.

Não demorou tanto, para que a campainha da porta soou, e o Annica se adiantou em checar no celular o aviso do aplicativo, e só então se direcionar até a porta, tinha pedido massa italiana, porque acreditava ser fácil o suficiente para o namorado comer, e era totalmente diferente de comida de hospital. Não se importou de dividir o valor da compra, não se importaria de pagar o valor todo, mas preferia evitar conflitos por detalhes pequenos.

Pietro

Pietro fez um "hm" em concordância quando Annica explicou a situação e como ela estava acostumada a convivência em quartos bem limitados nos dormitórios. Até notou que ela estivera olhando um dos porta-retratos da casa e queria ter a oportunidade de falar um pouco dos pais, mas não tinha como entrar em longas conversas no estado em que estava. Ainda sentia a dor no pescoço e sabia que ia demorar a melhorar, mas ficou mais satisfeito quando ela disse que esperaria até depois do almoço para colocar o colar cervical de novo.

Logo a comida chegou, ele dividiu o valor com Annica e ainda foi automaticamente colocar a mesa, pegar os pratos e talheres nos armários que já estava acostumado a usar, o movimento de erguer e baixar a cabeça sempre lhe alertando para o pescoço sem suporte. Claro que ainda recebeu algumas notas de reprovação de Annica pela disposição em fazer tudo dentro de casa, mas eventualmente deixou que a namorada tomasse conta das coisas. Foi mais fácil comer a massa, ao menos tinha mais sabor do que a comida do hospital, mas ainda sentia a garganta arranhar em cada movimento simples de engolir. Lentamente, conseguiu terminar o almoço e embora não pudesse falar muita coisa, gostava de ouvir Annica falando sobre o trabalho ou os estudos, e respondia no limite do que sua voz permitia. Seu vocabulário de "hums" estava ficando mais amplo à medida que o tempo passava.

Assim que o almoço terminou, tentou lavar os pratos também, no que recebeu uma bela repreensão da albina para que fosse descansar. Quando ela terminou de arrumar a cozinha - a seu contragosto -, os dois resolveram parar na sala e assistir alguma coisa na TV. Logo, o pescoço paralisado pelo colar cervical era a menor das preocupações de Pietro, só o fato de estar a tarde toda na companhia da namorada lhe enchia de uma sensação de felicidade e alívio que o fez até esquecer da possibilidade de serem atacados por aquele maluco que se dizia seu irmão.

Com o cair da noite, jantaram sopa, o que foi muito mais agradável para Pietro e a garganta que não arranhava tanto com o líquido morno, e só depois do jantar foi que ele subiu as escadas na companhia de Annica para indicar onde havia roupa de cama e travesseiros no quarto que costumava ser seu e onde a albina tinha lhe visto acidentalmente só de toalha mais cedo naquele dia.

- Você pode dormir aqui, era o meu quarto quando eu morava com os meus avós, não mudou muita coisa... se... não se importar. - ele explicou a Annica, depois de pegar uns cobertores novos no guarda-roupa. - Eu vou dormir no quarto do meu avô, fica logo no final do corredor...

A possibilidade de dormir no mesmo quarto que Annica até perpassou sua cabeça por um segundo, mas logo a cena de mais cedo voltou à memória também e além do fato de que estavam namorando há muito pouco tempo, aquela devia ser a melhor escolha.

Annica

Quando a albina tinha se proposto em tomar conta do namorado, não tinha pensado nem em metade das situações que passariam juntos ali, estava cheia de preocupação com o moreno e queria ajudá-lo de todas as formas. Mas era uma novidade atrás da outra, jamais teria imaginado que Pietro era uma pessoa tão difícil de manter sentada descansando, ele estava tão acostumado a vida de solteiro sozinho, que simplesmente ia fazendo as coisas no modo quase automático, e tinha de ir repreendendo ele para que fosse descansar ao invés de ficar se desgastando com serviço doméstico trivial. Mas com certeza, a melhor parte de dividir a casa apenas com Pietro, era poder passar tempo na companhia do namorado, e vê-lo então descansar e parecer mais relaxado. Ter aquela percepção do outro, até deixava a albina mais tranquila também, e se certificou de encher o moreno mais velho de mimos, beijinhos, afagos e muito carinho que toda pessoa doente em recuperação precisa receber.

Finalmente de noite, depois de jantar, e de conversar bastante, já que tinha bastante espaço pra falar, afinal, reduzido a “hns” como resposta, Pietro não tinha muita coisa pra acrescentar, mas com certeza era um ouvinte dedicado. Finalmente depois de arrumar a cozinha, a albina sentia o cansaço da noite mal dormida no hospital lhe abater. Ouviu as instruções do namorado, e em verdade, queria se sentir mais confortável pra dormir ao lado do outro, se o cenário fosse outro, podiam estar conversando sobre algumas coisas mais íntimas e importantes e então chegar naquele momento de dormirem junto de forma mais confortável. Mas por agora, tinha de focar em dormir bem, descansar, para encarar a rotina do outro dia:

-- Não se preocupe comigo Pietro, eu vou dormir no seu antigo quarto, e deixa-lo dormir sozinho, assim você se preocupa menos com os movimentos do próprio corpo, e pode descansar melhor acredito. Foi uma noite longa no hospital. -- a albina levou a mão ao rosto do moreno mais alto, e se aproximou para depositar um beijo carinhoso no rosto do outro, seguido de um selinho: -- tente descansar, e qualquer coisa me chame. Boa noite amor.

Claro que não queria que ele gritasse, ele poderia mandar uma mensagem por telefone, e isso seria o suficiente para acordar a albina, por ser um lugar estranho o sono com certeza seria leve. Se despediu do moreno mais velho, para enfim, poder tomar um banho, tomar seus remédios da noite que nem tinha se atentado a tomar na noite passada, muito provavelmente a fadiga física excessiva era por isso também. A albina entrançou o cabelo longo para facilitar o cuidado com ele no outro dia, tomou os devidos cuidados com a pele alva, e guardou as lentes de contato, foi dormir com um conjunto de short e camisa longa de mangas confortável. Se certificou que o celular estava carregado e não estava no silencioso para receber mensagens de Pietro.

Ainda tomou tempo trocando mensagens com amigas de Limoges explicando como estava, com os próprios pais que estavam curiosos sobre o andamento das coisas, gastou algum tempo, mas logo o cansaço lhe venceu, e deixou o aparelho de lado para poder dormir. Embora o quarto não fosse o seu, e fizesse muito tempo que Pietro o tinha usado, tinha plena certeza que podia sentir o cheiro dele nas cobertas, e em outros tempos a ideia de dividir cama com outro homem lhe assustava, agora a ideia de dividir espaço com seu atual namorado lhe deixava em misto de vergonha e expectativa. Com certeza teria muitas coisas novas para conversar com seu terapeuta, eram muitas novidades sobre si mesma que estava vivenciando em um espaço curto de tempo, tudo isso devido a relação com Pietro.

Pietro

De novo, Pietro retornou a responder a Annica com alguns "hm" de concordância sobre os locais em que iam dormir. Fechou os olhos ao sentir o beijo no rosto e no selinho ao mesmo tempo, mas ficou ainda mais surpreso com o jeito carinhoso que ela lhe chamou e agradeceu que já estava suficientemente escuro para que ela não visse o rosto absolutamente vermelho com aquela declaração.

Seguiu até o quarto no final do corredor e embora não estivesse exatamente com sono, precisava descansar, só a manhã no hospital tinha sido exaustiva e a dor constante no pescoço deveria ser amenizada com uma boa noite de sono. Pietro não se importou de fechar a porta ao passar, a casa toda já estava fechada e as luzes apagadas, apenas com a luz do corredor no primeiro andar caso Annica precisasse de algo na casa que ela desconhecia. Arrumou uma pilha de travesseiros na cabeceira da cama porque era a recomendação que tinha recebido para dormir com o colar cervical, ou aquilo numa cama, ou numa poltrona - o que não tinha de muito confortável na casa para passar uma noite de sono.

Mas a noite que ele esperava que fosse tranquila depois de toda a tarde feliz com Annica não foi tão boa quanto esperava. O sono leve só anunciou o cansaço e não soube quantas horas se passaram até ser tomado pela mesma sensação de medo da noite anterior, as cenas muito vívidas de pesadelos que envolviam sangue, violência e mortes e nem eram do homem que mais recentemente tinha lhe atacado. O corpo reagiu naturalmente, a resposta em meio ao desespero foi a tensão que se espalhou por todos os músculos do corpo, a dor intensificada no pescoço já machucado e a necessidade de gritar como se só aquilo fosse capaz de lhe tirar do estado de paralisia em que estava entre o sono e a consciência. Mesmo com os olhos abertos, Pietro não parecia capaz de enxergar o teto do próprio quarto, a respiração estava descompassada e os gritos de medo saíram falhos pela voz já danificada. Era como se estivesse preso e mais vulnerável do que quando sentiu a mão daquele homem lhe enforcando até tirar o ar.

Annica

A albina não demorou para cair num sono profundo, normalmente não sonhava com nada, mas o fato de estar dormindo em um lugar estranho, lhe fazia prestar mais atenção nos sons estranhos, fosse o vento chacoalhando, ou um tic tac de relógio de parede que invadia seu sono. No entanto, um grito lhe jogou de volta ao mundo dos despertos, o susto foi tão forte que Annica acordou quase de um pulo na própria cama. Os gritos não cessaram imediatamente, e então a realização de que Pietro pudesse estar sendo atacado fez com que a albina disparasse na direção do quarto do moreno, embora não fosse do tipo de pessoa atlética ou que oferecesse alguma proteção física, o impulso imediato foi de correr através do corredor parcamente iluminado da casa grande, até o quarto onde o namorado estava.

Os olhos lilases logo buscaram a figura de Pietro que estava só, no próprio quarto, mas ainda em completo pânico, não sabia o que estava acontecendo ou o que tinha dado gatilho para aquele ataque. Logo a albina buscou o interruptor do abaju junto a cama para tirar o quarto das sombras escuras e revelar sua presença naquele espaço, inclinou-se para ficar no campo de visão de Pietro e guiou a mão até o ombro do mais alto.:

— Pietro! sou eu…! A Anni, calma! Foi um pesadelo…! está tudo bem… estamos só eu e você aqui.

Annica levou a outra mão até o rosto do namorado, para que ele a encarasse, e saísse do estado de pânico. Já tinha lidado com calouras sonâmbulas e assustadas, mas nunca com uma crise de pânico noturno como aquela, a albina estava nervosa e apreensiva, mas engoliu todos os sentimentos de dúvida sobre o que fazer e agiu ali,sua prioridade ali, naquele momento era acalmar o moreno mais velho. Depois, com tempo ligaria para seus pais pra perguntar como proceder com esse tipo de situação.


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[Drive] Cuidados Excessivos [Pietro; Annica] - by Lil - 08-29-2021, 01:02 AM

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