[Drive] Estilhaços [Didier; Renaud]
#2
Renaud

Sabia que ir conversar com Didier era mexer em todas as coisas mal resolvidas, em todas as coisas que atormentaram seus pensamentos, e desencadearam em si parte dos momentos mais assustadores de sua vida. Mas também sabia, que precisava daquela conversa, se quisesse continuar, não importava exatamente pra onde, mas estar travado em diversas coisas que só podia imaginar em como o outro se sentia, era algo que lhe deixava doente. Tinha tanto medo de descobrir que não valia nada, que tinha se submetido a tanta coisa, tanta coisa que agora ao notar toda a exasperação de Didier, podia quase acreditar que ele realmente se importava com o que acontecia ou deixava de acontecer consigo. Mas diferente do que imaginava, descobrir que o outro sempre soube que não era um “cão”, que não era um “objeto”, ou uma “coisa” que tinha de ser altamente eficiente todo o tempo, lhe deu um desgosto enorme.

“então porque eu tive de passar por tanta coisa que eu não queria?”
[...]
“Se ele sabia todo o tempo, que eu não era uma coisa, porque me tratou como uma coisa?”
[...]

Ser covarde não pareceu ser uma justificativa suficiente, muito menos quando ele lhe afirmou que tinha se tornado seu melhor amigo dentro da instituição. Não faria esse tipo de coisa com nenhum de seus comparsas de gangue: Law, Jhon, Lizerd, Michel, Jonah, não trataria eles como coisas, porque sabia o tipo de pessoas que são, todos meio destroçados pela vida, mas ainda são seus comparsas. Não pediria determinadas coisas a Lilú, ou mesmo para Isaac que eram seus amigos mais próximos na sua convivência atual. O máximo que tinha feito de ato completamente estúpido e egoísta era ficar distante, como tinha feito com Sasha, ficado o mais distante possível porque não tinha nada que pudesse fazer sobre o assunto. A culpa também era sua, por ter aceitado, por nunca ter reclamado, por sempre ter se orgulhado de algo que em tese, muitas vezes lhe incomodava mais do que lhe agradava. E aquele montante de sentimentos conflitantes de indignação e frustração tudo junto e misturado, lhe acertaram como uma machadada na cabeça.

[...]
“porque ele fez isso comigo esse tempo todo?”
[...]
“porque eu fiz isso comigo o tempo todo?”
[...]
[...]
[...]
“esse é o momento de perguntar... porque?”

E era impossível não sentir o peito doer diante das expressões de dor que o outro estava fazendo, porque já o tinha visto várias vezes, encolhido no escuro do próprio quarto, fingindo não estar chorando, porque estava muito dolorido. E saber que ele estava naquele estado em parte por culpa sua, lhe doía, lhe fazia parecer a mãe desnaturada do próprio, que só o fazia sofrer. Mas Renaud, estava incrivelmente machucado e magoado, não conseguia simplesmente ser complacente como sempre era, não conseguia colocar os sofrimentos de Didier acima dos seus próprios, porque aquilo era desonestidade consigo mesmo, com todo o esforço que estava tendo pra comer de manhã ou ter forças pra levantar da cama. Ele não era o único com problemas, com cicatrizes profundas e com dores todos os dias.

[...]
“eu estou preocupado, eu não quero vê-lo sofrer assim... mas...”
[...]
“dói em mim também... e eu quero cuidar dele... mas como? Se eu não consigo nem cuidar de mim!”
[...]
[...]
[...]
“Eu sei quais são os machucados dele... mas ele não sabe todos os nossos machucados...”

Não tinha como negar os fatos, St. Clavier não era um paraíso, longe disso, era a prova comprovada de que não queriam nem Renaud por perto, muito menos Didier que viera de mais distante. Era uma forma de encarcerar os dois, e deixa-los sob algum controle, por motivos diferentes, mas para a mesma finalidade.

“... e se eu não voltasse...”

Aquela frase pegou o Blanco de supetão, porque ele lembrava de todas as conversas em que Didier sempre ressaltava que queria terminar st. Clavier bem, pra poder voltar para casa, para poder cuidar da mãe ingrata dele. Voltar para Espanha, quilômetros de distância da França, longe de si, e de sua convivência. E se ele tinha mudado de ideia, se ele pensava de outra forma, porque não tinha lhe dito? Mas se tivesse dito, aquilo mudaria em quê? Estaria construindo toda a sua carreira e vida baseado nas expectativas com Didier? Então teria a mesma sensação que tivera na sala de estar quando sua mãe lhe disse que era “decepcionante”. O pensamento lhe fez engasgar, sentiu como se tudo que tinha no estomago quisesse sair, mas conseguiu conter a vontade iminente de por tudo pra fora. Repousou a palma da mão sobre a boca, tentando por em ordem os pensamentos e sentimentos que lhe atormentavam, a cabeça martelava em dor de cabeça, e parecia em sincronia com o coração que batia forte no peito. Todo o corpo doía.

A última sentença de Didier, exasperada, com o corpo todo virado em sua direção, fez com que todo o corpo do Blanco se arrepiasse. Ele tinha sentimentos fortes por si, aquilo estava cada vez mais claro, como também o fato de que o tinha feito sofrer de forma profunda. Mas também estava sofrendo, estava incrivelmente machucado, de diversas formas, com coisas que não tinha pensado ou não tinha interligado, só sabia que tudo lhe doía naquele instante. Renaud afastou a mão dos lábios, a expressão se contorcendo em uma de dor e frustração, os olhos marejaram, mas as lágrimas não caíram:

– E o que você espera de mim Didier…? – a voz foi dita em tom baixo, verdadeiramente melancólico, vindo do fundo da garganta. O Blanco encarou longamente o loiro e respirou fundo, agora guiando o olhar para a latinha em sua outra mão: – Você espera ouvir que eu lhe desculpe? Que eu lhe perdoe? Eu queria poder dizer isso... mas eu não consigo... porque isso seria injusto comigo mesmo...! – O moreno mais novo levou a mão livre aos olhos cobrindo-os por um momento, enquanto mantinha os ombros curvados pra dentro: – Eu não consigo só te perdoar... eu gosto tanto de você! Passei por tanta coisa que eu não gostaria de passar... só pra poder ficar por perto, com a ideia de que se eu não fosse bom o suficiente você iria me jogar fora... como a minha mãe faria... como a minha família faria... – a voz falhou por um momento e precisou respirar fundo, os olhos ardendo escondido por baixo da mão: – pra você vir aqui, e me dizer que já sabia que eu não era um cão, que eu não era uma coisa.... então me diga... – o Blanco tirou a mão por sobre os olhos avermelhados, marejados já na iminência de chorar, mas sem de fato derrubar uma lágrima:

– Porque você continuou? – mas não parou só na pergunta, a expressão se contorcendo em raiva e decepção: – Porque simplesmente não falou comigo? Você disse que eu sou seu melhor amigo, mas que tipo de amigo faz isso? Eu não faria isso com Isaac ou o Sasha ou qualquer um dos caras do bando...! – estendeu a mão a frente, como se as pessoas que estava citando estivessem bem ali, mas o Blanco não conseguia elevar o tom de voz, só ficava mais e mais claro, o quão frustrado o rapaz estava: -- lhe dói, e ver você assim me dói também... porque eu já vi você chorar assim várias vezes no escuro, por causa da ingrata da sua mãe... que lhe largou aqui... e eu me sinto fazendo a mesma coisa que ela... Você acha que isso me deixa feliz? Você acha que eu fico bem com isso? Eu não fico! Eu não estou! Eu estou péssimo com tudo, e não é só você, é com tudo! TUDO!... definitivamente tudo…!

Respirou de forma intensa, e esfregou os olhos evitando que começasse a chorar, a garganta estava queimando e o corpo estava completamente gelado e tremendo de leve, o que ficava mais evidente nas mãos. Nunca tinha ficado tão exposto assim na frente de Didier, e não fazia ideia do que ele iria fazer depois, se iria embora, se só aceitaria ou se continuariam conversando, ainda tinha tanta coisa pra falar, mas já estava tão exacerbado, queria só conseguir resolver tudo e ficar bem de novo. Estava farto de estar se sentindo mal.

Didier

O corpo inteiro de Didier tremeu ao ver o rosto de Renaud se contorcer em uma expressão de choro. Uma expressão de choro, que para o loiro deveria ser algo inédito, já que mesmo surrado, mesmo frustrado, mesmo feliz, ele simplesmente não tinha feito essa expressão em sua frente. Porém ver Renaud tão vulnerável, especialmente depois de pedir para voltarem a se falar, fez com que Didier percebesse que talvez não houvesse chance alguma disso acontecer. Encarou-o, aos poucos a expressão exasperada mudando para esconder um pouco de sua dor, da que sentia no topo da garganta e deixava seu rosto todo quente e a mente vazia. Como podia demonstrar sua dor se a de Renaud era tão mais intensa que a sua?

“E o que você espera de mim, Didier...?”

Tinha ido até lá com muitas expectativas. Talvez nenhuma boa, pois diferente de Isaac, que colocava tudo no preto e no branco, sabia que não seria tão fácil recontactar Renaud, que pelas coisas que disse a ele, dificilmente ele iria querer olhar em sua cara. E não tinha sido tão diferente do que imaginava, já que tudo que ouvia, no fim das contas, lhe indicava que ele só queria não ter mais que ouvir aquelas coisas dolorosas de si. Nesse momento, reconhecia o quanto o afetava, e já sabia, o quanto o afetava, mas como queria que ele não sentisse tanto por uma pessoa confusa e covarde como era. Será que só sabia se relacionar com os outros causando dor? Já tinha sido egoísta com as crianças que tinha decidido cuidar, com Isaac, com sua mãe, e agora vendo Renaud, percebia o quanto prezava a conveniência dos relacionamentos em que sairia ileso. A diferença é que não estava ileso. Doía, doía muito, em todo seu corpo, de um jeito que não sabia nem de onde partia aquela dor.

Mordeu o próprio lábio inferior e franziu a as sobrancelhas para dentro, e diante das perguntas pontuais de Renaud, se esperava ser perdoado, abaixou a cabeça e sacudiu negativamente de modo veemente. Porque sabia que não tinha como isso acontecer. Somente se voltassem aquele status de cão e dono, só então sabia que seria perdoado, ou melhor, que todas as coisas horríveis que fez seriam ignoradas. Mas não era isso que queria, pois havia sido apresentado tantas instâncias melhores para o que os dois poderiam ser... que estavam, claramente, fora de seu alcance, definitivamente.

Ergueu a cabeça de súbito quando ele passou a explicar sobre tudo que tinha feito para estar consigo sentiu um buraco se abrir devagar dentro de si. Aquele rosto, aquelas palavras, aqueles sentimentos. Eles eram tão dolorosamente familiares que seu corpo inteiro passou a tremer. Os olhos azuis se abriram de surpresa, e não podia desafixá-los do moreno desesperado a sua frente, aos poucos percebendo por correlação que o mal que tinha feito tinha sido muito, mas muito mais profundo do que simplesmente jogá-lo fora com palavras duras na sala do Conselho Estudantil.

Por que tinha continuado com aquela farsa instituída de cão e dono? Era isso que ele queria saber? Por que tinha feito tanto mal a ele? Sabia achar aquela resposta por si mesmo? Ele estava perguntando porque Didier era uma pessoa tão horrível, mas não sabia fundamentalizar aqueles sentimentos, talvez não soubesse explicá-los nunca. Levou a mão até a têmpora, sentindo-a tremer contra seu rosto, uma dor de cabeça lhe atingir de súbito pois segurava, com todas as forças que tinha, as lágrimas em seus olhos, que estavam cada vez mais vermelhos, mas que, assim como as de Renaud, não saíam. Não poderiam sair. Sua respiração, já acelerada, ficou cada vez mais sonora, a medida que ele prosseguia, como se tivesse corrido uma maratona, mas esteve sentado esse tempo todo.

Franziu a testa em reação automática quando ele mencionou a sua mãe, dizendo, com todas as letras, que ela era uma ingrata que tinha lhe abandonado ali. Levantou a mureta e ficou de pé, até esquecendo a latinha de refrigerante em seu colo, que caiu no chão e por pouco não estourou. Mas Didier não tinha vontade alguma de rebater aquele comentário e apenas fechou uma das mãos em volta do próprio abdômen, a expressão de raiva tremendo e várias vezes fazendo parecer que iria chorar. Até abriu a boca, mas nada além de uns ruídos baixos saíam. O loiro passou a outra mão no rosto. Estava chorando? Não, estava seco. Seus olhos estavam marejados, mas seu rosto estava seco. Mas ele sabia dizer quando estava chorando, mesmo quando não estava. Por que foi diabos que esse tempo todo não conseguiu dizer todas as vezes em que Renaud estava chorando, quando não estava?

Esse tempo todo, tudo que queria era crescer e ser forte como sua mãe. Queria se vestir como ela, falar como ela, ser firme como ela, mas... era exatamente igual a ela, e agora queria poder agarrá-la pelo pescoço, ou se pudesse, se agarrar pelo pescoço e apertar por todos os defeitos que não percebia. Que não eram dela. Eram seus, porque era cria dela, ou porque era sua própria pessoa. Cobriu a boca com a mão, mas queria tanto falar, e repetir, as mesmas palavras de Renaud. Porque para Didier, por que raios era tão normal brigar com alguém ao invés de conversar? Ou dormir com estranhos? Ou impor obediência por violência? Ou sentir tanto medo de ser jogado fora? Ou machucar antes de ser machucado? Ou... ou... ou por que tinha feito aquilo tudo, como se não bastasse, com alguém que já tinha tanto medo de ser abandonado, com alguém com tantos traumas, com alguém, que assim como a si mesmo, precisava de alguém que também lambesse suas feridas ao invés de terminar de abrí-las?

Sentiu, ao piscar, que uma lágrima caiu do seu olho. Prontamente, como se aquilo fosse algo estritamente proibido, enxugou as bochechas e os olhos com ambas as mãos, sentindo-os arder, da força que fez com a palma da mão, os olhos ainda mais avermelhados.

– Não... não... não, não, não...! - se negava a chorar na frente dele, porque sabia que ele queria chorar e não o fazia. Na frente da pessoa que tanto tinha lhe machucado. Que direito tinha de fazer o mesmo, depois de tudo? Aos poucos, tal como não tinha força para manter aquele diálogo de pé, jogou o corpo para trás e sentou no chão mesmo, assim se pondo em um lugar abaixo de Renaud, pois era ali que deveria ficar se quisesse falar qualquer coisa. – Eu faria... eu faria... eu fiz... tanto mal... pra você... pra vocês... porque... eu não sou o Isaac... nem o Sasha... eu sou ingrata. Não... eu sou ingrato.

Ergueu os olhos claros para Renaud, não sentindo vontade de levantar dali, mas sentindo uma vontade imensa de abraçá-lo, pois era a única coisa que sabia que funcionava bem em si, que os abraços geralmente acalmavam as pessoas. Embora seria pura crueldade de si fazer isso, quando também era porque ele chorava.

– Mas eu... não sei porque eu faria isso... e queria te dar uma resposta, mas eu não sei... eu não sei porque... eu não percebi antes que... não era normal... mesmo que... mesmo que a gente risse... e mesmo que... a gente cuidasse dos ferimentos um do outro... e mesmo que... tudo parecesse normal, que não era normal... e que não era só isso... que seria suficiente pra deixar pessoas como eu ou você... bem. – a voz escapou trêmula e cansada. Podia entender agora verdadeiramente porque não poderia ser perdoado. Podia entender, verdadeiramente, agora, porque não conseguia perdoar quem também lhe fez tanto mal. – Peço desculpas... por ter te tratado tão mal... relevado que você também tinha suas vontades, e que não merecia, a despeito dos meus problemas... pisar em cima dos seus, Renaud. Porque não sou tão idiota a ponto de não ter notado, esses anos todos, que você não tinha... problemas. Mas... eu podia ter feito mais... eu podia... podia não ter acumulado neles... – Didier colocou os pés no chão e apoiou o cotovelo no joelho, aproveitando para ter um lugar onde encostar a testa que latejava. – Eu não mereço seu perdão... eu não vim atrás dele... só... precisava retratar... o que disse... mas não sabia que era tão difícil retratar...tudo... tudo que eu fiz... e pior saber... que eu não tenho uma resposta pra algo que deveria ser... tão óbvio... – olhou para o moreno, apertando os lábios mais uma vez apertados, a expressão de choro que ía e voltava com a expressão de cansaço, e um longo suspiro de Didier. – Eu queria... ser normal... ser... alguém que poderia... - fechou os olhos por um instante, lembrando de como Isaac tinha descrito os dois, e a voz ficou presa no fundo da garganta. – ... ter sido seu... amante... ou... que saberia... te amar... de um jeito... que não fosse tão egoísta... - sentiu que segurava as lágrimas, mas era difícil até falar. - Eu vou aceitar... o que você disser sobre tudo que te fiz... porque sei que você não vai mentir... sobre o mal que eu te fiz... e nem... sobre o que você sente... e sobre não me perdoar... mas eu espero que aceite, e eu vou bater o pé... pra que você ouça... – a voz ficava cada vez mais baixa e chorosa, a expressão parecendo ditar o sentimento de Didier, além das lágrimas, que não caíam. – Que apesar de ter te tratado... como un juguete... o como un perro... que eu te amo muito, Renaud... isso... é meu sentimento... e errado como eu tenha mostrado... eu não peço desculpas... por ele.

Só não queria se sentir a pior pessoa do mundo dizendo isso naquele momento. Mas se não havia chances de voltarem a se falar, de ser perdoado, de ser uma pessoa melhor, que ao menos dissesse algo ali da qual não se arrependeria.

Renaud

Renaud estava verdadeiramente abalado, mas também não imaginava que a conversa fosse ter qualquer outro efeito que não mexer em um montante de sentimentos, que ainda estava aprendendo a lidar, a reconhecer, a propriamente se deixar sentir. Mas permitir que aquela parcela de sentimentos saísse do fundo de sua mente, era um processo muito doloroso. Nas seções na sala do Dr. Vlahos não era fácil confrontar, na companhia de Sasha não era fácil de falar, e sempre que voltava aquele terreno de emoções era doloroso. Porque pra precisar concertar isso tinha de doer tanto? Se sentia um garoto de catorze anos de novo, que pensava saber como eram todos os tipos de dores que existiam no mundo, até ser apresentado a outro nível de sofrimento, e só então perceber que existem tantas, mas tantas formas de se machucar alguém profundamente.

“Porque tudo tinha de ser dessa forma?”
[...]
“Porque nós tínhamos de nos machucar tanto no processo?”
[...]
“é realmente normal sentir-se assim, todo o tempo?”
[...]
[...]
[...]
“se você sente então é normal...”

E não esperava outra reação do loiro quando citou a mãe dele na conversa, esperava em verdade apanhar dele, afinal tinham começado aquele relacionamento estranho com uma surra, justamente por causa da mãe dele. Seria no mínimo tragicômico se acabassem aquele relacionamento com uma surra, devido a mãe dele ser citada de novo. Mas dessa vez não era um garoto de quinze anos simplesmente xingando uma mulher que desconhecia. Sabia em verdade, que embora o loiro fizesse todo o possível para ser o filho ideal para ela, de todas as vezes que Didier tinha ido receber ligações da mãe, não havia uma única vez que se lembrasse que ele não tivesse ficado abalado.

Porém, na contramão do que imaginava, o loiro não lhe bateu, embora pudesse ver no punho cerrado, que a força para tal estava ali, ele não o fez.

“porque?”
[...]
“Ele não vai defender a mãe?”
[...]
“ele não vai me bater?”
[...]
[...]
[...]
“E porque ele bateria se é somente a verdade?”

Para a surpresa do Blanco, ao invés de despojar sua raiva sobre o moreno mais novo, Didier voltou-se novamente para si mesmo, caindo sobre os joelhos como se a força para sustentar suas pernas tivesse sido apenas uma reação automática do corpo, e não algo real. Tão logo veio, se esvaiu. Pensou, jurou que o tinha visto chorar, mas o loiro não estava, as expressões dele iam de dor a tristeza profunda, sabia reconhecer aqueles sentimentos em si mesmo, e sabia reconhecer os mesmos em Didier, muito embora, os dois estivessem mais expostos do que jamais estiveram um na frente do outro.

A dor de cabeça ainda lhe cortava da nuca até a frente, como se tivesse sido acertado ali, com algo forte o suficiente para lhe atordoar, se sentia todo o corpo gelado como se fosse incapaz de se mover, diante do que o loiro lhe falava. Ele não estava fazendo muito sentido, mas sabia exatamente como era estar naquela posição, de não ter as respostas, no final das contas, Didier estava tão perdido quanto a si mesmo. Ele não tinha como lhe dar uma explicação, porque nem ele sabia o que estava acontecendo ou como as coisas se deixaram chegar onde estavam. Aquele sentimento fez sua mente latejar ainda mais, porque se conseguia se enxergar na confusão de Didier, aquilo lhe atormentava também... porque não podia ser para ele, o que por exemplo Sasha era pra si. Porque não estava conseguindo ajudar a si mesmo, como faria isso por Didier?

Mas definitivamente sentiu o coração pular no peito e a respiração travar quando ele citou que queria que fossem “amantes”. E diferente do que imaginou, saber que ele lhe amava, não foi uma revelação que lhe deixou imediatamente feliz. Não sabia discernir nada do que estava sentindo. Tudo, tudo estava misturado ali.

[...]
[...]
[...]
“É Frustração por ele não ter dito isso antes.”
“Receio se é realmente verdade. Afinal ele sabe mesmo o que é amar? “
“Medo de não ser capaz de devolver mesmo ele não merecendo. “
“E principalmente Indignação, porque que tipo de amor faz uma pessoa sofrer tanto no processo? “
[...]
[...]
[...]
“Nós precisamos disso. Então, vá em frente.”
[...]
[...]
[...]

Não que pudesse conter a expressão aquela altura da conversa, os olhos escuros estavam vidrados na figura do loiro, todo encolhido, daquela forma tão miseravelmente frágil. E apesar de tudo lhe doer por dentro, a memória correu pra anos no passado, quando viu Didier chorando no quarto escuro por causa da mãe dele, tudo de novo, do sentimento que tivera de que poderia acalma-lo de que poderia cuidar dele, de que era capaz de ser pra outra pessoa um ser confiável um porto seguro.

Sem qualquer controle as lágrimas caíram, a respiração ficou curta, porque não tinha como conter aquele montante de sentimentos conflitantes, a muitos dias não sentia como se pudesse ter qualquer controle sobre si, como se pudesse prestar qualquer apoio a ninguém, nem a si mesmo, quem dirá para outra pessoa. As lágrimas desciam pelo rosto, fazendo caminho pelo queixo até o chão:

– Didier... Eu não posso resolver os seus sentimentos... eu não posso fazer isso por você... eu mal dou conta dos meus.... mas... – a voz falhou e saiu com notório tom de choro. O Blanco deixou a latinha de lado e desceu da mureta sentando-se no chão também, pra ficar de igual pra igual com o loiro, estava cansado de ficar balizando quem era maior ou melhor, ou quem era mais ou menos merecedor. Renaud passou as costas da mão com bandagens sobre o rosto, que ficou prontamente vermelho, mas não conseguiu parar de chorar, as lágrimas caindo, a respiração acelerada. Mas buscou respirar fundo, puxando o ar pra dentro dos pulmões, porque precisava juntar toda a força que tinha e encarou o loiro a sua frente, levando as duas mãos ao encontro do joelho dele, em um toque leve, com os dedos trêmulos, queria passar mais certeza no que estava fazendo, mas estava apenas fazendo o possível:

– Eu aceito as desculpas...! Não têm como eu não lhe desculpar, quando eu também amo tanto você...! -- o Blanco fez uma pausa porque queria que Didier lhe encarasse de volta, não queria abraça-lo queria apenas tocar nele e saber que aquilo era real, que de fato estava falando isso para um Didier que existia de fato. E então apoiou a palma das mãos no joelho do outro, as mãos suadas, a bandagem úmida, as mãos trêmulas, a expressão ainda dolorosa, mas com alguma determinação:

– Mas eu quero que você entenda... que bote nessa sua cabeça... que só o fato de gostar, ou de “amar” não resolve tudo! – não sabia exatamente onde aquilo iria acertar o loiro, mas sentia que não era o momento de resguardar o pensamento, era o momento de falar, todas as coisas, por mais dolorosas que fossem. Porque não era mais um garoto de catorze anos, sabia muito bem que doía, e iria continuar doendo se não conversassem, porque sabia que não falar sobre, também não resolvia. Porém, sabia que acima de todos esses sentimentos negativos, tinha tido um vislumbre, uma fagulha de sensação como se pudesse mudar alguma coisa com palavras, como se pudesse ajudar Didier a mudar alguma coisa nele, porque palavras estavam lhe ajudando a melhorar. E precisava continuar acreditando que tinha como melhorar, e se aquilo era verdade, então por mais que doesse falaria, porque aquilo podia ajudar o outro em alguma coisa:

– Só amar não é suficiente... – o Blanco falou aquela sentença com um gosto amargo na boca: – Se somente “amar” fosse o suficiente nós teríamos dado certo muito antes...! – porque na verdade nenhum dos dois sabia direito como era amar, estavam num processo mais auto destrutivo do que de fato ajuda mútua, afastou as mãos de Didier como se precisasse dar espaço pra que ele digerisse a ideia, e levou as duas mãos ao rosto tentando conter as lágrimas:

– Entenda, nós não estaríamos aqui, machucados e magoados, tentando falar sobre coisas que sequer sabemos nominar... não é só culpa sua... ou só culpa minha... ou das circunstâncias que nos colocaram aqui... é porque nenhum de nós dois sabe como amar... eu fiquei me anulando... ao ponto que eu estou nesse “estado” – apontou pra si mesmo, sem deixar claro que “estado” era aquele. O loiro poderia entender como exaltado, quando e verdade o Blanco se referia a estar doente: – E você sequer consegue olhar pra mim enquanto fala que me ama... você precisa de ajuda Didier...e eu sei que você não gosta de ser ajudado, que não gosta de ser fraco... mas se você não gosta de como estar agora, de como as coisas estão... você tem de parar de abaixar a cabeça... tem de parar de se esconder... porque é isso que torna as pessoas covardes...!

O Blanco puxou o ar com força como se estivesse ficando sem fôlego de falar aquelas coisas, mas precisava continuar, se parasse de falar, não conseguiria terminar: – e é uma ajuda que eu não tenho condições de lhe dar... eu não posso mais ter erguer sozinho... eu queria poder fazer como sempre, lhe abraçar no escuro e lhe contar uma história... pra você esquecer que está no escuro...! Afugentar seus medos...! – a voz falhou e as lágrimas irromperam com mais intensidade, um choro copioso e silencioso: – queria dizer que vai ficar tudo bem... mas...mas sou eu que estou com medo de ficar no escuro agora...!

Era patético dizer pra alguém ter força de encarar os próprios medos, quando estava tão assustado também. Mas queria que aquelas palavras fossem o suficiente pra que Didier levantasse a cabeça, pra que buscasse alguma força pra ele mesmo, porque embora lá no fundo tivesse aquele sentimento de querer cuidar do outro, sabia, que não tinha condições de fazê-lo. Não podia se anular mais, não podia simplesmente dizer que iria fazer, quando o próprio Blanco estava tão necessitado de ajuda também. Queria mas não podia, mas mesmo dentro do seu limite emocional, ainda estava tentando... Não sabia se era a coisa certa a fazer ou a dizer, só não estava baixando a cabeça, ou pelo menos acreditava não estar baixando a cabeça, porque não queria ser covarde consigo mesmo e nem com o loiro, por mais que doesse, preferia tentar falar... e como era difícil falar tudo aquilo.

Amar deveria ser mais fácil e menos complicado.

Didier

O que tinha acabado de dizer? Estava se perguntando isso, e os últimos dois segundos repetiam incessantemente em sua mente, mas o barulho de sua voz era só ruído, pois estava confuso e cansado e dizendo coisas sobre as quais não fazia ideia, mas eram seus pensamentos, sem filtro, sem reflexão, impulsivos e impensados e dolorosos. Eram eles sendo despejados em Renaud ali o tempo todo. E eram honestos também. Tão honestos que não queria mais pensar sobre quais eram, o que tinha deixado aberto para o outro, o que sua boca tinha se dado o luxo de por em alto e bom som. Tinha medo que tivesse dito que só piorasse a situação dos dois. Até mesmo o que lembrava, por alto, ser uma expressão singela do que sentia por Renaud. Se... se isso machucasse nele, se isso apertasse o gatilho da ira dele, lhe restava sofrer, o que fosse. Era só assim que sabia pedir desculpas.

A voz de Renaud, que antes parecia frágil a ponto de quebrar, agora estava trêmula, arrastada, como a respiração curta e alta dele. E Didier, que não queria olhar para nada além do escuro entre seus braços, ergueu o rosto e encontrou o rosto de Renaud cheio de lágrimas. Engoliu em seco, pego pela imagem que não conhecia, como se aquela fosse outra pessoa a sua frente, mas se fosse, não sentiria como se estivessem torcendo-lhe por dentro, apertando firme a boca do seu estômago, lhe fazendo passar muito mal. Sentiu os dedos moverem-se em resposta, mas não os tirou do entorno de seu corpo. Não se sentia no merecimento de tocar Renaud de modo algum, mesmo que se sentisse mal, tal como ele. Embora... nunca como ele, que já não conseguia conter aquela tristeza viceral que lhe escapava em lágrimas.

Como ele poderia dar conta dos seus sentimentos? Nem Didier dava conta deles, certamente não pediria isso de Renaud. Mas vê-lo sair da mureta para chegar mais perto de si, ficando, finalmente em sua mesma altura, a angústia lhe apertou um pouco menos que antes. Não que estivesse salvo, mas... ao menos ele ainda conseguia chegar perto de uma pessoa tão asquerosa quanto sabia ser. E mais que isso. Conseguia tocar seus joelhos. Eram só seus joelhos, mas era um toque. Era um toque da mão áspera, o outro das bandagens, mas eram toques. E ele estava ali, a sua frente, de verdade, ouvindo todas aquelas verdades dolorosas e percebendo que pessoa horrível era.

Mas ele lhe desculpava. E ele também lhe amava.

Aos poucos, a expressão cansada tornou a se retorcer, os dentes cerrados e os olhos também, e a respiração profunda, tentando conter aquele aperto intenso em seu peito. E como se reafirmasse que estava ali, e estava mesmo dizendo aquilo, Renaud tornou mais presente o toque em seus joelhos. E embora não quisesse olhar para ele, a pausa e a pressão firme dos dedos trêmulos dele em seu corpo lhe obrigaram a encará-lo de volta, os olhos azuis marejados, os lábios trêmulos cheios de expectativa. Mas entendia por aquela expressão que era impiedosamente triste dele, por mais que fosse dele, e por mais que fossem palavras e mãos encorajadoras... entendia que não era porque ele lhe desculpava por seus erros que tudo de repente voltaria ao normal. O que, nesses anos todos, tinha sido normal entre os dois? Como poderiam voltar a ser o mesmo um com o outro se serem o mesmo um com o outro tinha desencadeado isso? O calor lhe apertava cada vez mais a garganta.

E as palavras de Renaud foram tão certeiras que engasgou um soluço alto no topo da garganta, a expressão desconfortável, os olhos azuis desviando por um instante para outro lugar para que pudesse conter a vontade de, tal como ele, chorar. Queria tanto chorar. Estava prestes à, mas segurava-se com todas as forças. E também com todas as forças, respondeu com um maneio discreto de cabeça que “sim”, que entendia o que ele estava dizendo. Que se amar resolvesse tudo, não estaria ali. Que se amar resolvesse tudo, não teria aquela conversa. Que se amar resolvesse tudo, teria aprendido a ser um namorado de verdade e dado a Renaud tudo o que precisava antes de ter que ouvi-lo lhe ensinar que não bastava aquela merda de amor para que dessem certo.

E ele seguiu lhe explicando tal como a resposta dele lhe preencheu a cabeça com todas as circunstâncias que levaram os dois até ali naquele dia, e que levaram os dois a mentir e a se anular, a estarem em negação sobre o que queriam de verdade. E se a porra do amor não tinha resolvido até então, não seria agora que veria tudo pintado de rosa. Ainda queria, queria muito, abraçar Renaud, mas ainda tinha muito, muito medo e fazê-lo e piorar tudo. Foi tudo aquilo que era ou que tentou ser que tinha deixado ele “naquele estado”, que imaginava fosse aquela mesma tristeza profunda que tinha lhe abatido. A diferença é que naquele momento ele ainda achava forças para lhe explicar por A mais B o que se passava entre os dois. E tudo que podia fazer era esfregar os olhos para que não chorasse, e alternar entre isso e ouvir Renaud lhe dizer que precisava erguer a cabeça e assumir que precisava de ajuda. Precisava de ajuda. Mas não sabia quem diabos iria lhe ajudar ou o que diabos iria lhe ajudar quando nem sabia o que estava sentindo, além de uma decepção imensa em si mesmo, e o desespero de ter perdido o moreno e a si mesmo com isso.

Encarou-o porque precisava ouvir aquelas palavras, para não ser mais um covarde, para presenciar o que era a intensidade dos sentimentos dele, porém mais uma vez, as palavras pontuais de Renaud lhe corroeram por dentro. Ele não podia lhe abraçar no escuro, como queria todos os dias desde que tinha jogado ele fora, ele queria lhe abraçar e contar uma história... talvez sobre um homem que não sabia as cargas preciosas que carregava e descarregava, e que não entendia por inteiro, mas que agora lhe aparecia como uma memória que se naquele dia foi irritantemente reconfortante agora lhe pareceu um lembrete de que estava sozinho de verdade. Mas tal como estava sozinho, ele pelo visto esteve sozinho esse tempo todo, e agora tentava enfrentar isso de frente.

Ergueu as mãos para o rosto dele, os dedos trêmulos hesitando em tocá-lo, mas encarava-o tal como ele encarava todo o mal que tinha sido lhe feito e que era representado pela figura de Didier que aos poucos notava o qual cruel era. Os polegares foram até o rastro das lágrimas de Renaud e limpou com cuidado, ainda com medo de tocá-lo, porque chorando ele parecia tão frágil que iria quebrar no momento em que lhe tocasse. Também queria poder abraçá-lo, e contar uma história banal e acalmá-lo. Mas tinha apagado aquela luz para ele. E não sabia acender de novo.

A voz ficou no topo da garganta, mas a cabeça e os olhos concordaram com tudo que Renaud disse. Porque lhe restava aceitar. Aceitar os limites e as condições do perdão dele, e fazer o que ele tinha dito. Buscar ajuda. E em geral reconheceria sua própria incapacidade e se resignaria a ela, mas ele disse que Didier precisava de ajuda, então.. ainda sim, devia lutar?

– O-obrigado... – respondeu, como podia, aquelas palavras, as mãos escorregando do rosto de Renaud de volta para perto do corpo de Didier, os ombros baixos e o corpo quase jogado mostrando que o loiro ainda estava muito abalado por aquelas palavras. – ... Por não negar... obrigado... por me amar mesmo assim... e por tentar cuidar de mim... por se preocupar... – Didier suspirou profundamente, aos poucos rendendo o corpo ao cansaço daquela conversa, físico e mental. Só dizer aquilo lhe doía, pois era atestar que não havia outro rumo para os dois senão aquele. A voz ficou ainda mais baixa, só para Renaud. – Eu queria... poder te ajudar também... mas... eu sei que agora... só consigo lhe causar dor...! Então... quero aprender... como eu faço pra não lhe causar mais dor... e como... não ser mais... assim...! – a som de sua voz tremulou, pois reconhecia que aquele “assim” não era bom para nenhum dos dois.

Olhou para baixo, para as mãos de Renaud, para aqueles dedos que tremiam, para aqueles dedos enfaixados, e, tocou, tão suave quanto se podia tocar, com pouco mais que dois dedos, a mão enfaixada, e até queria se aproximar mais dela, mas não conseguia. Seus dedos foram até os pulsos cobertos pelo paletó de Renaud e manteve aquele toque que era apenas um toque, que não conseguiria segurar, mas que lhe confirmava a presença. Os olhos azuis, tal como ele tinha indicado, olharam direto para o moreno, e mais uma vez sentiu a vontade falhar pois encará-lo lhe dava vontade de chorar, ao mesmo tempo, sem ter forças para isso. E conformou o olhar como o de dúvida, a cabeça levemente pendendo para o lado, olhando Renaud como uma criança, pois quanto aos próprios sentimentos era apenas um infante ainda.

– Mas... posso parar de fingir... que não me importo...? Posso... me preocupar com você...? – perguntou, sabendo um tanto que aquilo ia contra o que Renaud queria de si. Queria que Didier cuidasse de si mesmo, queria ter espaço para se recuperar de tudo que estava acontecendo ao seu redor. Mas seria impossível negar que se preocupava. Não queria mais ter que fingir que nunca esteve prostrado como um covarde do lado de fora da enfermaria, mas não queria atrapalhar. Só queria ter liberdade para demonstrar que sentia muito mais do que sentia por um cão. Sentia porque tinha apreço por ele. De seu jeito. – Eu não tenho forças... pra lhe ajudar... mas estou cansado... cansado de fingir que não quero saber... eu me importo... com sua dor... e sei que... você se importa com a minha... - suspirou longamente, mantendo-se aberto, sem se fechar mais em si mesmo. Não tinha mais motivos para se fechar ou se negar. O que não tinha dito ali, para Renaud, sobre si mesmo? – Eu prometo... que vou cuidar de mim, mas... eu posso ser... alguém que me importa com você também...? Eu não quero... te sufocar mais... mas... – respirou fundo. Nem estava mais pensando, mas...estava dizendo o que achava que precisava dizer. Enquanto podia.

Renaud

Renaud estava uma bagunça e ao mesmo tempo não estava, sabia muito bem, como era parte do caos que sua mente conseguia chegar, entre sentir nada e sentir tudo multiplicado por mil vezes. Naquele momento, estava se sentindo como em uma seção do Dr. Vlahos, sendo que sem as perguntas certas que lhe faziam pensar, ou como ficava, quanto estava em uma conversa com Sasha, mas sem ter a mesma sensação de conforto e segurança que o outro lhe passava. Mas com certeza estava exposto, falando sobre coisas que não gostava de pensar, e que normalmente jogava para o fundo da mente, constantemente ignorando, mas que por não ter mais para onde fugir ou para onde segurar, tinha de encarar. E por ter guardado tanta coisa por tanto tempo, tudo aquilo lhe doía profundamente ter de lidar.

Tinha pedido paciência ao corpo, e ele estava lhe dando todo esse tempo, apesar de doer, de sentir frio, da dor de cabeça constante, agora dos olhos marejados, do coração pesado no peito, ainda sentia como se conseguisse mover o corpo. Embora todo gesto ali fosse feito com todo cuidado, porque afinal, com tanta coisa sendo posta pra fora, não a toa suas faces mais frágeis também estavam ao alcance de um toque. Qualquer movimento errado ali, poderia estragar tudo, quebrar o resto... ou pelo menos pensava assim, até sentir os dedos de Didier irem em direção a seu rosto.

Não era como se nunca tivesse sentido cuidado vindo das mãos do outro, era porque queria ser cuidado com todo aquele cuidado sempre que lhe doía. Respirou fundo, e fechou os olhos, deixando-se tocar, sem oferecer qualquer resistência. Embora não conseguisse conter o montante de sentimentos de saudade e frustração que lhe tomavam, queria simplesmente entregar nas mãos do outro, e gritar pra ele.

“cuide de mim por favor!”
[...]
“nós sabemos que não é possível”
[...]
“eu quero que alguém cuide de mim...!”
[...]
“ nós já estamos cuidando... “
[...]
“sim... nós já estamos nos cuidando...”

E cortando seus pensamentos, quando as mãos de Didier se afastaram de seu rosto teve de voltar a encara-lo em tempo de ouvir aquelas palavras. Ele queria achar um jeito de não lhe machucar mais, de ser diferente... e isso fez seu peito apertar. Tinha aprendido a gostar de Didier de todas as formas possíveis, mas tinha tido a certeza que ele era insubstituível para si quando o viu frágil, humano, capaz de ser tocado, capaz de ser alcançado, vulnerável, e enxergou em si mesmo, a possibilidade de lhe dar algo em troca, de quem sabe, poder ocupar o lugar como uma pessoa “insubstituível” também. Não sabia exatamente que expressão estava fazendo, mas sabia que uma a uma as lágrimas rolaram, por seu rosto, já não sentia mais nenhum cheiro e seu rosto estava quente.

O toque em sua mão trêmula, lhe atentou para o gesto involuntário do corpo, e prestou atenção em cada gesto sutil do loiro, na forma como ele pedia permissão pra se aproximar, como se ele não quisesse deixar aquele toque sútil, como se aquilo fosse o restante de vínculo que tinha restado. O encarou de volta, os olhos escuros nublados, pelo choro constante, e a frase que se seguiu da boca do outro, fez com que arregalasse os olhos de forma exagerada em surpresa.

Ouviu o restante das palavras, do pedido do loiro pra poder se manter por perto, pra poder ser alguém que se importa. Tinha passado todos esses dias morrendo de medo dele não se importar, dele não ligar para o que acontecia consigo. Não tinha sequer coragem de encara-lo no corredor imaginando que receberia um olhar de desdém, que escutaria o quão “decepcionante” era. Que a resposta imediata do corpo foi tremer, como se houvesse algo se contorcendo dentro de si, a expressão se contorceu, que não dava pra saber se Renaud estava feliz ou triste diante daquilo.

A reação seguinte do corpo do Blanco foi automática, a mão girou, e segurou firme no pulso do loiro, puxando-o em um solavanco, para si, como se estivesse tirando Didier de dentro da água, e o envolveu em um abraço apertado. Com força, talvez mais força do que deveria, porque tinha um sentimento de saudade, misturado com tristeza, mas lá no fundo tinha um sentimento de alívio. O Blanco se ajoelhou e afundou o rosto na curva do ombro do loiro, não estava sentindo o cheiro dele, mas sabia que ele era real, que estava em seus braços, que apesar de quebrado, sabia que aquilo tinha como ser consertado, porque eram duas pessoas e não duas coisas, tinham capacidade de se regenerar, de se curarem, só precisavam de tempo... e de paciência:

– desc-culpe...! Perdão...! E-eu devia ter falado ant-es! Eu devia ter lhe dito... tudo... muito antes...! Desc-culpe por ser desse jeito... eu não sei ser de outra forma...!— a voz saia completamente abafada e entrecortada com soluços, e apertou ainda mais o loiro , roçando o rosto contra o ombro do outro: – obrigado...! obrigado por não desistir de mim...! por me amar...! por tentar ser melhor...! por não me achar “decepcionante”... por ainda me querer por perto...! obrigado...! – o ar faltou em meio aquele desespero de palavras entrecortadas e falhadas, mas folgou o aperto, acariciando as costas do o loiro com as mãos abertas, a testa descansando sobre o ombro do outro :

– e por favor... por favor... não desista de você mesmo... se cuide... eu vivo preocupado com você... não tenho como cuidar de mim... se eu souber que você estar mal... eu vou ficar bem... mas por favor... de verdade... fique bem...! fique bem por você mesmo... porque você precisa disso...! – as mãos enfaixadas se agarraram a roupa do outro, sacudindo ele de leve, como se tivesse gastado toda a força que tinha no abraço anterior. Estava definitivamente exausto.

Didier

Olhando para o rosto cheio de lágrimas de Renaud, sentia como se fosse muito mais fácil se tivessem terminado explodindo em uma briga colossal, e agora se encarassem cheios de ódio e sangue nos rostos distorcidos. Mas estava vendo uma face frágil do moreno, e ele talvez estivesse vendo seu interior pequeno e desajeitado pela primeira vez. Didier estava sentindo esse seu eu pequeno e desajeitado pela primeira vez também! E isso tornava tudo tão mais difícil, porque não era uma mãe pra Renaud mas queria cuidar dele. Porque não era uma mãe, mas porque gostava tanto, mas tanto dele, mesmo que o rosto fosse totalmente desconhecido para si. Mas não estava dando conta de si mesmo. E Renaud também não estava. Se naquele momento o chão os amparava, era porque tinham que redescobrir a força para se porem de pé cada um deles por si.

Só que ainda queria se agarrar firmemente a Renaud, pois ele estava ali tão perto e apesar das origens turbulentas do que os dois eram, sentia-se em paz ao lado dele. Não naquele momento, talvez, mas se pudesse, se pudesse só mais um pouquinho, tinha algo dentro de si que esperava ficar em paz.

A reação dele para seu pedido, o pedido que ainda não tinha plena consciência se era bom ruim, lhe deixou com um gosto amargo no fundo da garganta. Os olhos do moreno se abriram e pareceu que a expressão de dor que ele já usava tinha ficado ainda mais intensa. Nem isso, nem isso uma pessoa como Didier podia ter. Tinha que guardar seu coração para si mesmo, ou ainda que sentisse e muito pela pessoa a sua frente, ele provavelmente não queria saber, porque sentia dor de pensar que Didier se preocupava, ou queria se preocupar com ele também. Crispou os lábios trêmulos, conformado.

Só que num solavanco, se viu de joelhos no chão, abraçado por o que poderia ser as amarras mais apertadas e não veria a diferença. E não teve reação inicial, senão se sentir comprimido, os olhos azuis arregalados buscando entender o que estava acontecendo. E ouviu a voz de Renaud, lhe pedindo desculpas. Como se fosse digno de desculpas! E a voz, e o cheiro, e a força em torno do seu corpo. E como se de repente tivesse acordado, abraçou-o de volta, com toda a força que tinha, como quem se segurava para não cair de um lugar alto. E o abraço dele era exatamente como pensava. Doía, machucava, mas era tão reconfortante, tão reconfortante ouvir aquela voz próxima ao seu ouvido e mesmo o som do choro de Renaud... mesmo ele.

Agarrou-se a roupa dele com as garras e afundou o rosto no pescoço do moreno, o coração voltando a bater dentro do corpo não enregelado de medo, mas porque naqueles poucos segundos em que durou o abraço, pareceu que tudo ficaria bem entre os dois. Negou com a cabeça, esfregando-a no ombro de Renaud, para tudo que ele disse. Os pedidos de desculpas desnecessários, um grunhido infantil que não sabia sequer o que significava ficando preso em seus lábios quando foi agradecido por absolutamente nada, exceto tentar. Dizendo aquelas coisas, Renaud até lhe fazia acreditar que mesmo sendo alguém covarde e imbecil, poderia se salvar, naquele emaranhado que fizeram.

Quando sentiu o abraço de Renaud folgar, agarrou-se ainda com mais força a ele, surpreendendo a si mesmo com o desespero no qual não queria sair daquele conforto e proximidade. Porém tinha um limite para o quanto podia apertar Renaud, e seus dedos já não aguentavam também. Levou a mão ao ombro do moreno, a outra indo até a nuca, acariciando-o de volta tal como ele fazia as suas costas e tentou não abaixar a cabeça, para dar segurança a ele em resposta aqueles pedidos.

– Eu vou... eu vou me cuidar... você também... tem que se cuidar... eu vou ficar bem, eu vou... eu vou aprender... e vou ficar... em paz comigo mesmo. Você me fez acreditar que ainda tem jeito pra mim... – respondeu baixinho, ainda relutando, sem querer tirar as mãos ou sair de perto de Renaud. – Você também... não pode desistir... eu vou torcer por você, então... fique bem mesmo...! – não tinha nem forças para rir daquela torcida genérica, pois não sabia exatamente o que teria que enfrentar agora, e sem o moreno, nem o que ele tinha enfrentado até então, mas era o que podia dizer por ora.

Envolveu o pescoço dele ainda encaixado em seu ombro, e talvez porque só lhe restava força para isso, beijou os cabelos escuros com carinho, o corpo todo sentindo apertar e novamente, se segurando para não chorar, pois tinha que soltá-lo uma hora ou outra.

– Está cansado, não está...? – folgou o abraço dele, deixando que os braços escorregassem para o lado do corpo, sentando sobre as próprias pernas a frente do outro rapaz. – Eu não sei mais... o que dizer... mas acho que... aos poucos vou descobrir. E você também... pode me falar... quando quiser. Sou só... o que posso... mas... estou aqui por você também. – a expressão cansada estava clara no rosto do loiro também. Há um tempo não sabia o que estava falando, mas tinha esperança que Renaud entenderia. Que os dois se entenderiam enfim. Até podia beber aquele refrigerante agora.

Renaud

O corpo estava em um misto de tensão e saudade, pois a muito tempo ele queria poder abraçar o loiro de volta, mas também como tinha feito o gesto em um reflexo impulsivo, o corpo todo estava tenso. Pois não sabia o quanto tinha invadido o espaço do outro, não sabia se estava além dos limites pessoais do outro, mas não sabia também quando teria força, disposição ou oportunidade para repetir o gesto. Sentia em seu âmago que o loiro precisava daquilo, e que acima de tudo aquilo, o próprio Blanco precisava daquilo. Não só pela carência, mas principalmente pra poder falar, as coisas que precisava dizer, se desculpar por sua parte que sempre se isentou, que sempre deixou para que Didier lidasse com sua culpa pelas coisas que fazia. E também, agradecer, pelas coisas que ele já tinha lhe feito, todas elas, as pequenas, as maiores, por tudo...!

E principalmente porque naquele momento, era uma pessoa, uma pessoa que sabia que era uma pessoa dando carinho para o loiro. Dando apoio, e falando sobre coisas que sequer tinha aprendido direito a discernir, mas tinha plena certeza da importância, por mais confuso que estivesse. E para sua surpresa, sentiu um arrepio perpassar por todo seu corpo e ir até os fios curtos da nuca, quando foi abraçado de volta, com força, porque sabia, agora tinha noção, de que pelo menos não tinha de ter medo de Didier, medo dele não se importar consigo, mesmo não sendo ideal, mesmo não sendo altamente eficiente, mesmo não estando no melhor momento...! Ainda assim ele estava retornando seu gesto.

A mão em sua nuca, como um carinho singelo, lhe fez sentir todo o corpo amolecer por um momento, e apoiar o corpo no do loiro. Porque era a primeira vez, a primeira vez que Didier dava carinho a Renaud, sabendo que era ele, fora do jogo de cão e dono. O coração estava acelerado como um zumbido, e as lágrimas nem sabia se ainda estavam caindo, só sentia o rosto completamente quente, e o corpo aos poucos deixando o frio do nervosismo e medo de lado, para uma sensação indescritível... ainda não sabia nominar... mas podia dizer que era diferente de qualquer outro sentimento que já tinha passado por seu corpo e mente ao longo desses anos... uma sensação única, com uma pessoa insubstituível.

[...]
[...]
[...]

Se afastou do conforto do ombro do loiro, quando ele afastou os braços de si, e continuou ouvindo as palavras que ele dizia: “estou aqui por você também”, ouvir aquilo lhe foi reconfortante de um jeito que não sabia dizer de onde exatamente vinha. Mas o “também” lhe dava confiança de que o outro ficaria melhor. Passou as duas mãos sobre o rosto, que ainda estava úmido, um tanto descrente de que tinha chorado. Em verdade, o fato de estar conseguido chorar com mais facilidade era uma coisa boa ou ruim? Chutaria que se perguntasse isso ao Dr. Vlahos, ele lhe responderia com outra pergunta e isso lhe deixaria mais confuso. Mas por hora, apenas achava que tinha sido o certo a se fazer, e preferia se agarrar aquela sensação, do que pensar por meios complicados demais:

– Eu... só espero que você cumpra o que está dizendo... – não era exatamente o que tinha pensado em falar, mas era sincero, esperava que ele realmente faça como disse, isso já lhe aliviava uma sensação enorme de peso e preocupação das costas. Sentou-se finalmente no chão, e se encostou a mureta atrás de si: – Eu disse que não queria sentar, mas cá estou eu, sentado... não sei quando vou ficar de pé de novo... mas agora estou com muita preguiça disso...— falou com um riso fraco, de quem estava tentando deixar o clima mais leve depois de uma conversa tensa: – E perdoe as piadas ruins, não tenho um bom exemplo, nem tenho prática nisso. – comentou puxando de volta a latinha que tinha recebido de Didier ao chegar, e puxando a dele que tinha caído e amassado, estendendo-a novamente na direção do outro e pondo-a na frente dele, em pé como dava, já que a mesma tinha amassado:

– Está meio amassada, mas ainda dá pra tomar... não que sirva pra se hidratar porque é refrigerante, mas vale a intenção. – não estava de fato rindo, mas o tom era bem mais leve, do que toda a conversa anterior, o rosto ainda estava com ares de quem tinha chorado, olhos vermelhos. Mas o que podia fazer além daquilo? Não tinha uma receita ideal de como as pessoas se acertam, a única coisa que sabia, era que é necessário esforço dos dois lados, e um bocado de sinceridade pra poder se fazer entender. Dito isto, esperou que o outro pegasse a latinha, pra poder abrir a própria, e fazer um gesto como se esperasse que o outro tocasse a latinha na sua. Era um jeito muito ridículo de fazer as pazes, mas como tinha dito antes, não tinha um bom exemplo, piadas ruins e tiradas péssimas acabam servindo de via de escape.

Didier

Talvez ficasse com aquela sensação de Renaud em seus braços por um tempo ainda, mesmo depois que os dois criassem coragem para sair de frente um para o outro e pisassem fora daquela cobertura onde até então, entre as possibilidades infindas de resultado daquela briga, estavam bem, seja lá o que signifique a palavra. Ficaria também, e isso tinha certeza, com a imagem de Renaud limpando as lágrimas do rosto daquele jeito desajeitado, porque tinha conhecido um lado dele novo, e um lado que se não fosse tão piedoso, certamente não teria sido perdoado e continuaria se lamuriando de ter sido um idiota esses anos todos. Agora seu dever era seguir com sua promessa e ser firme: precisava dar um jeito em si mesmo, juntar seus próprios pedaços e descobrir quem era Didier sem ser um dono, e talvez, até, sem ser a mãe, o que era há muito mais tempo até do que conhecia Renaud. Já tinha aberto a boca para falar coisas inomináveis. E depois daquela conversa, com todas as memórias no fundo da mente, tinha certeza que não queria mais ser assim.

Saiu do seu fluxo de pensamentos com a voz de Renaud lhe desafiando a cumprir as próprias promessas. Ergueu o olhar para ele, cansado, e apertou os lábios numa expressão desgostosa que parecia uma tentativa de sorriso, bastante falha. Afirmou silenciosamente com a cabeça, sem saber como lidar com toda a situação.

– Eu vou... especialmente se duvidar. – afirmou, tentando passar sua confiança usual, mas o humor e o glamour não estavam ali. Aliás, nem sabia se se importava se estavam ou não. Renaud também demonstrava plenos sinais de estar abalado. E o jeito dele sentar encostado na mureta mostrava que nenhum dos dois teria forças nas pernas para sair dali depois. Jogou o corpo para o lado para sair de cima das pernas que estavam dormentes, sentando diretamente no chão com as pernas jogadas ao lado. Apoiou a mão no chão, ainda se perguntando se Renaud estava estabelecendo um espaço entre os dois ou só se acomodando. Mas até sentiu um pouco mais de vontade de tentar aliviar a expressão fechada quando ele também tentou abrir um sorriso. Ele nunca foi bom nisso. – Está tudo bem. Também não vou conseguir levantar agora... posso ouvir suas tentativas de graça um pouco mais.

Estava com a garganta seca, só não esperava o moreno se esticar para pegar a latinha, muito menos para lhe oferecer. Estendeu a mão para pegar a mesma, notando a embalagem inchada. Até ela tinha sofrido naquela discussão dos dois. E o pensamento lhe fez sorrir fracamente, tentando achar graça nas mínimas coisas, para poder sair dali com o coração mais tranquilo, pois depois seria um pouco mais infernal.

Puxou o anel da latinha e, vendo Renaud querer brindar com a mesma, deu um toquezinho na latinha dele, não sabendo exatamente se aquela era uma situação pra comemorar, quando ainda que tivessem dito o que queriam dizer um para o outro, tinha sido em meio a muitas lágrimas. Deu um gole no refrigerante e em seguida fez uma cara feia e passou a mão nos lábios, colocando a língua discretamente para fora.

– Pcht! Pcht! Poeira...! No limpian el piso dessa droga, não...? – reclamou sem o excesso de alarde usual, depois passando a manga do uniforme para limpar a latinha. Só depois bebeu de novo, observando Renaud por trás da mão que segurava o refrigerante. Invejou um pouco o local dele e esticou-se para sentar também com as costas para a mureta, lado a lado com Renaud. Suspirou longamente, e então colocou latinha amassada do lado do próprio corpo, entre os dois. Deu uma sacudida no pouco conteúdo que restava e então colocou no chão: –Estavamos precisando disso.

Renaud

O corpo demonstrava sinais de cansaço, todo ele doía como se tivesse acabado de sair de uma briga, a cabeça latejava, o peito doía como se tivesse forçado demais o próprio coração, o estômago parecia vazio, os lábios ressecados e ardidos, enquanto os machucados das mãos incomodavam com as bandagens úmidas se descolando das feridas em cicatrização. Estava sensível a todo e qualquer reação voluntária ou involuntária do próprio, assim como o próprio Dr. Vlahos havia falado, que o emocional pode cansar tanto o corpo quanto uma briga, e as vezes até mais, estava sentindo os efeitos colaterais daquela conversa no próprio corpo. Precisou afrouxar a gravata no pescoço e folgar o colarinho pra buscar o ar, antes de tomar um gole do próprio refrigerante, em temperatura natural não era dos mais saborosos, e com o nariz congestionado do choro, só conseguia perceber mais nitidamente o gás da bebida fazendo caminho garganta a baixo.

Observou as reações exageradas de Didier a lata cheia de areia e conseguiu, até certo ponto achar graça daquilo, era o tipo de reação bem a cara do loiro, e aquilo lhe dava uma sensação de que podiam sim, estar no mesmo espaço, e viver situações semelhantes a do passado – as agradáveis - sem estar ligado a toda a trama de regras de: cão e dono. Aquilo foi estranhamente reconfortante, e não sabia explicar exatamente porque, mas involuntariamente desenhou um sorriso fraco nos lábios, antes de escondê-lo novamente por trás da latinha de refrigerante.

Afastou a mesma da boca quando ouviu o comentário do mais velho sobre os dois precisarem disso, daquele momento um pouco mais “leve”. E acenou em concordância, apoiando os braços sobre os joelhos, e mantendo a latinha em uma das mãos, balançando com o conteúdo pela metade:

– Conversa melodramática, memórias dolorosas sendo revividas, verdades indigestas, lágrimas na minha conta, refrigerante quente e areia na língua... é, parece o tipo de receita necessária pra se chegar em uma reconciliação. – comentou em tom mais leve, e mesmo sem sorrir em seguida, aquilo pareceu o tipo de comentário engraçadinho que o Blanco as vezes se permitia fazer. Renaud respirou fundo parecendo agora mais tomar fôlego do que de fato um suspiro de cansaço: – as minhas tentativas de graça estão bem ruins... mas costumam ser melhores quando eu não estou tão cansado... – admitiu levando as costas da mão de volta ao rosto, sabendo que o mesmo ainda estava molhado das lágrimas recentes, em seguida passou a mão pelos fios escuros jogando-os para trás novamente. O rosto exposto, ainda estava vermelho, os olhos igualmente avermelhados do choro recente, as olheiras perceptíveis, o conjunto todo da expressão estava mais honesto e transparente sobre o que o Blanco estava sentindo, muito além do que jamais estivera. Era um lado “novo”, ou pouco explorado pelo próprio Renaud, que estava agora, gradualmente apresentando ao loiro:

– Me sinto como se tivesse acabado de sair de uma das seções com o Dr. Vlahos... embora eu nunca tenha chorado desse jeito nas seções... em verdade... eu nunca chorei “strictus senso” de fato em uma seção... embora sempre tenha vontade, eu saio de lá completamente exausto de tanto falar... – admitiu aquela informação sobre si, embora não quisesse chegar nos detalhes das conversas mais recentes e nem nas problemáticas que já estavam tratando no momento de forma mais “intensa”. Não queria preocupar demais o loiro, com problemas que em verdade, ele não tinha como se dispor a ajudar, não naquele momento em que ele se encontrava. Afinal, o próprio Didier iria precisar de energia para cuidar de si mesmo, e lidar com seus demônios internos, o que podia fazer por ele, já tinha feito, que era ouvir e encarar o que o loiro tinha a lhe dizer. Não era nada fácil, ser franco, quando era tão acostumado ser falso todo tempo, mas estava aprendendo a ser mais honesto com seus próprios sentimentos, por mais que fosse um processo doloroso:

– Eu acabo caindo nos prantos só quando estou no meu quarto sozinho sentado no chão ou na companhia do Frater, ele é quem geralmente tem de aturar esse “meu lado” madrugada adentro... e tentar juntar os pedaços. -- Falou de Sasha no automático, porque de fato era o que acontecia, não estava mentindo, e a forma como falava deixava isso bem evidente: – As vezes o Isaac que me atura na sala do conselho em tentativas de conversas sentimentais, mas ele não é muito bom com isso, excessivamente direto e objetivo... mas as vezes ele fala umas coisas tão certeiras, mas tão certeiras que eu me assusto um pouco... ele é um bom amigo no final das contas...!— admitiu com um sorriso singelo nos lábios, em seguida levou a latinha a boca pra tomar mais um gole, fazendo careta logo após, pelo gosto ruim: – E tem a Lilú também... nunca apresentei, mas vocês se dariam ou muito bem ou muito mal, sem meio termo...! As vezes eu ia na casa dela, sabe, tomar vinho e falar da vida, para ela me dizer na lata: “que eu estava complicando demais coisas que deveriam ser incrivelmente simples”; se bem que... ultimamente sem tempo... nem conversar por telefone eu ando conseguindo.

Respirou fundo e soltou o ar devagar, embora não tivesse parado pra pensar antes, tinha mais amigos a quem recorrer do que tinha percebido. E falar de forma mais espontânea, sem se preocupar tanto com o que iria ou não irritar Didier era algo novo. Estava se dando ao “luxo”, de ser apenas “Renaud”, com os cansaços, frustrações, comentários ruins, e tudo mais que estivesse no pacote. Não tinha uma obrigação de agradar, da mesma forma, que não podia cobrar nada de Didier, nada além do que ele estivesse disposto a dividir consigo.

E pensar nessa “não obrigatoriedade” entre os dois, também era reconfortante de um jeito pouco convencional. Porque queria dizer, que os dois tinham voluntariamente escolhido estar ali, e aceitavam mutuamente os defeitos um do outro.


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[Drive] Estilhaços [Didier; Renaud] - by Lil - 09-21-2021, 12:57 PM
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