Indigno [Renaud, Didier, Robespierre]
#3
Robespierre Blanco, o caçula dentre os rapazes da família, estava em Paris quando recebeu a notícia do acidente de carro de sua mãe; No dia anterior com a saída dela sem aviso prévio, deixando o jovem a cuidados da assessora, ele já suspeitava que seu irmão tinha aprontado alguma coisa. Tudo na França parecia girar em torno do umbigo gordo de Renaud Blanco. Mas dessa vez tinha passado de todos os limites que o pequeno adolescente podia tolerar, como se não bastasse o seu irmão mais velho causar fofocas e problemas dentro da família com seu sumiço de dias sem aviso, agora toda a atuação pra chamar atenção tinha ido longe demais. E tinha custado caro.  E quem ia pagar a conta? Certamente não seria o próprio Renaud Blanco, que por mais que tirasse boas notas, e fosse o queridinho de todos, nem ele poderia remediar essa merda, e ainda assim sair bem visto e elogiado.

O jovem rapaz enfrentou o trânsito de uma cidade a outra, e assistiu a assessora de sua mãe receber a notícia enquanto estava parada em algum lugar da interestadual. Afinal o acúmulo de veículos na estrada era por causa do acidente, e a mulher não soube nem disfarçar a expressão depois de ouvir a nota de falecimento. Nem pra isso a desgraçada servia, nem pra amenizar a notícia, tinha de começar a chorar no veículo o caminho todo de volta a miserável cidade do interior. Isso a tornava ainda mais patética e colocava Robespierre na posição ridícula de ter de ser a pessoa que não chora.

Era sua mãe que tinha morrido, era ele que tinha de ser olhado com cuidado, não era para os outros estarem caindo em prantos e reagindo emocionalmente abalados.

Estar em Cerise não lhe deixava nem um pouco satisfeito, saber que sua mãe seria velada naquele lugar esquecido por deus, só porque faria mais sentido estar no mausoléu da família Blanco, fazia com que Robespierre odiasse ainda mais Cerise, com todas as forças de sua alma. Chegar no casarão da família Blanco, também não tinha nada de agradável, todos falavam com ele, como se fosse um pobre coitado, várias palavras de “que pena, sinto muito”, quando na verdade queriam dizer “pobre coitado sem mãe”.

E aquilo só lhe deixava com mais raiva, mas não podia externa-lá, tinha de engolir, porque todos estavam acolhendo a pobre assessora que ainda estava de olhos inchados de ter chorado o caminho todo. A preocupação era tão superficial, quanto a ideia de família.

Deodatos estava falando ao telefone e parecia cansado, mas sequer se dignou a olhar a para o mais novo, não seria a primeira vez que passaria invisível aos olhos do pai. Estava prestes a se anunciar, quando ouviu o homem falar o nome do irmão mais velho no telefone.

“traga-o de qualquer jeito, ele tem de estar aqui, não. Deixe os amigos dele aí, não tem espaço pra eles aqui.”

Claro que ele estaria preocupado se o filho problema estaria aqui, seria para dar-lhe um sermão sobre a quantidade de transtornos que ele vem causando? Claro que não. O adolescente sentiu o fel lhe subir ao topo da garganta, azedando seu palato.

Mas engoliu. Era o que fazia sempre.

Seguiu sem falar com Deodatos e se trancou no quarto, tentou mexer no celular, mas todas as redes sociais só noticiaram o acidente, todos falando sobre o que não sabiam, ele sabia quem era o verdadeiro culpado do que tinha acontecido naquele dia miserável. Enquanto rolava o feed, apareceu fotos do acidente mostrando o carro destruído, e sua reação imediata foi lançar o celular contra o colchão que quicou no macio e caiu sobre o tapete.

Estava furioso.

Ouviu pela conversa do corredor, o que parecia ser o assessor do seu pai conversando com alguém “tome um banho, você está com uma aparência péssima, depois desça pra ficar com o restante da família”. Esperou apenas que os passos do adulto se afastasse, para sair do próprio quarto, e ir até a outra porta. Bateu uma vez:

– Renaud, está aí? – Não houve resposta, ele o estava ignorando. Respirou fundo antes de levar a mão à maçaneta e girar abrindo a porta. – Estou entrando. Com licença.

Costumava manter quanta distância pudesse do irmão mais velho, mas se tinha alguém que merecia ouvir umas verdades, esse era Renaud Blanco, e se ninguém iria se dignar a falar, então tomaria essa responsabilidade para si, com muito gosto.

– Precisamos conversar, e eu não vou aceitar uma negativa. – o menor falou enquanto cruzava o espaço dentro do cômodo espaçoso, avistando seu irmão deitado na cama, com o mesmo moletom esportivo de St. Clavier que deveria ter chegado.

Renaud estava de costas para o recém chegado, sequer tinha dado atenção a batida na porta, estava com a cabeça muito distante, talvez fosse a exaustão mental do acontecido de tarde, ou apenas efeito dos medicamentos para não ter outra crise ainda nessa noite. E sua demora para responder não foi bem interpretada por seu irmão mais novo.

– Eu sei que não está dormindo Renaud. – o mais novo falou enquanto contornava a cama para encarar o irmão, ele parecia miserável, e normalmente isso seria uma visão que lhe encheria de satisfação, mas agora, só o deixava mais irritado, de todos ali, ele é quem tinha menos direito de se deixar ficar assim. – Normalmente eu deixaria você me ignorar, mas hoje, especialmente hoje, temos que conversar. Está me ouvindo?

O olhar de Renaud estava vagando por algum ponto vazio no cômodo, não estava focando no mais novo, mas depois dele falar tantas coisas, não tinha como simplesmente deixá-lo falando sozinho. Muito embora, essa fosse sua vontade. Ergueu-se vagarosamente da cama para se sentar, os dois ficando na mesma linha de visão.

– Fale.
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Indigno [Renaud, Didier, Robespierre] - by Renaud - 01-09-2023, 12:55 PM
RE: Indigno [Renaud, Didier, Robespierre] - by Robespierre - 01-16-2023, 09:11 PM

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