[Drive] On the Edge [Vivien; Aleksei]
#1
Aleksei

Fazia exatamente dois dias que tinha recebido a notícia de que Kyle estava morto, mas alguma coisa ainda parecia lhe perseguir incansavelmente, como se a sombra do psicopata ainda estivesse à espreita em cada canto, cada som, cada pessoa e especialmente cada momento em que fechava os olhos para tentar descansar. Embora o dia logo após a notícia da morte dele tivesse sido muito tranquilo e proveitoso na companhia de Vivien – que tinha deixado bem claro que não estava mais com a esposa e que lhe queria ao seu lado –, os momentos que se seguiram provaram a Aleksei que as coisas não voltariam ao normal tão fácil quanto ele tinha imaginado.

A noite de sono de sábado para domingo não foi tranquila, mesmo com a companhia de Vivien ao seu lado. O domingo foi cansativo e acompanhado ainda de uma visita da oficial Blanche para atualizar sobre os andamentos do caso. Ainda havia uma série de assuntos mal resolvidos que tinha que dar conta, mas entre eles, o principal era que sequer conseguia descansar o suficiente para que as olheiras ficassem menos notáveis no rosto atualmente pálido e magro por conta do mês estressante.

Sendo um médico formado, especializado em psiquiatria, sabia que não era sensato continuar tomando a medicação que tomava em altas dosagens para conseguir dormir. Não era sensato também se livrar delas de uma vez, mas era o que tinha feito desde a madrugada de sábado e por conta daquilo não tinha conseguido descansar sem os pesadelos lhe assombrando a cada piscar de olhos. A companhia de Vivien era em parte reconfortante, porque sabia que tinha em quem se apoiar, mas ao mesmo tempo, a cada abrir de olhos no meio da noite e a cada susto inesperado com o pânico que surgia da experiência passada, ficava preocupado em não incomodar o francês que dormia ao seu lado.

A segunda não foi melhor: não dormiu mais, não comeu mais e não descansou melhor. Embora o dia fosse mais tranquilo e a companhia lhe desse mais conforto, as mãos eventualmente trêmulas que tentava esconder de Vivien, os batimentos acelerados, a tontura e a respiração descompassada denunciavam os efeitos colaterais de largar a medicação forte de uma vez. Vivien estava preparando algo leve para o jantar de novo, na esperança de que ele comesse sem passar mal, e depois de deixar um livro da prateleira do francês de lado, ao notar de novo os tremores que voltavam pela fraqueza e pela abstinência, Aleksei levantou-se do sofá da sala para seguir até a cozinha.

– Eu vou tomar um banho enquanto termina, Vivi. – Aleksei avisou, parando no portal de entrada, com as mãos bem enfiadas nos bolsos da calça de tecido folgada e a camisa de gola alta que escondia as marcas inconvenientes no pescoço. – Posso ajudar em alguma coisa?

Vivien

Alguns dias tinham se passado desde que Aleksei tinha chegado a sua casa com a notícia de que Kyle estava morto. Apesar de ainda terem assuntos a serem resolvidos em St. Clavier e de ocasionais encontros com a Oficial Blanche, o fato de que os dois estavam ali em seu apartamento e seguros já lhe tirava um imenso peso das costas. Porém, bem sabia que nem tudo estava tranquilo. As noites de sono que para Vivien deveriam ser mais calmas eram interrompidas por Aleksei, que ainda parecia ter pesadelos constantes. Também notava como ele ainda estava nervoso, mas não podia imaginar nenhuma situação diferente dados os traumas passados. Com o pouco tempo que tinha passado era difícil imaginar que o loiro se acalmaria de pronto.

Resolveu que pelo menos poderia ajudar com o básico. O básico no momento era fazer uma refeição leve que Aleksei pudesse comer sem pensar que colocaria para fora eventualmente. Os momentos em que tentava fazer algo pelo loiro lhe tiravam da cabeça todos os problemas durante o dia, e embora estivesse longe de estar trabalhando normalmente, ainda precisava também desses momentos. E também entendia que tinha suas próprias limitações.

Foi distraído de seus pensamentos quando Aleksei saiu da sala para ir até a cozinha lhe avisar sobre o banho.
- Quando você sair a comida já deve estar pronta. - respondeu, terminando de cortar alguns legumes para assar, que seria mais fácil de digerir do que se os sauteasse. Negou a ajuda de Aleksei, abrindo um sorriso compreensivo. - Outro dia vou cobrar essa oferta. Mas não se preocupe agora. Já estou terminando. Pode ir.

Esperou o grego seguir para o banheiro para continuar com o que estava fazendo. Colocou os legumes para assar e aproveitou para limpar a bancada e colocar os pratos na mesa. Foi mais ou menos o tempo da comida ficar pronta, porém, Aleksei continuava no banho.

- Alek? - chamou, caminhando até o quarto - A comida está pronta.

Aleksei

Aleksei apenas concordou com um aceno de cabeça e seguiu na direção do quarto, mais tranquilo com o fato de que Vivien não tinha se aproximado o suficiente para notar o suor frio ou os dedos trêmulos. Seguiu até o banheiro do quarto, fechando a porta, mas sem trancá-la, para andar até a banheira e ligar a água para preparar um banho mais relaxante. Quem sabe melhorasse o seu estado, junto à refeição?

Embora fosse um verdadeiro narcisista, ainda era difícil para Aleksei tirar as peças de roupa e se encarar no espelho com as marcas avermelhadas no pescoço que ele mesmo tinha causado e o corpo mais magro e pálido. Não pela aparência em si, mas pelo que lhe fazia lembrar. O incômodo, os sintomas físicos e o fato das mãos continuarem tremendo foram o suficiente para que ele decidisse buscar, bem fundo nos seus pertences pessoais, a medicação que estava tomando antes da morte de Kyle para tentar reverter a situação de abstinência.

Pegou um par de comprimidos e tomou, deixando a cartela de lado na pia do banheiro antes de tomar o banho. Vivien já estava terminando o jantar, então não precisava demorar muito ali. Tomou uma ducha rápida antes de entrar na banheira, deixou a toalha dobrada na borda da mesma para melhor apoio da cabeça e se deitou para poder descansar por um par de minutos. Um ou dois dias de volta à dosagem que estava tomando anteriormente seriam o suficiente para resolver parcialmente o seu problema – o problema de abstinência, ao menos.

Mas talvez tivesse relaxado demais. Antes que pudesse perceber, os olhos pesaram diante do efeito da medicação e talvez fosse a necessidade de um bom descanso que fez com que ignorasse totalmente o fato de que ainda estava na banheira ao se render ao conforto e fechar os olhos para dormir, pelo menos alguns minutos antes de Vivien terminar o jantar. Era só alguns minutos…

O sono relaxante só foi incomodado à distância, o corpo escorregou lentamente na banheira e sequer sentiu o nível da água alcançando a altura do rosto, ultrapassando o queixo, os lábios, até mesmo lentamente alcançando o nariz.

Vivien

Franziu a testa ao não receber resposta alguma do loiro. Supôs que a fadiga de ter dormido mal as outras duas noites poderiam levá-lo a tirar um cochilo eventualmente, mas ao dar uma espiada no quarto, não encontrou ninguém na cama. Se Aleksei não estava ali descansando, não tinha passado pela cozinha para dar uma saída e não lhe respondia, algo lhe parecia errado. Engoliu em seco, a franzindo o cenho ainda mais, sem saber exatamente o que estava pensando naquele momento.

Sabia sim que havia algo de errado com Aleksei, pois não era completamente cego. Porém, não tinha capacidade de pensar exatamente como ele. O máximo que conseguia imaginar era que o grego estava ainda estressado, ainda naquela sensação frenética dos dias anteriores, e que essa sensação desagradável não sairia da noite para o dia. Entretanto, não sabia como ele estava lidando com isso, e eventualmente imaginava que iria desaparescer, talvez após algumas consultas com um profissional ou quem sabe com a confirmação dos dias mais pacíficos. Que outro modo lhe era plausível?

Apertou o passo até o banheiro, abrindo a porta do mesmo sem bater e dando uma olhada para dentro inicial na qual viu apenas a pia e a cartela de um remédio que não conhecia, deixada ali de qualquer jeito. Respirou fundo, um pouco mais afobado, enquanto entrava no cômodo.

- Alek? – chamou, embora sentisse como se não fosse ser respondido novamente. Procurou o grego dentro do cômodo, então, encontrando-o na banheira como esperava encontrá-lo, submerso, mas com a água cobrindo parte do rosto, e os olhos fechados, como se ele estivesse desacordado. Sentiu o sangue sumir do rosto e no impulso, deu passos largos até a banheira, estendendo a mão para levantar nem que fosse o rosto de Aleksei da água. Assim que tinha os dois braços no alcance do corpo do outro, puxou-o para fora da água, prontamente verificando se o loiro ainda estava respirando. Esperava que ele não estivesse ali há muitos minutos, dado o tempo que tinha falado que iria tomar o banho e o tempo que Vivien demorou a ir até ali. Segurou-o com um pouco mais de firmeza do que deveria, provavelmente, por conta da afobação. – Alek...? Alek...!

Aleksei

Mais alguns centímetros e ele estaria completamente submerso na água. Se o instinto natural e reação fisiológica fossem o suficiente para superar os efeitos da medicação, teria acordado sem problemas, mas mais do que a reação natural do corpo para a água entrando nos pulmões, o que lhe puxou bem à força do sono pesado foi o puxar intenso no corpo e os chamados insistentes de Vivien. Bom, aquela era a prova de que a medicação ainda não tinha surtido o efeito total, ou também não seria capaz de abrir os olhos pesados e responder ao chamado do francês.

– Hm…? Vivi? – a voz saiu quase num sussurro, estava com o corpo mole e precisou fazer bastante esforço para estender as mãos até os braços dele. – O jantar… está pronto? Ainda é segunda?

Levou uma das mãos até o rosto, virando-se para próximo de Vivien buscando algum apoio a mais, escondendo o rosto na altura do peito dele e fechando os olhos de novo. Se já era difícil reunir forças para se mover, era ainda mais difícil reunir energia para ficar acordado no estado relaxado que o medicamento tinha lhe garantido. Além do mais, para Aleksei, estava apenas saindo de um lugar confortável para outro – da banheira para o encosto em Vivien. Dormir sob o efeito da medicação não era o melhor repouso, mas era o que tinha para o próximo par de horas, provavelmente.

Vivien

Sem notar ainda que estava pressionando os braços de Aleksei mais do que deveria, deu uma chacoalhada no loiro, com alguma expectativa que ele conseguisse acordar para lhe dar uma resposta sobre o que estava acontecendo ali. A cartela de comprimidos tomados lhe deixou mais preocupado do que só o suposto afogamento na banheira. Que aquela cartela fosse antiga e aquilo não passasse de um mal entendido causado pelo socorro rápido que teve que prestar. E ainda precisava verificar que comprimidos exatamente eram aqueles pois sabia que isso influenciava muito.

Sentiu as mãos folgarem um pouco o aperto no braço de Aleksei do alívio em vê-lo acordado sem aparentemente ter engolido água, mas não o suficiente para lhe livrar da própria agonia.

- Alek. Quantos comprimidos você tomou? – Vivien falou num tom firme, sem responder as perguntas confusas de Aleksei que deveria estar ainda aos poucos pensando suas respostas. – Preste atenção. Quantos comprimidos você tomou? – encarou o loiro, aproveitando o abraço para mantê-lo próximo e verificar se haviam sinais mais claros de que ele estaria se sentindo mal. Só esperava estar enganado com tudo isso e que Aleksei estivesse exausto e fraco pelas noites mal dormidas e alimentação difícil. Não que nenhum desses estados fosse bom, porém, a fadiga ao menos ainda estava dentro do alcance de seu conhecimento.

Aleksei

Tudo que Aleksei queria era dormir, apagar e se deixar levar pelo efeito da medicação em cumprir com louvor o que seu corpo sozinho não estava conseguindo. Mas no início do efeito da medicação, com a presença de Vivien e a intensidade dos movimentos dele, parecia uma tarefa muito difícil, aquela de apenas descansar. O grego não tinha forças para devolver o aperto, mesmo que quisesse. Também não tinha forças para se colocar de pé, por isso a banheira tinha parecido tão atrativa.

Não teve muita certeza se a primeira pergunta sobre os remédios tinha sido de Vivien ou da sua mente, mas fez um pequeno esforço para se manter consciente. A mão escorregou pela roupa alheia enquanto tentava se acomodar melhor quase sem se mover.

- Hm... - o murmúrio quase saiu como um "um", mas ele se esforçou um pouco mais, sentindo a garganta seca. - Hm... dois. Sempre...

Ele levou a mão à cabeça sem exatamente saber como o tinha feito. A medicação tinha surtido um efeito mais rápido e forte devido aos breves dias que tinha ficado sem tomar.

- Estou... com sono, Vivi. Podemos jantar... depois?

Mesmo com o frio que perpassava o corpo molhado e sem qualquer camada de roupa naquela posição, além da água que já tinha passado de morna para fria depois do tempo, Aleksei sequer podia se dar conta da pele fria e trêmula, ele só podia pensar em dormir de uma vez. Talvez Vivien parasse de lhe chacoalhar daquela vez.

Vivien

Apesar de Aleksei estar consciente, se sentia preocupado pelas respostas lentas e a fraqueza do corpo dele. Se bem pensasse, talvez já devesse ter tirado ele da água e ligado para uma ambulância ou levado o loiro diretamente ao hospital ao invés de ainda insistir de saber dele o que estava acontecendo. Porém, algo no fundo da sua mente lhe dizia para tentar tratar daquilo com menos afobação: Aleksei não andava comendo bem, não andava dormindo bem e agora tinha tomado alguns remédios. Ele evidentemente seria mais afetado, estando debilitado. Só não sabia se era um caso de socorro médico ou não ainda.

A mão vacilante e o jeito que ele tentava se acomodar lhe dizia que ele estava de fato tentando se fazer mais confortável que passando mal, e a resposta, mesmo incerta de “dois” comprimidos lhe deram um pouco de alívio imediato. Observou o loiro ainda preocupado, a testa franzida mesmo depois de um longo suspiro.
- Está se sentindo mal, Alek? Algo além de sono? – questionou, ainda por insistência, esperando que ele ainda tivesse energia para lhe responder antes de apagar de novo. – Esqueça o jantar. Vou te levar pra cama.

Curvou-se mais para dentro da banheira e agarrou o corpo de Aleksei com mais firmeza, tentando distribuir o peso para não machucar a coluna ou aí não seria de utilidade alguma mesmo. Tirou-o de dentro da banheira de uma vez, segurando-o em seu colo todo molhado, não se importando muito com a bagunça no banheiro ou em suas roupas de casa. Com calma, levou o grego até a cama e deitou-o ali. Levantou para pelo menos buscar uma toalha e enxugar os cabelos claros para que ele não ficasse ensopado. Não estava confiante de suas decisões, mas ficaria ali com Aleksei. Ao menor sinal de que algo estava errado, seu telefone estava a postos.

Aleksei

Se Vivien esperava receber alguma resposta para mais questionamentos, todos se perderam entre o resto de consciência que tinha, o efeito da medicação e o cansaço. Aleksei apagou por completo no apoio dos braços do francês, num sono que parecia bem tranquilo e profundo, a respiração leve e compassada que devia acalmar ao menos um pouco o nervosismo de Vivien com o seu atual estado físico.

Apagar sob o efeito de medicação não era exatamente o melhor remédio em sua condição, sabia que enquanto o efeito durasse, ficaria inconsciente, mas eventualmente o cansaço e os terrores lhe alcançariam e não havia droga que tornasse a sensação melhor. Com dois comprimidos e depois de dois dias sem tomar nada, devia ter dormido como uma pedra por pelo menos seis horas. Mas não foi o que aconteceu. O espaço entre a banheira e a cama ficou perdido em sua mente inconsciente e a única coisa que despertou seus instintos foi a sensação de medo, de nervosismo e desespero, particularmente de perseguição que persistia mesmo que tivesse plena consciência de que Kyle estava morto.

Foi a sensação constante e renovada de que estava sob as mãos do psicopata em meio à escuridão do sonho que ajudou o corpo cansado a cortar o efeito do medicamento e despertar, contra a vontade, num susto intenso que fez com que prendesse o ar por uns segundos. Abriu os olhos e ergueu o corpo parcialmente, apoiando-se nos cotovelos apenas para confirmar que o quarto era o de Vivien e que não havia perseguição nenhuma.

Mal notou Vivien sentado ao seu lado na cama até se deixar cair de novo sobre o colchão macio. Só então voltou o olhar para o francês que parecia ter reagido rápido ao seu movimento também.

– Vivi…? Desculpe, eu o acordei? – Aleksei levou a mão ao rosto, um pouco frio provavelmente pela pressão baixa somada à anemia.

Vivien

Suspirou longamente ao ver Aleksei apenas descansando num sono profundo, talvez o primeiro em muitos dias. Mas vendo-o daquela forma, não conseguiu deixar de pensar no quanto estava sendo relaxado com o loiro naqueles dias. Tinha tentado preparar comidas que ele pudesse comer, e havia aliviado Aleksei dos trabalhos de St. Clavier, algo que não teria nem cabimento ele fazer no estado psicológico em que estava. Porém, podia ter perguntado o que poderia fazer pelo sono dele antes que ele tomasse um remédio para dormir e afundasse na banheira, ou procurado a ajuda de um profissional para os problemas de insônia, alimentação e toda a transição de uma perseguição desafortunada para uma súbita parada em uma sensação de segurança. Talvez estivesse muito preso ao próprio alívio de ter Aleksei ali finalmente sem pensar no que o loiro precisava.

Com Aleksei ainda dormindo profundamente, de modo cuidadoso, vestiu-o com uma das usuais calças folgadas e só então sentou ao lado dele na cama. Pretendia observar as reações de Aleksei durante o sono. Agora estava mais aliviado que ele tinha tomado apenas dois comprimidos e supunha que eram um remédio para dormir, mas que a situação em que ele havia se metido tinha sido perigosa, não podia negar. Acabou até esquecendo que tinha fome, e esquecendo que tinha feito o jantar, que ficou esfriando na mesa. O silêncio com a respiração mais tranquila dele e o cheiro de cigarros do quarto lhe deu vontade de fumar, mas privou-se, aproveitando para pensar o que mais poderia fazer. Era curioso como ainda se sentia de mãos atadas.

Sequer percebeu a passagem do tempo enquanto observava os próprios pés sobre a cama e Aleksei dormindo, até notar alguma reação dele. Observou os movimentos sutis, mas ainda sim foi surpreso pelo despertar súbito de Aleksei, que voltou a se jogar na cama assim que percebeu onde estava. Aproximou-se um pouco mais, notando o semblante pálido e cansado, apertando os lábios sem esconder a expressão preocupada. Soltou um longo suspiro ao confirmar mais uma vez que ele estava só dormindo.

- Não me acordou. Como você está...? – perguntou, estendendo a mão até o rosto de Aleksei, sentindo a temperatura dele para saber se não estava com febre, mas supunha que era bem o contrário. – Alek, você provavelmente não lembra, mas você dormiu na banheira. Foi... muito perigoso. – franziu mais a testa, mas não soava nem um pouco como se estivesse ralhando com o loiro, com a voz baixa e ainda “calma”.

Aleksei

Aleksei afastou a mão do rosto apenas para sentir o toque de Vivien e encarar mais diretamente a expressão preocupada. Demorou alguns segundos, mas concordou com um aceno de cabeça para o fato de que não o tinha acordado. A pergunta sobre como estava, entretanto, despertou a mesma resposta condicionada.

– Estou… só cansado. E provavelmente com fome.

Não estava bem, aquilo era óbvio pelo seu estado aparente, mas era uma reação tão natural responder daquele modo que nem pensou em ser mais específico ou simplesmente sincero. Não fez qualquer esforço para se levantar, só virou o rosto na direção de Vivien, percebendo com mais clareza a preocupação no rosto alheio com o comentário sobre ele ter dormido na banheira e como aquilo teria sido perigoso. Mais uma vez, a mente e o corpo cansados demoraram a associar a importância do que ele tinha dito, e só então sentiu um frio incômodo descendo pela espinha, ao se dar conta de que nem lembrava de ter dormido na banheira ou de ter saído de lá, embora estivesse enxuto e de roupa limpa e o que exatamente aquilo podia significar.

– Desculpe, eu não achei que o remédio faria efeito tão rápido. – Aleksei respondeu, percebendo que o fato de não ser mover muito na cama era especificamente por não ter forças para tal. – E ainda assim não teve efeito por tempo suficiente, ainda é noite, que horas são?

O grego tentou descontrair um pouco, o que foi completamente falho. A expressão de Vivien ainda era de preocupação e só podia imaginar o que ele tinha pensado ao lhe encontrar na banheira dormindo sob efeito de medicamentos fortes.

– Não precisa se preocupar, Vivi, eu vou ficar bem. – tentou reforçar aquele detalhe que não soava nada convincente em seu estado, levando uma mão à dele. – Como você está? Você jantou?

Vivien

Apesar de Aleksei ter lhe respondido até rápido, sentia como se a mente dele ainda estivesse lenta. Apesar do remédio não ter feito ele dormir o suficiente para recuperar parte das energias, ainda deveria estar fazendo efeito. Isso somado ao cansaço físico e a fome, que era só o que Aleksei lhe dizia, deveria ser uma receita para só piorar as condições dele. Supunha que o remédio tinha feito efeito rápido por conta também daquelas condições, mas o loiro parecia não entender completamente o que estava dizendo.

- Não sei exatamente. Deve ser por volta das dez. – respondeu, embora tivesse respondido essa pergunta com um pouco mais de descaso. Aleksei dormiu pouco, agora que pensava bem. Da hora em que estava preparando o jantar até a hora que o tirou da banheira e o tempo que ficou ali sentado ao lado dele dificilmente ele podia ter um sono revigorante. Esfregou entre os olhos, pensando em como falar com Aleksei de modo mais claro quando ele estava tão cansado.

Porém quase prendeu a respiração ao sentir a mão gelada dele sobre a sua, lhe dizendo palavras reconfortantes, perguntando sobre SEU estado ao invés de se preocupar com o cansaço do próprio corpo. Supunha que precisava soletrar.

- Estou preocupado. Com você, Alek. – respondeu claramente, até soando um pouco rude, já que aquilo respondia a pergunta de Aleksei mas que satisfatoriamente. A mão que estava por baixo da dele colocou por cima, segurando a do loiro, apertando-lhe os dedos com cuidado. – Eu sei que você vai ficar bem. Eu sei. E também sei que está cansado, e com fome. Mas não sei o que está te acordando no meio da noite, nem porque está com dificuldades para comer, nem porque você achou uma boa ideia, no estado em que está, tomar remédios para dormir e entrar na banheira. Eu não sei, e porque eu não sei, eu não consigo cuidar de você... e vejo que isso... pode ser assustador. – respirou fundo e crispou os lábios, franzindo a testa mais uma vez.

Estalou a língua, sabendo que mais uma vez estava escolhendo um péssimo momento para falar qualquer coisa.

– Desculpe, Alek. Sei que está cansado. – supunha que desabafar não lhe adiantava agora, já que Aleksei estava ainda sonolento.

Mas estava sentindo a tensão no próprio corpo. Apertou um pouco mais os dedos do loiro sem perceber. Pensou em dizer algo, mas outros pensamentos invadiram sua mente, daquelas horas esperando ele acordar. Puxou a mão do loiro para próximo aos lábios, beijando-lhe o pulso suavemente, sentindo o peito apertar ao lembrar que Aleksei já tinha lhe dito uma vez que não esperava nada de si. Engoliu em seco, supondo que não era um homem exatamente confiável nos olhos do grego, e se parasse para pensar, não eram três dias que mudariam isso. Engoliu em seco, colocando a mão de Aleksei de volta sobre o colchão. Então suspirou longamente resignado e sorriu com o canto dos lábios, sem muito o que fazer.

– Só me diga, qualquer coisa que precisar, ou mesmo que não precisar... quando quiser. Você... é meu companheiro, Alek. Até você ficar bem é meu privilégio cuidar de você. – desfez o sorriso devagar, então curvando-se sobre o loiro e roubando-lhe um selinho dos lábios antes de fazer menção de se afastar. – Vou lhe trazer algo.

Aleksei

Aleksei conhecia bem a sensação no corpo de querer se render ao efeito da medicação, mas ao mesmo tempo acordar por conta dos terrores noturnos que lhe acompanhavam devido ao estresse do último mês. Tinha passado pela mesma situação mais de uma vez em sua casa naquele tempo, mas Vivien não sabia daquilo. Com o estado um pouco disperso em que estava, tentando acordar, demorou a notar o estado mais consternado de Vivien. Teria fechado os olhos de novo para descansar um pouco mais, mas ficou mais atento com a resposta dele, sobre estar preocupado. Sentiu o aperto em sua mão e manteve o olhar fixo na expressão alheia, parecendo só então perceber as implicações bem óbvias de estar com Vivien. Estar de verdade com ele.

Era verdade que o francês estava completamente no escuro quanto ao que tinha lhe acontecido naquele tempo, e que Vivien estava exatamente no estado em que não podia lhe ajudar como queria. Conhecia o francês o suficiente para saber que ele precisava ter o controle de tudo ao seu redor, mas talvez tivesse se deixado levar pelo próprio instinto em não ter em quem depender por muito tempo. Não era mais o caso, podia depender de Vivien do mesmo jeito que tinha proposto quando ligou para ele usando uma palavra de segurança que nunca tinham dito em voz alta.

Era assustador estar em sua posição. E devia ser igualmente assustador para Vivien que estava completamente no escuro sobre o seu estado, ainda mais chocante ao lhe encontrar dormindo na banheira depois de tomar remédios que ele não conhecia. Vivien com certeza queria falar mais coisa, mas dado o seu estado semiacordado, ainda conseguiu perceber a necessidade dele de tentar conter o ímpeto e a preocupação ao lhe dizer o que estava lhe incomodando. Só percebeu que ele pretendia sair do quarto para pegar comida quando ele lhe beijou rapidamente e se ergueu, avisando da saída. Estendeu a mão e segurou o pulso dele com pouca força.

– Espere. Sente aqui comigo... – Aleksei ajustou a postura para se sentar, encostado aos travesseiros, indicando o espaço logo ao seu lado para que Vivien se sentasse também. – Eu sinto muito, Vivi... por lhe deixar “no escuro”. Eu estou muito acostumado a lidar com tudo sozinho, do meu trabalho a minha vida pessoal. E eu sei que você está aqui por mim... eu só... já é tão comum agir desse jeito, que eu não percebi.

Ele levantou a mão até o rosto de novo, pressionando os olhos com a visão um pouco turva e baixando a mão até o pescoço, onde pressionou um pouco antes de afastar o toque das marcas vermelhas.

– Eu sei, racionalmente, que o Kyle está morto. Mas a minha mente e meu corpo ainda não conseguiram... processar isso. – explicou com calma, não porque estava tratando Vivien como um de seus pacientes, mas porque o próprio raciocínio estava lento. – No mês em que ele esteve rondando a cidade foram muitas informações de uma vez. O trabalho da polícia não parecia eficaz, eu me senti encurralado o tempo todo, e mais de uma vez ele esteve na minha casa... ou ao menos alguém que ele conseguiu enganar. E descobri que ele matou outras pessoas por minha causa, antes mesmo dele aparecer em Cerise.

O próprio comentário fez com que um tremor desconfortável passasse pelo corpo ao lembrar das situações. Respirou fundo, voltando a encarar o francês.

– Foi estressante. Eu não conseguia dormir ou descansar, e precisei tomar remédios para isso. Foram os comprimidos que você viu no banheiro. – continuou explicando. – Eu achei que conseguiria lidar com as coisas agora que ele morreu, que não precisava de remédios. Eu não tomei nada desde que cheguei aqui, mas não foi a minha melhor ideia, eu já devia saber disso, sendo psiquiatra. – tentou sorrir em vão de novo e desviou a atenção para as mãos, estendendo-as com as palmas para cima para conferir que não havia tremores notáveis daquela vez. – Além dos estresses da perseguição, agora são sintomas de abstinência.

Ele fechou as mãos, pousando sobre o colo.

– Eu não estou bem, Vivi. Mas estou tentando descobrir o que fazer para melhorar. – inclinou o corpo na direção de Vivien, apoiando a testa na altura do ombro dele. – Desculpe deixá-lo fora disso. Eu preciso de você.

Vivien

Já estava pronto para ir embora para a cozinha, quem sabe requentar algo para Aleksei, porém, sentiu o toque em seu pulso, lhe impedindo de ir com aquele resquício de força que lhe segurava mais pelas palavras que seguiram. Olhou sobre o ombro para Aleksei, voltando-se na direção da cama e se perguntando se não havia feito errado de impedir o loiro de dormir para que pudesse conversar ao invés disso. Uma conversa que sabia que não resolveria nada de imediato. Apenas servia para lhe acalmar os nervos tensos. O corpo dele precisava de descanso, a mente também, mas discutir aquelas circunstâncias que bem sabia eram óbvias privava Aleksei de mais alguns minutos de descanso e ainda adicionava mais um peso.

Sentou-se do lado de Aleksei, ouvindo dele o que já imaginava. Ele sempre foi completamente independente, e o fato de ter enfrentado aquele problema todo sozinho duas vezes deveria despertar nele ainda mais aquele instinto de se virar por conta própria. Mas não esperava que ele dissesse que “não percebeu” que estava lhe excluindo daquele processo. Apenas não percebeu, o que para Vivien era muito melhor do que ouvir que desde o início, Aleksei não tinha intenção de contar com sua ajuda.

Sabia que todos aqueles sintomas eram consequências de ter vivido uma perseguição por um mês inteiro. Aquela insegurança constante, ainda mais coroada pelas visitas de Kyle, da incompetência da polícia (que bem queria culpar inteiramente, mas que agradecia já que Aleksei estava ali afinal)... as coisas faziam mais sentido quando ouvia o loiro dizer todas as perdas que teve por conta de Kyle. Foi bem lembrado que poderia ter sido uma vítima apenas por estar perto do loiro. Foi um tempo inquietante e solitário. Provavelmente não teria lidado tão bem quanto ele, quando pensava em tudo que ele passou.

Afirmou com a cabeça silenciosamente que entendia, lembrando a imagem dos comprimidos no banheiro, aliviado também que eram um remédio para dormir e que ele tinha tomado regularmente, e que agora estava sofrendo com a abstinência. Levaria um tempo para se livrar daqueles sintomas. Só esperava que fosse um pouco menos desesperador que aquela noite.

Aproximou-se de Aleksei na mesma medida que ele se reclinou em direção ao seus ombros. Embora soubesse que esse era um peso diferente para carregar, o peso de Aleksei recostado a si, confiando em seu apoio era um alívio também. Sabia que ele estava cansado e com sono, e que só deveria querer dormir, mas abraçou o corpo dele, acariciando os cabelos claros, e suspirou longamente.

- Eu não posso imaginar como foi passar por tudo isso, mesmo que eu veja como lhe afeta, e mesmo que eu saiba que você se afastou pra me proteger também. Então obrigado por me contar, mesmo sendo doloroso, e obrigado por se preocupar mesmo quando era você que estava sob perigo. – respondeu mais suave, encostando a cabeça na dele de leve. – Mas já chega dessa distância. Descobriremos juntos como você pode melhorar, Alek. Eu também preciso de você. - fechou os olhos por um instante para aproveitar a companhia do loiro. Havia muitos modos mais racionais de ajudá-lo. Primeiramente poderia buscar um profissional, afinal, Aleksei não podia lidar com os próprios pesadelos para sempre. E também poderia buscar um médico que avaliasse o desgaste físico dele. Se ele podia sair para resolver detalhes com a polícia, podia dar a mesma atenção a própria saúde física e mental. – Não queria lhe privar mais de descansar, Alek. Trago algo para você comer ou prefere dormir?

Aleksei

Sentiu os braços de Vivien em volta de si e ajustou melhor a posição para ficar de frente para ele. O calor alheio era confortável, os braços em volta de si e a companhia com a qual estava completamente desacostumado. Não tinha suporte de ninguém quando estava doente ou quando estava sozinho, e aquela sensação de ter que depender só de si mesmo era angustiante. Mas era tão real que não conseguia se desprender daquilo, da conformidade de estar sozinho. E ao mesmo tempo, não estava. Ele não tinha que descobrir sozinho como resolver aquilo, eles poderiam descobrir juntos, como Vivien tinha acabado de explicar.

Parecia que um peso tinha sido tirado das suas costas e um nó desatado no topo da garganta. Os braços que estavam quase sem energia se ergueram em volta do corpo de Vivien e pressionou a roupa dele como era possível, pressionando o rosto contra o corpo dele. Sentiu os soluços acumularem na garganta e fechou os olhos com o pouco de força que tinha, sentindo as lágrimas escaparem a ponto de chorar como se fosse uma criança.

- Eu não quero mais... ficar sozinho, Vivi... - os dedos estremeceram contra as costas alheias. Sentia o frio no topo do estômago, o desconforto físico junto ao desconforto mental e ao mesmo tempo o alívio de poder simplesmente chorar porque estava cansado, exausto, estressado e com medo. - Eu estou tão... cansado... de tudo...! Por que é... por que eu ainda tenho que lembrar de tudo?! - os soluços se acumularam no topo da garganta, escapando junto ao choro copioso e o corpo todo tremeu pelo choro e pela fraqueza. Parecia estar de volta ao estado de uma criança assustada. - Eu não consigo parar... de sentir medo.

Queria pressionar as costas dele com mais força, mas não havia força nos dedos e as mãos só tremeram nas costas alheias, assim como o corpo que não tinha condições de sequer continuar sentado, ou ao menos de aguentar a dor do choro copioso.


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[Drive] On the Edge [Vivien; Aleksei] - by Lil - 09-01-2021, 02:03 PM

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