09-21-2021, 12:57 PM
Renaud
Como um espelho trincado depois de um forte impacto, nada que fosse refletido ali seria uma imagem fácil de discernir, sempre teria a interferência da rachadura distorcendo o reflexo. Renaud se sentia como um reflexo distorcido de si mesmo, trincado, quebrado fundo o suficiente pra duvidar de muitas coisas, inclusive se conseguiria conversar com Didier depois de tudo que tinha acontecido. Embora fizesse apenas poucos dias, a intensidade com que tinha passado esse pouco tempo, lhe dava a sensação de que tinham se passado décadas. Ou pelo menos sentia o cansaço como se estivesse há anos sem descansar.
O Blanco estava num misto de ansiedade e nervosismo, e tentava seguir a rotina do dia como sempre fazia, precisava da rotina, tal como qualquer pessoa ordinária se apoiava no que era conhecido pra não ter de lidar com o desconhecido. E esse era o ponto, tudo que envolvia conversar com o loiro era um abismo de desconhecido no momento atual. Comeu menos do que gostaria de manhã, não tinha fome nenhuma, apenas um inócuo vazio no estômago, que lhe dava a sensação de haver um buraco dentro de si, que não tinha como simplesmente ser preenchido por comida.
Àquela altura do dia, os medicamentos que estava tomando certamente lhe mantinha em níveis de ansiedade e estresse dentro de um limite aceitável. Não tinha tido nenhum pico de estresse ainda, porém, estava com aquela desagradável sensação de “calmaria” antes da tempestade. E ao menos sabia e não tinha dúvidas, que encontrar com Didier era como ser jogado em uma tempestade, não pelo que tinha acontecido no “agora”, mas pelo “todo”. Um todo de convivência tempestuoso e caótico, mas que era algo em que os dois se apoiaram por muito tempo.
Seguiu pra cobertura muito antes do horário marcado, assim que tinha se livrado das poucas coisas que tinha de fazer, não tinha conseguido sequer prestar atenção ao longo da manhã nas coisas que estava fazendo, com os pensamentos sempre voltando em Didier. Então como se estivesse em um modo “automático” deixou que as pernas lhe guiassem até lá. Renaud sentia como se o corpo estivesse encoberto por um peso invisível, que fazia com que cada passada embora não fosse pensada, fosse um esforço a ser feito. Não sentia como se tivesse a mesma vitalidade de antes, parecia lento, pesado, e desengonçado, embora não aparentasse nada demais em seu caminhar, além de estar fazendo passos mais lentos do que o costumeiro para o vice-presidente do conselho estudantil.
O Blanco estava vestido como de costume, ou como se esperaria que estivesse vestido: o uniforme da instituição com calça escura, blusa social abotoada até o ultimo botão no pescoço, gravata em nó apertado, o terno branco impecável, e um suspensório simples preto, que estava igualmente apertado. No rosto não tinha nada que encobrisse as olheiras de noites mal dormidas, o formato do rosto um pouco mais marcado nas maçãs do rosto, já que tinha perdido algum peso. Nas mãos, os machucados dos cortes pequenos cicatrizavam, e estavam encobertos com bandagem e alguns band-aid para os menos profundos.
Tinha levado duas latas de refrigerante, porque sempre que iam até a cobertura, aquele que fazia o convite levava refrigerante. E embora a memória fosse vívida em sua cabeça, se perguntava quantas semanas fazia desde a última vez que foram ali na cobertura? O frio no corpo era suficiente para sentir que estava mais gelado por dentro, do que o vento que podia estar soprando lá fora. O coração pesava no peito, e cada batida doía por dentro, e a medida que os pensamentos desenrolavam as batidas aceleravam, a ponto de levar a mão ao próprio peito, como se pedisse que o mesmo se acalmasse, abriu a boca um pouco deixando o ar escapar e respirou fundo, tentando se acalmar, em vão é claro.
“Como deveria começar aquela conversa?”
“Tinha algo que deveria ser dito pra começar a conversa?”
“Pelo que exatamente ele gostaria de começar?”
“Teria de esperar que ele falasse primeiro?”
“Ofereceria o refrigerante logo no começo?”
Inconscientemente segurou com mais força a sacola com que carregava as latas de refrigerante, não tinha como simplesmente emular um diálogo na própria cabeça. O coração estava zumbido no peito, e a cabeça parecia pesada, e por isso estava guiando seu olhar para o chão, uma leve dor de cabeça lhe cortava a nuca. Sequer estava prestando atenção no entorno, ou no tempo que levou andando entre os prédios de aula, até o prédio administrativo, só sabia que já estava cansado, antes mesmo de começar. Só se deu conta de fato de onde estava quando já estava pisando no lance de escadas que davam acesso a cobertura do prédio. A respiração estava difícil, e um gosto amargo lhe subia do buraco no estômago, ressecando toda sua boca, buscou saliva num lamber de lábios em vão. Então, buscou ar vagarosamente, e passou a mão sobre o peito novamente, em um gesto suave, como se estivesse sendo compreensivo com o próprio corpo, naquele misto de agitação e ansiedade, estava sendo um esforço enorme só de chegar até lá. Mas se já tinha chegado até ali, não iria voltar.
Não sabia se tinha o que era necessário para encarar aquela conversa, mas também sabia, que se não fosse naquele dia, não seria nunca mais.
Didier
Se havia algo que tinha percebido sobre si mesmo nos últimos dias era que sua impulsividade era uma benção e uma maldição. Em muitas vezes, especialmente em brigas, o fato de não hesitar em por em ação os primeiros planos mal formulados em sua cabeça haviam salvo sua pele e a de seus protegidos várias vezes. Porém, com o sangue correndo rápido na veia e oxigenando seu cérebro, mal aquecido pelo toque carinhoso de Isaac, tinha decidido por em prática mais um plano mirabolante de Didier Callas: que não era um plano, e sim, um desejo fervoroso de que houvesse alguma esperança para ele e para Renaud, quem havia tratado com a mesma impulsividade, e com uma de suas faces mais verdadeiras... sua face mentirosa.
E agora que percebia e olhava aquela mensagem respondida e o horário marcado na cobertura de St. Clavier, e que caminhava até lá depois de suas aulas, seu coração não parava de berrar, a cada batida “seu idiota, você tem certeza?”. Seu impulso era um impulso impensado, inconsequente. Mas se não apanhasse ali, numa briga, estava tudo bem. Naquela empreitada de encontrar com Renaud, era impossível não sair machucado de alguma forma, e, Dios o livrasse, de fazer o mesmo com o moreno por não conseguir conter sua covardia. Era corajoso por encontrá-lo lá em cima então? Não. Estava trêmulo, estava ansioso, estava prestes a dar meia volta e se enterrar no quarto no qual tinha se enterrado na última semana inteira, sem ver ninguém, porque isolado, por mais frio que fosse, não tinha que justificar sua incapacidade de lidar com seu medo de se machucar. Tinha certeza, sim, que iria. Por que assim era seu karma.
Parou em uma máquina de refrigerante no caminho e pegou duas latinhas, não deixando de pensar, enquanto ouvia elas rolarem até o sua mão, que só poderia estar sendo ridículo de querer tratar tudo como tudo havia sempre sido. Mas o gesto lhe dava uma segurança de que havia alguma coisa entre os dois, uma lei estabelecida que ao menos garantia que poderia olhar mais uma vez na cara de Renaud. Só olhar, sem ouvir rumores pelo corredor de um surto dele nem ouvir Peyrac ecoando no seu ouvido com a voz de quem bem sabia o mal contido no corpo de 1,70m e a cabeça de uma criança que não sabia lidar com contar uma verdade que era apenas verdade. E a verdade era que queria ver tanto o moreno.
Subiu as escadas para a cobertura e empurrou a porta sem hesitar, reclamando mentalmente da ferrugem da maçaneta que não fazia ela girar silenciosa e tampouco deixava a porta fácil de empurrar. Só que assim que ergueu o olhar do pedacinho insignificante de ferro e direcionou-o para o local que tinha escolhido para conversar, notou a figura parada ali, com o terno de St. Clavier, a calça escura, os cabelos pretos, os suspensórios discretamente aparecendo do ângulo em que o viu. Mas mesmo se não os visse reconheceria só a largura das costas, ou o jeito como os cabelos caíam, ou como as roupas eram ajustadas as formas geralmente mais musculosas. Seu estômago virou de cabeça para baixo, e por sorte não tinha comido nada, mas isso deixou seu rosto ainda mais obviamente estranho. Porque estava se lixando para maquiagem quando tinha um milhão e meio de perguntas e respostas e pedidos girando na cabeça.
E agora as palavras tinham se embaralhado todas.
“Desculpe por ter dito tudo aquilo.”
“É tão bom te ver.”
“Eu sei que sou decepcionante.”
“Eu quero tanto você.”
“Desculpe tão bom tanto você.”
“Eu sei tanto você ter dito tudo aquilo.”
“Eu.... não sei... que quero dizer....”
– Háa... – tentou abrir a boca para dizer algo, mas só o que escapou foi ar. A mão que não segurava as latinhas não sabia para onde ir, se tocava o coração acelerado ou se ajeitava o terninho azul de St. Clavier em cima de uma de suas camisas de botão com transparência. Levantou a ponta das sapatilhas, sem dar um passo além da porta. Então, respirou fundo e deu um passo a frente, a garganta seca e a vontade de andar para trás e fugir ficando cada vez mais forte. – Q-que bom... que veio. – a voz falhou a iniciar a frase, quebrando em um tom desconfortável um tanto mais agudo que seu tom ainda masculino permitia.
Mordeu os dentes e franziu a testa, frustrado com a própria incapacidade de se comunicar diante de Renaud, especialmente por todas as ideias erradas que poderia dar a ele se simplesmente ficasse ali fazendo cara de azedo por não conseguir forçar nenhuma expressão menos feia diante de sua agonia. Fechou a porta atrás de si e então tomou tanto ar que pareceu exasperado. E estava. Ergueu mais uma vez os olhos claros para a figura de Renaud e engoliu em seco, as mãos se juntando na frente do corpo, abraçando as latinhas como se fossem extensões suas.
– Sente... se quiser. Eu só... preciso de alguns segundos... pra saber por onde começar... – mordeu o lábio inferior, e então, hesitante, estendeu uma latinha de refrigerante para o moreno, para saber se ele teria interesse. – Cómo está? – apontou o indicador discretamente pra a mão de Renaud, mas estava só com conversa fiada. Queria ouvir ele falar. Nem que fosse “mal”, nem que fosse um grito. Só para ter certeza que ele estava de fato ali e que teriam aquela conversa.
Renaud
Sabia que chegar cedo aumentaria sua ansiedade, o zunindo no peito não se aquietou, e respirava devagar tentando ao menos manter-se ali e esperar. Estava ao mesmo tempo muito atento a todo e qualquer ruído vindo de seu entorno, como também estava igualmente desatento com o tempo e com tudo a sua volta. Estava com o olhar virado para um ponto no vazio a sua frente, além da grade de segurança do topo do prédio administrativo. Era muito bom pra contar o tempo sem olhar para o celular da mesma forma, que era igualmente incompetente de ter de lidar com sua agenda diária sem o aparelho. Mas no tempo que ficou esperando não olhou o celular nenhuma vez, a ideia lhe deixava mais ansioso, e sabia, racionalmente sabia que precisava conversar com o loiro. Só não sabia como seu emocional iria reagir, ainda estava tentando se convencer daquela ideia.
E tomou ciência que havia se passado tempo suficiente para hora marcada, quando ouviu o ruído da porta corta fogo ranger, enquanto era empurrada. Teve um atraso para guiar o olhar para o local, o corpo todo tencionou por baixo do uniforme, e o aroma conhecido de seu... de Didier chegou mais rápido ao seu nariz, do que a imagem aos seus olhos. Guiou o olhar devagar na direção do mais velho, e encarou longamente a figura de Didier que lhe parecia tão surreal, e ao mesmo tempo tão real. Ali, sem maquiagem, no terno mais comum do uniforme, sem qualquer arrumação adicional, como se ele tivesse pego a primeira roupa no guarda-roupa e tivesse vestido. Olhar para ele lhe deixava num misto extremo de sentimentos, que iam da saudade, ao medo real, do que ele fosse lhe falar ali.
Não era nem de longe especialista em ler as pessoas, muito menos no estado em que estava, só conseguia compreender o que lhe era dito diretamente. E as pausas na fala do loiro lhe deixavam ainda mais apreensivo do que ele realmente gostaria de lhe dizer e não estava dizendo. Engoliu em seco, porque não queria começar a criar cenários em sua cabeça, baseados em nenhuma palavra. E estava igualmente calado, então era melhor começar a falar alguma coisa. Embora estivesse com um semblante cansado, nada em sua expressão deixava transparecer o caos que se passava em sua cabeça, ao menos nisso ainda estava contido, não sabia por quanto tempo:
– Eu que decidi local e horário, seria estranho se eu não viesse... – comentou na ordem de comentários sem necessariamente se mexer de onde estava além de virar o corpo na direção do loiro, uma das mãos estava no bolso, suando, entre as bandagens, enquanto a outra segurava a sacola com as latinhas de refrigerante: -- eu prefiro ficar em pé... – completaria no automático “se não se importar” mas em verdade, se ele tinha dito “se quiser” estava lhe deixando espaço para escolher, e sinceramente, não estava com vontade de sentar no chão, embora gostasse, naquele momento, sentia que se sentasse no chão, ficaria difícil pra se levantar depois.
Guiou o olhar para a latinha de refrigerante estendida em sua direção e a encarou por um tempo, observando o gesto. Tinham pensado na mesma coisa, precisavam de uma trégua para conversarem, e aquilo era um bom sinal. Mas também, não queria ficar se alimentando de esperanças sem sequer conversar, uma latinha de refrigerante era uma gentileza, mas não resolvia todos os problemas dos dois. Ergueu a mão com a sacola com as latinhas de refrigerante que tinha comprado, suspirando por um momento, e em seguida puxou uma das latinhas que tinha trazido, deixando a sacola com apenas uma delas no chão, e então estendeu a mesma na direção de Didier, e com a mão livre, segurou a que ele tinha lhe estendido:
– Tivemos a mesma ideia... nenhum de nós sabe como começar uma conversa sem ser com refrigerante no final das contas. – Comentou o óbvio, que embora parecesse uma piada, foi dito sem muita emoção na voz, então não dava pra saber se o Blanco estava tentando puxar assunto ou se estava apenas sendo defensivo: -- sobre a pergunta, fisicamente ainda com os dois braços, as duas pernas... estou sobrevivendo. – Comentou o óbvio, da parte física, mas se resguardou a falar da parte emocional, desviou do assunto deliberadamente, e aquilo fez seu coração disparar um pouco mais rápido. Guiou o olhar escuro para lata de refrigerante e então se encostou no gradeado, passando o polegar pelo aro que auxiliava a abrir a lata, mas sem de fato abrir a mesma, passou o polegar em um movimento circular:
– Você chamou, e eu escolhi vir... – pausou o movimento circular, lançando um olhar notoriamente defensivo para Didier. Não sabia se queria perguntar, e nem se queria ouvir, mas estava ali, e não queria continuar fugindo, então o único caminho era continuar falando. A boca estava seca e a voz saiu morna de intensidade, talvez resultado dos remédios ou apenas do cansaço que o Blanco arrastava ao longo desses dias sobre o assunto:
– Bem... eu estou aqui...agora, me diga, porque me chamou?
Didier
Para Didier, ver a reação de Renaud a sua presença naquele prédio era difícil. Porque bem sabia que não tinha a mínima capacidade de ler como ele se sentia, especialmente quando ele tentava esconder os próprios sentimentos. Renaud não era expressivo, a não ser quando estava em estados eufóricos, ou quando tentava ser charmoso, com sucesso. Naquele momento ele só lhe parecia sério. Isso fez com que mais uma vez o seu estômago virasse de ponta cabeça. Será que aquela conversa tinha sido boa ideia mesmo?
Mordeu o próprio lábio inferior quando ele disse que não queria sentar. Talvez estivesse lendo muito onde não deveria ler, mas isso não era sinal de desconforto? Não que houvesse como aquela situação ser confortável, mas passava para Didier a impressão de que Renaud queria sair dali o mais rápido possível. Até hesitou em sair do lugar, da distância onde estava, pela própria dificuldade de Renaud de se mover. Era como se ele estivesse pondo uma barreira ali, e embora não pretendesse se aproximar o suficiente para incomodar, agora, mais que nunca, os pensamentos pessimistas e confusos na sua cabeça voltavam como se estivesse deitado em sua cama no escuro, assim como todos os dias anteriores.
Só notou de fato a sacola na mão dele quando ouviu o barulho das latinhas dentro da mesma. Nunca um barulho lhe deu tanto conforto. Engoliu em seco, dando um passo pequeno para pegar a latinha que ele segurava e terminar de lhe entregar a sua. Cada um com duas latinhas, então. Queria rir do comentário que o moreno fez, mas se nem ele tinha humor para a piada, que diria Didier naquele humor tenso dos dois enquanto pensavam quais as palavras que deveriam ser ditas.
Só quando finalmente Renaud lhe respondeu se estava bem que notou que ele certamente não estava, pois o comentário tinha sido apenas sobre seu físico. Sobrevivendo. Era como estava. E seus sentimentos? Não que esperasse diferente, supondo que conhecia um pouco de Renaud. Não que esperasse diferente, sabendo que há pouco tempo ele tinha ido para a enfermaria. Isso fez com que tremesse mais, os lábios fazendo isso de modo involuntário, embora o corpo lutasse para disfarçar seu nervosismo. Sabia do dano que tinha causado, e que esse era irreversível. Adiantava ir ali e tentar conversar? Diria que não. Mas... as coisas que Isaac tinha lhe dito e que pareciam tão óbvias lhe reconfortavam. Se fosse tão simples...
– Escolheu vir... - repetiu baixo mais para si mesmo, levando a latinha que tinha pego ao próprio abdômen, sentindo o gelado da latinha com o gelado do seu estômago. Se ele não estava ali por ser um cachorro que atendia todos os seus chamados, isso era ruim...? Ou era bom...? A incerteza daquilo tudo lhe matava devagar. – Lhe chamei por... muitas coisas.
Até parecia que não estava pensando em tudo que queria falar, porque só dele perguntar o que queria ali, lhe deu um branco na mente. Entreabriu os lábios para começar, mas não saiu nada. O corpo ficou tenso, tanto que a latinha quase escorregou de seus dedos. Segurou em tempo, mas foi um bom acorde. Franziu a testa e então caminhou apressado para a base da grade.
– Tengo que sentarme...! - falou enquanto acomodava-se sentado na base que segurava a grade, de costas para a vista do prédio. Levou a latinha que ainda estava em sua mão, a de Renaud, até a testa, para esfriar a cabeça, e a sua, colocou no chão por um momento. Um suspiro longo saiu de sua boca., mas seu incômodo não passou. – Eu não aguento... isso. Então vou ser bem direto. Eu vim... pedir desculpa. Sei que é ridículo depois das coisas que he dicho, pero reconheço que é pior não atestar que era tanta mierda. Tanta mierda.
Colocou a latinha no colou e levou a mão aos cabelos loiros, bagunçando-os na raiz para tentar ajudar a pensar, sem sucesso. Porém, achou melhor olhar Renaud, ou provavelmente ele acharia que não havia sinceridade em suas palavras.
– Eu sabia... exatamente... o jeito de falar que mais lhe machucaria. As coisas que he dicho... naquele dia, no conselho... não era aquilo que eu devia ter dito. – sacudiu e cabeça negativamente, a expressão fechada denotando que bem lembrava daquele dia. Ou ao menos achava que bem lembrava. – Eu disse... que no empece por assumir todo, pero eu esperava que você adivinhasse o que estava me incomodando. E ao invés de lhe dizer tudo, fiz como disse que ía fazer... só te machuquei. En todos los sentidos. – engoliu em seco, e então apoiou ambas as mãos nos joelhos, apertando os mesmos com as unhas longas. – Quiero explicarseló... mas você quer ouvir? É ridículo... - tentava falar com a certeza que geralmente tinha ao redor de Renaud, mas reconhecia o drama desnecessário que tinha criado naquele dia. E sabia que era tão covarde, que quando ele também soubesse, suas chances eram de sair dali com menos chances ainda de voltarem a se falar.
Renaud
O moreno mais novo mantinha o olhar atento nas expressões do loiro a sua frente, não porque alimentasse o sentimento de extrair alguma informação das reações adversas dele, que notava mas não entendia profundamente. Estava em verdade, naquele misto de sentimentos adversos e conflitantes, estava com saudades de poder olhar para ele, embora isso não ficasse claro em sua expressão. Mas, na mesma medida, sentia o buraco em seu estômago se alastrar ainda mais toda vez que o outro hesitava em falar qualquer coisa, porque não sabia onde ele queria chegar com aquela conversa, estava torcendo para não ouvir coisa pior do que já tinha ouvido, e aquilo era um medo real assombrando seus pensamentos.
Acompanhou com o olhar o gesto súbito de Didier de sentar-se ao seu lado, mas não o acompanhou sentando no mesmo muro, manteve-se parado ainda encostado ao gradeado. Então deixou que falasse, ele tinha lhe chamado para pedir desculpas? O coração acelerou, e não teve como conter a expressão com as sobrancelhas mais arqueadas e no olhar um ar de surpresa mais notório, a boca entreabriu e puxou o ar com dificuldade, estava com os lábios secos. Sabia que não era algo fácil chegar e pedir desculpas pra alguém, principalmente para alguém, “próximo”, podia mesmo se considerar próximo? A sensação era do coração pular no peito, e sentiu toda a garganta ressecar e os lábios pareciam que iriam rachar ali se movesse a boca.
Desviou o olhar de Didier por um momento olhando para um ponto vazio a sua frente, enquanto escutava que ele tinha dito as coisas de forma que “sabia que lhe machucaria”, e aquilo lhe deu uma angústia real. O amargor do estômago subiu e tomou toda sua boca, na mesma medida que sentia o corpo gelado, mais gelado do que latinha que suava em sua mão. Espiou de cima para Didier, enquanto ele largava a latinha no colo e bagunçava os próprios fios loiros, ele estava tão inquieto com aquilo. Podia supor que ele estava incomodado, que não estava “desdenhando” tudo que tinha causado. Ou seria otimismo seu, pensar que ele se importava tanto com sua pessoa? Ele não estaria apenas de consciência pesada, querendo se aliviar da culpa de tê-lo maltratado? Era um pensamento otimista ou pessimista no final das contas?
Quando ele finalmente perguntou se queria ouvi-lo explicar, a única reação imediata de Renaud foi respirar fundo, puxou o ar pelo nariz, e soltou devagar pela boca, o corpo escorregou pelo gradeado, e o Blanco se sentou na murada, como se estivesse sem energia só de começar aquela conversa. Sentia o peito doer, e levou a mão livre ao rosto, passando a mão pelo mesmo demoradamente, as pernas afastadas, e o braço com a lata estava apoiado em uma das pernas:
– ...Droga Didier...! – foi a primeira coisa que saiu de seus lábios, em tom baixo, ainda com o rosto encoberto pela mão. Jogou os fios escuros pra trás, em vão já que os mesmos voltavam a cair sobre os olhos, a expressão do Blanco, era um misto de cansaço e frustração, com as sobrancelhas franzidas de forma negativa. Ergueu a latinha suada, e passou sobre os lábios, umedecendo os mesmo, em seguida lambeu os próprios lábios, ainda não tinha aberto o refrigerante de fato, e nem sabia se queria de fato abrir, mas a sensação era como se a pele tivesse rachado em pequenas fissuras que ardiam levemente: – Eu vim até aqui pra conversar, isso quer dizer que eu espero falar e ser ouvido, da mesma forma, que eu também estou disposto a lhe ouvir... independente do que seja... -- a ultima parte saiu sem muita convicção, pois realmente não sabia se queria ter de ouvir coisa pior do que já tinha ouvido, e agora tinha ainda mais noção de que o outro podia lhe machucar mais profundamente. Se antes, sem ter uma boa definição de como se sentia em relação a Didier, a situação já lhe incomodava, quem dirá agora:
– Você disse que eu estava agindo como se tivesse esquecido que você “existia”... que tinha desaparecido em um par de semanas desencontradas, enquanto eu estava lhe jogando “charme barato” para desculpar minha ausência...– Não olhou para Didier enquanto falava aquilo, observando um ponto vazio a frente, porque não sabia se conseguiria admitir o que tinha pra dizer, encarando os olhos claros do outro. Uniu as duas mãos em torno da latinha, cruzando os dedos, e respirou fundo novamente buscando coragem:
– Bem... em parte você não estava de todo errado... afinal...
Deixou que todo o ar escapasse enquanto falava, e sentiu um peso enorme sobre os ombros enquanto estava ali sentado. Olhou para Didier, diretamente, para visualizar o estrago de suas palavras no outro, não sabia exatamente que expressão estava fazendo, só sabia que devia estar transparecendo alguma coisa. Pois sentia como se fosse faltar o ar, enquanto falava, o coração batia com tanta força no peito que chegava a doer, e o amargor no topo de sua garganta se convertia em um azedume, que sequer sabia explicar como ainda estava ali sem chorar. Claro que queria saber porque ele tinha lhe tratado daquela forma tão extrema, mas também precisava deixar claro um par de coisas que tinha ideia de que o outro não sabia, ou não tinha percebido.
Didier
Apesar de estar com a cabeça cheia, era difícil não notar a expressão de Renaud mudando para uma de completa surpresa quando disse que iria lá pedir desculpas. Entendia o porquê da surpresa, afinal, quantas vezes nos anos em que se conheceram voltou atrás com alguma coisa que tinha dito? Não tinha essa necessidade antes. Mas agora, se quisesse qualquer chance de continuar falando com Renaud, era bom que engolisse qualquer sombra de orgulho ou qualquer senso de superioridade. Já não tinha nem porque mantê-los, era óbvio para si que não tinha dado certo tentar sair por cima sendo desonesto consigo mesmo e com Renaud.
O corpo do moreno escorregou para a mureta tal como o seu, que não tinha força nas pernas para ficar em pé aquela conversa toda. Ele parecia claramente incomodado com suas palavras. Isso lhe deixava ansioso, mas de um jeito que não sabia discernir se era otimista ou pessimista. Era só um incômodo difícil de definir. Ouvir seu nome na boca de Renaud, pelo menos, nesse ponto, ainda parecia doloroso. Ainda mais quando observou o rosto dele, e notou na expressão cansada, toda a frustração que provavelmente vinha de ter de se passar por escutar seu pedido de desculpas patético.
Mas só Didier, cuja respiração começava a ficar mais curta, sabia que era ainda mais ridículo do Renaud podia prever.
Ao menos ele queria lhe escutar. E afirmou com a cabeça que queria também escutá-lo, fosse o que fosse que ele teria a lhe dizer, reafirmando com um “sí” baixo. Naquele momento percebeu o quão desengonçado era para falar dos sentimentos que eram seus, em comparação com todos os conselhos que tinha dado aos primeiranistas em seus anos de St. Clavier. Era fácil falar quando não era seu coração na linha.
Olhou para a frente tal como Renaud, buscando o que quer que ele usava de apoio para falar agora. Porém seu corpo inteiro estremeceu quando ele lhe lembrou suas impressões sobre a ausência do moreno antes da briga, especialmente porque ele concluiu que não era de todo mentira. Mas o francês não sabia todas as possibilidades que passavam em sua cabeça, e afirmar aquilo fez o coração de Didier disparar tanto que sumiu com o sangue de seu rosto. Ele tinha, em algum momento, lhe evitado? Era porque estava atarefado com tudo em St. Clavier, como tinha lhe dito na sala do conselho, ou naquele dia talvez fosse um raciocínio rápido para esconder outro motivo. Havia cansado... de estar consigo? Ou havia se agradado mais... de estar com o outro? Respirou fundo, porque percebeu que não estava respirando por um breve momento, e oxigenar o cérebro lhe fez reganhar alguma força para falar também.
Se ele já não queria estar com um homem cheio de exigências, que nem se reconhecia, que diria com um covarde, que ainda não sabia ser sua real natureza? Estando ali, não tinha volta.
– Se... estava me evitando... quiero saber o porquê... se puder dizer. Mas mesmo sem saber disso... eu já tinha... – o loiro apertou o tecido da calça com as unhas, puxando-o para perto do colo, onde descansava a latinha. – Yo fui mimado por ti. Sempre, sempre que eu chamava você estava lá. Pero de repente, você não estava mais. Eu sei... que eu estava atarefado, e você tambíen, mas eu fiquei ansioso, porque nos víamos cada vez menos, y siempre tão pouco... e... nosso tempo aqui dentro já está acabando. – sentiu a voz quebrar de leve ao lembrar daquele fato, as mãos indo até a latinha, apertando-a de leve, mas sem amassar, pois não tinha intenção de causar um acidente. – Y yo pondría ter só ficado irritado... mas... eu ouvia os outros dizerem... falarem que você estava... co... – mordeu os dentes e fechou os olhos, sabendo o quão ridículo eram suas palavras naquele momento. Era patético. – Com Peyrac...
Levou ambas as mãos ao rosto, esfregando-o por um breve momento, escondendo a vergonha que era admitir aquilo, até mais uma vez respirar fundo. Espalmou as mãos nas próprias coxas e apertou ambas com as unhas.
– Lo sé que somos diferentes para ti ahora...! Mas eu pensei que se... você estivesse mesmo trocando seu tempo comigo por tempo com ele... se... você não quisesse mais me atender... – a respiração foi ficando novamente mais rápida, um sinal de que seu coração não estava acompanhando aquela conversa de modo devido. Ou será que o modo devido era sentir tanto aquele frio por dentro das entranhas? – E no conselho... eu fui irracional... você me respondeu, quando nunca respondia.... você estava escapando os meus dedos... - a voz ficou trêmula, o corpo de Didier cada vez mais fechado naquela posição sentada, até o loiro levar as mãos até a nuca, encolhendo o corpo devagar, querendo segurar a verdade com um gesto físico quando era seu cérebro e sua língua que tentavam se organizar e serem sinceros. Precisava dizer. Já estava dizendo. Já era óbvio o quão ridículo era, tal como tinha dito. Que passo poderia dar pra trás? – Eu estava com tanto ciúme do Peyrac por estar com você... e tanto... medo... de você me deixar... que eu achei que... que eu estúpido... que... se eu lhe abandonasse, iria doer menos em mim... - juntou o rosto nos joelhos, as mãos protegendo a nuca, como um menino que tinha medo de levar uma surra. Mas não estava se protegendo de golpes. Estava se protegendo por um momento, do olhar de decepção de Renaud, com sua figura patética enrolada em uma bola, incapaz de lidar com um pedido de desculpas. - Perdóname, Renaud. Porque se dói em mim assim... lo sé... que dói muito mais... em você...
Renaud
Uma coisa era imaginar o tipo de reação que o loiro teria diante de suas palavras, outra completamente diferente era assistir aquilo bem a sua frente. Claro que imaginava que Didier nunca tinha notado determinados detalhes em seu comportamento, quem estava sempre com toda atenção no loiro era o Blanco, e não o contrário. Tomar certeza daquilo deixava o buraco em seu estômago cada vez mais notório, como se não houvesse nada dentro de si. Mas tentou afastar os pensamentos autodepreciativos da mente naquele momento. Focando sua atenção nas reações de Didier, na palidez da pele, nos olhos surpresos e nervosos, na respiração curta, e em tudo que ele fosse lhe dizer de volta.
Inconscientemente fechou a latinha entre os dedos enfaixados, sentindo que o suor da latinha tinha se misturado ao seu deixando as bandagens úmidas em sua mão. Estava nervoso, a ponto do coração pulando no peito lhe deixar zonzo, mas não tinha sentindo os olhos marejarem, e apesar de estar muito ansioso e muito nervoso, ainda estava suficientemente focado em cada coisa que o outro lhe dizia.
“e... nosso tempo aqui dentro já está acabando.”
Estreitou os olhos e prendeu a respiração por um momento e lambeu novamente os lábios, sentindo-os ásperos para sua língua, e podia jurar que o amargor em sua boca tinha se acentuado. Pensava naquele assunto sempre, incansavelmente, a ponto de ficar exausto de saber que não tinha nenhuma forma de fugir daquilo. St. Clavier estava acabando, e quando saíssem perderiam todo contato, ele voltaria para Espanha e o Blanco viveria a vida que se espera de um Blanco. Pensar sobre isso fez seu peito doer, e lembrou das palavras de seu Frater bem em tempo do sobrenome dele ser citado na conversa. Detestava o tipo de destino traçado por sua família, e queria fazer como ele tinha dito, simplesmente “não seguir”, mas não era tão simples.
Não interrompeu em nenhum momento as reações ou gestos de Didier, mesmo quando ele começou a se fechar diante das coisas que dizia, embora as palavras o deixassem mais exposto, o corpo todo reagia na contramão, e sabia exatamente como era estar se sentindo daquele jeito. Aquilo lhe deixou aflito, porque sabia que boa parte daqueles pensamentos eram conjunturas que o próprio Didier tinha tomado sem lhe perguntar sobre nada. E isso lhe deixava dividido entre estar com raiva de si mesmo por nunca ter entrado nos assuntos de seus desconfortos pessoais com Didier, da mesma forma que tinha raiva porque o loiro se incomodava mas nunca a ponto de lhe ser franco e falar diretamente. Era um sentimento de indignação e frustração tão grandes que simplesmente não conseguia ignorar, e teve de levar a mão ao peito, em um gesto sutil como se estivesse novamente pedindo um pouco de paciência ao próprio corpo, estava doendo, e estava difícil pensar:
– Dói sim... muito...! Demais até o ponto de ser insuportável... mas isso é porque eu sou uma pessoa e não um cachorro. – atestou o óbvio enquanto encarava o loiro todo encolhido ao seu lado, a mão voltando para junto da outra cruzando os dedos em torno da latinha: – E diferente do que você está pensando, o fato deu lhe evitar não é uma coisa de agora, porque eu voltei a falar com Sasha. – respirou fundo, buscando qualquer reação do outro a suas palavras: – Eu sei que o nosso tempo em St. Clavier está acabando, e eu penso sobre isso sempre, e principalmente em todo final de ano letivo, desde que começamos a andar juntos., tsc..! – O Blanco soltou o ar por entre os lábios finos, mas a medida que ia falando, as expressões iam surgindo no rosto de traços comuns: – Eu sei que todo ano passado, é um ano mais próximo de acabar...! E sempre gostei de estar ao seu lado, quase todo o tempo, exceto nesses momentos... – as sobrancelhas tremiam de leve quando o moreno falava, a respiração ficou mais evidente ao final da frase, como se houvesse um peso sobre os ombros que agora estavam curvados para dentro: – Pode achar que é o estresse das provas, pressão familiar ou tudo junto...! Não sou psicólogo então não sei dizer exatamente onde começa esse desconforto... só sei que ele existe, e é sempre pior nesse período do ano...! – e a medida que o moreno mais novo ia falando, era possível enxergar um pouco mais de expressividade além da seriedade costumeira que o Blanco sustentava: – e eu arrumava qualquer outra coisa pra fazer, desde que fosse longe de você: um congresso, uma viagem familiar, definitivamente qualquer coisa... porque eu não sabia lidar com a ideia de que no fim a gente teria de ir cada um pro lado...!
E ficava cada vez mais notório, o quão cansado o moreno estava, porque ele perdia o fôlego enquanto conversava e tinha de fazer várias pausas entre as frases:
– A diferença é que agora, você notou, porque ao invés de viajar, eu me mantive em St. Clavier, por diversos motivos de compromissos e atividades com a Academia, e notou principalmente porque voltei a falar com Sasha. – Renaud não parecia nem um pouco feliz em falar aquela sentença, e então levou a mão ao rosto massageando o espaço entre os olhos por um momento, a expressão de desgosto no rosto: – e eu não sei o que me irrita mais nisso tudo, se é o fato de você nunca ter percebido antes, o que quer dizer que: “tanto fazia eu estar por perto ou não”, ou se o fato de que dessa vez você só notou porque estava se sentindo “ameaçado”, porque estava perdendo o seu “brinquedo” para outra pessoa... ou pior... – fez uma breve pausa, passando a mão sobre a boca e respirando fundo novamente para voltar a encarar o loiro ao seu lado: – se eu tenho mais raiva de mim mesmo, por simplesmente ter aceitado e ter deixado que as coisas prosseguissem até o ponto de terminarem assim...!
Didier
Depois que tinha dito aquilo, o que ao menos achava que tinha conseguido comunicar, se perguntou se alguma de suas palavras convenceria uma alma a lhe perdoar. Porém, bem entendia que pedir perdão por machucar alguém daquela forma... seria difícil ser perdoado no fim das contas. Seria difícil que ele quisesse lhe olhar. E o silêncio enquanto esperava algum comentário de Renaud, que sempre tinha palavras na língua, estava lhe deixando cada vez mais angustiado. Crispou os lábios, pronto para vê-lo sair andando dali em silêncio, mas o corpo dele não se mexeu.
Porém, quando notou uma movimentação ao seu lado, ouviu a voz de Renaud, reafirmando, reafirmando veementemente o quanto doía ter ouvido as suas palavras aquele dia. E queria estar sentindo apenas tristeza, mas o fato dele lhe responder, e lhe responder claramente que não era um cão, algo que sabia desde sempre... a pessoa Renaud estava ainda lhe dando atenção e lhe ouvindo... isso lhe dava certa esperança de que ele conseguiria lhe ouvir um pouco mais. Ergueu a cabeça dos joelhos prontamente, surpreso, os olhos claros olhando diretamente para o moreno. Porém, sentiu o corpo todo levantar um pouco mais quando ele afirmou que aquele comportamento de se afastar não tinha haver com Sasha, e sim, era deliberado... desde... sempre? Franziu a testa em estranhamento.
Ele disse que pensava nisso há tanto tempo. Aquilo era muito mais tempo do que Didier poderia prever. E achava, esse tempo todo, que eram apenas coincidências, porque como desconfiaria, quando ele próprio não sabia ou não pensava, pelo menos não até então, que o tempo em St. Clavier haveria de acabar? E mesmo se acabasse, não tinha sido tão logo conheceu Renaud que imaginou que haveria alguma coisa em seus planos que não estava bem planejado. Apertou os lábios, sem saber como responder aquelas ansiedades do moreno que nunca tinha ouvido falar, talvez porque nunca tenha perguntado... nem se preocupado em saber... ou entender, do semblante que geralmente lhe parecia emocionado forçadamente, mas que ali, podia ler claramente, podia ler a dor e a frustração na expressão de Renaud.
Ele estava perdendo o fôlego da exaltação daqueles sentimentos. Era difícil manter o autocontrole, era difícil não gritar, não bater e não xingar, porque era um pouco da natureza dos dois. Mas estavam só tentando conversar, conversar e resolver, mesmo em meio a sentimentos tão turbulentos. Era um sinal de sua maturidade? Porém também seria um sinal se notasse na fala de Renaud algumas pendências de seu próprio tratamento. Ele parecia reconhecer que era uma pessoa, mas... algo no que ele dizia e o que pensava não estava certo, não encaixava. Isso fez com que Didier franzisse a testa.
– Lo sé que fui acomodado. Eu queria ter percebido antes... eu também queria ter evitado isso... pero... o que éramos era fácil de lidar, e você estava sempre lá. Se... se eu mudasse algo... eu não saberia lidar com a incerteza... por que sou mais covarde do que pareço...! Eu sou menos... confiante... do que pareço...! – hesitou, uma das mãos ainda na nuca, o rosto quente, mas o corpo ainda se segurando firme com os pés plantados no chão e a posição assumida desde o começo daquela conversa. – Mas eu sei desde o começo que você não é um perro... e también não estou dizendo que você é um juguete! – respondeu, a voz afirmando aquilo como se fosse óbvio, apesar de soltar o ar de modo exasperado. – Eu não perderia tempo pedindo perdão para um objeto, Renaud, é porque você é uma pessoa e que eu te machuquei que eu pedi para que viesse!
Didier tentou tomar fôlego, mas não sabia mais como respirava. Compreendia porque ele dizia aquelas coisas, em nenhum momento, além da briga dos dois, tinha admitido aquilo, apesar de que era óbvio. Mas para o moreno talvez fosse importante deixar ainda mais claro porque estava ali, além de pedir desculpas. Tinha tanto a falar e a ouvir, tanto a esclarecer. Então era melhor começar a fazer isso. Esclarecer.
– Nunca he percebido sua ansiedade antes porque... eu não sei... nem sempre você foi assim pra mim...! Primeiro você foi um fregón, depois pegajoso, algumas vezes foi um juguete, sí... mas eu não tinha notado que há algum tempo eu preciso de você, comigo... você é uma necessidade... você é meu companheiro de escola, de briga... é meu melhor amigo... talv... talvez seja... meu único amigo de verdade... mais até... – Didier reduziu o ritmo acelerado de sua fala exasperada gradualmente, a garganta ficando seca, o rosto inteiro doendo tal como o peito, o que fez com que levasse prontamente as costas da mão ao nariz e a boca, cobrindo-os, tentando se acalmar, porque não queria parecer ainda mais desesperado do que estava, ainda mais confuso... percebendo pela primeira vez, talvez, suas próprias impressões sobre Renaud. – Nós criamos esse jogo de perro e dono... e porque... por- porque um perro é sempre fiel... eu relevei... que eu também precisava cuidar de você... e podia só ter dito... preguntado... se você precisava de mim... o que pretendia fazer ao sair daqui... se... s- - a voz começou a falhar novamente, a dor insuportável tornando seu corpo todo pesado, mas principalmente seu rosto. Sentia que estava de dentes cerrados, tenso, mas não conseguia separá-los se não falasse: – Se queria dormir no meu quarto... era só uma pergunta...
Quanto mais falava, mais lembrava das palavras de Isaac. Bem tinha dito a ele que não sabia ser nada além de um dono exigente. Pensava nas coisas que tinha feito Renaud passar, e tudo lhe trazia uma amargor na língua, tinha maltratado o suficiente o corpo a mente dele por sua própria ignorância.
– Eu achava... que St. Clavier seria um inferno... e é... mas... – a expressão de Didier claramente denotava que estava segurando ainda muita coisa dentro de si, os olhos azuis e os lábios entreabertos que tentavam retomar certo ritmo ao respirar divagaram, a língua enrolando, uma expressão verdadeira de dor aparecendo em seu rosto antes de falar. – A veces... eu me pego pensando... “e se eu não voltasse”... e se penso mais... eu não quero voltar... – levou um mão sobre a outra, cruzou os dedos e colocou-os no colo, apertando os polegares com força. – Eu não quero que St. Clavier acabe... – já precisava daquela latinha de refrigerante mais que qualquer coisa, mas ignorou-a por hora, soltando as mãos e agarrando uma delas na grade ao seu lado, criando coragem de voltar-se para Renaud, o corpo todo reagindo no impulso: estava gelado, mas tudo fervilhava. Aquele peso que sentia sobre os ombros era o peso da verdade? – Mas antes disso... eu quero falar com você de novo... eu não quero fugir de você... dói demais...

