[Drive] On the Edge [Vivien; Aleksei]
#4
Vivien

Novamente, sabia que Aleksei precisava daquela companhia e daquele apoio ali. A presença de Maud tinha feito muita diferença apenas por ser uma visita surpresa e lembrá-lo que haviam pessoas preocupadas com ele, e que ele não precisava estar isolado em seu apartamento para sempre. A saída certamente estava tirando ele da zona de conforto, e apertar a mão caridosa da loira parecia um jeito de lidar com isso. Só que por um instante se pegou desejando fazer o mesmo por ele; de estender a mão esperar que ele apertasse como se fosse alguma segurança. Mas bem sabia que assim como tinha pensado antes de estender a mão até ele e acalmá-lo, ainda estava hesitante em ser tão público. Isso fez com que franzisse a testa para si mesmo em reprovação por um instante.

Depois de uma troca de conversas interessantes entre Aleksei e Maud, em que o evento similar pelo qual ele passou foi tratado com uma estranha delicadeza, percebeu a atenção voltando-se mais uma vez para si e o relacionamento breve com Aleksei no Japão, lhe obrigando a observar o loiro de esguelha, em dúvida sobre falar exatamente suas impressões.

– Eu agradeço então por ser uma agente do nosso reencontro em Cerise. – falou a mulher com uma estranha honestidade, recostando por um breve instante na cadeira mais confortavelmente. – Embora... desde aquela época, o Alek já não falava tanto de si mesmo, e eu, como sou terrivelmente egocêntrico, também não ajudei muito o caso. – riu baixo, tomando um gole de água também. – Mas ele me causou uma grande impressão desde aqueles tempos. Primeiro porque ele era assustadoramente bonito de um modo muito natural, e ainda é, só que está mais refinado; segundo por conta do intelecto. Apesar de ainda estar se adaptando ao país, ele já falava parte do idioma, estava em uma universidade renomada, conseguia articular todos os assuntos banais e profundos em nossas conversas e ser indômito o suficiente para me atiçar. – se havia algo que não tinha vergonha era encher as pessoas que gostava de elogios. Era apenas o tratamento que ele merecia, sendo de fato alguém tão singular. Sorriu mais amplamente, ainda relaxado na cadeira. – E, por fim, ele me deu apoio em um momento que eu precisava muito. Eu devo a ele muitas conquistas. E por trazer de volta parte do meu espírito quando veio para St. Clavier, apesar de minhas falhas. Todas. – sorriu com o canto dos lábios, engolindo um riso que apenas denunciava que estava bem ciente que não tinha sido tão recíproco ao sentimento que Aleksei lhe despertava.

Observou o loiro por um instante, em seguida, voltando-se para Maud com interesse.

– E como ele era quando o conheceu? Soube que dormia em Óperas. – perguntou com um ar leve de curiosidade, então voltando-se para o loiro. – Estou curioso para ouvir a versão dela também.

Aleksei

Aleksei tomou mais da água e pareceu relaxar com mais facilidade à medida que a conversa prosseguia e que eles não eram interrompidos sequer pelo garçom que viria buscar os pedidos. A área reservada era mais tranquila e embora ele ainda olhasse ao redor e pelas janelas do estabelecimento, estar passando tempo fora do apartamento confirmava que Kyle não estava mais ali. Mas ele precisou parar ao levar a água aos lábios com a série de comentários de Vivien sobre si no Japão, e embora Maud parecesse bem entretida com as definições e ele mesmo devesse estar apenas concordando com todos os elogios naturalmente, havia um desconforto estranho em ser comentado entre Maud e Vivien especificamente.

– Não há muito a falar sobre mim, para uma pessoa com meus modos e minha aparência, eu não deveria sequer precisar abrir a boca. – aproveitou para adicionar o comentário entre os breves intervalos de Vivien. Mas atentou mais para o francês quando ele falou sobre ter recebido apoio num momento em que precisava.

Aquilo lhe lembrava do fato de que Vivien também tinha convenientemente lhe ajudado em um momento importante. Ironicamente, tinham se encontrado em Amsterdã para seguir até a Grécia. Embora a convivência dos dois não se estendesse de fato por dez anos, os poucos meses e dias que tinham interagido antes de Cerise pareciam ter sido bem decisivos no desfecho do relacionamento atual dos dois.

– Minha diversão é apontar suas falhas, Vivi, não tire isso de mim. – Aleksei respondeu, sob o olhar atento e bem curioso de Maud para tudo o que tinha feito pelo francês. Mais curioso ainda que Vivien falasse dele com tanta propriedade, mas que ainda tivesse causado o desconforto de um casamento e uma decepção a ponto de abandonar o loiro. Mas não era o melhor momento para apontar aquilo, não para Aleksei, claro.

– Ah sim, ele dormia em Óperas. Não pedia licença para entrar em residências alheias. Apoiava os cotovelos na mesa e sentava demasiadamente relaxado só por estar confortável. – Maud adicionou com um sorriso bem satisfeito. – Mas eu imagino que tendo conhecido-o no Japão, você teve bem mais chance de ver esses atos mais "crus".

– Certo, o jantar era para que vocês se conhecessem melhor. – Aleksei interferiu. – Não será produtivo se vocês só falarem sobre mim. E os dois já me conhecem o suficiente para não precisarmos estender os comentários sobre minhas habilidades e beleza.

O próprio rumo da conversa deixou Aleksei mais tranquilo, mas aquela mesma tranquilidade foi deixada de lado num mero segundo quando o garçom se aproximou para pegar os pedidos. Perceber apenas pela visão periférica a aproximação do homem fez com que todo o seu corpo se retesasse e a respiração descompassasse. O grego chegou até mesmo a pressionar a própria perna com um pouco mais de força pela presença discreta do atendente, discrição que teria elogiado em outras oportunidades. O momento de surpresa foi breve e longo ao mesmo tempo e sequer ouviu quando os pedidos foram feitos.

Vivien

Vivien riu ao ouvir de Aleksei que ele se entretia apontando suas falhas. Se fosse verdade, se divertiria por muito tempo ainda, pois bem sabia que tinha muito mais que algumas poucas falhas de caráter. Podia preencher um dossiê, e de Aleksei não fazia muita questão de esconder a maioria delas. Ainda mais agora. Supunha que teriam muito tempo ainda para compreender detalhes pequenos e grandes um sobre o outro, mais do que 12 anos e apenas alguns poucos dias de convivência coabitando poderiam mostrar.

Maud pelo visto tinha implicado com todos os detalhes da falta de refinamento de Aleksei, e embora gostasse que ele fosse mais elegante agora, não eram detalhes que lhe incomodavam completamente. Mas achou divertido lembrar dos maneirismos mais relaxados dele. Enquanto isso o “assunto” da conversa parecia cada vez mais incomodado com o rumo das lembranças de Maud. Acabou desviando o assunto eventualmente.
– Tem razão. Porém admito que é bem agradável ouvir a impressão de outra pessoa sobre você. É uma oportunidade rara. Fora que sempre há um elogio novo a ser feito. – comentou de volta a Aleksei, conformado com o fato de ter de mudar o assunto. – Então, madame Janssen, podemos falar sobre seu trabalho ou estaria sendo rude?

Tentou até focar um pouco em Maud, mas pegou, com o canto de olho, a reação discreta de Aleksei para a aproximação do garçom. Embora ele tivesse sido bem controlado até então e os assuntos lhe distraíssem em meio a conversa, não deixava de observá-lo, afinal, tinha saído do apartamento já sabendo que aquilo poderia desencadear reações adversas ao loiro. Estendeu a mão então até ele devagar para não assustá-lo ainda mais, apertando-lhe brevemente o pulso com suavidade, supondo que também devia um pouco a ele aquele suporte mais quieto por um instante.

– Alek, vou fazer o pedido. – avisou o loiro, tentando não deixá-lo mais alerta sobre o próprio estado ao perguntar como estava. Mas ainda o observava um pouco. O garçom se aproximou devagar. – Madame, suponho que você queira olhar o cardápio? Recomendaria os bifes nesse restaurante, ou pato. Mas estaremos evitando por cairem um pouco pesado no estômago. – comentou, dando atenção ao garçom para pedir uma sopa leve de entrada e um prato principal com frango sem nenhum molho muito complexo. Talvez não fosse a típica culinária elegante, mas eram alimentos reconfortantes para dar alguma energia ao loiro, caso ele conseguisse comer melhor ali do que em sua casa.

Aleksei

A reação de Aleksei à presença sutil do garçom não foi tão imediata a Maud quanto o tique que ele tinha nos dedos no início da conversa. O tempo de aceitar o cardápio do atendente foi o suficiente para que Vivien se adiantasse em segurar o pulso de Aleksei daquela vez. O grego soltou o ar entre os lábios levemente entreabertos, retomando o controle do próprio corpo aos poucos, e Maud optou por se atentar ao cardápio para dar mais espaço para o grego se recompor. A atitude de Vivien em se adiantar para fazer o pedido pelos dois não foi surpresa alguma para a mulher e Aleksei, no seu breve momento de se tranquilizar, apenas concordou silenciosamente com a atitude de Vivien.

– Estava prestes a pedir recomendações, mas o senhor foi mais rápido, Sr. St. Clavier. – ela disse, dispensando o cardápio depois de uma olhada rápida. – Vou aproveitar para provar o pato, então.

Ela fez o pedido com salada na entrada e pato no prato principal, seguindo as recomendações da casa e do anfitrião. Voltou a atenção para Aleksei que pareceu finalmente sair do estado de transe quando o garçom se afastou e se recostou mais relaxado à poltrona de novo.

– Iríamos falar sobre o seu trabalho, Maud? – Aleksei retomou a proposta anterior de Vivien, disposto a voltar ao rumo mais casual da conversa, ainda sentindo o toque familiar e confortável sobre o pulso.

– Isso mesmo. Eu deveria falar sobre meu trabalho atual então? – ela tomou um gole da água, voltando a taça até a mesa depois de dar uma olhada de lado para Aleksei. – Eu sou professora de balé. Na verdade, eu tenho uma companhia de dança e fazemos turnês e espetáculos além das aulas. Não é algo tão conhecido como o Balé Nacional, mas estamos atuando no cenário há mais de dez anos, o que é um tempo considerável para companhias de balé na Holanda. A companhia estava no início quando conheci Aleksei.

Vivien

Ficou um tanto satisfeito que pelo menos por ora o toque que indicava sua presença pudesse aliviar um pouco Aleksei da ansiedade ocasional que lhe tomava com aquela saída. O loiro pareceu concordar com seu pedido, e Maud também aceitou a sugestão sem problemas. Fosse outra ocasião, teria sugerido a produção de frutos do mar da cidade de Cerise, mas bem sabia que a última coisa que Aleksei precisava era o cheiro de peixe à mesa.

Feitos os pedidos, Aleksei decidiu retomar o assunto anterior, sobre a profissão da mulher. Não sabia exatamente o que ela fazia, ou sequer se continuava no ramo como Dominatrix profissional, mas supunha que não faria mal perguntar de modo bem indireto. Ela lhe responderia caso quisesse. Ela bem ressaltou que falaria sobre o trabalho atual, que não lhe incomodava. Tinha mesmo que saber um pouco mais sobre ela até o fim daquele jantar, supunha.

– É um tempo bastante considerável para uma companhia de dança. Imagino que tenham feito muitos espetáculos de sucesso, se até saíram em turnês. Não sei se é o caso na Holanda, mas o balé nacional costuma se prender a espetáculos muito tradicionais. São as companhias de dança, como a sua, que trazem novidades interessantes para os teatros. Suponho que nunca vieram até Cerise. Qual o nome da sua companhia? – perguntou, alongando a conversa sobre a dança, apesar que Vivien não era um frequentador habitual de balés. Só tinha visto os espetáculos nos quais sua prima dançou, mas ela não era lá grande bailarina.

Aleksei

Aleksei não afastou a mão da de Vivien e ficou mais entretido com o rumo da conversa, sem outra interrupção do garçom, ele ainda olhou ao redor discretamente para se certificar que não haveria outra aproximação desagradável. Maud se adiantou para responder sobre o balé e ele voltou a atenção para a loira.

– Como o senhor mesmo colocou, o balé nacional de fato costuma se prender ao tradicionalismo. Já eu gosto de algo mais não-convencional. Nosso tema principal é o balé contemporâneo e temos outras vertentes de dança no mesmo estilo. Assim, enquanto o Balé Nacional nos agracia com os espetáculos consagrados, nós tendemos a um espírito mais… _avant gard_, se me cabe a colocação do termo. – ela explicou. – Nunca viemos a Cerise, tivemos alguns espetáculos que passaram a Europa, Ásia e América, mas como toda companhia, tivemos muitos momentos de altos e baixos. Diria que estamos num momento mais estável agora, e nossa programação está fechada até o ano novo apenas em alcance local e regional. Teremos espetáculos na Alemanha, estão convidados a nos assistir onde for mais conveniente para os dois. Nossa companhia é o Balé Leer, caso já tenha ouvido em algum lugar.

A menção do nome da companhia fez com que um sorriso discreto surgisse nos lábios de Aleksei. Ele voltou a mão livre até a de Vivien, que estava com os dedos ainda sobre seu pulso, chamando-lhe a atenção.

– Se eu fosse você, aproveitaria para perguntar mais sobre o significado do nome. – Aleksei comentou, ao que Maud também deixou uma breve risada escapar.

– Desse jeito você acaba com minha discrição, Aleksei. – ela respondeu, tomando mais um pouco da água para retornar a taça à mesa. – _Leer_ é uma palavra em holandês para doutrina, ensino, aprendizado. – ela se adiantou na explicação, antes mesmo que Vivien tivesse a oportunidade de questionar. – Mas também é uma palavra para _couro_.

– Eu não acho que você estava pretendendo ser discreta ao escolher esse nome, Maud. – Aleksei respondeu, afastando-se do toque de Vivien para se levantar. – Podem continuar, eu volto logo. Está tudo bem, só vou lavar o rosto. – adiantou a explicação antes mesmo de ouvir alguma pergunta sobre seu estado, que sabia que viria dos dois lados, provavelmente.

Vivien

A mulher estava completamente pronta para fazer a propaganda de sua companhia de balé, e até apreciava uma pessoa ávida por expor suas qualificações, considerando que fazia o mesmo o tempo todo. Certamente a companhia de balé dela deveria ser bem diferente, afinal, se ela era a professora em uma escola já não tão tradicional, pelo jeito que se apresentava, deveria sim aceitar o termo avant gard. Infelizmente teve que negar quando ela perguntou se conhecia o nome, afinal, não entendia mesmo de balé.

Porém, como Aleksei fez bem questão de se inclinar para lhe dizer, havia uma peculiaridade na escolha do nome. Abriu um sorriso largo quando Maud se adiantou e explicou como o nome se ligava a profissão anterior dela por um tema em comum, embora não a visse usando couro. Aleksei tinha dito que ela gostava de branco, não?
– Teria passado desapercebido por mim, já que não falo o idioma. Mas... sinto muito, madame, certamente não é um nome discreto. – brincou com um ar divertido, até perceber que Aleksei se afastou um pouco, o que fez com que perdesse o foco um instante. Porém ele se adiantou em dizer que iria apenas lavar o rosto e que estava bem. – Está bem, Alek. – estendeu a mão para apertar a dele reafirmando a presença ali, mas também não podia prendê-lo a mesa. Cerrou os dentes lembrando da ida de Louise ao banheiro, que tinha sido breve mas crítica, mas não deixou transparecer o desconforto com a ida dele, ou provavelmente não lhe faria bem.

Sorriu conformado para Maud assim que deixado a sós com ela, descansando os punhos sobre a mesa.
– “Doutrina, aprendizado e couro”, não é? – repetiu com um ar mais suave e discreto. – Creio que carregando um nome forte como esse, os espetáculos sejam de fato bem marcantes. – tentou descontrair um pouco, então recostando na cadeira por um instante e voltando o olhar direto para a mulher. – Quanto a ser marcante... talvez seja uma mudança súbita de tópicos, mas obrigado por vir vê-lo, madame Janssen. Acredito que ele precise de apoio e preocupação de pessoas em quem confia. E pelo modo como sua presença aqui “desarmou” o Alek, vocês têm uma confiança e intimidade muito peculiar a vocês. Esse conforto eu não posso suprir, por mais que me incomode admitir o fato.

Aleksei

Aleksei recebeu a confirmação direta dos dois sobre a saída e seguiu até o banheiro. O local aberto ainda lhe deixava levemente incomodado e saber que o corpo reagia exageradamente a situações tão simples como a aproximação de uma pessoa discretamente era o que mais lhe afetava. A sensação de não ter controle das próprias reações parecia mais assustadora do que a sombra agora inexistente do psicopata.

Maud observou ainda com o olhar enquanto Aleksei se afastava, a mão dele subindo rapidamente até o pescoço que era coberto pela gola alta num gesto de proteção estranhamente característico. Voltou-se para Vivien com o comentário dele sobre o nome de sua companhia de balé.

– Eu gostaria de ter usado látex, mas a palavra seria mais óbvia. – respondeu com a mesma descontração do francês, até ele mesmo se propor a mudar de assunto agora que os dois estavam a sós.

Observou-o com a expressão analítica de antes, avaliando as palavras de agradecimento dele em relação ao que podia fazer por Aleksei. Era verdade que os dois tinham um tipo de intimidade diferente, mas o impacto que causava em Aleksei já não era mais o mesmo, como aquele que Vivien causava. E talvez não tivesse chegado a ser, agora que sabia que os dois se conheciam antes mesmo dela.

– Não precisa me agradecer, Sr. Sr. Clavier. Eu faria qualquer coisa para ver o Aleksei bem, e dada a conversa breve que tivemos no sábado quando ele me contou o que tinha acontecido, eu realmente achei que ele precisava de uma companhia mais _íntima_. – respondeu, sabendo que aquela inferência poderia provavelmente incomodar Vivien por se colocar numa posição de mais proximidade com Aleksei. Em outras situações, teria exaltado muito mais aquela proximidade e alfinetado o outro ao bel prazer, mas dada a condição de Aleksei e a posição dos dois em relação a ele, não era a melhor ocasião para as brincadeiras. – Não duvido da proximidade dos dois e me incomoda que tenha surgido na vida dele antes de mim a ponto de causar uma impressão tão forte. Mas eu estou muito acostumada a um Aleksei que tem tendências a se fechar até para as pessoas mais próximas, talvez um reflexo do que ele já ouviu na profissão dele? E foi esse tom que ouvi na ligação dele do sábado, como se ele estivesse na defensiva. Por isso eu não hesitei em vir visitá-lo pessoalmente a despeito da surpresa.

Ela ainda olhou discretamente para o lado, como se quisesse confirmar que Aleksei não estava retornando.

– Eu não sei se está ciente, mas Aleksei só me falou sobre o senhor dois meses atrás. – continuou. – E eu tenho inveja do impacto que causou nele, de um jeito que eu ainda não tinha visto, embora não tenha inveja nenhuma do motivo que causou aquele impacto negativo. Então, não vou me desculpar pela sinceridade em admitir o quanto não gostei do senhor. Mas então eu cheguei aqui e o Aleksei estava diferente do que eu esperava, para melhor… não sei o que aconteceu de sábado para cá, e não sei se agradeço à sua presença ou à confiança que ele tem no senhor, mas eu estou feliz que o Aleksei não está mais sozinho, no sentido de que ele “lhe deixou se aproximar”.

Vivien

A resposta pronta de Maud para seu agradecimento foi alfinetar Vivien sobre a proximidade dela e de Aleksei. Não estava ignorando aquele fato, tanto que era exatamente por isso que a agradecia, mas confirmava ali que a mulher, com a finesse de alguém que nasceu com dinheiro, tinha apontado que não estava muito contente com Vivien. E ela apenas continuou seguindo nessa direção, exceto por prestar atenção no detalhe em que ela disse que o tempo em que ele e Aleksei se conheciam também incomodava ela. Ergueu o queixo um pouco, mas não como antes, que havia feito em reação ao incômodo que sentia com ela ali. Estava atento, apenas atento ao que ela dizia.

Vivien apertou os lábios ao ouvir que Aleksei só falou a Maud sobre ele no que supunha, foi a ocasião do casamento. Sentiu o impulso de desviar o olhar dela, mas não era como se pudesse negar que havia optado por seguir seus planos e carreira a custo de qualquer definição de fato de um relacionamento com Aleksei na época. Na verdade tinha feito isso de modo muito cruel, e embora fosse apenas natural para Vivien tratar algumas pessoas com aquele quê insensível, foi difícil ver Aleksei deixar a recepção com uma expressão que certamente não cabia nele. Não lhe surpreendia que ela não ia com a sua cara.

Observou-a por alguns segundos, absorvendo todas aquelas informações. Então suspirou, e falou mais calmamente, o tom mais baixo e suave.

– Não foi fácil, madame, até que ele dissesse o que estava passando. Mesmo para mim. Especialmente para mim, pelo que eu fiz e pelo que não fiz por ele também. E mesmo sabendo que ele põe algo de confiança em mim agora, admito que também sinto inveja da proximidade de vocês dois. Seu cuidado é importante para ele, de um jeito diferente do meu. – não ousou abrir um sorriso, embora estivesse conformado com as próprias palavras. – Mas não quero perder mais essa confiança. Não vou deixá-lo sozinho, madame. E se não fosse pretensioso demais, o que combina comigo, diria que quero fazê-lo feliz. – sorriu com o canto dos lábios, com um ar suave, então notando que Aleksei estava retornando de sua breve ida ao banheiro. Recostou mais uma vez na cadeira, dando uma breve olhada no loiro para averiguar como ele estava, então voltando-se para Maud em seguida. – Látex? Queria saber qual a justificativa para uma companhia de dança com esse nome.

Aleksei

Supunha que só uma situação como aquela de extremo estresse que Aleksei tinha passado seria suficiente para fazer com que ele se abrisse com Vivien. Tão especificamente porque ele mesmo tinha lhe dito, dois meses atrás, que não se atrevia a se colocar entre o francês e a ambição dele, supunha que a estima que Aleksei ainda tinha pelo outro era grande o suficiente para que não quisesse ser visto como menos do que se portava. Ouvir do moreno atestadamente que havia coisas que não tinha feito por Aleksei também era até reconfortante, porque sabia que, em seu estado, já tinha feito bastante pelo grego, quando dada a oportunidade.

Até sorriu diante do comentário conformado dele de que o cuidado que tinha com Aleksei era importante e de um jeito diferente. Mais especificamente porque podia definir aquilo muito melhor depois de tantos anos de convivência.

– É triste ter que admitir agora que meu cuidado com Aleksei é mais de uma mãe do que de um amante, como já fomos uma vez. – ela disse, com um tom conformado com aquela colocação também. – Bom, tão melhor porque não precisamos estar em conflito pela mesma posição, e nem é algo que quero para meu relacionamento com Aleksei ou com o senhor, Sr. St. Clavier. – ela completou. – Eu disse ao Aleksei uma vez que a pessoa que o abandonou devia ser muito idiota. Abandoná-lo de novo seria atestar essa idiotice, e o senhor não me parece um homem que gosta desse tipo de reconhecimento. Além do que, eu sei caçar. – o último comentário foi num tom que passeou entre uma ameaça e uma piada com uma pontada de realidade, mais ainda tomado pelo pequeno sorriso no canto dos lábios. O que foi convenientemente colocado antes da chegada de Aleksei.

A mudança de assunto de Vivien de volta para o nome da companhia foi óbvio até mesmo para Aleksei que estava retornando à conversa depois dos breves minutos. Ele acabou sorrindo ao se sentar em seu lugar à mesa.

– Sua tentativa de disfarçar o assunto foi bastante óbvia, Vivi, até para minha mente cansada. – Aleksei comentou, olhando ao redor para notar que o garçom estava se aproximando com os pedidos, dessa vez menos discreto para a sua tranquilidade. – Mas não se preocupem, não ouvi nada demais, e contanto que vocês não queiram se matar, eu sempre aceito disputas pela minha atenção.

Vivien

Estava longe de ser o tipo de pessoa que admitia as próprias falhas, mas talvez a vulnerabilidade da situação em que Aleksei e ele estiveram, muito mais o loiro, tivesse lhe feito repensar um pouco seu orgulho em algumas situações. E agora podia dizer, partindo do momento em que estava frente a frente com uma pessoa que se importava de verdade com o grego, que era um idiota. Tinha cometido o erro de deixá-lo duas vezes – a segunda muito mais grave que a primeira – e apenas agora, mesmo com todos os problemas enfrentados pelos dois, compreendia que era mais feliz sendo honesto; até sobre suas falhas.

E a resposta de Maud, mesmo que espirituosa, também não vinha cheia do perdão por ter mudado um pouco que fosse. Sorriu conformado com o fato.

Aleksei, que chegou em seguida, pareceu não cair na conversa fiada da mudança de assunto, e até Vivien teve que rir de sua incapacidade de enganar o loiro naquele momento.
– Qualquer um teria mudado o assunto. Sua adorável amiga estava me dizendo que caça. Não me senti seguro do jeito que ela abordou o assunto. – riu com um ar mais leve, e também mais satisfeito que Aleksei não parecia estar tão mal mesmo depois da volta breve por conta própria. – Sua atenção está bem disputada, sim. – falou, notando que o garçom começava a trazer os pedidos.

A conversa ao longo do jantar foi mais moderada e mais casual, girando muito em torno da comida que tinham pedido, deliciosa como esperado, e um ou outro comentários ocasionais acerca do ambiente e Cerise em geral, como mandava a impessoalidade. Fosse qualquer outro caso, estaria morrendo de tédio, mas bem sabia lidar com a banalidade daqueles assuntos.

Aleksei

Aleksei tomou o lugar mais relaxado de novo, sentindo-se mais seguro com o local e com a companhia, mais ainda com a perspectiva de que Kyle não apareceria. Ainda havia o nervosismo com o fator surpresa de que ele não estava morto, mas aos poucos estava se forçando a entender que era só o seu estresse com a situação, como teria explicado a qualquer paciente seu, se fosse o caso. Teve que rir, talvez de nervoso, quando Vivien disse que Maud entrou no assunto de caça e ainda lançou um olhar para a loira antes de se voltar ao francês.

– Maud não faria mal a uma mosca. – Aleksei atestou, embora não fosse muito credível, considerando que ela tinha sido uma dominatrix bem versada em algumas vertentes sádicas. – Mas tente ouvir o mesmo comentário do marido dela, eu acho que o impacto é maior.

– Você exagera demais com relação a Hendrik, Aleksei. Ele é muito gentil, e foi ele que me ensinou a caçar. Por sinal, eu acho que ele poderia estender a oferta a você, quem sabe gosta do esporte? Interessado, Sr. St. Clavier? – Maud lançou a pergunta ao francês e mais uma vez, Aleksei aproveitou a oportunidade para tentar negar em discrição a Vivien aquela ideia absurda. Maud nem precisou olhá-lo de esguelha. – Eu estou vendo isso, Aleksei.

O grego acabou rindo de novo da própria reação e a conversa se estendeu mais tranquilamente. Era estranho e preocupante estar numa mesa de jantar com Vivien e Maud, duas pessoas importantes na sua vida e que seriam um prato cheio para Kyle caçar e atormentar para lhe atingir – o que ele conseguiria com louvor, naquele cenário. Mas ao mesmo tempo, era reconfortante ao ponto de que a conversa casual que se estendeu com as pequenas indiretas e alfinetadas que envolviam Maud e Hendrik deixassem o grego muito mais confortável consigo mesmo, seguro de que nada lhe aconteceria e aproveitando do jantar e da comida leve que seu estômago estava reacostumado a aceitar. O medo de deixar o apartamento pareceu ter sido abandonado em volta daquela mesa reservada e até ignorou que estavam em público... por uns bons vinte ou trinta minutos de refeição e conversa.

Toda a calmaria foi abandonada quando, em meio à conversa dos três, um baque alto foi ouvido vindo do salão principal do restaurante. Embora a mente de Aleksei tivesse plena certeza de que alguém teria derrubado um prato ou uma travessa, a sua reação automática foi tensionar todos os músculos do corpo a ponto de pressionar a taça de água que estava levando à boca e os dedos ficarem esbranquiçados com a força. Toda a sensação de calma foi deixada de lado, o som que devia ser ordinário e motivo de um susto breve soou só em sua cabeça como uma arma sendo disparada e ele sentiu o sangue esvair da ponta de seus dedos. A sensação de mal estar subiu pela boca do estômago, o coração acelerou assim como a respiração que descompassou, um calafrio tomando todo o corpo e depois dos segundos iniciais de reação em que ficou completamente tenso, a força que havia no corpo sumiu e deixou a taça escorregar pelos dedos, provocando outro som alto quando a peça quebrou ao chão. Aleksei saiu do estado de transe apenas para sentir toda a comida querendo subir de volta pelo estômago, numa sensação de náusea desconfortável.

– Aleksei? – Maud se atentou para o seu estado, estendendo uma mão na direção de seu ombro com cautela, sem chegar a tocá-lo. A reação do loiro foi estremecer com a ideia de proximidade.

Vivien

Nem imaginava quem Aleksei queria convencer que Maud não faria mal a uma mosca considerando que ela tinha sido Dominatrix por um longo tempo. Porém, o fato de que Aleksei parecia seriamente considerar que o marido dela não era um homem tão “gentil” atiçou um pouco sua curiosidade. Acreditava nele que não deveriam ver o tal Hendrik nunca, mas bem queria ter pelo menos mais alguns detalhes sobre o sujeito. Supunha que se ele gostasse muito de Maud, ameaçar o ex-namorado seria apenas natural e inevitável. Acabou rindo do fato que Maud pegou Aleksei negando futuros encontros com o casal.

O jantar estava bom, nos padrões que esperava do Sautée, sendo um bistrô francês muito tradicional em Cerise. Agradecia o fato, já que estava tentando deixar uma boa impressão, mesmo que agora os dois tivessem ciência que se gostavam pouco e que estavam ali mesmo apenas por Aleksei. Comeu calmamente, mas não deixou de observar o loiro por saber que ele ainda tinha ocasionais problemas para se alimentar, o que não pareceu ser um problema ali. Acabou apenas relaxando ao ver que pelo menos por parte, ele estava interagindo e parecia muito mais calmo que o nervosismo no apartamento, no carro ou no início do jantar.

Porém, um ruído alto chamou a atenção de todos no restaurante. Vivien imaginou que alguém tinha derrubado um prato, porém, sentiu que havia algo de errado naquilo, e isso apenas se confirmou quando olhou para Aleksei tenso, e antes que sequer pudesse reagir, a taça caiu no chão chamando a atenção brevemente das pessoas ao redor, que não demoraram para retomar aos seus jantares como costumavam agir ali naquele local. Porém o grego ainda parecia em um estado de estresse intenso, e estava pálido. Maud até tentou se aproximar, porém, em um movimento súbito, foi rejeitada por Aleksei, cujo corpo tremeu com a ideia de alguém chegar perto.

– Alek. Olhe pra mim. – chamou em um tom firme, mas baixo. Não sabia exatamente como lidar com o que imaginava ser um breve ataque de pânico causado pelo ruído alto, mas tal como focar em Aleksei tinha lhe ajudado na outra ocasião do restaurante, quem sabe pudesse ajudá-lo um pouco também? Não era um psicólogo, mas prendia pessoas em cordas. Podia não lidar com isso com Aleksei, mas não foi uma vez que tentou acalmar alguém. – Respire. Você está tenso, mas aqui é seguro. Você está seguro. Como se sente? – manteve o tom firme mas calmo, talvez porque a situação fosse muito menos desesperadora do que a que passou na banheira. Estendeu devagar a mão sobre a mesa. – Pegue minha mão, se quiser. O que precisa?

Aleksei

Maud deteve o movimento tão logo notou a hesitação do grego, mas foi Vivien que chamou a atenção dele de volta para a situação em que estavam e que aquilo não era um caso de perigo iminente como deveria soar. Só ao observar a expressão pálida e o rosto assustado foi que a loira pareceu perceber a gravidade da situação de Aleksei, e ia bem além do que ela tinha suposto.

Aleksei pareceu ouvir o chamado de Vivien e embora não tivesse voltado o olhar para ele, atendeu a instrução de respirar. Soltou o ar todo de uma vez, sentindo a náusea apenas aumentar com o desconforto do ar passando pelos pulmões. Estava tão acostumado com as reações limitadas diante dos pacientes perigosos que o susto diante do som alto fez com que o corpo todo doesse. A lembrança de Kyle no banco de trás do carro foi suficiente para não querer levantar o olhar e a voz de Vivien só lhe atentou quando viu a mão dele sobre a mesa. A reação demorou a vir, mas estendeu a mão de volta para segurar a dele com o resto de força que tinha, os dedos gélidos.

– Vamos voltar… – ele respondeu finalmente, num fio de voz. Não levantou o olhar para encarar os dois ao seu lado. – Eu não estou… desculpe, Maud, podemos terminar a conversa depois?

– Está tudo bem, Aleksei. Vocês deveriam ir, eu encerro aqui no restaurante. – ela respondeu. – Eu vou visitá-lo amanhã, tudo bem?

– Sim, por favor. – ele respondeu, colocando-se de pé apenas para sentir o corpo completamente frio, a fraqueza nas pernas. Não soltou a mão de Vivien, ao contrário, esperou que ele lhe acompanhasse de uma vez. A náusea apenas aumentava e a única coisa que queria era estar em casa de uma vez. – Podemos, Vivi?

Vivien

Embora Aleksei não tivesse lhe encarado como esperava que fizesse, provavelmente tomado pelo medo de que aquela situação não fosse tão segura quanto era agora, ao menos ele fez o esforço de alcançar sua mão. Os dedos dele estavam frios, o que não era tão surpreendente considerando a palidez no rosto do loiro. Fechou os dedos em volta da mão dele devagar, lhe reafirmando que estava tudo bem ali e que ele tinha algum apoio. Mas pelo visto a ideia mais sábia seria voltar para casa. Se tivessem iniciado o tratamento e Aleksei tivesse acompanhamento psicológico, talvez a escolha mais certa seria esperar ele se acalmar e tentar ficar mais um pouco, mas era apenas a primeira vez que ele saía de casa depois de todo o incidente, e bem dizer, ele tinha conseguido o bastante.

Acompanhou Aleksei ao ficar de pé, mas não soltou a mão dele, tal como ele não tinha soltado a sua naquele dia na corrida.
– Podemos, Alek. – respondeu, fazendo um cumprimento breve a Maud. – Obrigado pela companhia, madame Janssen. Nos vemos em breve então. – despediu-se, e então se pôs apenas um pouco mais próximo de Aleksei para ajudá-lo a sair do restaurante. – Se se sentir mal, avise. Mas logo estaremos em casa. – respirou fundo, indicando silenciosamente para Aleksei que ele deveria acalmar um pouco o ritmo da própria respiração, talvez para evitar se sentir ainda pior. Ainda teriam que pegar o carro e voltar. – ”Há algo bom nessa situação. Significa que alguns gestos podem passar despercebidos”. – repetiu para o loiro com um tom mais suave que o anterior, mesmo sabendo que em meio ao pânico dele, dificilmente ele notaria o que estava dizendo.

Guiou Aleksei até a entrada do restaurante sem soltá-lo, e falou com o maître na saída por um breve instante, avisando que o convidado não estava se sentindo bem e que a madame logo iria embora, porém, a conta toda deveria ficar sob a responsabilidade de Vivien. Usou um pouco de sua influência (ou o que restava dela) ao falar que conhecia a dona, madame Dupont, e que em breve acertaria o pagamento. Conhecia gente naquele restaurante que tinha a conta pendurada há anos, mas não faria o mesmo, certamente. Apenas tratou de retornar ao carro, assegurando a Aleksei que estava tudo bem, e de fato, em breve estariam de volta em casa.

Aleksei

Aleksei ficou mais tranquilo de poder sair do restaurante com Vivien, mesmo que a companhia de Maud lhe fosse reconfortante também, ainda queria estar de volta ao apartamento, à segurança que sentia que tinha lá diferente do que sua casa tinha passado no último mês. Só concordou com um aceno de cabeça breve para indicar que tinha ouvido a recomendação. Não ligou e não se importou de ainda estar segurando a mão do francês ao passarem pelo salão principal do restaurante até chegarem à entrada. Ouviu ainda o comentário familiar sobre os gestos despercebidos e queria estar menos nervoso para responder, mas apenas continuou em silêncio até o carro.

E foi exatamente naquele momento que sentiu o estômago revirar ainda mais. Voltariam de carro para o apartamento e a viagem que seria curta e sem muitos problemas já parecia, em sua mente estressada, longa e cansativa. Sentiu o coração acelerar ao ponto de que parecia prestes a ter uma taquicardia. Até prendeu o ar antes de entrar no veículo e não ter muita coragem de olhar para o banco de trás. Só conseguiu entrar talvez pela reafirmação de Vivien de que estava tudo bem.

Colocou o cinto de segurança e em nenhum momento se encostou ao banco. Manteve o corpo inclinado para frente, os cotovelos apoiados nas pernas e as mãos dando suporte na altura do pescoço, mais como um ato de segurança como se aquilo lhe impedisse de ser agarrado por trás. Era frustrante reagir daquele jeito de um modo automático e instintivo, mais frustrante ainda ter consciência de que tudo era apenas uma peça pregada por sua mente e não poder fazer nada de imediato para combater o desconforto. Tão logo o carro ligou e Vivien saiu do estacionamento do Sautée, a primeira coisa que lembrou foi dos minutos longos da direção ao sair de St. Clavier pouco mais de um mês atrás em que estava em paz até ouvir a voz que quase lhe fez sair da estrada. E mesmo que fosse em sua cabeça, a voz soou real o suficiente para que, depois de meros cinco minutos de direção, ele estendesse a mão até a perna de Vivien, pressionando-a inquieto.

– Pare o carro, Vivien. – pediu num tom de urgência e até se atrapalhou para destravar o cinto de segurança quando Vivien encostou o carro no meio do caminho e ele saiu às pressas para vomitar o pouco que tinha comido no restaurante. Sentiu a garganta e o estômago doerem, o corpo que estava frio e trêmulo, a respiração saindo pesada e mais fácil apenas por ter saído do carro. Buscou Vivien por perto estendendo a mão até segurar ao menos a roupa dele. – Desculpe…

Vivien

O carro deveria ser um grande trauma para Aleksei, pois instantaneamente, ao entrar no mesmo, sentiu que ele ficou muito mais tenso. Antes de partir, deu uma olhava breve para ele e enquanto saíam, não se deu a ousadia de tocar nele tão pronto, pois pensava que pela posição encolhida que o loiro estava, qualquer toque poderia deixá-lo ainda mais assustado. O carro não parecia um bom ambiente para isso.

Os primeiros cinco minutos foram tranquilos, porém, até um pouco subitamente para Vivien que estava apenas tentando chegar lá o quão rápido conseguia, sentiu a mão de Aleksei em sua perna e o pedido urgente para que parasse o carro. Sem hesitar, olhou rápido a estrada e encostou para a calçada com o alerta ligado, deixando que o grego saísse do carro para vomitar. Saiu do carro em seguida, apenas em tempo de sentir a mão dele agarrar sua camisa.

Com cuidado, tocou as costas de Aleksei, acariciando-as de leve, em um movimento quão reconfortante conseguia. Tirou do bolso um lenço e estendeu ao loiro, esperando que ele pelo menos utilizasse para enxugar a boca.
– Não tem problema. – respondeu prontamente ao pedido de desculpas, permanecendo lado a lado com o loiro, aproximando-se devagar por não saber se ele ainda queria espaço para vomitar mais uma vez. – Como está agora? Menos enjoado? Podemos ficar aqui um pouco mais, até o enjoo passar. – falou com a voz tranquila, supondo que não podia fazer muito por ele até chegarem no apartamento. – E não precisa pedir desculpas. Pra sua primeira saída depois de tudo, foi muito bem. Aos poucos, essa sensação ruim vai passar. – reafirmou, porque pelo menos disso tinha certeza. E mesmo se não fosse o caso, estaria com ele de toda forma.

Aleksei

Aleksei se manteve curvado, apoiado nas pernas na altura do joelho. Sentia mais a dor do esforço para vomitar do que a náusea em si. Respirou fundo, o peito subindo e descendo com a mão de Vivien lhe acariciando as costas. Fora do carro, mesmo que num lugar aberto, era melhor do que ter a sensação de uma sombra às costas que poderia lhe fazer mal a qualquer instante como tinha feito da primeira vez ali em Cerise. Não sabia onde tinham parado e se qualquer olhar curioso estava voltado para os dois, mas depois de sentir o corpo totalmente frio com a situação, ainda olhou brevemente ao redor como se buscasse o fantasma que não estava ali. Não soltou a roupa de Vivien, mesmo que em algum lugar também soubesse que, na impossibilidade de Kyle estar vivo, seria pior ser visto com outra pessoa.

Colocou-se de pé, ajustando a postura e erguendo a cabeça, o que era bem melhor para qualquer ânsia de vômito. Aceitou o lenço de Vivien, limpando o rosto e deixando o lenço no próprio bolso.

– Eu não achei que seria tão… difícil. Eu devia ser mais racional que isso, Vivi. – comentou com o francês, deixando os dedos escorregarem finalmente pelo tecido da camisa dele. – Eu estou um pouco melhor, podemos continuar. – ele voltou a atenção para o carro e olhou através dos vidros das janelas. – Não se importa se eu for no banco de trás, não é…?

Esperou apenas a confirmação do francês para voltarem ao carro. A experiência não era confortável e era quase um tratamento de choque. Era até estranho imaginar como tinha passado aquele mês inteiro fazendo o mesmo trajeto até St. Clavier de carro, apenas para manter as aparências na esperança de que Kyle não aparecesse. Mas ao menos no banco de trás do carro, a sensação de estar sendo observado seria bem menor. Não foi a solução perfeita, mas lhe fez chegar ao apartamento sem passar mal de novo. O estresse da situação fez com que sentisse o corpo todo dolorido e de um jeito ruim, provavelmente pela tensão com o susto. A única coisa que fez foi se livrar das roupas fechadas, tomar os remédios para dormir e se jogar na cama, garantindo que Vivien estava no alcance de seu braço.

Vivien

Mesmo que Aleksei estivesse numa situação muito complicada, o fato de que se permitia ser cuidado daquela forma era um grande progresso. Como tinha conversado com Maud durante aquela noite, ele não era de se abrir. Mas estava ali, sem se importar em ser vulnerável a sua frente, algo que dois dias atrás teria sido completamente diferente. Aos poucos ele retomou um pouco da postura, e o ajudou um pouco a se reerguer. Para os poucos transeuntes ali, mesmo que ainda fosse cedo, não era como se perto de restaurantes e bares mais finos, mesmo os mais finos, uma pessoa pudesse estar passando mal. Além do quê, mesmo que interioranos, os Cerisienses não costumavam prestar tanta atenção as pessoas na rua. Nisso tinham um espírito bem francês.

– Pode ir no banco de trás. – respondeu com tranquilidade, envolvendo parcialmente o ombro de Aleksei para guiá-lo até o carro. – E Alek. É difícil. Mas vai melhorar. – falou com plena certeza, deixando que ele entrasse no banco de trás e fazendo mesmo em seguida no banco da frente, esperando para ver se ele se sentiria incomodado antes de sair. – Além do que... se medos fossem racionais, um homem egocêntrico como eu nunca teria medo de multidões, sim? – brincou levemente, tentando fazer ele pensar em outra coisa, embora soubesse que no estado que o loiro estava, rir não era sua primeira opção.

O caminho foi penoso para Aleksei, mas ao menos chegaram sem mais complicações. Tal como o loiro, não teve muita paciência para todo um ritual antes de dormir. Ele parecia precisar mais de sua companhia do que Vivien precisava passar longos minutos no banho. Apenas tirou as roupas e trocou por pijamas e tão cedo quanto Aleksei estava na cama, também decidiu acompanhá-lo. Abraçou o corpo dele com um pouco mais de firmeza inicialmente, dando-lhe certeza que estava ali para cuidar dele pelo menos por ora, mas deixou-o com um pouco mais de folga na medida que os remédios para dormir fizeram efeito. Se ele tivesse outro pesadelo ou precisasse ir ao banheiro para vomitar, tinha espaço para isso. A única coisa que garantia era que aquela noite toda faria companhia a Aleksei, e nas noites seguintes também.

[thread encerrada]


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[Drive] On the Edge [Vivien; Aleksei] - by Lil - 09-01-2021, 02:03 PM
RE: [Drive] On the Edge [Vivien; Aleksei] - by Lil - 09-01-2021, 02:04 PM

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