Emil
Enfim o dia esperado chegou, segunda feira normalmente era um dia de tristeza já que significa o fim do final de semana e volta para aulas ou trabalho, mas não essa segunda, finalmente tinha chegado o dia de entregar o presente para Aleksei.
Mal conseguiu pegar no sono noite passada pensando em como iria concretizar seu plano, depois de toda a conversa do dia anterior com Kurt não tinha dúvidas de que toda a surpresa estava em suas mãos, e não queria decepcionar.
Depois de rapidamente colocar o uniforme e regar sua planta, o garoto gordinho guardou o precioso presente em um dos bolsos do uniforme parando e verificando se não estava muito à mostra, ao confirmar que não depois de muitas voltas ao espelho, pegou o resto das suas coisas e saiu para a rotina matinal de aulas, tinha tempo até se encontrar com Dr.Vlahos já que normalmente o via perto do horário de almoço, as primeiras aulas pareceram passar rápido, estava meio distraído com toda a situação.
Depois das aulas, exatamente perto das 11 horas, Emil estava se dirigindo ao anexo administrativo, onde costumava ter as sessões com o psicólogo, respirou fundo e fez o caminho até o consultório, onde bateu a porta enquanto continha a animação.
Esse seria um dia para se lembrar. Esperou o mais velho dar algum sinal de que iria abrir a porta ou que poderia entrar para enfim entregar o motivo de tanta animação.
‘‘Espero que ele goste’’
Aleksei
A rotina de Aleksei estava se tornando mais usual novamente, com as usuais mensagens e o terror psicológico com o qual já estava acostumado. Recebia as mesmas mensagens, via as mesmas notícias e exceto pelo fato de que a cara de Kyle estava agora estampada em todos os noticiários da cidade - o que, em sua opinião, não era de muita ajuda -, e os pacientes estavam lhe cansando além do esperado, já que estava ficando cada vez mais difícil descansar com a sombra do assassino à espreita, tudo estava seguindo a mesma rotina.
A agente responsável pela investigação lhe mantinha a par de tudo e era bom passar algumas informações e saber que as coisas estavam andando. Mas ao mesmo tempo, lhe deixava com a mente cada vez mais pesada e cansada do excesso de informações e só de concordar, na semana anterior, que a morte da criança podia ter o dedo de Kyle, mesmo que apenas em questão de influência, lhe perturbou um pouco mais o curto descanso que já não tinha. Nem os remédios aos quais tinha acesso ilegal estavam conseguindo a dar cabo do seu cansaço no fim das noites.
Uma maquiagem básica podia disfarçar suas olheiras e a expressão pálida para os alunos menos atentos. Mas só de olhar o reflexo no espelho ele conseguia perceber que a situação estava cada vez pior.
Seguiu para o trabalho no horário de sempre em St. Clavier, começando as suas revisões e consultas tão logo as aulas começaram. Os alunos eram mais uma distração do que um problema àquela altura, assim não precisava pensar no que Kyle estava planejando. Teve apenas um paciente marcado naquela manhã e outro que procurou sua ajuda apenas por problemas românticos. Organizou as fichas dos próximos pacientes do dia e quando o relógio marcava pouco depois das 11h, ouviu as batidas na porta e já sabia que se tratava de um de seus pacientes mais tranquilos. Abriu a porta para dar passagem para o jovem primeiranista de rosto corado e visivelmente animado naquela manhã, até mesmo para a sua percepção reduzida.
- Bom dia, Emil, já consigo perceber que está de bom humor hoje. - Aleksei respondeu, dando espaço para que ele entrasse na sala. - Fique à vontade.
Emil
Não esperou por muito tempo e a porta abriu revelando o psicólogo, estava impecável como sempre, sua voz parecia meio diferente soava um pouco cansada, talvez ele tinha dormido mal noite passada.
-Bom dia senhor Vlahos, está tão óbvio assim? - sorriu, sabia que uma hora ou outra ele ia notar que estava diferente, só não contava que tão cedo, tinha que dizer algo - Obrigado - entrando no consultório, sentou-se no lugar de sempre, levemente balançando as pernas- Eu finalmente fui na floricultura comprar o vaso da minha planta, não me lembrava se a floricultura ficava aberta meio período ou fechada totalmente aos domingos, mas tive sorte e o vaso é bonitinho- De fato, não tinha falado nenhuma mentira, apenas ocultava a parte importante do mais velho, arrumou a postura na poltrona e o esperou, olhando em volta do lugar como de costume.
Não tinha como negar que as sessões com o psicólogo estava o ajudando muito, no começo se sentia nervoso demais para sequer pensar direito, mas agora já estava mais confortável com o lugar e o responsável, e estava começando a influenciar positivamente a rotina do garoto, Dr.Vlahos era amigável e agia sempre de maneira profissional, o garoto não conseguia imaginar o que ele faria num dia de folga, se fosse adivinhar, ele talvez ficaria sentado numa poltrona chique lendo um livro difícil num quarto silencioso ou algo parecido.
Aleksei
A animação de Emil seria até contagiante, não estivesse em seu atual estado mental. Ainda assim, fechou a porta atrás do aluno e o acompanhou até a mesma poltrona de sempre, concordando com um aceno de cabeça quando ele perguntou se era tão óbvio.
- Eu gosto da sua animação, Emil, deixa o meu dia mais animado também. E que bom que andou se aventurando no fim de semana, como está o seu Jacinto?
Emil era um daqueles alunos muito fácil de lidar e o completo oposto do tipo de paciente com que tinha lidado a carreira inteira. Lembrava-lhe inclusive da época em que fazia apenas sessões de treinamento ao longo da especialização e tinha pacientes com situações menos perigosas, se é que podia colocar daquele jeito bem direto.
A conversa seguiu naquela mesma animação do rapaz, e era bom que ele estivesse tão disposto porque as primeiras sessões dele tinham revelado bastante dificuldade em lidar com o cenário novo, com os colegas da academia, consigo mesmo até. Conseguia lidar numa conversa com Emil sem ter que anotar praticamente nada, e pela empolgação que ele tinha demonstrado ao longo daquela hora, parecia estar ansioso para algo, que Aleksei tentou não trazer a tona para que ele mesmo o dissesse. E antes que pudessem continuar com a conversa mais casual, o relógio já marcava quase meio-dia quando o psicólogo percebeu que já tinham se estendido um pouco mais do que o previsto na conversa. Estava mais leve, pelo menos.
- Bom, eu não devia segurá-lo aqui no seu horário de almoço, Emil. - Aleksei respondeu, ao se erguer logo depois que o aluno tinha encerrado a cessão também, para sair da sala. - Espero que continue com essa empolgação nas próximas semanas também, nos vemos na segunda? Claro, se não precisar de mim para uma emergência, e espero que não seja o caso.
Esperou a confirmação dele sobre a sessão da próxima semana, guiando-o até a entrada como fazia com todos os alunos.
Emil
-Ele está indo bem, me descuidei um tiquinho essa semana pensando nas minhas notas e ele levou sol à mais, mas ele está indo melhor - comentou relaxado, prestando atenção no mais velho.
A sessão tinha se passado de maneira tranquila, estava focado no seu objetivo de não deixar escapar nada sem querer. No começo evitava ao máximo olhar para o relógio já que os olhar de Aleksei provavelmente o atravessaria e ele iria começar a desconfiar de algo, mas com o passar da conversa acabou perdendo toda a noção de tempo, as conversas com o Dr. Vlahos eram sempre interessantes, nunca tinha imaginado que iria falar tanto de si para alguém até o momento, e que esse alguém iria ajudá-lo com os seus problemas.
Apenas notou que tinha estendido seu tempo com o mais velho quando o mesmo o avisou sobre o horário de almoço, levantando para se despedir dele e já marcando a possível próxima sessão. Como um sinal, o presente clicou em sua mente, fazendo ele sorrir novamente enquanto acenava positivamente para a confirmação da próxima sessão.
-Sim! Obrigado por sempre me ajudar Sr. Vlahos - sorriu e bagunçou os cabelos cacheados, sendo guiado até a saída e parando logo em frente à porta- Senhor Vlahos, eu meio que tenho uma surpresa para o senhor! - levou uma das mãos a um dos bolsos, pegando a caixinha que ainda estava intacta por todo esse tempo. Sentindo a animação fluir pelas veias, entregou o presente nas mãos do mais velho- Eu acabei encontrando com um amigo do senhor quando saí da floricultura, ele estava querendo fazer uma surpresa para o senhor mas tudo estava indo contra o plano dele, então... eu pedi para ajudar, já que o senhor me ajudou tanto eu queria pelo menos devolver o favor.. -sentia o rosto fervendo enquanto contada da jornada até o momento- espero que goste, ele parecia muito atencioso...
Depois da entrega ficou esperando uma reação do mais velho, o plano foi cumprido com sucesso.
Aleksei
Aleksei estava pronto a se despedir do garoto, mas a animação desde o início da sessão apenas aumentou quando ele revelou que tinha uma surpresa. Arqueou as sobrancelhas para o comentário, observando uma pequena caixinha com laço que o garoto lhe estendia. Não era nada incomum receber presentes de alunos, mas era menos comum ainda aceitá-los. Até estendeu a mão para receber a caixa, e estava prestes a explicar que não era muito de acordo com as normas da profissão aceitar o presente... até Emil especificar que tinha encontrado com um amigo seu.
A expressão costumeiramente tranquila e sorridente de Aleksei sumiu instantaneamente. Se Emil ainda estivesse segurando a caixinha com a sua mão, teria sentido como a ponta de seus dedos ficou ainda mais gelada. A surpresa foi tão óbvia na expressão do psicólogo que ele não teve sequer como manter a pose diante do aluno que não sabia absolutamente nada do que estava lhe acontecendo. O maior esforço que fez foi para que a mão não tremesse e para que a expressão de pânico descongelasse de seu rosto e voltasse ao "usual". Meros segundos de uma expressão de surpresa pareceram uma eternidade para Aleksei. Não porque temia pelo presente que havia dentro da caixa, sabia que era só mais outro jogo de tortura psicológica de Kyle. Mas pelo fato de que ele tinha chegado ao ponto de entrar em contato diretamente com seus pacientes de St. Clavier, e que aquilo poderia ter causado muito mais consequências do que um mero presente numa caixinha. Ele podia ter machucado o garoto... ou quem sabe mais o que.
Aleksei demorou mais do que pretendia para se recompor, mas forçou o sorriso de volta para o garoto, segurando a caixa com um pouco mais de firmeza do que pretendia.
- Desculpe, eu me distraí por um instante. - finalmente respondeu. - Obrigado, Emil, você é muito atencioso. Vejo você semana que vem.
Mal esperou a resposta do rapaz. Devia ter dito algo sobre não confiar tão facilmente em estranhos? Não conseguia pensar direito. Na verdade, pensou tão pouco que só teve tempo de fechar a porta, esquecendo-se de trancá-la, para olhar de novo a caixinha em sua mão. O tremor ainda estava lá, mas qualquer pensamento racional já tinha lhe deixado, tanto que a despeito do que haveria na caixa, que pudesse lhe machucar de algum modo, apenas desfez o laço e puxou a tampa. Já devia estar preparado para aquele tipo de situação, Kyle não devia ser capaz de lhe manipular daquele jeito, provavelmente foi o cansaço acumulado, a fraqueza, a falta de alimentação e o fato de que aquele par de olhos com íris azuis era pequeno demais para pertencerem a um adulto que contribuíram para a única reação possível. Não só a caixinha caiu da mão de Aleksei, mas ele mesmo viu tudo escurecer de súbito antes de desmaiar e cair pesadamente no chão do consultório.
Dieter
Podia tentar se convencer todos os dias que sua rotina estava intacta e que nada incomodava seus experimentos sociais. Mas era ciente demais dos próprios incômodos para simplesmentes ignorá-los, e as últimas semanas estavam se tornando excepcionalmente preocupantes. Obviamente Fleur já tinha notado sua preocupação excessiva, e por mais que seu jeito animado e extrovertido servisse como persona para lidar com seus alunos adolescentes, estava começando a ficar clara essa preocupação nos trejeitos do professor de biologia. A presença contínua da polícia na academia, as notícias no jornal, embora não fosse segredo para ninguém na cidade que havia alguém perigoso rondando, ainda era segredo para o restante dos cerisienses o motivo daquela pessoa perigosa estar na cidade.
E a sensação de incapacidade sobre a resolução desse problema apenas deixava Dieter ainda mais incomodado. Sabia que estava prestando algum auxílio para o amigo, ao conseguir com contato no hospital os remédios que o outro precisava para ao menos conseguir dormir e apaziguar os terrores noturnos advindos da caçada constante e dos jogos que o psicótico propunha para atormentá-lo. Porém, apesar de todas essas sensações e pensamentos que lhe corriam, o australiano tinha se proposto a manter a rotina, nada mais conveniente do que ter na sua rotina, por hábito desde que chegara em St. Clavier, ir almoçar com os colegas de trabalho, o que eventualmente envolvia Aleksei. Muito embora, pelas últimas semanas mais estressantes para o amigo, tinha tornado as idas para chamá-lo para almoçar parte da sua rotina também. Ao menos daquela forma se certificava de que ele estava comendo, apesar de notoriamente os sinais de cansaço começarem a aparecer de forma mais nítida na aparência do grego.
Queria poder distraí-lo com qualquer assunto, e estava pensando sobre algum experimento escabroso do passado que poderia servir de breve alívio para os pensamento do outro, tinha até buscado fitas que tinha gravado durante o período de graduação, sabia que não chegava nem perto, mas se havia a possibilidade, o australiano como cientista tinha de tentar. Estava com a expressão alegre costumeira, e vestido em tons terrosos como de costume, a fita no bolso interno do terno, enquanto se encaminhava para o prédio administrativo. Chegou a sala de aconselhamento estudantil e bateu na porta uma vez, pelo horário não deveria estar em atendimento de qualquer um dos estudantes, esperou ouvir o barulho da cadeira o que indicaria que o outro estava se levantando para atender a porta, mas ao invés disso, houve apenas silêncio.
Dieter estranhou e se aproximou mais um pouco da porta, batendo sobre a mesma com um pouco mais de força, seguido do chamado em tom normal: -- Dr. Vlahos? -- a falta de resposta que se seguiu, fez com que Dieter fosse tomado por um desconforto, pensou em seguida que o outro podia estar apenas fora de sua sala, embora soubesse que ele não estava andando a esmo pela academia como costumava fazer. A reação imediata foi ir até a maçaneta e girar, se a porta estivesse trancada isso indicaria que o outro tinha saído, mas para a surpresa do australiano a porta estava destrancada.
O pensamento foi mais rápido que o ímpeto de abrir, não havia qualquer possibilidade do amigo na situação em que estava sair e deixar a sala destrancada, então tinha algo de muito errado ali, abriu a porta devagar sem alarde, varrendo o espaço da sala, até seu olhar ser guiado ao chão vendo o corpo do psicólogo prostrado sem qualquer movimento. Dieter entrou na sala e fechou a porta atrás de sí, sequer se dando conta, que poderia haver mais alguém dentro da sala, a reação majoritária foi se abaixar iniciar os procedimentos para checar os sinais de vida de Aleksei.
Embora houvesse um bom par de anos desde a última vez que o australiano tinha estudado e executado procedimentos médicos de atendimento durante as aulas, tudo que precisava lembrar veio a sua mente naquele instante. Checou o pulso e a respiração, conferiu se havia qualquer sinal de corte ou machucado que indicasse que ele precisava ser levado para a enfermaria ou Hospital, após alguns instantes, concluiu que o outro estava em choque:
-- Aleksei! Reaja! -- não gritou para não causar alarde e nem chamar atenção desnecessária do lado de fora da sala, seguindo com os procedimentos a fim de tirar o grego do estado de desmaio. Dieter tinha ignorado completamente a caixa pequena que também estava no chão, mas tinha se colocado exatamente entre o psicólogo e o objeto.
Aleksei
Aleksei não soube quanto tempo se passou naquele estado de inconsciência e talvez a única vantagem dele era que não precisava ser atormentado pelos pesadelos costumeiros, o que muito se assemelhava às noites de sono sob o efeito de medicação. Quando ele voltou aos sentidos foi mais por um impulso externo e uma voz familiar lhe chamando, o que lhe fez hesitar um pouco antes de abrir os olhos de novo, percebendo apenas parcialmente o que tinha acontecido.
Piscou os olhos apenas uma vez até a situação inteira voltar à sua mente como uma pancada desagradável. A reação imediata foi arregalar os olhos e prender o ar, sentando-se num impulso que quase empurrou a pessoa ao seu lado para longe. O movimento foi rápido demais para o seu físico abalado e só sentiu a sala rodar e a sensação de náusea subir pelo pescoço. Apoiou uma mão trêmula no chão e a outra levou até o pescoço, puxando a gola da camisa como se aquilo tornasse difícil a respiração. Conseguiu soltar o ar de uma vez e ainda teve a sensação de hiperventilar por uns instantes antes de situar que não estava sozinho na sala e felizmente, a companhia não era de Kyle.
- Eu... o que... que horas são? - olhou ao redor, com a visão um pouco turva ainda, encontrando logo Dieter bem ao seu lado. Mas ainda olhou ao redor para se certificar que não havia nada na sala além dos dois e da caixinha caída de lado, com os olhos que tinham rolado para lados diferentes. Sentiu a ânsia de vômito de novo e a necessidade de olhar mais de uma vez ao redor para confirmar que era seu consultório, e que não havia mais nada. - O que aconteceu? Ele não está aqui, está...?
Dieter
Para sorte dos dois ali, não havia mais ninguém na sala além deles, afinal, se houvesse mais alguém a espreita certamente já teria se pronunciado, e apenas quando o grego tomou consciência novamente, e assistiu a sequência de reações dele, teve de auxiliá-lo com receito de que ele tornasse a desmaiar. No entanto, o que lhe chamou mais atenção foi a forma como Aleksei olhou ao redor aterrorizado, supondo que haveria outra pessoa naquela sala a espreita, e naquele momento o australiano se deu conta, que podia ter sido pego ali de guarda baixa, e isso lhe causou um arrepio, que não foi externado em sua expressão. A mente de Dieter saiu momentaneamente do estado de pensamento para se atentar ao estado físico e emocional do loiro, estalou os dedos a frente do rosto do outro, chamando a atenção, e indicou para que o outro olhasse em direção ao seu rosto:
– Aleksei, estamos só nós dois aqui. Respire devagar e tente se acalmar. Estamos na sua sala, é horário do almoço, eu vim lhe chamar como faço todos os dias. Você não respondeu, eu entrei na sala e encontrei você no chão. Agora se concentre em respirar fundo e tente se recompor um pouco. – o professor de biologia falou pausadamente e não reforçou que ele poderia desmaiar de novo se continuasse agitado, porque aquela informação certamente não o ajudaria a se acalmar.
Aproveitou o tempo que o amigo o observou, para avaliar o estado dele, a respiração acelerada, e a possibilidade iminente de outro mal estar, tinha de acalmá-lo e entender o que houve. Mas antes que pudesse perguntar, agora que o outro estava consciente, seus olhos captaram o objeto pequeno arredondado que estava no chão da sala. A reação do professor não foi tão contida quando gostaria, ao perceber que se tratava de um olho humano, a reação ficou bem evidente no olhar surpreso, principalmente por já ter estudado anatomia o suficiente pra saber a proporção de um olho humano, e mesmo aquela distância podia julgar que era “pequeno demais” para ser de um adulto. Dieter engoliu em seco a expressão tensa, e tornou a olhar para o amigo:
– Preciso saber se tem condições de sair desta sala, ela precisa ser fechada e precisamos chamar a polícia e peritos para avaliar. – Não comentou que teria de avisar a Vivien também, porque sabia que aquilo despertaria uma nova sequência de reações de terror no amigo, e esperava que ele se recompusesse ao menos um pouco, para poder tirá-lo dali. Mas era fato, que não tinha como chamar peritos de polícia sem ter de avisar ao diretor da instituição, esperava que o abalo atrasasse um pouco o pensamento do amigo sobre aquele fato.
Aleksei
As breves indicações e instruções de Dieter fizeram com que Aleksei voltasse lentamente aos sentidos. Estava se sentindo mal, saber o que tinha acontecido, em seu estado fisicamente e psicologicamente fragilizado, fazia com que sua reação estivesse totalmente fora da curva do esperado para alguém em sua linha de atuação. Ele se manteve bem apoiado no chão, mesmo que as mãos estivessem trêmulas, e com a cabeça um pouco inclinada, respirou fundo, em intervalos mais longos de tempo.
Saber que só os dois estavam lá era mais reconfortante, saber que ainda era horário de almoço, também. Não tinha perdido muito tempo e não tinha colocado mais alguém em risco… supunha. Aleksei não voltou a olhar ao redor, mas a mão que puxava a gola da camisa se manteve ali, não apenas mantendo o caminho livre, mas com as unhas coçando a cicatriz a ponto de arranhar. Dieter provavelmente não atentou logo ao fato pois estava mais preocupado com o objeto viscoso que estava no chão, ao menos um dos dois estava mais próximo no campo de visão.
Aleksei tirou o par de óculos que ainda lhe incomodava e sentiu os músculos um pouco mais firmes. Passou uma mão pelos cabelos e pressionou o espaço entre os olhos, quando Dieter voltou o foco para o quadro geral da situação. Parou de coçar a cicatriz, o pescoço bem vermelho com alguns pequenos arranhões na área já marcada. Certamente o que mais queria fazer naquele momento era fugir dali, sair daquela maldita sala que já tinha sido uma prisão desconfortável desde o primeiro presente. Poderia fugir até para mais longe, mas por enquanto, as colocações de Dieter eram mais precisas. Logicamente, precisavam da polícia, trancar o local, mas não conseguia pensar racionalmente, tanto que a primeira reação foi só concordar com um aceno de cabeça.
- Eu consigo ir. - respondeu, envolvendo o pescoço com ambas as mãos, agora mais firmes. - Eu… está bem. Está tudo bem…
Não estava, e era mais que óbvio que o reforço positivo não ajudava muito. Aleksei se apoiou no chão e buscou ajuda de Dieter para levantar, evitando olhar para os pontos em que sabia estarem os olhos. Estava tão desnorteado que até esqueceu do celular que geralmente deixava em sua mesa ao longo das sessões.
- Vamos sair daqui. A chave está na porta…
Apenas ao se colocar de pé, sentiu a vista escurecer de novo e voltou a se apoiar em Dieter, a sensação de náusea surgindo novamente no topo da garganta.

